Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo
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24.7.13
20.7.13
Afinal, vai haver Citemor! Festival assume atitude combativa e estende a sua programação a Coimbra e a Lisboa
Numa edição extremamente difícil – o Estado recusou o apoio ao festival –, o 35º Citemor apresenta novidades na sua programação e oferece ao público duas estreias absolutas, duas estreias nacionais e ainda consegue manter a sua vocação produtora estando associado à co-produção de três obras. Ancorado na vila de Montemor-o-Velho, o festival estende agora a sua programação a Coimbra e a Lisboa, e apresenta autores fundamentais das artes performativas de Portugal e Espanha. O evento decorre de 22 de Julho a 3 de Agosto e, à semelhança do ano anterior, é o espectador que define o preço dos bilhetes para os espectáculos
Pela primeira vez, o Citemor, o mais antigo festival de teatro do país, não beneficia do apoio do Estado, o que coincide com a implementação de um novo sistema de acesso aos financiamentos às artes (Acordos Tripartidos) em que todo o processo de avaliação é centrado na Direcção Geral das Artes, sem recurso a um júri independente. Perante este quadro, a direcção do festival é clara: “se a última edição foi dominada por um espírito de resistência, esta será de combate”.
O cinema marca a abertura do Citemor e é Coimbra a primeira cidade a receber o evento. “Montemor”, o primeiro filme de Ignasi Duarte, é uma co-produção Citemor rodado em Montemor-o-Velho e protagonizado por actores e habitantes da vila. A longa-metragem, que pode agora ser vista no dia 22 de Julho, às 21h30, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), estreou no FID Marseille 2012, onde conquistou uma Menção Honrosa. Depois de ter passado por Madrid (na extensão do Citemor à capital espanhola), e por Buenos Aires (Fundación Cinemateca Argentina), o filme teve estreia nacional no Indie Lisboa’13, tendo ainda sido seleccionado para o festival Panorama.
O filme é rodado em Montemor-o-Velho, mas da vila nada se vê. Estamos perante a história de um personagem que deambula sem destino pelas florestas circundantes da localidade, proporcionando-se uma série de encontros improváveis que roçam a comédia e o absurdo. “Montemor” podia ser outra coisa: fascinado pela vila, pela gente e pelo Citemor, a ideia inicial de Ignasi Duarte era realizar um documentário sobre o Citemor. “Pensei fazer um documentário que retratasse as pessoas, a equipa do festival e os artistas. Parti da ideia de pensar este deserto que é Montemor, e como é possível fazer um festival a partir da vontade, da ilusão, da crença e da fé de querer fazer as coisas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção”, explicou o realizador numa entrevista para o blogue do Citemor. A sessão conta com a presença do realizador e dos actores e, no final, haverá uma conversa com o público moderada por Gonçalo Barros, da Fila K.
O segundo dia do festival prossegue também com cinema, desta vez com “O Rei no Exílio”, de Bruno de Almeida, sobre o solo de Francisco Camacho, de 1991. O filme, rodado para a RTP2 num momento embrionário da dança em Portugal, será projectado no dia 23, às 21h30, no TAGV, e não segue o formato tradicional de documentário, proporcionando-nos uma interpretação elaborada da coreografia.
Depois de na edição passada ter estreado “Monstro (parte 1: Calamidade)”, obra produzida com o Citemor e extremamente bem recebida pelos públicos nacional e internacional, o Teatro do Vestido mostra a sua mais recente criação, “Labor #1”. A peça faz parte de um projecto teatral em três partes sobre a história, função e contradições do trabalho e tem consultadoria histórica de Fernando Rosas e Irene Pimentel. O Teatro do Vestido prossegue com este projecto a sua tentativa de compreensão do presente através de uma convocação da história de Portugal, nomeadamente, fragmentos de uma história que considera invisível e esquecida. “Labor #1” decorre no dia 24, na Sala B, em Montemor-o-Velho às 22h30.
Em Coimbra, no dia 25, e encerrando as propostas do Citemor na cidade, o bailarino e coreógrafo Francisco Camacho (artista com uma estreita relação com o festival) apresenta “O Rei no Exílio – Remake”. O espectáculo baseia-se no último rei de Portugal, D. Manuel II, que se exilou em Inglaterra, em 1910. “É um retrato dum certo Portugal, por vezes irónico, por vezes controverso, onde a solidão e o isolamento são permanentes”, diz Camacho. Foi com este solo que, em 1991, o criador lançou a sua carreira coreográfica na Europa, aquando da sua apresentação no Festival Klapstuck, em Leuven. A obra, na sua nova versão, estreou em Montevideu, no Festival Internacional de Dança Contemporânea do Uruguai, e tem agora estreia nacional no TAGV, às 21h30.
