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19.3.13

"O Lamento da Branca de Neve" estreia em França

A obra de Olga Mesa é co-produzida pelo Citemor e foi criada em residência artística em Montemor-o-Velho, em 2010. Estreia amanhã, 20, no Théatre Pôle Sud, em Estrasburgo

Inpirada no filme do cineasta português João César Monteiro e no poema de Robert Walser, a peça "O Lamento da Branca de Neve", da bailarina e coreógrafa espanhola Olga Mesa, decorre nos dias 20 e 21 de Março, no Théatre Pôle Sud, em Estrasburgo. A obra, co-produzida pelo Citemor, pelo Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, FRAC Alsace/Sélestat, e pelo Théatre Pôle Sud estreou em Guimarães - Capital Europeia da Cultura, em Março de 2012, e fez parte da programação do XXVII Festival Internacional Madrid en Danza, em Novembro do ano passado.


Para mais informações visite o site do Théatre Pôle Sud

12.11.12

Branca de Neve viaja para Madrid

O mais recente trabalho da bailarina e coreógrafa espanhola Olga Mesa, "El lamento de Blancanieves", vai ser apresentado entre os dias 14 e 17 de Novembro, no Teatro Pradillo


(Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo)

Depois da apresentação na Culturgest, em Lisboa, "El lamento de Blancanieves", de Olga Mesa, terá agora lugar em Madrid, no âmbito do XXVII Festival Internacional Madrid en Danza. O espectáculo, interpretado pela própria Olga Mesa e pela portuguesa Sara Vaz é uma co-produção entre Portugal (Citemor), Espanha e França e pode ser visto entre os dias 14 e 17 de Novembro, às 21h, no Teatro Pradillo. 
Inspirado no poema de Robert Walser e no filme de João César Monteiro, "El lamento de Blancanieves" foi criada em residência artística em Montemor-o-Velho, em 2010, tendo estreado em Guimarães - Capital Europeia da Cultura, em Março de 2012. 
Ainda no âmbito do XXVII Festival Internacional Madrid en Danza, o Teatro Pradillo acolhe, também, Elena Córdoba e a sua nova criação "Atlas, el gigante y la vértebra", uma obra que teve estreia na edição deste ano do Citemor. O espectáculo decorrerá nos dias 23, 24 e 25 de Novembro. O festival, a decorrer desde 5 de Novembro, é organizado pela Comunidad de Madrid e conta com mais de 50 apresentações de 22 espectáculos diferentes, ocupando a rede de teatros da capital espanhola.

Para mais informações visite os sites do Teatro Pradillo e do XXVII Festival Internacional Madrid en Danza.

7.11.12

Culturgest recebe "O Lamento da Branca de Neve"


A obra de Olga Mesa, criada em residência artística em Montemor-o-Velho, em 2010, e co-produzida com o Citemor, com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, FRAC Alsace /Sélestat e o Théatre Pôle Sud de Strasbourg, vai ser apresentada esta sexta-feira, 9, e sábado, 10, às 21h30, na Culturgest, em Lisboa. Inspirada no poema de Robert Walser e no filme de João César Monteiro, Olga Mesa entende Branca de Neve como a morte. "Para mim, um dos aspectos mais curiosos é a convicção que tenho que o César Monteiro conhecia a Branca de Neve de Walser onde às tantas se lê 'em vez de olhar, prefiro escutar'. Quando li essa frase no Walser pensei que o César Monteiro não estava apenas a mandar a lógica da indústria, neste caso do cinema, às urtigas. Está em sintonia com o Walser. A Branca de Neve deles não queria estar neste mundo, estava desinteressada do mundo, como provavelmente César Monteiro estava. Ele realizou mais um filme e morreu", contou a artista em 2010 ao blogue do Citemor.
A mais recente criação da bailarina e coreógrafa espanhola estreou em Guimarães - Capital Europeia da Cultura e está inserida na programação do festival Temps d'Image. Para mais informações visite o site da Culturgest.


