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21.11.12

Rafael Alvarez e Elena Córdoba estreiam obras apresentadas no Citemor

No próximo fim-de-semana, o festival dá continuidade à sua presença em Lisboa e em Madrid com a estreia de duas obras que tiveram uma primeira apresentação em Montemor-o-Velho


(Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo)

Reconhecido por proporcionar um primeiro encontro de obras com o público – espectáculos ainda em fase de criação, antestreias ou estreias absolutas –, o Citemor desempenha um papel fundamental enquanto produtor de novas obras, permitindo levantar o véu sobre a temporada seguinte. “sweetSKIN”, de Rafael Alvarez, e “Atlas, el gigante y la vértebra”, de Elena Córdoba, apresentados na edição deste ano do festival como antestreias, estreiam agora em Lisboa e Madrid, respectivamente. “sweetSKIN” fez ainda parte da programação da extensão do Citemor a Madrid, em Outubro, e a mais recente criação da bailarina e coreógrafa espanhola decorre agora no âmbito do XXVII Festival Internacional Madrid en Danza.
Um encontro improvável entre a personagem de um skinhead com as Suites para Violoncelo Solo de Bach. É isto que nos sugere Rafael Alvarez. O bailarino e coreógrafo português, acompanhado pelo violoncelista Nuno Abreu, procura reflectir sobre os nossos modos de ver e perspectivar a realidade, desenvolvendo algumas ideias-chave relacionadas com o papel dos estereótipos, dos preconceitos e dos equívocos face à representação do corpo e da identidade. O espectáculo decorre nos dias 23 (21h) e 24 de Novembro (19h), no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
O Teatro Pradillo, em Madrid, acolhe “Atlas, el gigante y la vértebra”, a mais nova criação da bailarina e coreógrafa Elena Córdoba, onde a artista espanhola constrói um paralelismo entre a primeira vértebra da coluna (de seu nome Atlas) e Atlas, o gigante castigado por Júpiter, que o obrigou a segurar o céu para que este não desabasse sobre a terra. A obra, com estreia marcada para os dias 23, 24 e 25 de Novembro, vem no seguimento do projecto “Anatomia Poética” sobre o qual a bailarina e coreógrafa tem vindo a trabalhar nos últimos anos, tendo apresentado no Citemor as obras “La mujer de la lágrima”, “Museos del silencio”, “Todo lo que se mueve está vivo” e “Expulsadas del paraíso.

1.10.12

Citemor em Madrid


De 4 a 14 de Outubro o festival de Montemor-o-Velho estende-se à capital espanhola afirmando a vitalidade e potencial do projecto