Nos dias 26 e 27 de Julho (22h30), o Teatro da Garagem traz ao Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, a sua mais recente criação, “Cromotografia”, com texto, encenação e concepção plástica de Carlos J. Pessoa, figura maior na dramaturgia contemporânea portuguesa. Um dos projectos artísticos mais vinculados ao festival, onde já estreou mais de uma dezena de obras, o Teatro da Garagem apresentou na edição passada uma peça onde recusava a extinção institucional do Citemor (“Recusa”). Agora, com “Cromotografia”, o colectivo conta-nos a história de um coleccionador de cromos que faz uma viagem nostálgica pelo passado revivendo uma história de amor que não deu certo. Depois do Citemor, a peça segue para o Rio de Janeiro, de 22 a 25 de Agosto, no âmbito do Festival FESTLIP.
Na edição deste ano, o Citemor estende-se também à capital onde Angélica Liddell, ponto de referência do teatro contemporâneo europeu, apresenta “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7”, uma estreia absoluta da galardoada artista espanhola – Liddell conquistou o Prémio Nacional de Literatura Dramática (Espanha) e o Leão de Prata na Bienal de Veneza. Entre o Festival de Avignon e a Bienal de Veneza, a criadora passa uma semana por Portugal para apresentar a obra co-produzida com o Citemor.
Esta não é a primeira vez de Angélica Liddell no festival: a artista tem percurso muito ligado ao Citemor, tendo apresentado, em Montemor-o-Velho, cinco obras, uma das quais criada em residencia artística na vila do Baixo Mondego. “Love Exposure: Yoko’s Corinthians 13 Speech. Beethoven – Symphony No 7” decorre nos dias 25 e 26 de Julho, às 21h30, no Teatro Taborda, em Lisboa, e segue depois para Montemor-o-Velho, no dia 28, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho.
A edição deste ano do Citemor conta, ainda, com a apresentação da ópera “Esforço do Reflexo”, do projecto Ye77a (lê-se Yella), provavelmente o nome menos conhecido do público. A dupla (Yella e Kako) é oriunda de Lisboa e o seu trabalho caracteriza-se por uma prática home made: desde a gravação dos álbuns, à realização de vídeos, fotografias, cenografias e figurinos, tudo produzido pelos artistas. A ópera é o resultado perfomático da banda sonora do filme “Back and Forward”, segundo capítulo da trilogia “Brain Sound Track”. O espectáculo tem lugar no Teatro Esther de Carvalho, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 22h30.
É com Sergi Fäustino que termina o programa do Citemor. O autor catalão, que recorre normalmente a formatos menos convencionais e que tende a sujeitar-se a experiências fisicamente exigentes, recriou “Nutritivo” para o Citemor, uma peça de referência no seu percurso, datada de 2002, onde aborda com inteligência um tema fascinante: as formas de loucura socialmente aceites. Um solo com sangue, morcelas, black metal e tunning, na ZDB/Negócio, nos dias 1 e 2 de Agosto, às 21h30, e em Montemor-o-Velho, no dia 3, na Sala B, às 22h30.
À semelhança da edição anterior, e sob o lema ‘quem dá o que pode a mais não é obrigado’, o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição. As reservas poderão ser feitas através do e-mail reservas@citemor.com ou do telefone 916 688 601. A direcção do Citemor considera que “foi muito eficaz e extremamente bem recebido pelo público e, como tal, faz todo o sentido repetir o método que pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar”.
2.5.13
"Montemor" segue para o Panorama
O filme, realizado por Ignasi Duarte e co-produzido pelo Citemor, integra a selecção do Panorama, festival dedicado à exibição de documentários portugueses e organizado pela Associação pelo Documentário (Apordoc) e pela Videoteca de Lisboa. A sessão decorre no próximo sábado, 4, às 23h30, no Cinema São Jorge, em Lisboa
“Montemor: eis um filme ‘sem catálogo’, de finalidade insondável, tal como insondável é o canto daquelas mulheres que o viajante descobre às tantas na clareira de um bosque. Quem as ouve? O FID Marseille ouviu-as. Suspeitamos que o canto, depois da estreia internacional, continuará a soar nos festivais portugueses.” A previsão é de Francisco Ferreira, crítico de cinema do jornal Expresso, e confirma-se: depois de ter passado pelo festival de cinema documental francês (FID Marseille) por Madrid e por Buenos Aires, “Montemor” teve estreia nacional no IndieLisboa’13 e é agora seleccionado para o festival Panorama. O filme é uma co-produção Citemor, Periferia Filmes (Lisboa) e Pão Filmes (Barcelona) e foi filmado em Montemor-o-Velho, protagonizado por actores e habitantes da vila do Baixo Mondego. “Montemor” é apresentado no próximo sábado, 4, às 23h30, no Cinema São Jorge, em Lisboa.
O festival Panorama vai na sua 7ª edição e conta com mais de 80 sessões, contemplando curtas e longa-metragens. Dedicada à exibição de documentários portugueses, a mostra não competitiva exibirá filmes incluídos em duas grandes rubricas: Sessões Contemporâneas, que incluem filmes produzidos maioritariamente em 2012; e Sessões Percursos do Documentário Português, com filmes da época/autores do tema seleccionados em cada ano. O Panorama realiza-se de 3 a 11 de Maio, no Cinema São Jorge, na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e no Teatro do Bairro, em Lisboa.