30.7.12

ESPECTÁCULO | Daisy Planet | Olga Mesa

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo

29.7.12

DISCURSO DIRECTO | Olga Mesa

Vídeo e montagem de Hugo Barbosa e Pamela Gallo


26.7.12

Espírito de resistência marca 34ª edição do Citemor

texto de Cláudia Teixeira

Numa edição marcada pela alteração de paradigma absolutamente extraordinária, tanto pela programação, como pelas circunstâncias em que se realiza, o Teatro da Garagem estreia a obra “Recusa”. O Teatro O Bando desafia o público a conhecer-se de costas, numa estreia nacional, e Susana Anágua propõe uma nova visão sobre a tradicional produção da região, o arroz. O festival de Montemor-o-Velho decorre de 26 de Julho a 11 de Agosto




“Eu acho que esta vida, esta sociedade, vive muito daquilo que se vê e que é explícito e interessava-nos abordar a temática da cenografia num enquadramento que permitisse às pessoas terem várias visões, várias oportunidades de estimular a curiosidade de ver o outro lado.” As declarações chegam-nos de Palmela e é João Brites, director artístico do Teatro O Bando, quem o diz. “De Costas” fez parte da representação portuguesa “Do Outro Lado” na 12ª Quadrienal de Praga e é, pela primeira vez, apresentada em Portugal. João Brites e Rui Francisco, cenógrafo e arquitecto na companhia, desafiam o público, pelo qual a plateia de 50 cadeiras espera, a escolher a sua hora e conhecer as suas costas. Porque “do outro lado está o desconhecido” e “se fôssemos capazes de ver de inúmeras perspectivas seríamos certamente mais firmes e simultaneamente mais tolerantes com as questões que não fossem essenciais.” A instalação pode ser visitada de 26 de Julho a 11 de Agosto, na Praça da República, em Montemor-o-Velho, das 00:00 às 24:00. Começa assim a 34ª edição do Citemor.
O programa do primeiro dia do festival continua com a vídeo-instalação “GATÕES - Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9”, de Susana Anágua. No seguimento daquilo que tem vindo a ser o seu trabalho de campo – o envolvimento com a região onde intervém e com as suas áreas de produção –, e após uma visita à vila de Montemor-o-Velho, a artista visual propõe uma obra que se centra no característico arroz do Baixo Mondego. Da instalação, patente no Quarteirão das Artes de 26 de Julho a 11 de Agosto (excepto às segundas), das 19h às 22h, fazem parte os vídeos “Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9” e “Do Vale do Paraíba ao Mondego”. Em entrevista ao Blogue Citemor, Susana Anágua explica que o projecto, com música original de Paulo Sousa, parte da visita à Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho, antiga fábrica Patrão Rosete e Sucrs Lda, onde se procede ao descasque e branqueamento de arroz, e de uma relação proporcionada pela apropriação de uma reportagem de uma televisão brasileira acerca da festa de arroz da Prefeitura de Tremembé.
A vídeo-instalação inscreve-se na estratégia de curadorias delegadas, opção do Citemor para abordar as artes visuais, em que o artista da presente edição será o curador na edição seguinte. O processo, que teve início com José Maçãs de Carvalho, continuou com Luís Alegre e apresenta agora Susana Anágua, que será a curadora na edição de 2013.
Das instalações para o teatro. Para o Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho, onde o Teatro da Garagem “Recusa” a extinção institucional do Citemor. Carlos J. Pessoa, director da companhia, decidiu escrever uma nova obra para esta edição do Citemor que, devido aos cortes infligidos à cultura, poderá vir a ser a última de 34, afirma a direcção do festival. “Recusa” vai ser apresentado nos dias 26 e 27 de Julho, no Teatro Esther de Carvalho, às 22h30.
Sob o lema ‘Quem dá o que pode a mais não é obrigado’ o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição e de acordo com a sua condição financeira e as suas expectativas. Desta forma, a direcção do Citemor define um modelo que “pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar.”
Em comunicado de imprensa, a direcção do Citemor, explicou a particularidade da 34ª edição do festival e a “alteração de paradigma” que se prende com o facto de “o Citemor deixar de produzir novas obras com os criadores e companhias e passar, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores”, num modelo que é, naturalmente, irrepetível. Questionado acerca da escolha de participar no Citemor como co-produtor, João Brites diz que “é um gesto que não podia ser de outra forma” e sublinha que “o que está em causa não é só o Teatro O Bando e o Citemor. O que está em causa é a soberania do nosso país com a sua língua, com as suas múltiplas tendências.” Carlos J. Pessoa faz um post scriptum à sinopse da obra: “Se o Citemor tiver que morrer, que não morra de esmolas, que morra com dignidade; que morra porque os artistas se calaram ou, então, porque o Armando Valente e o Vasco Neves deixaram de os querer ouvir.”

