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23.9.14

“Festas de Garagem” em Coimbra

















O Teatro da Garagem apresenta no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, a sua mais recente produção "Festas de Garagem", uma obra escrita e dirigida por Carlos J. Pessoa. A 76ª produção da companhia de Lisboa resulta de uma co-produção com o TNDM II e a sua apresentação chegou a estar prevista no âmbito da última edição do Citemor. A obra decorre esta quinta-feira, 25, às 21h30.
A história da companhia, que tem como referência a dedicação exclusiva à escrita e encenação de Carlos J. Pessoa, cruza-se com a história do Citemor. Presença regular no festival, o Teatro da Garagem realizou em Montemor-o-Velho mais de uma dezena de residências, co-produções e estreias.
Fundada em 1989, a companhia dirige o seu trabalho artístico à pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para teatro e de novas formas cénicas que a acompanham. Para além das criações próprias, a companhia sediada no Teatro Taborda, em Lisboa, desenvolve um trabalho com a comunidade através das actividades do Serviço Educativo e dá a conhecer o trabalho de novos criadores com o Ciclo Try Better Fail Better.

Festas de Garagem é uma criação que integra o Ciclo Cara e Coroa, a partir de textos dramáticos portugueses contemporâneos. Este espectáculo, em tom joco-sério, conta a história de um grupo de pessoas que, no impulso da adolescência mítica das festas de garagem, tentam entrar num lugar de divertimento nocturno. Este lugar de eleição não está ao alcance de nenhum deles. Existe uma porteira, Virgínia Magrinha ou Do Lilau, que impede a entrada de toda a gente, incluindo dela própria. Desta situação multiplicam-se peripécias que dão conta de pontos de vista e modos de estar desconcertantes, amorais e patéticos. As personagens fazem-se e refazem-se num alarido verbal em que a afirmação da sua singularidade está sujeita ao disparate, ao paradoxo e à gravitação em torno do abismo ontológico a que se remetem. Neste quadro de expectativa e resignação o “salve-se quem puder” parece tornar-se a moeda corrente.
Maria João Vicente

Mais informações no site do TAGV

20.7.13

Afinal, vai haver Citemor! Festival assume atitude combativa e estende a sua programação a Coimbra e a Lisboa

Numa edição extremamente difícil – o Estado recusou o apoio ao festival –, o 35º Citemor apresenta novidades na sua programação e oferece ao público duas estreias absolutas, duas estreias nacionais e ainda consegue manter a sua vocação produtora estando associado à co-produção de três obras. Ancorado na vila de Montemor-o-Velho, o festival estende agora a sua programação a Coimbra e a Lisboa, e apresenta autores fundamentais das artes performativas de Portugal e Espanha. O evento decorre de 22 de Julho a 3 de Agosto e, à semelhança do ano anterior, é o espectador que define o preço dos bilhetes para os espectáculos