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19.4.13
“Montemor”: estreia nacional no IndieLisboa'13
Depois de ter passado por Marselha, Madrid e Buenos Aires, o filme de Ignasi Duarte, co-produzido pelo Citemor, tem agora estreia nacional no festival de cinema independente de Lisboa. A sessão decorre no próximo domingo, 21, pelas 15h, no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa
O filme é rodado em Montemor-o-Velho, mas da vila nada se vê. Estamos perante a história de um personagem que deambula sem destino pelas florestas circundantes da localidade, proporcionando-se uma série de encontros improváveis que roçam a comédia e o absurdo. “Montemor”, uma co-produção Citemor, Periferia Filmes (Lisboa) e Pão Filmes (Barcelona), podia ser outra coisa: fascinado pela vila, pela gente e pelo Citemor, a ideia inicial do catalão Ignasi Duarte era realizar um documentário sobre o festival de
Montemor-o-Velho. “Pensei fazer um documentário que retratasse as pessoas, a equipa do festival e os artistas. Parti da ideia de pensar este deserto que é Montemor, e como é possível fazer um festival a partir da vontade, da ilusão, da crença e da fé de querer fazer as coisas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção”, explicou o realizador.
“Montemor” foi seleccionado para a programação do festival IndieLisboa’13, fazendo parte da secção de sessões especiais, juntamente com mais três filmes portugueses — “Arrivederci Macau”, de Rosa Coutinho Cabral; “Bibliografia”, de Miguel Manso; e “Torres e Cometas”, de Gonçalo Tocha. O filme é apresentado no próximo domingo, 21, às 15h, no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa. O festival de cinema independente de Lisboa, que comemora nesta edição dez anos de existência, decorre até ao dia 28 de Abril.
A longa-metragem de Ignasi Duarte integrou a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012 (festival internacional de cinema documental), onde conquistou uma Menção Honrosa, e fez parte da programação do Citemor Madrid, em Outubro do ano passado. Mais recentemente, “Montemor” foi exibido em Buenos Aires, no Teatro San Martín, integrando o ciclo “España Alterada”, uma mostra de cinema composta por 18 filmes representativos das novas tendências do cinema espanhol.
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21.3.13
De Montemor para Buenos Aires
O filme "Montemor", realizado pelo catalão Ignasi Duarte e co-produzido pelo Citemor, faz parte do ciclo “España Alterada” e é apresentado amanhã, 22, no teatro San Martín, em Buenos Aires. A longa-metragem faz também parte da selecção oficial do festival Indie Lisboa 2013
“A ideia era fazer um retrato da vila sem que esta aparecesse. E na ficção a vila nunca aparece. É a viagem de um personagem que, no caminho, encontra outras personagens. É muito simples. Parte de casa e encontra-se com distintas aventuras e depois se verá se regressa ou não a casa”. Foi assim que Ignasi Duarte, o realizador de “Montemor”, descreveu a longa-metragem rodada em Montemor-o-Velho e protagonizada por actores e habitantes da vila. “Montemor” chega agora à capital argentina, para uma mostra de cinema composta por 18 filmes representativos das novas tendências do cinema espanhol e que fizeram parte da programação do 27º Festival Internacional de Cine de Mar del Plata. O ciclo “España Alterada” é organizado pelo Teatro San Martín (Buenos Aires), pela Fundación Cinemateca Argentina e pela Oficina Cultural de la Embajada de España, e decorre de 21 a 27 de Março, na Sala Lugones do Teatro San Martín, em Buenos Aires.
“Montemor” é co-produzido pelo Citemor, pela Periferia Filmes (Lisboa) e pela Pão Filmes (Barcelona) e estreou em Marselha, em Junho de 2012. O filme integrou a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012 (festival internacional de cinema documental) onde conquistou uma Menção Honrosa. Em Outubro do ano passado, fez parte da programação do Citemor Madrid que decorreu no Teatro Pradillo, na capital espanhola. A longa-metragem foi, também, seleccionada para o festival de cinema independente Indie Lisboa 2013, que decorre de 18 a 28 de Abril, fazendo parte da secção de sessões especiais, juntamente com mais três filmes portugueses – “Arrivederci Macau”, de Rosa Coutinho Cabral; “Bibliografia”, de Miguel Manso e João Manso; e “Torres e Cometas”, de Gonçalo Tocha.
Inaugurado em 1944, e inicialmente denominado de Teatro Municipal, o Teatro San Martín possui três salas de teatro, um cinema (Sala Lugones), vários salões de exposições e uma galeria de fotografia, e atinge mais de um milhão de espectadores por ano. O teatro, de cariz contemporâneo e desenhado pelos arquitectos argentinos Mário Roberto Alvarez e Macedónio Oscar Ruiz, constitui um dos principais centros culturais de Buenos Aires e tem duas companhias residentes: uma companhia de dança contemporânea, El Ballet Contemporâneo, e uma companhia de marionetas, El Taller-Escuela de Titiriteros del Teatro San Martín.