Citemor reforça presença em Coimbra
O Teatro da Cerca de São Bernardo recebe a bailarina e coreógrafa espanhola Olga Mesa com “Daisy Planet”, espectáculo que integrou o programa do Citemor em 1999. A artista apresenta a obra como “uma carta de amor-ficção, a ideia de que o amor é como um corpo presente, duplicado, íntimo e constantemente exposto.” É nesta peça que o artista visual Daniel Miracle cria o protótipo Neokinok.TV para acrescentar uma nova dimensão ao espaço cénico. Segue-se Rafael Alvarez, com a antestreia do solo “sweetSKIN”, que terá estreia em Setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem no dia 28 de Julho, às 21h30 e 22h30, respectivamente. 
A Mala Voadora mostra-nos a sua colecção de selos singular em que “a iconografia é simultaneamente tema e protagonista visual do espectáculo.” “Philatélie” é uma remontagem especial que pode ser vista na Oficina Municipal do Teatro, no dia 29 de Julho, às 21h30. 
O Teatro Académico de Gil Vicente recebe no dia 31 de Julho, às 21h30, John Romão & Solange Freitas, numa apresentação informal de “Eu não sou bonita. Eu sou o porco”. A obra, com textos de Angélica Liddell e Paulo Castro, é um objecto teatral sobre o abuso sexual na infância, onde “duas figuras se revestem do endemoniamento das personagens de Frans Hals e da nudez grega de Louis David.”

20.7.12

Resistir

A 34ª edição do Citemor decorre em circunstâncias extraordinárias. Após cortes sucessivos impostos pela DG Artes, que representam no nosso caso uma perda, em dois anos, de aproximadamente 75%, esta é uma edição de resistência. Um gesto simbólico que pretendemos com significado político.
Nesta edição verifica-se uma alteração de paradigma. O Citemor deixa de produzir novas obras com os criadores e companhias e passa, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores. Este modelo, implementado para obviar os custos de uma paragem em 2012, é, naturalmente, irrepetível.
Numa edição particularmente difícil, só possível graças ao empenho de parte da comunidade artística, o Citemor reforça a sua presença em Coimbra partilhando a sua programação com as três principais salas da cidade: Oficina Municipal de Teatro, Teatro da Cerca de São Bernardo e Teatro Académico de Gil Vicente. 
O modelo de acesso aos espectáculos pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar. Os bilhetes não terão preço fixo, sendo este estabelecido pelos próprios espectadores no momento da sua aquisição. Queremos viver cada momento deste festival como uma celebração, com a consciência de que poderá ser o último de 34.
Quando falamos do Citemor, não está em causa apenas um festival. O Citemor é muito mais do que uma mostra. Dada a sua vocação produtora, além de contribuir para a ampliação de um circuito de difusão, co-produz e está associado à criação de dezenas de novas obras no teatro, na dança, nas artes visuais e algumas propostas híbridas, um traço de identidade fundamental no projecto.
Apesar das dificuldades evidentes e da suspensão da programação do Teatro Esther de Carvalho, o nosso balanço não é de todo negativo. Teve estreia em Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura, "El Lamento de Blancanieves", de Olga Mesa, uma co-produção Citemor com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, com a FRAC Alsace e com o Théâtre Pôle Sud de Strasbourg; em Junho integrámos com "Montemor", de Ignasi Duarte, a Selecção Oficial do FID Marseille, festival de referência que explora as fronteiras do cinema documental, obtendo uma Menção Honrosa; e estamos a programar para Outubro, no Teatro Pradillo, em Madrid, uma mostra de criadores nacionais.
O Citemor é hoje um factor decisivo de identidade territorial, contribuindo para uma imagem moderna da região associada à criação artística. Revela um impacto considerável na economia local e teve sempre uma estratégia de internacionalização eficaz. Mas o capital que detemos, proveniente de mais de 30 anos de uma prática continuada, está definitivamente em causa.
Neste momento queremos reafirmar algumas posições já assumidas. A cultura é um sector cronicamente sub-financiado e sub-avaliado quanto ao seu real contributo para a economia das cidades, das regiões e do país, em particular as artes performativas. Não nos parece sensato, sob o ponto de vista económico, desinvestir desta forma e impôr cortes cegos num sector que, apesar de já descapitalizado, mantinha a sua capacidade produtiva intacta.
A cultura não é uma despesa, é um investimento. A criação artística contemporânea constituirá amanhã o nosso património, o nosso legado. Um país sem criação contemporânea é um país desmaiado, sem alma e, a prazo, sem identidade.
A Direcção do Citemor