Pela primeira vez, o Citemor, o mais antigo festival de teatro do país, não beneficia do apoio do Estado, o que coincide com a implementação de um novo sistema de acesso aos financiamentos às artes (Acordos Tripartidos) em que todo o processo de avaliação é centrado na Direcção Geral das Artes, sem recurso a um júri independente. Perante este quadro, a direcção do festival é clara: “se a última edição foi dominada por um espírito de resistência, esta será de combate”. 
O cinema marca a abertura do Citemor e é Coimbra a primeira cidade a receber o evento. “Montemor”, o primeiro filme de Ignasi Duarte, é uma co-produção Citemor rodado em Montemor-o-Velho e protagonizado por actores e habitantes da vila. A longa-metragem, que pode agora ser vista no dia 22 de Julho, às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), estreou no FID Marseille 2012, onde conquistou uma Menção Honrosa. Depois de ter passado por Madrid (na extensão do Citemor à capital espanhola), e por Buenos Aires (Fundación Cinemateca Argentina), o filme teve estreia nacional no Indie Lisboa’13, tendo ainda sido seleccionado para o festival Panorama. 
O filme é rodado em Montemor-o-Velho, mas da vila nada se vê. Estamos perante a história de um personagem que deambula sem destino pelas florestas circundantes da localidade, proporcionando-se uma série de encontros improváveis que roçam a comédia e o absurdo. “Montemor” podia ser outra coisa: fascinado pela vila, pela gente e pelo Citemor, a ideia inicial de Ignasi Duarte era realizar um documentário sobre o Citemor. “Pensei fazer um documentário que retratasse as pessoas, a equipa do festival e os artistas. Parti da ideia de pensar este deserto que é Montemor, e como é possível fazer um festival a partir da vontade, da ilusão, da crença e da fé de querer fazer as coisas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção”, explicou o realizador numa entrevista para o blogue do Citemor. A sessão conta com a presença do realizador e dos actores e, no final, haverá uma conversa com o público moderada por Gonçalo Barros, da Fila K. 
O segundo dia do festival prossegue também com cinema, desta vez com “O Rei no Exílio”, de Bruno de Almeida, sobre o solo de Francisco Camacho, de 1991. O filme, rodado para a RTP2 num momento embrionário da dança em Portugal, será projectado no dia 23, às 21h30, no TAGV, e não segue o formato tradicional de documentário, proporcionando-nos uma interpretação elaborada da coreografia. 
Depois de na edição passada ter estreado “Monstro (parte 1: Calamidade)”, obra produzida com o Citemor e extremamente bem recebida pelos públicos nacional e internacional, o Teatro do Vestido mostra a sua mais recente criação, “Labor #1”. A peça faz parte de um projecto teatral em três partes sobre a história, função e contradições do trabalho e tem consultadoria histórica de Fernando Rosas e Irene Pimentel. O Teatro do Vestido prossegue com este projecto a sua tentativa de compreensão do presente através de uma convocação da história de Portugal, nomeadamente, fragmentos de uma história que considera invisível e esquecida. “Labor #1” decorre no dia 24, na Sala B, em Montemor-o-Velho às 22h30. 
Em Coimbra, no dia 25, e encerrando as propostas do Citemor na cidade, o bailarino e coreógrafo Francisco Camacho (artista com uma estreita relação com o festival) apresenta “O Rei no Exílio – Remake”. O espectáculo baseia-se no último rei de Portugal, D. Manuel II, que se exilou em Inglaterra, em 1910. “É um retrato dum certo Portugal, por vezes irónico, por vezes controverso, onde a solidão e o isolamento são permanentes”, diz Camacho. Foi com este solo que, em 1991, o criador lançou a sua carreira coreográfica na Europa, aquando da sua apresentação no Festival Klapstuck, em Leuven. A obra, na sua nova versão, estreou em Montevideu, no Festival Internacional de Dança Contemporânea do Uruguai, e tem agora estreia nacional no TAGV, às 21h30. 
Nos dias 26 e 27 de Julho (22h30), o Teatro da Garagem traz ao Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, a sua mais recente criação, “Cromotografia”, com texto, encenação e concepção plástica de Carlos J. Pessoa, figura maior na dramaturgia contemporânea portuguesa. Um dos projectos artísticos mais vinculados ao festival, onde já estreou mais de uma dezena de obras, o Teatro da Garagem apresentou na edição passada uma peça onde recusava a extinção institucional do Citemor (“Recusa”). Agora, com “Cromotografia”, o colectivo conta-nos a história de um coleccionador de cromos que faz uma viagem nostálgica pelo passado revivendo uma história de amor que não deu certo. Depois do Citemor, a peça segue para o Rio de Janeiro, de 22 a 25 de Agosto, no âmbito do Festival FESTLIP. 
Na edição deste ano, o Citemor estende-se também à capital onde Angélica Liddell, ponto de referência do teatro contemporâneo europeu, apresenta “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7”, uma estreia absoluta da galardoada artista espanhola – Liddell conquistou o Prémio Nacional de Literatura Dramática (Espanha) e o Leão de Prata na Bienal de Veneza. Entre o Festival de Avignon e a Bienal de Veneza, a criadora passa uma semana por Portugal para apresentar a obra co-produzida com o Citemor. 
Esta não é a primeira vez de Angélica Liddell no festival: a artista tem percurso muito ligado ao Citemor, tendo apresentado, em Montemor-o-Velho, cinco obras, uma das quais criada em residencia artística na vila do Baixo Mondego. “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7” decorre nos dias 25 e 26 de Julho, às 21h30, no Teatro Taborda, em Lisboa, e segue depois para Montemor-o-Velho, no dia 28, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho. 
A edição deste ano do Citemor conta, ainda, com a apresentação da ópera “Esforço do Reflexo”, do projecto Ye77a (lê-se Yella), provavelmente o nome menos conhecido do público. A dupla (Yella e Kako) é oriunda de Lisboa e o seu trabalho caracteriza-se por uma prática home made: desde a gravação dos álbuns, à realização de vídeos, fotografias, cenografias e figurinos, tudo produzido pelos artistas. A ópera é o resultado perfomático da banda sonora do filme “Back and Forward”, segundo capítulo da trilogia “Brain Sound Track”. O espectáculo tem lugar no Teatro Esther de Carvalho, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 22h30. 
É com Sergi Fäustino que termina o programa do Citemor. O autor catalão, que recorre normalmente a formatos menos convencionais e que tende a sujeitar-se a experiências fisicamente exigentes, recriou “Nutritivo” para o Citemor, uma peça de referência no seu percurso, datada de 2002, onde aborda com inteligência um tema fascinante: as formas de loucura socialmente aceites. Um solo com sangue, morcelas, black metal e tunning, na ZDB/Negócio, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 21h30, e em Montemor-o-Velho, no dia 3, na Sala B, às 22h30. 
À semelhança da edição anterior, e sob o lema ‘quem dá o que pode a mais não é obrigado’, o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição. As reservas poderão ser feitas através do e-mail reservas@citemor.com ou do telefone 916 688 601. A direcção do Citemor considera que “foi muito eficaz e extremamente bem recebido pelo público e, como tal, faz todo o sentido repetir o método que pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar”.