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1.10.12
Citemor em Madrid
De 4 a 14 de Outubro o festival de Montemor-o-Velho estende-se à capital espanhola afirmando a vitalidade e potencial do projecto
É no Teatro Pradillo, em Madrid, que decorre a extensão da 34ª edição do Citemor, um programa que conta com 9 sessões de 3 espectáculos, uma vídeo-instalação, duas “maratonas” de vídeo e uma projecção de cinema.
Uma criação em progresso do Teatro do Vestido, “Monstro (parte 1: Calamidade)”, abre o programa. Esta é a primeira parte de um projecto dividido em três (1: Calamidade; 2: Hecatombe; e 3: Apocalipse), em que o colectivo expõe a situação económica e social em que Portugal se encontra, entendendo que “este é o momento para fazer teatro sobre isto”. “A ‘isto’ chamámos calamidade, e ao conjunto de calamidades que nos trouxeram até aqui, chamámos monstro”, lê-se na sinopse da obra. O espectáculo será apresentado nos dias 4, 5 e 6 de Outubro, às 21h.
Também a partir do dia 4, e até ao final do programa, Luís Alegre passa por Madrid com uma versão para o Teatro Pradillo de “Play Them #02”, vídeo-instalação apresentada na edição de 2011 do Citemor. “Play Them #02 [Pradillo]” é composta por quatro animações produzidas para o festival em que o artista, após pesquisar os registos videográficos do Citemor, opta por intervir sobre a documentação da obra da coréografa Elena Córdoba, artista residente no Teatro Pradillo. A presença de Luís Alegre no Citemor decorre de um programa de curadorias delegadas na área das artes visuais, tendo a sua obra sido comissariada por José Maçãs de Carvalho.
Nos dias 7 (das 12h às 24h) e 14 (das 12h às 20h) de Outubro decorre “Maratón de Video”, uma mostra de vídeos de criadores espanhóis no Citemor comissariada por Fernando Renjifo. Os vídeos são realizados por Hugo Barbosa, colaborador do festival de Montemor-o-Velho, e dizem respeito a espectáculos apresentados no Citemor a partir de 1999. Entre os vídeos propostos encontram-se obras que não estrearam em Madrid, criações in situ e obras realizadas numa grande diversidade de espaços que o festival vem a ocupar em Montemor-o-Velho (ruínas, armazéns industriais, igrejas, campos de arroz, etc.). Esta acção documenta também a relação que os criadores estabelecem com os espaços e a forma como estes marcam as suas criações.
A segunda semana do programa segue nos dias 11, 12 e 13 de Outubro com dança em dose dupla: Francisco Camacho e Rafael Alvarez. “Nossa Senhora das Flores”, um solo do bailarino e coreógrafo português Francisco Camacho, estreado em 1993, é uma das obras de referência da dança contemporânea portuguesa. Segue-se Rafael Alvarez com a antestreia de “sweetSKIN”, solo com estreia marcada para Novembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem às 21h.
A presença do Citemor em Madrid termina com cinema. “Montemor”, de Ignasi Duarte, uma co-produção Citemor, Periferia Filmes e Pão Filmes, estreou no FID Marseille 2012 onde conquistou uma Menção Honrosa na categoria de Primeiras Obras. “Montemor” tem estreia em Espanha no dia 14, às 21h, no Teatro Pradillo.
O Citemor transporta para Madrid o modelo de acesso aos espectáculos experimentado na sua última edição, onde cada espectador define o preço do bilhete de acordo com a sua condição financeira e expectativas.
Indicador de vitalidade
O Citemor designou, estrategicamente, o espaço peninsular como a sua zona de intervenção preferencial, concretizando na sua relação com Espanha parte nuclear da sua internacionalização. Durante mais de duas décadas, o Citemor revelou em Portugal criadores espanhóis, acompanhou os seus percursos e co-produziu novas obras, ao mesmo tempo que captava financiamentos e apoios para participar produções nacionais e ampliar a difusão dos artistas portugueses nas diversas autonomias. A presença do festival em Madrid surge, de acordo com a direcção do Citemor, “de forma natural, como algo orgânico que resulta de uma prática e uma ética constantes”. A direcção acrescenta ainda que “a ocupação do Teatro Pradillo, em Madrid, durante estas duas semanas, mais do que uma distinção, é um indicador da vitalidade e potencial do projecto, apesar do sub-financiamento a que foi condenado. É um sinal do reconhecimento da influência do festival enquanto entidade produtora e da sua importância para a criação contemporânea na Península Ibérica.”