15.8.11

CRÓNICA | A vida entre os mortos

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

"Ela está deitada de olhos fechados" - lê-se nas legendas mudas que surgem num dos ecrãs em cena. "Ela", tudo indica, é Branca de Neve. Afinal trata-se do espectáculo "El lamento de Blancanieves" de Olga Mesa. Mas esse "ela" toca mais fundo a natureza humana a que se refere. "Ela" é uma experiência sensível, interior, profunda. Diz de nós que não sabemos como viver se não num mundo de mortos. Uns porque são carrascos. Outros porque se recusam a sonhar. É disso também que nos fala a introdução à peça? No texto que vai subindo no ecrã podemos ler: "Nesta nova versão do conto, Branca de Neve acorda depois do beijo, num campo de concentração abandonado".
O cenário do viver é tendencialmente de guerra - interior ou exterior, inter-pessoal ou de massas. Também na obra de Olga Mesa, a guerra é uma paisagem que se insinua. Mesmo que exista apenas como uma banda-sonora distante, num movimento de luz escondido dentro de um labirinto de cartões, onde habitam risos, olhares de sedução e medo. De quem fala então Olga Mesa quando fala de Branca de Neve? De quem fala Olga quando fala de Branca de Neve e fala da rainha? Quando fala de Branca de Neve e da rainha, Olga Mesa e Sara Vaz - que com ela partilha a cena - falam ainda de Olga Mesa e de Sara Vaz. E de todas as pessoas que debruçam o seu olhar sobre elas - os espectadores, as câmaras apontadas a elas, a câmara que transportam consigo e que desloca o seu próprio olhar fora do corpo? Fala de morrer entre os mortos? Ou fala de resistir?
Uma das abordagens possíveis ao espectáculo "El lamento de Blancanieves" é por via das leituras simbólicas sugeridas pelo seu complexo aparato material e formal. São impressões marcadas na carne de um império de terror, onde a vida humana vale muito pouco quando comparada com o preço dos bens essenciais que as medidas de austeridade e a fome propagam em diferentes proporções e por diferentes causas em paisagens tão distantes como a Somália e os países europeus que, em resposta à crise económica, implementam os ditos planos de austeridade. A vida acontece entre guerras e tudo são mortes sem sentido. Como as milhares de crianças assassinadas por senhores do mundo que fazem uma desigual distribuição da riqueza. Há um infanticídio que permanece impune, de que fala Jean Ziegler em "L'Empire de la Honte": "No início do III milénio, a miséria atingiu um nível mais chocante que em qualquer outra época da história. É assim que mais de 10 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem cada ano de sub-nutrição, de epidemias, de poluição de águas e de insalubridade. 50% destas mortes ocorrem dentro dos seis países mais pobres do planeta. 42% dos países do Sul abrigam 90% das vítimas. Estas crianças não são destruídas por uma falta objectiva de bens, mas por uma distribuição desigual destes. Ou seja, por uma falha artificial."
Este é o mundo de que "Branca de Neve" de Olga Mesa faz parte, com filiação no espírito das versões do poema de Robert Walser ou do polémico filme de João César Monteiro. A Branca de Neve de Olga Mesa é uma mulher que foge. Há a fuga para a floresta densa - real ou simbólica -, a respiração acelerada, o riso nervoso e o grito. A escuridão pressente-se na primeira parte da obra, com os momentos de luz quase inexistente e os panos pretos que cobrem as lentes das câmaras de filmar fixas. As "câmaras objectivas"? A escuridão materializa-se numa segunda parte, por via dos ecrãs negros que o público pode ver, por vezes interrompidos apenas por um movimento de letras brancas, e nas imagens vídeo projectadas onde o olhar persegue a mulher que foge para dentro de uma outra negritude.
O imaginário comum partilhado da dor humana recupera imagens do Holocausto, de Hiroshima. O abismo da morte a espreitar a vida. Ou a vida a espreitar a morte. Mas esse recuo até ao passado faz a ligação a um presente que instala uma outra ordem de horror, num misto de atracção e medo.