É no Teatro Pradillo, em Madrid, que decorre a extensão da 34ª edição do Citemor, um programa que conta com 9 sessões de 3 espectáculos, uma vídeo-instalação, duas “maratonas” de vídeo e uma projecção de cinema.
Uma criação em progresso do Teatro do Vestido, “Monstro (parte 1: Calamidade)”, abre o programa. Esta é a primeira parte de um projecto dividido em três (1: Calamidade; 2: Hecatombe; e 3: Apocalipse), em que o colectivo expõe a situação económica e social em que Portugal se encontra, entendendo que “este é o momento para fazer teatro sobre isto”. “A ‘isto’ chamámos calamidade, e ao conjunto de calamidades que nos trouxeram até aqui, chamámos monstro”, lê-se na sinopse da obra. O espectáculo será apresentado nos dias 4, 5 e 6 de Outubro, às 21h.
Também a partir do dia 4, e até ao final do programa, Luís Alegre passa por Madrid com uma versão para o Teatro Pradillo de “Play Them #02”, vídeo-instalação apresentada na edição de 2011 do Citemor. “Play Them #02 [Pradillo]” é composta por quatro animações produzidas para o festival em que o artista, após pesquisar os registos videográficos do Citemor, opta por intervir sobre a documentação da obra da coréografa Elena Córdoba, artista residente no Teatro Pradillo. A presença de Luís Alegre no Citemor decorre de um programa de curadorias delegadas na área das artes visuais, tendo a sua obra sido comissariada por José Maçãs de Carvalho.
Nos dias 7 (das 12h às 24h) e 14 (das 12h às 20h) de Outubro decorre “Maratón de Video”, uma mostra de vídeos de criadores espanhóis no Citemor comissariada por Fernando Renjifo. Os vídeos são realizados por Hugo Barbosa, colaborador do festival de Montemor-o-Velho, e dizem respeito a espectáculos apresentados no Citemor a partir de 1999. Entre os vídeos propostos encontram-se obras que não estrearam em Madrid, criações in situ e obras realizadas numa grande diversidade de espaços que o festival vem a ocupar em Montemor-o-Velho (ruínas, armazéns industriais, igrejas, campos de arroz, etc.). Esta acção documenta também a relação que os criadores estabelecem com os espaços e a forma como estes marcam as suas criações.
A segunda semana do programa segue nos dias 11, 12 e 13 de Outubro com dança em dose dupla: Francisco Camacho e Rafael Alvarez. “Nossa Senhora das Flores”, um solo do bailarino e coreógrafo português Francisco Camacho, estreado em 1993, é uma das obras de referência da dança contemporânea portuguesa.  Segue-se Rafael Alvarez com a antestreia de “sweetSKIN”, solo com estreia marcada para Novembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem às 21h.
A presença do Citemor em Madrid termina com cinema. “Montemor”, de Ignasi Duarte, uma co-produção Citemor, Periferia Filmes e Pão Filmes, estreou no FID Marseille 2012 onde conquistou uma Menção Honrosa na categoria de Primeiras Obras. “Montemor” tem estreia em Espanha no dia 14, às 21h, no Teatro Pradillo.
O Citemor transporta para Madrid o modelo de acesso aos espectáculos experimentado na sua última edição, onde cada espectador define o preço do bilhete de acordo com a sua condição financeira e expectativas.


Indicador de vitalidade
O Citemor designou, estrategicamente, o espaço peninsular como a sua zona de intervenção preferencial, concretizando na sua relação com Espanha parte nuclear da sua internacionalização. Durante mais de duas décadas, o Citemor revelou em Portugal criadores espanhóis, acompanhou os seus percursos e co-produziu novas obras, ao mesmo tempo que captava financiamentos e apoios para participar produções nacionais e ampliar a difusão dos artistas portugueses nas diversas autonomias. A presença do festival em Madrid surge, de acordo com a direcção do Citemor, “de forma natural, como algo orgânico que resulta de uma prática e uma ética constantes”. A direcção acrescenta ainda que “a ocupação do Teatro Pradillo, em Madrid, durante estas duas semanas, mais do que uma distinção, é um indicador da vitalidade e potencial do projecto, apesar do sub-financiamento a que foi condenado. É um sinal do reconhecimento da influência do festival enquanto entidade produtora e da sua importância para a criação contemporânea na Península Ibérica.” 

Nova direcção do Teatro Pradillo. Fotografia de Marta Pontes


Teatro Pradillo
A 34ª edição do Citemor foi uma edição de resistência, onde se verificou uma alteração de paradigma: deixou de produzir novas obras com os criadores e companhias e passou, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associaram ao festival com o estatuto de co-produtores. O Teatro Pradillo, que  se uniu a esta edição de resistência com a presença de dois dos seus criadores residentes, recebe agora uma extensão do Citemor com artistas portugueses.
Situado no Bairro de Chamartín, o Teatro Pradillo foi inaugurado em 1990 e desenvolveu uma programação artística baseada na difusão de teatro independente. Em 2012, após 22 anos de actividade, uma nova direcção pretende agora revitalizar o projecto, assente num novo modelo de gestão, para assegurar uma posição de referência na criação cénica contemporânea, enfrentando os desafios artísticos, económicos e de relação com os públicos que um novo contexto sócio-económico implica.