Nova direcção do Teatro Pradillo. Fotografia de Marta Pontes
Teatro Pradillo
A 34ª edição do Citemor foi uma edição de resistência, onde se verificou uma alteração de paradigma: deixou de produzir novas obras com os criadores e companhias e passou, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associaram ao festival com o estatuto de co-produtores. O Teatro Pradillo, que se uniu a esta edição de resistência com a presença de dois dos seus criadores residentes, recebe agora uma extensão do Citemor com artistas portugueses.
Situado no Bairro de Chamartín, o Teatro Pradillo foi inaugurado em 1990 e desenvolveu uma programação artística baseada na difusão de teatro independente. Em 2012, após 22 anos de actividade, uma nova direcção pretende agora revitalizar o projecto, assente num novo modelo de gestão, para assegurar uma posição de referência na criação cénica contemporânea, enfrentando os desafios artísticos, económicos e de relação com os públicos que um novo contexto sócio-económico implica.
20.7.12
Resistir
A 34ª edição do Citemor decorre em circunstâncias extraordinárias. Após cortes sucessivos impostos pela DG Artes, que representam no nosso caso uma perda, em dois anos, de aproximadamente 75%, esta é uma edição de resistência. Um gesto simbólico que pretendemos com significado político.
Nesta edição verifica-se uma alteração de paradigma. O Citemor deixa de produzir novas obras com os criadores e companhias e passa, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores. Este modelo, implementado para obviar os custos de uma paragem em 2012, é, naturalmente, irrepetível.
Numa edição particularmente difícil, só possível graças ao empenho de parte da comunidade artística, o Citemor reforça a sua presença em Coimbra partilhando a sua programação com as três principais salas da cidade: Oficina Municipal de Teatro, Teatro da Cerca de São Bernardo e Teatro Académico de Gil Vicente.
O modelo de acesso aos espectáculos pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar. Os bilhetes não terão preço fixo, sendo este estabelecido pelos próprios espectadores no momento da sua aquisição. Queremos viver cada momento deste festival como uma celebração, com a consciência de que poderá ser o último de 34.
Quando falamos do Citemor, não está em causa apenas um festival. O Citemor é muito mais do que uma mostra. Dada a sua vocação produtora, além de contribuir para a ampliação de um circuito de difusão, co-produz e está associado à criação de dezenas de novas obras no teatro, na dança, nas artes visuais e algumas propostas híbridas, um traço de identidade fundamental no projecto.
Apesar das dificuldades evidentes e da suspensão da programação do Teatro Esther de Carvalho, o nosso balanço não é de todo negativo. Teve estreia em Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura, "El Lamento de Blancanieves", de Olga Mesa, uma co-produção Citemor com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, com a FRAC Alsace e com o Théâtre Pôle Sud de Strasbourg; em Junho integrámos com "Montemor", de Ignasi Duarte, a Selecção Oficial do FID Marseille, festival de referência que explora as fronteiras do cinema documental, obtendo uma Menção Honrosa; e estamos a programar para Outubro, no Teatro Pradillo, em Madrid, uma mostra de criadores nacionais.
O Citemor é hoje um factor decisivo de identidade territorial, contribuindo para uma imagem moderna da região associada à criação artística. Revela um impacto considerável na economia local e teve sempre uma estratégia de internacionalização eficaz. Mas o capital que detemos, proveniente de mais de 30 anos de uma prática continuada, está definitivamente em causa.
Neste momento queremos reafirmar algumas posições já assumidas. A cultura é um sector cronicamente sub-financiado e sub-avaliado quanto ao seu real contributo para a economia das cidades, das regiões e do país, em particular as artes performativas. Não nos parece sensato, sob o ponto de vista económico, desinvestir desta forma e impôr cortes cegos num sector que, apesar de já descapitalizado, mantinha a sua capacidade produtiva intacta.
A cultura não é uma despesa, é um investimento. A criação artística contemporânea constituirá amanhã o nosso património, o nosso legado. Um país sem criação contemporânea é um país desmaiado, sem alma e, a prazo, sem identidade.
A Direcção do Citemor
11.7.12
Menção honrosa para “Montemor”
Ignasi Duarte descreveu o filme como sendo “a viagem de um personagem que parte de casa e que depois verá se regressa ou não”. Não sabemos se regressa, mas sabemos que traz uma menção honrosa
“Montemor”, uma co-produção Citemor, Periferia e Pão Filmes, recebeu uma Menção Honrosa na categoria de Primeiras Obras do FID Marseille 2012, festival internacional de cinema que decorreu de 4 a 9 de Julho na cidade francesa.
O filme é protagonizado por actores e habitantes de Montemor-o-Velho e nasce do fascínio do realizador pela vila do Baixo Mondego. Ignasi Duarte esteve no Citemor, pela primeira vez, em 2005, a trabalhar com Roger Bernat, e ficou “fascinado pela vila, pelo ambiente, pela gente da vila e do festival”, conta o realizador a Cláudia Galhós, aquando as filmagens da longa-metragem. Ao Expresso, Ignasi Duarte explicou que “ ‘Montemor’ foi filmado tal como se filmam os documentários sobre a vida dos grandes mamíferos. Ou seja: sempre à espreita, num estado de grande expectativa, mas sem procurar uma história ou outro recurso ou muleta narrativa.”