Walser e César Monteiro, matéria inspiradora deste espectáculo, propõem uma outra leitura de Branca de Neve. Há um ano, quando partilhava os materiais de uma fase mais inicial da peça, também em residência artística em Montemor-o-Velho, já extra festival, Olga falava disso mesmo: Branca de Neve é a morte. "Para mim, um dos aspectos mais curiosos é a convicção que tenho que o César Monteiro conhecia a 'Branca de Neve' do Walser, onde às tantas se lê 'em vez de olhar, prefiro escutar'. Quando li essa frase no Walser pensei que o César Monteiro tinha entendido que a Branca de Neve é a morte. César Monteiro não estava apenas a mandar a lógica da indústria, neste caso do cinema, às urtigas. Está em sintonia com o Walser. A Branca de Neve deles não queria estar neste mundo, estava desinteressada do mundo, como provavelmente César Monteiro estava. Ele realizou mais um filme e morreu."
O branco permanente do ecrã de César Monteiro não contraria a imagem cinematográfica, antes abre em possibilidades infinitas o potencial de aparição de imagens. O branco é o espaço aberto, depois que tudo acabou. É a possibilidade em potência depois da destruição avassaladora.
Poderíamos supor que o apelo ao público que Olga faz a partir deste discurso, passaria por uma negação do sentido da imagem, inerente à entrega a esse primeiro gesto: fechar os olhos. E escolhendo uma relação mais crítica com o olhar, pôr em jogo com maior implicação de significado a audição. É um facto que a banda-sonora é trabalhada ao pormenor, e tem um papel fundamental nesta peça, ganhando sentido diverso no acompanhamento que faz na primeira parte, ao vivo, do sentido que carrega na segunda parte, projecção de vídeo. Na composição sonora desta Branca de Neve, cabem palavras ditas, sons de breves gritos ou suspiros, silvos interiores, banda sonora instrumental para criação de ambiente (suspense, terror, mistério), e músicas iconográficas - a morte do cisne, em "O Lago dos Cisnes" de Stravinsky, que as duas intérpretes dançam nuas, em permanente queda.
Mas esta aproximação crítica à ditadura da imagem não é pura rejeição ou negação da mesma. É antes procurar uma outra relação, investigar as possibilidades de ver para além do imediato. Significa não a retirar ou anular, mas antes incluí-la na equação, numa combinação de imagens provenientes de fontes diferentes e intermediadas por via de diferentes meios, sendo um deles o "corpo-operador" das intérpretes. Parte das filmagens são feitas assim 'sem rede', ao vivo, em plano contínuo, entre a elaboração do enquadramento e a reprodução da instabilidade da mão humana - interface de relação da câmara com o "corpo-operador" -, na imagem tremida pela câmara móvel, a "câmara subjectiva". Esta, que é uma questão estimulante, que na fase em que o projecto está, não está superada. Mas como superar a imagem, no seu sentido mais mundano, sedutor e manipulador, não negando simplesmente a imagem, mas antes usando-a? O que resta depois?
"O que me interessa não é construir com o corpo as imagens, mas falar do que está por detrás", dizia Olga em 2010. É um interesse que tem paralelo no conceito de "fora de campo", que há muito pesquisa, e que é evocado no nome da sua estrutura, Association Hors Champ/Fuera de campo. Em "El Lamento de Blancanieves" o tema ressurge. "Comecei a desviar e a procurar não a acção em si mesma, não a captação das coisas, mas o espaço em redor das coisas. Relativamente ao tema da guerra, era interessante, porque estava à procura, primeiro, dos indivíduos e não tanto da guerra. Também não era tanto o momento da guerra mas o depois, quando tudo está quase já perdido. Quando tudo tem que recomeçar ou inevitavelmente a vida continua."
E de um modo que nunca se rende ao óbvio, repete em nova fórmula esse movimento do desviar do foco de atenção do centro para a periferia. Revaloriza num sentido interrogador, sem soluções para já, tudo o que ficava além do que o olhar via, fosse por se situar na margem ou por estar escondido para lá (ou nos bastidores) da imagem. Talvez para reivindicar a crença na utopia.
"A utopia não é visível se não ao olho interior", escrevia Jorge Luis Borges. O gesto revolucionário é esse, de fechar os olhos. O realismo da utopia é então uma urgência. Bem entendidos que, se formos generosos na forma de entrega à utopia podemos permitir a entrada do sonho na sua prática quotidiana. Mas esta noção de utopia implica uma qualidade específica para esse estado, que chamaremos sonho, mas pode ser delírio, pode ser fuga, pode ser resistência... Implica mudança. Morte. Implica alterar ritmos - logo, tem implicações na vertente temporal da peça, já não simplesmente no interrompimento da velocidade exterior, mas em pulsações de ritmos variantes mas que não cedem a uma ideia de gestão de eficácia da atenção do espectador, antes