30.7.12

ESPECTÁCULO | sweetSKIN | Rafael Alvarez

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


29.7.12

DISCURSO DIRECTO | Rafael Alvarez

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


26.7.12

Espírito de resistência marca 34ª edição do Citemor

texto de Cláudia Teixeira

Numa edição marcada pela alteração de paradigma absolutamente extraordinária, tanto pela programação, como pelas circunstâncias em que se realiza, o Teatro da Garagem estreia a obra “Recusa”. O Teatro O Bando desafia o público a conhecer-se de costas, numa estreia nacional, e Susana Anágua propõe uma nova visão sobre a tradicional produção da região, o arroz. O festival de Montemor-o-Velho decorre de 26 de Julho a 11 de Agosto




“Eu acho que esta vida, esta sociedade, vive muito daquilo que se vê e que é explícito e interessava-nos abordar a temática da cenografia num enquadramento que permitisse às pessoas terem várias visões, várias oportunidades de estimular a curiosidade de ver o outro lado.” As declarações chegam-nos de Palmela e é João Brites, director artístico do Teatro O Bando, quem o diz. “De Costas” fez parte da representação portuguesa “Do Outro Lado” na 12ª Quadrienal de Praga e é, pela primeira vez, apresentada em Portugal. João Brites e Rui Francisco, cenógrafo e arquitecto na companhia, desafiam o público, pelo qual a plateia de 50 cadeiras espera, a escolher a sua hora e conhecer as suas costas. Porque “do outro lado está o desconhecido” e “se fôssemos capazes de ver de inúmeras perspectivas seríamos certamente mais firmes e simultaneamente mais tolerantes com as questões que não fossem essenciais.” A instalação pode ser visitada de 26 de Julho a 11 de Agosto, na Praça da República, em Montemor-o-Velho, das 00:00 às 24:00. Começa assim a 34ª edição do Citemor.
O programa do primeiro dia do festival continua com a vídeo-instalação “GATÕES - Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9”, de Susana Anágua. No seguimento daquilo que tem vindo a ser o seu trabalho de campo – o envolvimento com a região onde intervém e com as suas áreas de produção –, e após uma visita à vila de Montemor-o-Velho, a artista visual propõe uma obra que se centra no característico arroz do Baixo Mondego. Da instalação, patente no Quarteirão das Artes de 26 de Julho a 11 de Agosto (excepto às segundas), das 19h às 22h, fazem parte os vídeos “Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9” e “Do Vale do Paraíba ao Mondego”. Em entrevista ao Blogue Citemor, Susana Anágua explica que o projecto, com música original de Paulo Sousa, parte da visita à Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho, antiga fábrica Patrão Rosete e Sucrs Lda, onde se procede ao descasque e branqueamento de arroz, e de uma relação proporcionada pela apropriação de uma reportagem de uma televisão brasileira acerca da festa de arroz da Prefeitura de Tremembé.
A vídeo-instalação inscreve-se na estratégia de curadorias delegadas, opção do Citemor para abordar as artes visuais, em que o artista da presente edição será o curador na edição seguinte. O processo, que teve início com José Maçãs de Carvalho, continuou com Luís Alegre e apresenta agora Susana Anágua, que será a curadora na edição de 2013.
Das instalações para o teatro. Para o Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, onde o Teatro da Garagem “Recusa” a extinção institucional do Citemor. Carlos J. Pessoa, director da companhia, decidiu escrever uma nova obra para esta edição do Citemor que, devido aos cortes infligidos à cultura, poderá vir a ser a última de 34, afirma a direcção do festival. “Recusa” vai ser apresentado nos dias 26 e 27 de Julho, no Teatro Esther de Carvalho, às 22h30.
Sob o lema ‘Quem dá o que pode a mais não é obrigado’ o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição e de acordo com a sua condição financeira e as suas expectativas. Desta forma, a direcção do Citemor define um modelo que “pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar.”
Em comunicado de imprensa, a direcção do Citemor, explicou a particularidade da 34ª edição do festival e a “alteração de paradigma” que se prende com o facto de “o Citemor deixar de produzir novas obras com os criadores e companhias e passar, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores”, num modelo que é, naturalmente, irrepetível. Questionado acerca da escolha de participar no Citemor como co-produtor, João Brites diz que “é um gesto que não podia ser de outra forma” e sublinha que “o que está em causa não é só o Teatro O Bando e o Citemor. O que está em causa é a soberania do nosso país com a sua língua, com as suas múltiplas tendências.” Carlos J. Pessoa faz um post scriptum à sinopse da obra: “Se o Citemor tiver que morrer, que não morra de esmolas, que morra com dignidade; que morra porque os artistas se calaram ou, então, porque o Armando Valente e o Vasco Neves deixaram de os querer ouvir.”

