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3.8.13

The end of a new beginning

Texto de António Olaio sobre o espectáculo "O Esforço do Reflexo", de Ye77a

“O esforço do reflexo” é um solo, desde logo se assume como um solo. Estamos perante duas personagens, mas esta ópera apresenta-se como sendo um solo… Logo, é na certeza de que se trata de um solo que a temos de olhar, porque nos dizem que assim é. 
Nesta ópera, ou melhor, nesta “oPrá do filme ”, assim se exponenciam os jogos de espelhos, desde os espelhos que estão mesmo lá, reflectindo o que eles sabem reflectir: a luz, as luzes, a luz das coisas, como se reflectissem as próprias coisas, aos jogos de espelhos mentais que entendem a realidade como um jogo de reflexos que se pode inverter, chegando a uma só entidade que se teria desdobrado, caleidoscópica. 
E o puro devir da multiplicação caleidoscópica das luzes e das coisas, num espectáculo que nos diz tratar-se de um solo, implode assim num corpo que não se limita a ser metafórico. Uma existência que é, mesmo. Para além das aparências, causador de todas as aparências. 
O Shadowman é o que diz ser, na ideia de sombra como variação do reflexo, o avesso do reflexo. E o solo, mais do que ser o solo da Yella, é o da entidade que resulta de todos os jogos de reflexos se os pudéssemos inverter. A Yella será certamente a personagem polarizadora de tudo isto. A cara de tudo isto? A cara que canta “my face is my name” (my name is my face…). Imagem residual deste ser quando trespassa o universo tridimensional (“nasceu no planeta Terra em 77, após queda de um cometa por identificar”…), imagem na qual a cara é o nome mas também o nome é a cara, a imagem, nesta sublime manifestação da pictorialidade do acto de nomear e, vice-versa, da dimensão conceptual do pictórico, da imagem, vice-versa, porque é de espelhos que aqui tratamos. 
“Um esforço muscular de um cérebro que se investiga a si mesmo”… Um “cérebro muscular” neste “esforço do reflexo”. O solo de um cérebro. O cérebro do princípio de todas as coisas. O princípio de todas as coisas. O princípio pelo qual todas as coisas o são… o princípio que poderíamos conhecer se pudéssemos inverter todos os jogos de espelhos. 
O que vimos ontem no Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, parece que a ele pertence, assombrando-o para sempre. Este teatro certamente é do tempo em que as pessoas ainda tinham capacidade de maravilhamento. E Yella faz lembrar esse tempo, ou a possibilidade desse tempo ter existido. Mas, mais do que o prazer masoquista da celebração da impossibilidade de nos maravilharmos, aqui vemos que afinal nos maravilhamos mesmo. E mesmo com espelhos, luzes, reflexos, fumos, brilhos. Maravilhoso artesanal, transparente nos seus mecanismos, porque é exposta a forma de o fazer. Como na máquina de costura cujo motor faz rodar um círculo, como uma Lua, onde uma dançarina rodopia, como numa caixa de música, imagem em movimento, cinema antes de o ser, o devir que a imagem em movimento terá perdido quando se tornou sobretudo cinema. 
“This is the end of a new beginning”, é a frase que aparece depois do fim, ou melhor, depois de “THE END”. Fragmento final de um filme que não vimos, que teremos visto noutras formas, ou imagens finais disto tudo que engloba todas as possibilidades de imagem onde os filmes também estão? 
“This is the end of a new beginning”… ao ler esta frase, ficamos presos nela, é uma frase sem saída, onde permanecemos a bater contra o espelho, a bater até sangrar. Até sangrar, e depois também, até a dor desaparecer, por não existir mais nada a não ser ela. 
Um novo começo que começa acabado. Impossibilidade pura, se aqui não tratássemos de espelhos, de um tempo que se espelha, preso nos seus reflexos.


Parece triste mas não é.
Porque é sempre a consciência das coisas serem assim que nos faz fazer arte e gostar dela.