reforça o desafio à atenção. Implica agir sobre o espaço - a moldura de cena são paredes finas, brancas, que amplia em versão aberta e simplificada o labirinto de cartão castanho situado no seu interior. Implica alterar o sentido de personagem - nessa instabilidade da identidade, que transita entre ser Branca de Neve, Rainha, as próprias intérpretes ou uma outra entidade que não pode ser contida em nenhuma destas ou outra tipificação e que dispara para referentes reconhecíveis, mesmo que alterados de forma libertária e libertadora - as bailarinas de "O lago dos Cisnes", aqui em versão de corpo feminino nu, em pontas, em permanente desequilíbrio; uma vertigem da imagem e grito de terror, entre "Blair Witch Project" e despojos humanos da guerra; o temperamento físico de vaudeville em final de festa, saltos altos, corpo semi-nu e máscara de brilhantes, a citar o filme "O lamento da Imperatriz" de Pina Bausch, em que uma bailarina desce em passo titubeante, saltos altos, com um acordeão uma montanha instável de pedras negras, ao som da música do mesmo filme que transita para a cena e o filme em "O lamento de Blancanieves".
Mas tudo o que podemos ver está ainda para além do reconhecimento destas imagens. Está nas vozes interiores. O apelo a esta sensibilidade delicada do ver e escutar há muito faz parte do universo de Olga Mesa. Mas concretamente, na última criação, esse era um tema assumido, "Solo as ciegas (com lágrimas azules)".
Com os olhos fechados, importa suspender o olhar para além do horizonte - diríamos se juntarmos a voz de Henri Lefevre a Borges. O que escreve o primeiro sobre este assunto? "Os que pensam suspender o seu olhar sobre o horizonte e se ficam a contemplar o que todos vemos, os que reivindicam o pragmatismo e tentam fazer somente uso do que temos, não têm hipótese alguma de mudar o mundo... Apenas aqueles que focam o olhar em direcção ao que não vemos, os que olham para além do horizonte são realistas. Esses têm hipótese de mudar o mundo... A utopia é o que está para lá do horizonte".
Nesta lógica, o que ela faz ao pôr em acção, como conceito e estado humano, um corpo que opera um artifício - neste caso uma câmara de filmar - é mais do que meramente assumir em cena a materialização da ideia propagada de um corpo contemporâneo tecnológico. Ela procura o sentido dessa relação, entre o humano e o tecnológico, superando a mera constatação de que os sentidos se ampliam através de novas próteses, acessórios que fazem por exemplo os olhos ver o que não existe através de câmaras e projectores de hologramas 3D, entre outros... Todo o aparato técnico e material que é convocado nesta peça não fala disso. Toma essa realidade como um factor adquirido e vai para além dele. Indo para além, empreende um duplo movimento, simultaneamente para o passado e para o futuro, sublinhando a experiência do presente. Por isso se jogam as memórias.
A história da humanidade sangra a preto e branco num ecrã que, num primeiro momento, nos escapa ao olhar. Está escondido no interior do labirinto de cartão. Para além das três câmaras de filmar e os projectores que revelam a imagem, temos cartão, corpo humano e pouco mais.
Estes são alguns dos aspectos de uma narrativa possível que podemos identificar dentro da estrutura de composição física daquele espaço cénico-expositivo. Entramos aqui na análise conceptual ou teórica sobre as questões de ordem artística e normativa postas em cena - onde cabem noções-queridas da coreógrafa como "corpo-operativo", "câmara subjectiva", "câmara objectiva", "fora de campo", etc. Estes conceitos em pesquisa na prática artística, disparam nesta peça em referentes literários, cinematográficos, coreográficos, cujo levantamento por si permitiria a escrita de um dicionário com o léxico pessoal da criadora e um glossário de fontes de referência, a maior parte caracterizando-se por escapar ao património mais mainstream da memória comum, mesmo que passando por ele... Em toda essa viagem, depois dos olhos fechados, é o corpo em abandono de uma mulher, abandonado também pela própria mulher, em que nos fixamos. Um corpo num espaço na fronteira limite do espelho de Alice, que ficou preso à superfície reflectora. Não passou para o outro lado, nem se mantém no seu exterior. É um corpo que nos escapa, que se escapa ao corpo próprio, e que não quer ser aprisionado pela imagem. O que resta depois? É isso que Olga Mesa procura.