Citemor reforça presença em Coimbra
O Teatro da Cerca de São Bernardo recebe a bailarina e coreógrafa espanhola Olga Mesa com “Daisy Planet”, espectáculo que integrou o programa do Citemor em 1999. A artista apresenta a obra como “uma carta de amor-ficção, a ideia de que o amor é como um corpo presente, duplicado, íntimo e constantemente exposto.” É nesta peça que o artista visual Daniel Miracle cria o protótipo Neokinok.TV para acrescentar uma nova dimensão ao espaço cénico. Segue-se Rafael Alvarez, com a antestreia do solo “sweetSKIN”, que terá estreia em Setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem no dia 28 de Julho, às 21h30 e 22h30, respectivamente. 
A Mala Voadora mostra-nos a sua colecção de selos singular em que “a iconografia é simultaneamente tema e protagonista visual do espectáculo.” “Philatélie” é uma remontagem especial que pode ser vista na Oficina Municipal do Teatro, no dia 29 de Julho, às 21h30. 
O Teatro Académico de Gil Vicente recebe no dia 31 de Julho, às 21h30, John Romão & Solange Freitas, numa apresentação informal de “Eu não sou bonita. Eu sou o porco”. A obra, com textos de Angélica Liddell e Paulo Castro, é um objecto teatral sobre o abuso sexual na infância, onde “duas figuras se revestem do endemoniamento das personagens de Frans Hals e da nudez grega de Louis David.”

31.7.07

CRÓNICAS - La soledad en escena del concepto

Um dia, algum jornalista decidiu assinar abaixo, separar a crónica jornalística da análise e sem o saber aproximar-se da teologia. Crónica é analise de proximidade, é orientar, explicar, esclarecer, concretizar, mas sem juízos finais.

LA SOLEDAD EN ESCENA DEL CONCEPTO

fotografia de Pablo Caruana

Objetos, preparación técnica, cuerpo y concepto, el artista y el concepto. Rafael Alvarez dibuja en una pequeña hoja sus explicaciones, parecen pasos de danza, recorridos coreográficos que son pensamientos mientras la charla avanza a la hora del café. El lenguaje de la danza y el cuerpo, narrar en otros códigos. Ese es el mundo del baile. El estanque donde abrevamos todos es el mismo: soledad, amor, encuentros, distancias, desencuentros. Hablamos de la primera pieza, “Ultima Chamada”. Rafael presenta tamb ién una pieza nueva, “Colecção privada|”, que estrena aquí en Citemor.


fotografia de Jesús Ubera

Preparaciíon para el estreno. Falta una hora, Rafael Álvarez se sitúa, mueve a su equipo y calienta. Lo que no vamos a ver, los sustentos, la base técnica que fundamenta y posibilita. Aquí se baila, explota la expresividad, explota lo no hecho ni compuesto, lo físico, la carne sin hacer. Detrás y delante. Danza contemporánea conceptual. Procesos y resultados, codificación, encriptación. Pasos lógicos y necesarios llevados al extremo. Ensayo y fisico, desgaste y movimiento. Un animal en escena, con control, capaz de todo. Una capacidad que no mostrará al público más que en breves momentos, por vacilar.