28.7.12

ESPECTÁCULO | Recusa | Teatro da Garagem

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


27.7.12

EM ENSAIO | Recusa | Teatro da Garagem

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


DISCURSO DIRECTO | Carlos J. Pessoa

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


26.7.12

Espírito de resistência marca 34ª edição do Citemor

texto de Cláudia Teixeira

Numa edição marcada pela alteração de paradigma absolutamente extraordinária, tanto pela programação, como pelas circunstâncias em que se realiza, o Teatro da Garagem estreia a obra “Recusa”. O Teatro O Bando desafia o público a conhecer-se de costas, numa estreia nacional, e Susana Anágua propõe uma nova visão sobre a tradicional produção da região, o arroz. O festival de Montemor-o-Velho decorre de 26 de Julho a 11 de Agosto




“Eu acho que esta vida, esta sociedade, vive muito daquilo que se vê e que é explícito e interessava-nos abordar a temática da cenografia num enquadramento que permitisse às pessoas terem várias visões, várias oportunidades de estimular a curiosidade de ver o outro lado.” As declarações chegam-nos de Palmela e é João Brites, director artístico do Teatro O Bando, quem o diz. “De Costas” fez parte da representação portuguesa “Do Outro Lado” na 12ª Quadrienal de Praga e é, pela primeira vez, apresentada em Portugal. João Brites e Rui Francisco, cenógrafo e arquitecto na companhia, desafiam o público, pelo qual a plateia de 50 cadeiras espera, a escolher a sua hora e conhecer as suas costas. Porque “do outro lado está o desconhecido” e “se fôssemos capazes de ver de inúmeras perspectivas seríamos certamente mais firmes e simultaneamente mais tolerantes com as questões que não fossem essenciais.” A instalação pode ser visitada de 26 de Julho a 11 de Agosto, na Praça da República, em Montemor-o-Velho, das 00:00 às 24:00. Começa assim a 34ª edição do Citemor.
O programa do primeiro dia do festival continua com a vídeo-instalação “GATÕES - Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9”, de Susana Anágua. No seguimento daquilo que tem vindo a ser o seu trabalho de campo – o envolvimento com a região onde intervém e com as suas áreas de produção –, e após uma visita à vila de Montemor-o-Velho, a artista visual propõe uma obra que se centra no característico arroz do Baixo Mondego. Da instalação, patente no Quarteirão das Artes de 26 de Julho a 11 de Agosto (excepto às segundas), das 19h às 22h, fazem parte os vídeos “Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9” e “Do Vale do Paraíba ao Mondego”. Em entrevista ao Blogue Citemor, Susana Anágua explica que o projecto, com música original de Paulo Sousa, parte da visita à Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho, antiga fábrica Patrão Rosete e Sucrs Lda, onde se procede ao descasque e branqueamento de arroz, e de uma relação proporcionada pela apropriação de uma reportagem de uma televisão brasileira acerca da festa de arroz da Prefeitura de Tremembé.
A vídeo-instalação inscreve-se na estratégia de curadorias delegadas, opção do Citemor para abordar as artes visuais, em que o artista da presente edição será o curador na edição seguinte. O processo, que teve início com José Maçãs de Carvalho, continuou com Luís Alegre e apresenta agora Susana Anágua, que será a curadora na edição de 2013.
Das instalações para o teatro. Para o Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, onde o Teatro da Garagem “Recusa” a extinção institucional do Citemor. Carlos J. Pessoa, director da companhia, decidiu escrever uma nova obra para esta edição do Citemor que, devido aos cortes infligidos à cultura, poderá vir a ser a última de 34, afirma a direcção do festival. “Recusa” vai ser apresentado nos dias 26 e 27 de Julho, no Teatro Esther de Carvalho, às 22h30.
Sob o lema ‘Quem dá o que pode a mais não é obrigado’ o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição e de acordo com a sua condição financeira e as suas expectativas. Desta forma, a direcção do Citemor define um modelo que “pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar.”
Em comunicado de imprensa, a direcção do Citemor, explicou a particularidade da 34ª edição do festival e a “alteração de paradigma” que se prende com o facto de “o Citemor deixar de produzir novas obras com os criadores e companhias e passar, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores”, num modelo que é, naturalmente, irrepetível. Questionado acerca da escolha de participar no Citemor como co-produtor, João Brites diz que “é um gesto que não podia ser de outra forma” e sublinha que “o que está em causa não é só o Teatro O Bando e o Citemor. O que está em causa é a soberania do nosso país com a sua língua, com as suas múltiplas tendências.” Carlos J. Pessoa faz um post scriptum à sinopse da obra: “Se o Citemor tiver que morrer, que não morra de esmolas, que morra com dignidade; que morra porque os artistas se calaram ou, então, porque o Armando Valente e o Vasco Neves deixaram de os querer ouvir.”