11.8.11

CRÓNICA | Introdução ao corpo-operador de Olga Mesa

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Em 2010, Olga Mesa apresentou uma versão em fase inicial do projecto de pesquisa que tem aprofundado nos últimos anos e que dá por nome de labOfilm, de que "El lamento de Blancanieves" é o primeiro episódio. Hoje (dia 11 de Agosto) apresenta em antestreia a mesma peça em fase mais aprofundada de pesquisa, mas a estreia está marcada para o início de 2012, em Guimarães.
Este é um mundo complexo, que mergulha num pensamento sobre a arte, o corpo, a imagem, a subtileza do que se escolhe dar a ver e o que se esconde, e o valor simbólico desse jogo de revelação e ocultação que transporta um sentido poético e filosófico que chega a nós por via desta forma singular que toca a dança, a performance, o teatro, o cinema, as artes visuais, a instalação...
São várias as portas possíveis de entrada no mundo de Olga Mesa. Para já, fica uma primeira aproximação que recupera a memória das primeiras experiências de Olga Mesa com câmaras em contextos performativos, num breve excerto de uma conversa tida em Agosto de 2010, fase de residência criativa de Olga Mesa em Montemor-o-Velho, que antecedeu uma partilha de materiais nesta localidade, já extra o programa do festival. Primeiras impressões sobre conceitos como "corpo-operador", "câmara subjectiva" e "câmara objectiva" em aprofundamento nesta peça.

"No projecto labOfilm há muito material de obras anteriores. Creio que é um projecto que está à procura de um dispositivo num espaço. Está a questionar o corpo em relação a esse espaço com o interface da câmara. É mais a articulação dramatúrgica que põe em questão o que o corpo-operador vê a partir do subjectivo e o que constrói. O ponto de partida do labOfilm foi o ano de 2007, então com duas câmaras. Havia a câmara subjectiva - que levava comigo -, e a objectiva - que era posicionada fora, com alguém detrás dessa câmara, a olhar para mim, a filmar-me. Era um primeiro dispositivo de alguém que filma alguém que filma. Havia já esse olhar duplo exterior.
Aí trabalhámos com esse pequeno dispositivo. A ideia ligava-se com o retomar a origem do meu trabalho, o que remetia para o uso de uma câmara. Ao longo destes anos percebi que, quando comecei, usava a câmara porque tinha por objectivo fazer uma peça cénica e uma peça visual. Foi quando fiz o vídeo "Europas", em 1995, com o Francisco Camacho e a La Ribot e, em paralelo, uma produção para o CCB, quando Gil Mendo era programador de dança, em 1994, "Des/Aparições". E fiz este filme, um vídeo de 15min, que na altura foi uma complicação... Não era vídeo-dança, eu estava já a trabalhar com a câmara, não tanto relativamente à dança mas por relação com os espaços. A ideia era construir uma dramaturgia a partir dos espaços e do quadro/moldura. O corpo estava presente a olhar. Era um corpo já espectador dentro do quadro...
O que se passou depois daí, na minha trajectória, é que levei a câmara para o palco. Não fiz mais filmes fora desse contexto. Até 2004, com "Solo a ciegas", a câmara tem assumido diferentes identidades. E essa câmara estava cega. Filmávamos gestos e momentos que o público não via. Não mostrávamos imagem. Chegar a essa câmara cega foi o aproximar do que realmente interessa, que não é a imagem dada a ver, mas o que está por detrás da câmara. Neste caso está relacionado com o corpo-operador. É aí que identifico este interesse, não tanto pelo visível, não tanto pela imagem em si mas o interesse pelo que o espaço pode construir no emergir da imagem..." (a continuar...)