fotografia de Jesús Ubera

Será la modernidad castración. Será la creación la limpieza del material bruto, el afinamiento que acabe en algo mínimo, que deje detrás y muestre un código. Es bonito este código de “Ultimada Chamada”. Si le quitas estaticidad, si le quitas el ritual estético de la modernidad arquetipada, queda una pequeña canciõn pop. Como decía Miles Davis del flamenco “esto es lo mismo que el blues, la quiero, ella no me quiere”. Alimenta ver la adecuación de ese dilema humano a este lenguaje. Como va funcionándo, cómo se le van encontrando maneras de decir. Y hay capacidad visual, aunque lastre el arquetipo publicitario de una sociedad que no existe. Sólo en un areopuerto de ninguna parte de Europa, agarrado a una bolsa de Adidas, tiene su punto. Desmoraliza y humaniza lo rígido a través de un lenguaje estático. Eso mola.

fotografia de Jesús Ubera

La segunda pieza profundiza en la encriptación al mismo tiempo que se va separando de la vida. Ya tan sólo queda Rafael pensando sobre la nada, sobre formas, objetos, contenidos y conceptos que se intentan trascendentalizar. Objetos, encriptación, movimiento de lo cotidiano, identidad sexual. El movimiento de una pieza que se escora. Queda una tercera parte, llegará en el 2008 y Rafael cuenta que contará con más intérpretes en escena. Esperaremos.

Pablo Caruana

29.7.07

DIÁLOGOS - Coleccionador de objectos comuns

fotografia de Jesús Ubera

Uma oportunidade para revisitar esse género chamado “entrevista”, para humanizá-lo e dar espaço a que o criador se explique e não seja questionado.

COLECCIONADOR DE OBJECTOS COMUNS
Conversa com Rafael Alvarez

Estar longe. Estar perto. Cada um dos breves solos de Rafael Alvarez, criados e interpretados pelo próprio, no Citemor, começa desse modo diametralmente oposto. "Última Chamada", peça estreada em 2005, em Lisboa, no âmbito do festival Número, começa nesse "estar longe". "Colecção Privada", em estreia em Montemor-o-Velho, começa nesse "estar perto". As duas compõem um díptico que, para o ano, o criador quer completar numa trilogia, a finalizar em peça de grupo. Apesar dos extremos opostos de onde parte, ou para onde sente que o existir se instalou, distante ou próximo, ambas revelam um sentir comum, que se manifesta em cada caso igual e diferente, dos quais "sentir saudades, coleccionar objectos" ou "perder a noção do tempo" são apenas alguns exemplos. Ao jantar, instantes antes da estreia, há tempo ainda para uma conversa sobre esse movimento do corpo em diálogo com objectos do quotidiano, e que o criador situa no território da dança.


De que forma é que esse oposto, com que inicias a sinopse de cada texto, "estar longe" e "estar perto", depois resulta em dois objectos distintos mas que também revelam ligações e repetições?

Apesar de serem trabalhos autónomos e independentes, fazem parte da mesma trilogia. Até 2008, penso fazer uma terceira peça, que em princípio será de grupo. Mas parto das mesmas bases de trabalho, da mesma metodologia e da mesma ideia. Esta ideia de pensar os relacionamentos e os objectos que estão ligados à nossa vida, e à minha vida pessoal também, e a questão da identidade. Isso reflecte-se num paralelo na abordagem do texto, que verificas na sinopse, porque são coisas que se cruzam muito. Muito embora no primeiro solo, que desenvolvi em 2005, "Última Chamada", mas que aqui apresento também, estivesse mais focado na perspectiva dos espaços públicos, espaço da cidade e da mobilidade, na ideia de trânsito e a ideia também de como é que percepcionas os relacionamentos amorosos enquanto pessoa singular. A ideia da pessoa sozinha, que relações estabelece com a quebra ou com a construção de uma relação. Também há esta ideia de pasagem e de mobilidade entre relações, nesta perspectiva de pessoa singular. Neste segundo solo, "Colecção Privada", parto da mesma ideia, nesse sentido de focar nos relacionamentos amorosos, mas agora nos espaços domésticos e no espaço privado, e pensando a dois. Ou seja, relativamente às relações conjugais de um casal, o que elas estabelecem com o espaço da casa. Ou melhor, com os espaços domésticos e com o binómio entre público e privado.