Citemor reforça presença em Coimbra
O Teatro da Cerca de São Bernardo recebe a bailarina e coreógrafa espanhola Olga Mesa com “Daisy Planet”, espectáculo que integrou o programa do Citemor em 1999. A artista apresenta a obra como “uma carta de amor-ficção, a ideia de que o amor é como um corpo presente, duplicado, íntimo e constantemente exposto.” É nesta peça que o artista visual Daniel Miracle cria o protótipo Neokinok.TV para acrescentar uma nova dimensão ao espaço cénico. Segue-se Rafael Alvarez, com a antestreia do solo “sweetSKIN”, que terá estreia em Setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem no dia 28 de Julho, às 21h30 e 22h30, respectivamente. 
A Mala Voadora mostra-nos a sua colecção de selos singular em que “a iconografia é simultaneamente tema e protagonista visual do espectáculo.” “Philatélie” é uma remontagem especial que pode ser vista na Oficina Municipal do Teatro, no dia 29 de Julho, às 21h30. 
O Teatro Académico de Gil Vicente recebe no dia 31 de Julho, às 21h30, John Romão & Solange Freitas, numa apresentação informal de “Eu não sou bonita. Eu sou o porco”. A obra, com textos de Angélica Liddell e Paulo Castro, é um objecto teatral sobre o abuso sexual na infância, onde “duas figuras se revestem do endemoniamento das personagens de Frans Hals e da nudez grega de Louis David.”

EM ENSAIO | Teatro da Garagem | Recusa

Fotografias de Hugo Costa Marques













10.8.11

DISCURSO DIRECTO | Aqui e agora? (2ª parte) | Carlos J. Pessoa

Texto de Cláudia Galhós

A crise da decisão na sociedade da mediacracia e a defesa da responsabilidade cívica do teatro é um dos temas que constam desta entrevista ao director da Garagem, Carlos J. Pessoa. Onde se fala também do inumano, o valor da ocupabilidade e o Citemor, como festival que arranca o teatro à terra. Tudo a pretexto de "Sede Remix", espectáculo estreado nesta edição, de 2011.