EM ENSAIO | Esforço do Reflexo | Ye77a

Fotografias de Susana Paiva






20.7.13

Afinal, vai haver Citemor! Festival assume atitude combativa e estende a sua programação a Coimbra e a Lisboa

Numa edição extremamente difícil – o Estado recusou o apoio ao festival –, o 35º Citemor apresenta novidades na sua programação e oferece ao público duas estreias absolutas, duas estreias nacionais e ainda consegue manter a sua vocação produtora estando associado à co-produção de três obras. Ancorado na vila de Montemor-o-Velho, o festival estende agora a sua programação a Coimbra e a Lisboa, e apresenta autores fundamentais das artes performativas de Portugal e Espanha. O evento decorre de 22 de Julho a 3 de Agosto e, à semelhança do ano anterior, é o espectador que define o preço dos bilhetes para os espectáculos

Pela primeira vez, o Citemor, o mais antigo festival de teatro do país, não beneficia do apoio do Estado, o que coincide com a implementação de um novo sistema de acesso aos financiamentos às artes (Acordos Tripartidos) em que todo o processo de avaliação é centrado na Direcção Geral das Artes, sem recurso a um júri independente. Perante este quadro, a direcção do festival é clara: “se a última edição foi dominada por um espírito de resistência, esta será de combate”. 
O cinema marca a abertura do Citemor e é Coimbra a primeira cidade a receber o evento. “Montemor”, o primeiro filme de Ignasi Duarte, é uma co-produção Citemor rodado em Montemor-o-Velho e protagonizado por actores e habitantes da vila. A longa-metragem, que pode agora ser vista no dia 22 de Julho, às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), estreou no FID Marseille 2012, onde conquistou uma Menção Honrosa. Depois de ter passado por Madrid (na extensão do Citemor à capital espanhola), e por Buenos Aires (Fundación Cinemateca Argentina), o filme teve estreia nacional no Indie Lisboa’13, tendo ainda sido seleccionado para o festival Panorama. 
O filme é rodado em Montemor-o-Velho, mas da vila nada se vê. Estamos perante a história de um personagem que deambula sem destino pelas florestas circundantes da localidade, proporcionando-se uma série de encontros improváveis que roçam a comédia e o absurdo. “Montemor” podia ser outra coisa: fascinado pela vila, pela gente e pelo Citemor, a ideia inicial de Ignasi Duarte era realizar um documentário sobre o Citemor. “Pensei fazer um documentário que retratasse as pessoas, a equipa do festival e os artistas. Parti da ideia de pensar este deserto que é Montemor, e como é possível fazer um festival a partir da vontade, da ilusão, da crença e da fé de querer fazer as coisas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção”, explicou o realizador numa entrevista para o blogue do Citemor. A sessão conta com a presença do realizador e dos actores e, no final, haverá uma conversa com o público moderada por Gonçalo Barros, da Fila K. 
O segundo dia do festival prossegue também com cinema, desta vez com “O Rei no Exílio”, de Bruno de Almeida, sobre o solo de Francisco Camacho, de 1991. O filme, rodado para a RTP2 num momento embrionário da dança em Portugal, será projectado no dia 23, às 21h30, no TAGV, e não segue o formato tradicional de documentário, proporcionando-nos uma interpretação elaborada da coreografia. 
Depois de na edição passada ter estreado “Monstro (parte 1: Calamidade)”, obra produzida com o Citemor e extremamente bem recebida pelos públicos nacional e internacional, o Teatro do Vestido mostra a sua mais recente criação, “Labor #1”. A peça faz parte de um projecto teatral em três partes sobre a história, função e contradições do trabalho e tem consultadoria histórica de Fernando Rosas e Irene Pimentel. O Teatro do Vestido prossegue com este projecto a sua tentativa de compreensão do presente através de uma convocação da história de Portugal, nomeadamente, fragmentos de uma história que considera invisível e esquecida. “Labor #1” decorre no dia 24, na Sala B, em Montemor-o-Velho às 22h30. 