Há materiais diferentes e uma perspectiva diferente, mas o tema das relações é comum, numa perspectiva individual ou de casal. De que forma é que trabalhaste as repetições que recorrem de uma peça para a outra?

Há coisas que se repetem, isso foi uma das metodologias de trabalho. Ou seja, parti das metodologias que já tinha desenvolvido, parti também dessas bases temáticas. Nesta segunda peça foi trabalhar assumidamente esta questão de duplos, pares, parelhas, casais... tanto nos objectos que estão em cena como também nas acções coreográficas, e de famílias de objectos. Mas depois, na prática, este trabalho é uma instalação de objectos mas que está orientada ou estruturada a partir de uma grelha coreográfica. Eu tenho acções coreográficas, tenho uma escrita coreográfica muito clara e muito precisa. É uma coisa muito minuciosa, mas que se desenvolve a partir da identidade dos objectos. Os objectos são a raiz do trabalho e o que eles simbolizam por si só. A minha tentativa foi não transformar objectos em adereços cénicos. Foi usá-los com a carga que eles têm, por si só. Com o que simbolizam por si só. Mas é com as minhas acções e o posicionamento deles no espaço que eles ganham diversas possibilidades de leitura. E as acções, que eu desenvolvo com eles, é que estão assentes nesta escrita coreográfica. Digamos que o meu corpo, e o movimento dos objectos, estão submetidos a uma escrita coreográfica.

O que queres dizer com 'objectos por si só'? Porque também defendes que são objectos que ganham sentido na tua relação com eles.

As duas coisas. Também são objectos que têm uma leitura imediata por qualquer pessoa, qualquer pessoa encontra uma afinidade ou tem uma imagem de proximidade com eles, seja uma mala de viagem, um casaco, uns óculos de sol, um mapa, uma garrafa de água...

Mas é autobiográfico? Ou seja, são objectos que surgem do teu quotidiano, têm um significado particular para ti?

Não é assim tão claro. Há objectos do meu primeiro solo que, por acidente e por acaso, os encontrei ao longo do processo criativo. Na rua ou à porta de casa, ou numa viagem particular de trabalho, entre viagens e relacionamentos amorosos... Têm esta conotação de construir um mapa de relações numa dada altura. Tem este lado ocasional e de acidente. Alguns importei-os para o trabalho e depois associei outros objectos, outros foram importados de peças anteriores... No segundo solo isso já não acontece, já não há essa relação tão acidental, mas os objectos são próximos de mim, nem que seja por uma afinidade visual. Esses estão mais ligados à noção de encontrar o objecto que acho ideal para traduzir uma determinada ideia, embora deixe sempre em aberto possibilidades de leitura. É um trabalho muito aberto, tento construir algumas narrativas, mas são sempre as narrativas que se situam entre a acção e a narrativa. Não procuro representar, procuro apenas accionar alguma coisa.

Dentro das tuas vertentes de trabalho e de abordagem do acto criativo e do gesto coreográfico - entre a dança, a performance, a pedagogia e as artes visuais - onde é que situas este trabalho?

Nunca penso, no momento em que estou a trabalhar nas coisas, onde situo os materiais, porque tudo se cruza. Obviamente que estas metodologias que, nesta trilogia, estou a aprofundar melhor ou a pensar de uma forma concertada ou com mais atenção, permitiram-me - com os diferentes contextos onde desenvolvo o meu trabalho - experimentar estas mesmas abordagens que proponho a mim próprio. Portanto, estas metodologias com os objectos já implementei em 'workshops' com adolescentes recentemente, com várias turmas do ensino básico. Mesmo relativamente às metodologias que utilizei neste trabalho e também com alguns objectos que inscrevo nestas peças. São objectos banais, malas de viagem, capacetes, mochilas, 'headphones'...