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1.6.12
"Montemor" estreia em Marselha
O filme, de Ignasi Duarte, é uma produção Citemor e integra a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012 que vai decorrer na cidade francesa de 4 a 9 de Julho
No momento em que o Citemor prepara a sua 34ª edição com dificuldades reconhecidas — o festival esteve em risco de não se realizar — a sua equipa tem, apesar de tudo, um motivo de satisfação. O filme "Montemor" de Ignasi Duarte, rodado em Montemor-o-Velho e protagonizado por actores e habitantes da vila, foi convidado a integrar a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012, um festival de referência, que cumpre a sua 23ª edição e que explora na sua programação as fronteiras do documentário.
Para a direcção do festival, "nem sequer importa se o filme vai obter algum prémio, a sua selecção para uma mostra tão importante já é muito gratificante. Num momento em que o Citemor luta pela sobrevivência, mais uma vez o reconhecimento vem do exterior".
A selecção é composta por 19 produções oriundas de geografias tão diversas como: França, Alemanha, Itália, Bélgica, Espanha, Argentina, Egipto, México e Guatemala, Tunísia, Líbano, Taiwan, Palestina e EUA. O filme "Montemor", que para além de estar a concurso na Selecção Oficial participa também na Competição Primeiras Obras, é produzido pelo Citemor com Periferia Filmes (Lisboa) e Pão Filmes (Barcelona).
Numa entrevista realizada por Cláudia Galhós durante as filmagens, Ignasi Duarte falou um pouco sobre aquilo que o motivou para realizar "Montemor" e sobre a temática da longa-metragem: "Em 2005 estive aqui a trabalhar com o Roger Bernat e fiquei fascinado pela vila, pelo ambiente, pela gente da vila e do festival. E pensei fazer um documentário das pessoas, da equipa do festival, dos artistas. Partiu da ideia de pensar este deserto, que é Montemor, e como é possível um festival, a partir da vontade, da ilusão e da crença, da fé, de querer fazer as coisas. Fascinava-me pensar que podia ser uma forma de falar do que move as pessoas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção.
Estive no Inverno e na Primavera aqui, em Montemor, conheci o sítio, localizei os personagens que me interessavam. Era importante escolher, é muito fácil cair na dispersão, porque aqui existem muitas coisas bonitas, especiais. É a viagem de um personagem que, no caminho, encontra outras personagens. É muito simples. Parte de casa e encontra-se com distintas aventuras e depois se verá se regressa ou não a casa."
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Susana Paiva
11.8.08
DISCURSO DIRECTO: Entrevista a Ignasi Duarte
Ignasi Duarte esteve pela primeira vez no Citemor, em 2005, como dramaturgo de Roger Bernat, e regressou nesta edição para filmar uma invulgar longa metragem que se chama «Montemor» e que tem por protagonista a vila, captada a partir das pessoas que a habitam e sem que a vila apareça. «Um grande fora de campo», muito pessoal e sentimental – assim esperamos ver «Montemor».
Conta-me a tua história. Como é que uma criança de 13 anos decide, e faz, uma entrevista ao Vasquez Montalban?
Nasci em Barcelona, numa família de classe média, em que não havia quase livros em casa, não havia um ambiente intelectual. Era uma família trabalhadora, mas com muita consciência, principalmente o meu pai, de que tinha de dar uma boa educação aos seus filhos, precisamente porque ele não tinha tido, porque tinha vivido a ditadura, o franquismo, e queria que os seus filhos estudassem, tivessem uma formação, que fossemos alguém na vida. Então, cresci numa escola onde se vivia precisamente o ambiente do período de transição do regime, nos anos 80, dirigida pelo PSU, Partido Socialista Unificado da Catalunha, que estiveram na clandestinidade a lutar contra o franquismo. Tinha professores anarquistas e de extrema esquerda, era uma escola muito catalanista, embora eu não seja nada catalanista, mas a escola tinha uma mente muito catalanista. Portanto, cresci num ambiente muito liberal, dos 5 aos 13 anos. Era uma escola que queria romper tabus, culturais e religiosos, radicalmente ateia. Foi aí que os professores nos introduziram no tema da literatura, falaram-nos de Borges. Éramos muito pequenos e não entendíamos nada. Com 10 anos, tudo isto podia ter resultado no efeito contrário. É verdade que houve gente que se afastou da cultura, mas também houve casos em que resultou num efeito de aproximação, como foi o meu.
Mas o que te ficou dessa altura?