fotografia de Susana Paiva

Sendo o teu teatro tão ligado a um pensamento sobre o mundo, consegues identificar o que caracteriza este momento específico que estamos a viver - este momento social, político e económico...?
Estamos a brincar demasiado, em termos da política mundial e do Ocidente, sobretudo na Europa e Estados Unidos. Estamos a esticar muito a corda. Acho que vivemos numa época de esticar muito a corda, de testar os limites, de experimentar a beira do abismo. Isso tem sido falado por muita gente. Revela uma falta de consistência em termos de lideranças. De certo modo subscrevo essa análise. A atitude de alguma irresponsabilidade perante o futuro. Tenho a sensação que as coisas se resolvem por si. Não há uma coisa que os gregos tinham muito presente, que é a ideia de decisão.
'Os Persas', que é a primeira peça, é uma peça sobre o abismo. E o Ésquilo, quando escreve aquilo, está a falar do problema de decisão ou falta dela. Acho que vivemos uma crise de decisão. As decisões não são tomadas, não há responsabilização. A democracia foi substituída por uma mediacracia. Há uma espécie de gestão de imagem, do passo seguinte, do que vem, da espuma que vem a seguir, se me é mais favorável ou menos favorável. Não se discute responsabilidade, não se decide. Nessa medida, vivemos sempre de não decisões. São sempre adiadas. Acho que isso é perigoso e configura um pouco o que é 'Os Persas', que é o acontecimento da derrota de Salamina, em que eles têm tudo e perdem tudo de um momento para o outro.
Acho que vivemos um momento perigoso a esse nível. Mas penso que é geral. Há uma esquizofrenia geral de consumo, de modas, de aparência. Tudo isso faz com que as pessoas se entreguem a um espírito, 'ah isto logo se resolve'. Mas pode não se resolver. O problema crucial é este, o da falta de decisão, de falta de responsabilidade, de dignidade. E isso é terrível.

E qual é o papel do teatro nesse contexto?
Como alguém terá dito, o teatro não cura, não é terapia para nada. Mas ajuda a aceitar o inevitável. Aceitar que há inevitabilidades na nossa existência. E esse confronto com a inevitabilidade, nesse espaço de 'aqui e agora' que o teatro proporciona, é de uma riqueza extraordinária. Acho que nos dá a prudência, que nos dá a sensatez, nos dá a civilidade. Acho que nos dá a medida da nossa dignidade. Porque a dignidade humana não tem preço nem pode ter preço. Nessa medida acho que o teatro é essencial nas nossas sociedades. Porque tem esse pequeno milagre do aqui e agora, do início da conversa. Nós temos a oportunidade de sentir, verificar, quase sentir a palpabilidade dessa prudência urgente, desse sentido de decisão e de responsabilidade. Esse face a face. Sentir a tensão do face a face, porque quando olhas para o rosto do outro, vês a tua responsabilidade, vês-te ao espelho. E isso é decisivo.

O teatro então só faz sentido quando se implica nessa relação com o outro?
A meu ver, não podemos fazer do teatro um exercício de estética pela estética, e do 'artiste', que é uma coisa que odeio, da arte pela arte. Isso, infelizmente, também descaracteriza e penaliza muito a gente de teatro, porque se perde em espaço político, porque não tem um discurso político e resolve entrincheirar-se na auto-referenciação e no discurso para os amigos. Infelizmente, tenho assistido a esse défice de voz pública, voz política, voz activa. Não estou a falar de público, público há sempre. Estou a falar de haver uma voz vinda do teatro que tenha opinião sobre o que se passa, como há noutras áreas. Nestas crises temos pessoas da ciência de muita qualidade a falar. Não tiveste nenhuma do teatro. Pelo menos não ouvi nenhuma. Já quando se corta o subsídio, aí ouves. Mas isso é miserável.
É com muita tristeza que o digo mas assisto a uma total falta de solidariedade com as novas gerações. É terrível. Os jovens são carne para canhão, são descartáveis... Acho que há uma enorme falta de responsabilidade, pública e cívica, perante as novas gerações e perante o teatro, que não se esgota no próprio umbigo. Não começa e acaba em mim.