Podes dar exemplo dessa metodologia, que referes, aplicada a um objecto em concreto que utilizas aqui?

Por exemplo, a exploração de casacos que uso nos dois solos, mas de uma forma simbólica. Estão por si só, mas com os grupos que trabalho pedagogicamente fiz uma exposição exaustiva de trabalhos com casacos ou com sacos de compras, sacos de lojas... A ideia é: eu proponho metodologias de trabalho, sendo que as propostas, as narrativas que se constroem, são muito abertas. Por exemplo, uma das coisas que trabalho tem a ver com esta ideia de micro-famílias de objectos. Está relacionado com a questão dos casais, que desenvolvo nos dois solos, mas que também aplico na metodologia, e depois também outras associações de objectos. Por exemplo, neste trabalho parto de objectos contentores.

O que são 'objectos contentores'?

São objectos que contém outros objectos dentro. No entanto, no primeiro solo, são objectos contentores que provocam mobilidade. São malas de viagem, sacos, há ideia de movimento. No segundo trabalho são objectos-caixa, que implicam mais uma ideia de mudança, quase uma casa em mudança. Implica mudar para estabilizar. Este tipo de metodologias de procurar objectos contentores, procurar objectos que comunicam, objectos portáteis, objectos de afectividade, objectos de identidade pessoal... Por exemplo, nos objectos de identidade pessoas tens aquilo que as pessoas levam dentro da mala, a chave de casa, o B.I., o bâton, a garrafa de água, um espelho... As coisas cruzam-se mas não como uma linha de trabalho ou estratégia. Acho que isso também faz parte da minha experiência, a minha formação também é assim. Encontro as coisas e elas fazem-me pensá-las em conjunto, não as separo em compartimentos.

No meio disso, o corpo é o quê? Um objecto?

Neste trabalho o corpo tem várias possibilidades de leitura. Em alguns casos é um objecto, noutros é ferramenta e noutros é uma espécie de narrador activo. É quase como se contasse histórias ou acções que estão fora de mim, ou outras de que faço parte mas que há uma deslocação. São micro-histórias, em que me situo perante um dilema, resolvo ou não aqueles problemas, problemas no espaço. É uma espécie de intérprete-objecto, faz parte daquela paisagem.

Continuas a situar-te dentro da dança? Ainda é possível veres-te neste universo?

Há uns anos questionava muito a noção das fronteiras, onde é que me situava realmente. Hoje em dia, isso não me interpela tanto, porque as minhas ferramentas de trabalho são as ferramentas da dança. Ao utilizar a linguagem de construção que eu utilizo é a dança.

O que são para ti as ferramentas da dança?

Trabalhar num estúdio de dança por exemplo. Ensaiar, fazer uma preparação mais ou menos intensiva de corpo, ou fazer workshops ligados ao movimento com outros criadores... O procurar conhecer o trabalho de outros criadores na área da dança, fazer formação nessa área, o trabalhar pedagogicamente partindo do movimento... Portanto, a minha trajectória tem sido utilizar as ferramentas da construção da dança, muito embora depois cruze outras linguagens que fazem parte da minha experiência ou formação mais ligada às artes visuais e às artes performativas. Estas ferramentas de trabalho que utilizo, são o corpo. Também porque trabalho muito a solo. Tenho esta condição de trabalhar comigo próprio, mas trabalhar com o meu próprio corpo, por isso para mim é claro essa questão da dança. E também porque em alguns dos meus últimos trabalhos, e este é o caso, apesar de ter uma componente muito visual e de à partida o trabalho nascer desta relação de objectos - que resulta quase como uma instalação em movimento - há uma escrita do espectáculo que é coreográfica. Logo, a linguagem, a matéria, é a da dança. Refiro-me mesmo à marcação, ao desenho de movimentos no espaço, Tenho esta ideia de fixação de movimentos no espaço. Esta coisa quase de arquitectura do movimento...