10.8.11

ANTEVISÃO : 3º semana

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Espanha chega ao Citemor na terceira e última semana do festival. Olga Mesa, Sergi Fäustino e Ana Buitrago são os nomes em presença, que traduzem três abordagens distintas ao acto criativo que, tendo a sua origem geográfica no país vizinho, não está contido nessa fronteira física e cultural. Se esse facto é verdade para a interrogação sobre o gesto artístico, a pesquisa sobre as possibilidades expressivas, simbólicas, poéticas e psicológicas do corpo, que de forma distinta cada um opera em cena, é mais ainda quando consideramos o nome de Olga Mesa. No caso de Olga, trata-se de um percurso afirmado fora do país de origem, muito como acontece com uma certa geração a que pertence, como La Ribot, por exemplo - uma primeira geração da dança contemporânea espanhola.
Em "El Lamento de Blancanieves" - que se apresenta em estreia na Oficina Municipal de Teatro (Coimbra, quinta e sexta, 11 e 12) -, o espaço construído perante o olhar do espectador instala uma proposta simultaneamente visual, plástica, cinematográfica, coreográfica e teatral. Ecrãs, câmaras de filmar, lugares de desaparecimento, aparições de imagens de ficção..., são alguns dos elementos de uma sugestiva proposta artística onde a voz que se escuta vem de dentro do corpo e liberta para o exterior um som que carrega uma profundidade delicada do sentir. Uma montagem fílmica num palco que poderia ser um espaço de galeria para uma performance onde se jogam as questões da realidade e ficção, do que é dado a ver e o que se esconde, que toca interrogações sobre intermediação e interpretação, e sobre entregar-se ali, para se dar aos outros e a si própria. O espectáculo acontece no Citemor em ante-estreia, sendo o festival co-produtor desta criação que tem estreia prevista para o início de 2012. "El lamento de Blancanieves" toma como ponto de partida a história de "Branca de Neve" por via de duas fontes de inspiração principais: por via da versão do escritor Robert Walser, que carrega e adensa de forma poética toda a densidade psicológica do conto de fadas original; e o polémico filme de César Monteiro, em que a história se escutava nas vozes dos actores, num ecrã sempre branco, onde todas as possibilidades de imaginação se expandem.
Sergi Fäustino apresenta-se pela primeira vez ao público português, com uma peça de pesquisa sobre o corpo exausto e quais as alterações, no corpo e no ambiente e espaço circundante, que esse estado limite opera. "Estilo Internacional. Investigación alrededor de un cuerpo cansado" (sábado e domingo, 13 e 14, na Quinta do Taipal) é também uma co-produção do festival e resulta na apresentação do resultado da residência de criação realizada pelo artista em Montemor-o-Velho. Significa isto que consiste na partilha com o público de um momento de pesquisa de materiais, organizada formalmente como espectáculo, mas não se constitui como apresentação de uma peça terminada.
Ana Buitrago estreia "Apuntes mínimos" (13 e 14, sábado e domingo, às 22h30, Sala B) que, desde logo pelo título, indicia a intenção de trabalhar sobre o pormenor e a minúcia. Neste caso essa composição experimental é aplicada a uma pesquisa sobre o gesto e o movimento, com o desejo de os separar "da sua possível simbologia para emergir no corpo, na sua escritura como linha e ponto, como lugar de expansão em trânsito", segundo palavras da criadora e intérprete.