É por isso que integras jovens no elenco desta peça?
Há um artigo fabuloso do filósofo Fernando Gil, escrito a quatro mãos com o Mário Vieira de Carvalho sobre a questão do inumano na arte, que é diferente do pós-humano. O pós-humano é uma coisa um bocado folclórica. O inumano é mais interessante. A Paula Rego tem uma história esclarecedora sobre isso, em que diz, 'quando estou a pintar, os meus filhos só comunicam comigo pondo um papelinho debaixo da porta'. Isso parece inumano, parece cruel. É cruel e inumano. Mas não tem nada a ver com responsabilidade cívica. Um artista tem o momento de criação e o momento de comunicação. E no momento de comunicação tens de ter responsabilidade cívica. É evidente que o Glenn Gould quando está a tocar ao piano, não está preocupado com a fome na Somália. Ele é um animal, é um bicho que se fundiu com o piano. Mas essa dimensão inumana não pode ser confundida com a responsabilidade pública e cívica que tem de se ter. Mais não seja porque o artista recebe dinheiro dos contribuintes. Isso chateia-me. Preocupa-me. Por isso também é importante ter a nova geração a trabalhar connosco.
A Garagem desde o primeiro momento foi uma escola de uma primeira geração. Muita gente passou por aqui, como o Jorge Andrade, a Cláudia Gaiolas, a Maria Duarte, a Patrícia Portela, enfim... Um aspecto forte do trabalho da Garagem é essa generosidade, essa partilha. Não estou nisto para me evidenciar. Estou nisto para estar com os outros, para partilhar. Nessa medida a Garagem teve esse percurso, que é geracional, e serviu de inspiração, às vezes até por contraponto. Um dia que se pense a história dos anos 80 até aqui vai ser evidente esse papel que a Garagem teve.
Neste momento estamos velhos, temos idade para ser pai deles, a relação é diferente. Não é tanto uma relação de crescimento com eles, mas é relação de escuta, amparo e formação objectiva para dar condições para esta geração ter a sua própria gente. E depois também há surpresas. Neste espectáculo fui muito surpreendido por eles.

Mas identificas qualidades específicas nestes novos actores, que se estreiam na Garagem, que fez com que tenhas querido trabalhar com eles?
Eu não faço castings. Recuso-me. Acho essa coisa do casting de um miserabilismo ideológico. Corresponde a um 'petit povoir' completamente cretino, de imbecis. Odeio castings. Acho que é uma espécie de escravatura de pequeno poder. Estou aqui sentado e agora mostra-me lá o que sabes fazer.

Precisas de conhecer as pessoas?
E precisas de te dar a conhecer. Num casting não conheces nada de nenhum deles. Acho que isso é um desrespeito. Não sou sempre eu quem escolhe. São também os outros que me escolhem. Tenho de ser escolhido. A coisa é mútua. É o tal face a face.

Mas no concreto, então, como é que esse encontro acontece?
Às vezes são as pessoas que me procuram. Já criei papéis para pessoas que me bateram à porta a dizer 'queria muito trabalhar consigo...' É um encontro mútuo. Não estou aqui a analisá-los. Para mim dar notas é sempre um sarilho. Acredito que não há maus alunos, o que há é maus professores... Essa é a minha ética. Nisso sou muito radical... Qualquer pessoa, sendo pessoa, é linda, tem potencial de beleza. Eu gosto de pessoas. O teatro tem de ser uma dádiva, tem de ser um momento de compaixão e partilha. Tivemos uma história com um senhor que fazia parte do grupo com quem desenvolvemos trabalho comunitário no Teatro Taborda, que a Maria João Vicente, a Ana Palma e o Fernando Nobre desenvolvem. Eu fiquei a conversar um pouco com ele e ele dizia que gostava de cantar fado mas era vestido de mulher. Eu disse: ah quer? E foi assim. Não fui eu quem escolheu, foi ele que quis. Porque fazia sentido assim. Não é aquela coisa do 'artiste' e agora vou criar uma coisa de 'freackshow' porque tem efeito e é giro. Aquilo tinha uma história por trás. Acho que tem de haver sempre uma história por trás. Esse, para mim, é o sentimento da compaixão. Que é o sentimento da partilha de uma paixão que ele manifesta e eu comungo com ele. Com estes miúdos é um bocado assim. Procurei escrever para eles, conhecê-los. Não os conhecia, eram alunos da Maria João. Na Escola [Superior de Teatro e Cinema] só tive relação institucional com eles.

Pegando no exemplo da Paula Rego, dirias então que o momento da criação, no teu caso da escrita, é justo que seja um momento inumano?
Acho que esse artigo do Fernando Gil é brutal, é uma coisa publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, escrita a quatro mãos, com o Mário Vieira de Carvalho e é sobre música. Ele fala de um texto da Teolinda Gersão muito interessante, "Os Teclados", que fizemos na Garagem numa encenação do Listopad. É sobre essa relação que se tem com a arte em que muitas vezes afloras essa zona, que podes qualificar de inumano. No outro dia estavam a perguntar ao Gonçalo M. Tavares para que escrevia? Não me lembro a resposta que ele deu, mas sei que resposta eu daria. Escrevo para a escrita. Não escreves para ninguém. Estás completamente rendido, fechado, nessa relação. E o inumano é um pouco isso...