A vontade de escrever. Desde o início, escrever e criar mundos imaginários fascinou-me. Na escola também nos faziam escrever ficção, contos. Tinha um professor que era escritor de literatura infantil e incitava-nos muito a escrever. Havia uns jogos florais, um concurso literário a cada ano, e todos participávamos a escrever. Foi por essa altura que comecei a ler a série Carvalho, de Vázquez Montalbán, que era uma coisa muito ajustada aos tempos de que falo, porque através do detective Pepe Carvalho faz uma radiografia de uma sociedade em transição e finalmente utiliza o género negro para falar do social e do político. Fiquei fascinado pelo Carvalho, também por esse imaginário do Bairro Gótico, das Ramblas, de uma Barcelona que não conhecia, porque não saía do meu bairro da Gracia mas sobre o qual tinha muitas referências. Li todas as novelas de Carvalho num verão, que eram doze ou treze. E na escola, como havia estes jogos literários, decidi apresentar a concurso não um texto escrito, uma poesia ou prosa, mas apresentar uma entrevista. Desde pequeno que o género documental me interessa muito.
O que é que te interessava no documental?
A paixão pelas pessoas, pela vida e pelas histórias. Pelas pessoas que falam e contam coisas. Queria fazer entrevistas para poder conhecer as pessoas que me interessavam, é a mesma razão pela qual filmámos agora o Gibóia, porque me interessa. Queria ser jornalista para entrevistar gente importante, importante no sentido de me tocarem, me emocionarem. Foi assim que comecei a fazer entrevistas. O que se passa é que me desiludi muito cedo do mundo jornalístico e deixei-o.
E em 1997 fizeste uma instalação, «O Periodico del Arte», que é uma visão crítica, mesmo que criativa, sobre o jornalismo.
Sim. Propuseram-me fazer uma intervenção num hotel, a pretexto de um festival de artes plásticas em Barcelona. Foi no primeiro ano em que o jornal apareceu em Espanhol. Havia edições diferentes em diferentes países mas em Espanha não, e em Espanha já fechou, durou apenas um ano. Fiz um jornal apenas com os anúncios, em que o espaço das notícias estava em branco, e estavam no chão, porque tinham caído todas. Havia um espaço sonoro construído por artistas sonoros, e pessoas a ler. Os visitantes entravam e pisavam as notícias... E havia jornais em branco que levavam, muitos utilizaram como diários pessoais... Era um objecto bonito...
Mas entre o desejo de conhecer pessoas, essas ficções reais, e a desilusão do jornalismo, o que encontras?
O que eu gosto é de fazer coisas. O espaço onde as faço é indiferente. O que importa são as ideias, que podem ser aplicadas a diferentes disciplinas. Não acredito na ideia de uma pessoa se dedicar toda a vida a uma coisa, claro que te podes especializar mas eu não gosto da especialização. Gosto de chegar às coisas sem saber, investigar. Sou muito pouco constante. Aborreço-me muito. Farto-me muito rapidamente das coisas. O jornalismo chateou-me porque não ganhava dinheiro. E não podia fazer o que queria. Não fazia o que queria e não ganhava dinheiro...
fotografia de Susana Paiva
Mas como consegues viver numa área criativa, fazendo o que queres e ganhando dinheiro?Comecei aos 18 anos a fazer coisas. Antes vivia com os meus pais. E vivi até aos 23. Aos 23 comecei a trabalhar no Canal Metro, e aí pagavam-me muito bem. Nessa altura, vivi um ano e meio muito bem.
Foi nessa altura que fizeste retratos de pessoas famosas em 30 segundos?
Entre 23 a 30 segundos. Era uma personalidade pública, muito conhecida, a fazer uma acção quotidiana, vinculada a um objecto. Estava Marta Carrasco a dormir com a cadela Salomé, Mariscal estava a fumar marijuana, o cantor Pau Riva a tomar um duche...
Mas como consegues ir concretizando ideias, quando muitas vezes partes de projectos que não estão definidos?
É muito difícil. Tomo ansiolíticos e vou ao psiquiatra. Não sei como te explicar. Não é nada especial. Tenho ideias e vendo-as. Por exemplo, no caso dos retratos para a televisão. Tive uma ideia, porque cheguei de Londres e não aprendi inglês. Cheguei de Londres, tinha 23 anos, e não tinha trabalho e já não havia dinheiro para continuar a viver à custa da mãe. Ela mandou-me uma carta para Londres, a dizer que havia este canal Metro, de Barcelona, que estava a pedir vídeo-artistas. Eu tinha esta ideia e telefonei-lhes e, conforme lhes ia falando, a ideia foi-se construindo. No dia seguinte assinámos um contrato. Foi muito rápido. Normalmente funciona assim: tenho ideias e faço propostas a pessoas. Agora tenho um projecto para a prisão de Barcelona. Faz um ano que estou a discutir com os políticos. A ideia é que os presos contem um conto popular que todas as pessoas conhecem, tipo o Capuchinho Vermelho, a pessoas que vêm de fora da prisão para os ouvir. Eles dizem que gostam muito mas acabam por não chegar a acordo entre o director da prisão com o político que é responsável pelas instituições penintenciárias. Há muitas ideias que não se concretizam, se saiem bem, se não, mas é uma ideia que conduz a outras ideias...