A relação com o festival Citemor começou há dois anos, com a residência de pesquisa com o coreógrafo Christian Rizzo, no âmbito de um programa da Eira. Fala-me dessa experiência.

A Eira 33 tem um projecto, idealizado pelo Francisco Camacho, em que põe em contacto dois criadores, sendo um português e um estrangeiro, mas em que o português convida um estrangeiro com quem gostasse de trabalhar, para se dar como intérprete. A escolha é feita pelo criador português motivado por uma vontade, afinidade, um interesse em trabalhar com esse artista estrangeiro e de se por na pele de intérrpete, dava-se como interprete desse criador. Eu convidei o Christian Rizzo. No nosso caso, a ideia foi pesquisar e não chegar a um objecto final, a uma peça, antes deixar em aberto e concentrar na residência, que foi co-produzida há 2 anos atrás, pelo Citemor e pela Eira. Estivemos quinze dias aqui no Citemor, fizemos duas apresentações informais aqui e depois fomos para Lisboa, para o espaço da Eira, e fizemos uma terceira apresentação informal, depois de mais um período de residência mas já em Lisboa...

Portanto, há dois contextos de pesquisa completamente diferentes: um aqui, em Montemor-o-Velho, e outro no estúdio da Eira, no edifício dos Bombeiros Voluntários, perto do Marquês de Pombal. Como se traduzem, na criação, esses dois contextos distintos?

Desde logo a questão temporal e das horas é muito diferente. Aqui é muito esticado, mas o centro é muito reduzido. Os percurso - ir do café, a comprar o jornal e ir a casa - são mínimos. O tempo rende muito. Depois há a questão de estarmos fora de casa. Pode ser fundamental para uma residência artística mas pode não ser. Depende. Neste caso em que estava a colocar-me no papel de intérprete resultou muito bem, porque foi um bocadinho o fechar a porta de casa e viajar para outro sítio. Foi assim que resultou para mim e para o Rizzo foi o mesmo. Foi sair do país dele e cair numa pequena vila, por isso era uma espécie de férias criativas.

Quando partes para o início de um trabalho, onde o preferes desenvolver?

Depende da criação. Neste solo, que aqui estou a apresentar, optei por desenvolver em Lisboa, na Eira 33, onde estou todos os dias em trabalho. Foi uma questão de optar por questões pragmáticas de criação, porque precisava de estar numa cidade, numa cidade que conhecesse, para poder comprar materiais. Eu dependo muito dos materiais e, à medida que o processo vai acontecendo, tenho de poder ir a determinada loja na rua, na baixa, que já sei onde é, ou procurar um objecto específico que não encontro facilmente e preciso de ter esses recursos acessíveis. Se não encontro esses materiais não posso avançar, não os posso testar para avançar para outro estado. Para este trabalho era muito complicado porque tinha de ter muita mobilidade, ir muito à cidade, ou mesmo a Lisboa, mas perdia imenso tempo e não era prático. Mas depende muito. E depois ia trabalhar sozinho, o que levanta esta questão do isolamento sozinho. Já estou isolado sozinho no estúdio, isolando-me mais ainda deslocando-me para fora da cidade e fora da minha casa... A mim, pessoalmente, podia-me perturbar porque não podia aceder aos materiais nem ao 'feedback' de um determinado número de pessoas. Não poderia ter acesso a coisas banais mas que para mim são importantes, como apanhar o metro. São importantes em alguns processos. Para este eram porque reflecte a questão da vida quotidiana, da minha vida pessoal e da nossa vida. Precisamente essas dinâmicas pessoais de apanhar o metro, comprar alimentos, objectos do nossos quotidiano, chegar a casa... Estas coisas são a base de trabalho deste solo. Mas noutros considero muito positivo, principalmente quando o grupo de pessoas está deslocado da sua casa. Acho que se cria um envolvimento de colectivo e de uma disponibilidade diferente. As pessoas desligam o interruptor e cria-se uma nova dinâmica...

Claudia Galhós