Mas depois há um outro momento em que tens de abrir, certo?
Claro, por isso é que não fico só pela escrita.

Defines então dois momentos distintos na relação com a arte, neste caso por via do teatro: um da escrita, fechado para a escrita, do inumano; e depois o do teatro, que é da abertura, da partilha, do humano?
Sim. O teatro é abertura, de uma certa higiene, senão enlouqueces…

Mas como é que abordaste o texto do Eugene do O'Neill, "Sede", sendo que a peça faz um jogo entre o que é escrita dele e a tua escrita?
A peça é fraca. A peça não é grande coisa. Peguei na peça porque era fácil de trabalhar num primeiro momento. Era uma coisa fraca, mas tinha buraco. Era muito esburacada. Muita coisa onde podia mexer e remexer. É um texto claramente experimental do O'Neill. Mas eu gosto muito do que é fraco, do imperfeito. Os meus quadros preferidos do Da Vinci são os inacabados. São os melhores. Coisas inacabadas, imperfeitas, frágeis, fracas são as melhores. Por isso digo que o texto era fraco, é nesse sentido, não no sentido de deitar fora. Fraco no sentido de que não chegou ao sítio, ficou aquém. Gosto imenso destas coisas. É como o Souto Moura quando faz arquitectura e pega numa pedra que já lá está. Este "Sede" para mim era uma pedra que já lá estava. Mas que era só uma pedra. Era uma coisa fraca nesse sentido. Como a peça falhada que fiz. Adoro fazer peças falhadas, como a do Tennessee Williams, "Camino Real". É uma peça com a qual ele próprio teve uma frustração ao longo da vida, porque as montagens daquilo foram sempre um flop. Mas acho que são textos com uma ocupabilidade muito boa, que também é um assunto que me interessa. Este texto tem uma boa ocupabilidade. Portanto fiz esta versão remix. Tem coisas que são da ordem do teatral, que fazem parte das minhas pegas com o O'Neill.

Tais como?
Por exemplo o personagem que ele torna mais rigoroso e vil, que é o marinheiro, eu torno-o o mais importante, porque o texto é racista, ele é "o preto". Agrada-me essa disputa teatral, essa disputa inter-autoral com o O'Neill a dizer que o preto ali representa o mal e para mim ele representa a luz. Esses debates, como a questão da bailarina, do gentleman, interessou-me discutir com ele. Como se fosse possível. Um bocadinho como o Tabucchi fez, embora de uma maneira um pouco mais elegíaca há uns anos, com o texto "Está ao telefone o Senhor Pirandelo". Salvo erro era o Pirandelo com o Fernando Pessoa e o Tabucchi pelo meio. Era um triálogo. Isto não é novidade, já foi feito muitas vezes.

Falas de um modo imparável, numa sucessão de associações de ideias e referências [o leitor não tem a total percepção da dinâmica da fala]. És hiperactivo ao nível do pensamento?
Tenho de travar. Os miúdos quando apareceram, não me conheciam e era suposto encontrarmo-nos na quarta-feira. Eu disse que tinha ainda de escrever a peça. Apareci aqui no domingo com a peça escrita. Eram 60 páginas. Eles ficaram surpreendidos. Em três dias? Mas também sou incapaz de ter a disciplina de escrever todas as manhãs.