Qual é a tua relação com o teatro? Estiveste pela primeira vez no Citemor como dramaturgo do Roger Bernat. Posso concluir que é através da escrita dramatúrgica?
Escrevo pouco. Sou mais de entrevistas. Tenho muitas crónicas, mas chegou um momento da minha vida em que senti que não me interessava muito a ficção. Também não leio romances, não me interessa. Estou mais interessado no registo diarístico, na realidade, mais o género da entrevista. Há muitos anos que penso que temos de reinventar a entrevista. A conversa é um género fascinante. Mas o que se passa é que não tive tempo para investigar o género. Penso que talvez um dia possa fazer um livro com entrevistas, mas pode ser que não. De qualquer modo, essa ideia agora está repartida em muitos formatos e projectos diferentes. A televisão que fiz no ano passado, com muitas entrevistas, tenho vontade de fazer rádio... Não sei se algum dia vou fazer esse livro que pensei, porque de algum modo já os estou a fazer em outros meios.
E estas filmagens que estão a decorrer em Montemor-o-Velho, o que são? Ainda não compreendi...
Eu também, ainda não compreendi nada.
Mas qual é a ideia inicial?
Em 2005 estive aqui a trabalhar com o Roger Bernat e fiquei fascinado pela vila, pelo ambiente, pela gente, da vila e do festival. E pensei fazer um documental, das pessoas, a equipa do festival, dos artistas. Partiu da ideia de pensar este deserto, que é Montemor, e como é possível um festival, a partir da vontade, da ilusão e da crença, da fé, de querer fazer as coisas. Fascinava-me pensar que podia ser uma forma de falar do que move as pessoas. É uma boa metáfora, pensá-lo como uma viagem documental para perceber o que move as pessoas, o que faz com que se activem. Entretanto, passaram três anos. Falei com o Vasco várias vezes do projecto e finalmente vim. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documental, é uma ficção.
Mas qual é a ideia da ficção?
Um tipo que desaparece e está por aí. Passam-se coisas, encontra pessoas... A ideia é fazer um filme que seja como um estado de espírito, que seja uma coisa muito de pele, sentimental.
O que tens estado a filmar?
Vim com cerca de vinte e cinco sequências pensadas. Filmámos quase todas, algumas desistimos porque já não gostava. Criámos situações e deixámos caminho livre à improvisação dos intérpretes. Eu dava algumas pautas, algumas frases, eles improvisavam. A partir daí a ideia era experimentar, improvisar, arranjar material novo, dar um salto ao vazio e vir aqui captar o que se move na vida. É uma experiência incrível e só é possível com uma equipa muito pequena, com muita paixão, com muito amor, conhecendo bem todos e tudo o que está envolvido. Estive este Inverno e na Primavera aqui, em Montemor, conheci o sítio, localizei os personagens que me interessavam. Era importante escolher, porque é muito fácil cair na dispersão, porque aqui existem muitas coisas bonitas, especiais. A ideia também era fazer um retrato da vila sem que apareça a vila. Inclusive na ficção nunca aparece a vila. É a viagem de um personagem que, no caminho, encontra outras personagens. É muito simples. Parte de casa e encontra-se com distintas aventuras e depois se verá se regressa ou não a casa.
Não estás a trabalhar com actores, apenas com pessoas normais, certo?
Tenho um actor, o Nuno Castilho, que faz a personagem, mas tenho preferência por trabalhar com pessoas normais, há mais realidade.
E filmas cenas com pessoas a improvisar. Portanto, a narrativa final vai resultar da tua montagem?
Sim. Por exemplo, vamos filmar a Banda Filarmónica de Montemor, como se fosse uma procissão pela rua, de noite, uma marcha fúnebre, que chama ‘A Última Agonia’. E para nós, mais do que a música, interessa-nos filmar como afinam, os preparativos, antes de começarem a tocar. Gosto muito desse momento antes, essa ideia dos preparativos, das pessoas que se preparam para fazer algo. É algo que normalmente não explicamos, que não mostramos. Começamos sempre com as coisas a partir do momento em que funcionam... A ideia é que a película resulte numa experiência muito pessoal, que não se definam muito as coisas. Por isso me custa expressar e defini-las verbalmente. A ideia é que seja um grande fora de campo, em que quem vê não entenda muito bem o que se está a passar. O importante não é o que se está a passar mas o que isso provoca nas pessoas. Há uma sequência de dois meninos que jogam xadrez e não sabes muito bem o que estão a fazer, mas o facto de estarem a jogar xadrez é perfeito para ver as caras.
Com tudo isso, como defines aquilo que fazes, quem és?
Pedi ao Gibóia para se definir em três palavras e ele disse: El Corte Inglês.
E tu?
Em quantas palavras?
Três.
Muito dificil. Eu estou aí. São três palavras. Eu Estou Aí.
Claudia Galhós
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