Em Coimbra, no dia 25, e encerrando as propostas do Citemor na cidade, o bailarino e coreógrafo Francisco Camacho (artista com uma estreita relação com o festival) apresenta “O Rei no Exílio – Remake”. O espectáculo baseia-se no último rei de Portugal, D. Manuel II, que se exilou em Inglaterra, em 1910. “É um retrato dum certo Portugal, por vezes irónico, por vezes controverso, onde a solidão e o isolamento são permanentes”, diz Camacho. Foi com este solo que, em 1991, o criador lançou a sua carreira coreográfica na Europa, aquando da sua apresentação no Festival Klapstuck, em Leuven. A obra, na sua nova versão, estreou em Montevideu, no Festival Internacional de Dança Contemporânea do Uruguai, e tem agora estreia nacional no TAGV, às 21h30. 
Nos dias 26 e 27 de Julho (22h30), o Teatro da Garagem traz ao Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, a sua mais recente criação, “Cromotografia”, com texto, encenação e concepção plástica de Carlos J. Pessoa, figura maior na dramaturgia contemporânea portuguesa. Um dos projectos artísticos mais vinculados ao festival, onde já estreou mais de uma dezena de obras, o Teatro da Garagem apresentou na edição passada uma peça onde recusava a extinção institucional do Citemor (“Recusa”). Agora, com “Cromotografia”, o colectivo conta-nos a história de um coleccionador de cromos que faz uma viagem nostálgica pelo passado revivendo uma história de amor que não deu certo. Depois do Citemor, a peça segue para o Rio de Janeiro, de 22 a 25 de Agosto, no âmbito do Festival FESTLIP. 
Na edição deste ano, o Citemor estende-se também à capital onde Angélica Liddell, ponto de referência do teatro contemporâneo europeu, apresenta “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7”, uma estreia absoluta da galardoada artista espanhola – Liddell conquistou o Prémio Nacional de Literatura Dramática (Espanha) e o Leão de Prata na Bienal de Veneza. Entre o Festival de Avignon e a Bienal de Veneza, a criadora passa uma semana por Portugal para apresentar a obra co-produzida com o Citemor. 
Esta não é a primeira vez de Angélica Liddell no festival: a artista tem percurso muito ligado ao Citemor, tendo apresentado, em Montemor-o-Velho, cinco obras, uma das quais criada em residencia artística na vila do Baixo Mondego. “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7” decorre nos dias 25 e 26 de Julho, às 21h30, no Teatro Taborda, em Lisboa, e segue depois para Montemor-o-Velho, no dia 28, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho. 
A edição deste ano do Citemor conta, ainda, com a apresentação da ópera “Esforço do Reflexo”, do projecto Ye77a (lê-se Yella), provavelmente o nome menos conhecido do público. A dupla (Yella e Kako) é oriunda de Lisboa e o seu trabalho caracteriza-se por uma prática home made: desde a gravação dos álbuns, à realização de vídeos, fotografias, cenografias e figurinos, tudo produzido pelos artistas. A ópera é o resultado perfomático da banda sonora do filme “Back and Forward”, segundo capítulo da trilogia “Brain Sound Track”. O espectáculo tem lugar no Teatro Esther de Carvalho, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 22h30. 
É com Sergi Fäustino que termina o programa do Citemor. O autor catalão, que recorre normalmente a formatos menos convencionais e que tende a sujeitar-se a experiências fisicamente exigentes, recriou “Nutritivo” para o Citemor, uma peça de referência no seu percurso, datada de 2002, onde aborda com inteligência um tema fascinante: as formas de loucura socialmente aceites. Um solo com sangue, morcelas, black metal e tunning, na ZDB/Negócio, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 21h30, e em Montemor-o-Velho, no dia 3, na Sala B, às 22h30. 
À semelhança da edição anterior, e sob o lema ‘quem dá o que pode a mais não é obrigado’, o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição. As reservas poderão ser feitas através do e-mail reservas@citemor.com ou do telefone 916 688 601. A direcção do Citemor considera que “foi muito eficaz e extremamente bem recebido pelo público e, como tal, faz todo o sentido repetir o método que pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar”.