E como estás a viver este regresso ao Citemor?
Gosto muito deste festival. Crescemos aqui juntos, com o Armando e o Vasco [refere-se ao Armando Valente e Vasco Neves, responsáveis pelo festival], e não contava voltar aqui. Por isso fiquei muito contente. É aquela história de "não há segundo acto nas vidas americanas". Tendemos a pensar que não se é feliz duas vezes no sítio onde já se foi feliz. Acho que fui feliz aqui e agora também. Gostei muito de fazer este espectáculo. Gostei de voltar aqui, porque reconheço aqui uma inteligência que me agrada. E um manter-se atento e simultaneamente íntegro e fora dos circuitos de poder que me agrada. Tenho uma grande preocupação cívica e institucional mas não sou do poder. Porque acho que o poder corrompe estas valências que sublinhei. Acho que Montemor-o-Velho também tem essa característica. É um festival que tem preocupações institucionais, de pluralidade, tem preocupações de escuta e de reflexão, mas simultaneamente é um festival que se mantém íntegro, puro. Há uma certa pureza aqui. E senti isso, até pela maneira como os espectáculos são arrancados ao chão.
Este espectáculo foi mesmo arrancado ao chão. Nos primeiros dias apanhámos um clima terrível... Chuva, frio, depois mais as melgas, depois uma miúda que se magoou, caiu e tivemos que ir com ela para o hospital. Estive para desistir, estivemos para fazer no Teatro Esther de Carvalho..., mas depois percebi que isso não seria o festival. O festival é também no Castelo. É arrancar das pedras, arrancar do solo, arrancar dali o espectáculo. O Giordano Bruno é que dizia que tudo está em tudo. Mas há lugares que têm um espírito muito especial, um 'genius loci', e os espíritos existem, a espiritualidade existe. Aqui há essa convergência, essa espécie de polarização espiritual onde as coisas convergem. Houve uma cena que acabei por cortar, mas a ideia está lá, que era com a Nossa Senhora do Ó, mas depois aquilo desaparecia na pedra e não se via... Era uma 'private jok, que só funcionava com a Susana Paiva [fotógrafa] e as pessoas que tinham acompanhado aquilo. Foi a Susana que me chamou a atenção, "então tiraste a Senhora do Ó"... Aquilo não deu... mas foi importante passar por ali, porque sentes os escultores, como a escultura da Igreja da Misericórdia aqui em Montemor [da autoria de João de Ruão, escultor do século XVI] que ainda mantém uma vibração, uma palpabilidade. Quase cheiramos a pedra. Quase sentimos o cheiro das mãos do escultor. Essas coisas convergem aqui. Isso é bom. Arrancar os espectáculos aqui da terra. Talvez exista algo disto noutras terras, mas é preciso pessoas. É preciso oficiantes, pessoas que tenham esse espírito e sentido de missão. A certa altura não é apenas um festival. É uma missão.

O espectáculo vai ter outra vida fora do Citemor?
Não. Morre aqui. Pensei fazer no Teatro Taborda, mas se fizer será outra coisa... Morre aqui e com todo o gosto porque também é uma homenagem ao festival e a tudo isto que estive a dizer, ao aqui e agora. Quem quiser ver, vê agora. São cerca de 200 pessoas [as sessões estiveram lotadas, para além da capacidade prevista]. É um pouco como a maratona do "Pentateuco" (Citemor, 1997), que foram 14 horas de espectáculo, nunca repetidas, e que foram vistas por 200 pessoas. São as 200 que viram. Esta coisa de reduzir a cultura ao número é atroz. É para ser visto aqui e agora.

29.7.11

ANTEVISÃO | TEATRO DA GARAGEM

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva


Aqui e agora? Onde estamos? Estas são algumas das questões que Carlos J. Pessoa, director do Teatro da Garagem e encenador, transporta na peça "Sede Remix" que estreia hoje no Citemor, no Castelo de Montemor-o-Velho. Breve excerto da entrevista a publicar no blogue do festival.

"O 'aqui e agora' nas práticas teatrais na era digital é uma questão que me interessa muito. O conceito de 'aqui e agora' é aquele que mais diferencia o teatro das outras artes e, de grosso modo, serve de empurrão à emergência de todo o movimento da performance e dos Performance Studies e as questões levantadas a partir dos anos 70 da Escola de Antropologia, do Victor Turner e Richard Schechner. O que as tecnologias vêm fazer é desestabilizar este conceito de 'aqui e agora', que abordamos neste espectáculo, 'Sede Remix', por exemplo. Onde é que estamos? Estamos aqui ou não estamos aqui? Interessa-me explorar isso. Porque do ponto de vista de uma abordagem do humano, de uma definição do que é o humano neste confronto com esta evolução exponencial da tecnologia, há uma desestabilização nisto, que é perigosa. Gozo com isso de fininho no espectáculo. Com o pós-humano. Acho o pós-humano perigoso porque significa, de certa maneira, depositar uma esperança nas máquinas e da integração. É o movimento ao contrário do que devia ser. Por isso é que faço este espectáculo assim. É também sobre o movimento de sujeição das pessoas às máquinas, e não sujeição das máquinas às pessoas.