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11.12.12

Co-produção Citemor estreia amanhã

“Eu não sou bonita. Eu sou o porco”, obra dirigida por John Romão, está em cena na associação cultural Negócio/ZDB, em Lisboa, até 29 de Dezembro

(Fotografia de Susana Paiva)

Um objecto teatral sobre o abuso sexual na infância e na adolescência. É isto que nos propõem John Romão e Solange Freitas, intérpretes de “Eu não sou bonita. Eu sou o porco”, espectáculo com estreia marcada para amanhã, 12, na Negócio/ZDB, em Lisboa. A obra, apresentada informalmente na edição deste ano do Citemor, é a mais recente criação de John Romão e baseia-se em textos de Angélica Liddell e Paulo Castro. “Em cena, uma linguagem de um lirismo que evoca o universo negro dos contos infantis e o cinema gore, num peep show pictórico alimentado por duas figuras que se revestem do endemoniamento das personagens de Frans Hals e da nudez grega de Louis David”, lê-se na sinopse do espectáculo.
“Eu não sou bonita. Eu sou o porco” é uma co-produção do Citemor com o Colectivo 84 e a Vertigo e decorre até 29 de Dezembro, de quartas a sábados, às 21h30, na Negócio/ZDB, em Lisboa.

Para reservas e mais informações, visite o site da Negócio/ZDB


(Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo)

28.3.12

"Morro como País", do Colectivo 84, apresentado em Oslo

Jonh Romão, com o Colectivo 84, apresenta hoje, 28, e amanhã, 29, "Morro como País", no Black Box Teater, em Oslo. A obra é uma co-produção com o Citemor e foi desenvolvida em residência artística em Montemor-o-Velho, em 2010.

Aproveitem para (re)ler a entrevista de Cláudia Galhós ao Colectivo 84, realizada aquando a residência artística do grupo em Montemor-o-Velho: Histórias de um país à beira da morte.


EM ENSAIO | Morro como País | Colectivo 84
Vídeo de Hugo Barbosa e Pamela Gallo

7.9.10

VÍDEO 2010

imagem e edição de HUGO BARBOSA e PAMELA GALLO


EM RESIDÊNCIA | Olga Mesa





ESPECTÁCULO | Tiago Pereira





ESPECTÁCULO | Diabo na Cruz





ESPECTÁCULO |Expulsadas del paraíso | Elena Córdoba





ESPECTÁCULO |Todo lo que se mueve está vivo | Elena Córdoba





DISCURSO DIRECTO | Elena Córdoba





DISCURSO DIRECTO | Tiago Pereira





EM ENSAIO | Expulsadas del paraíso | Elena Córdoba





EM ENSAIO | Todo lo que se mueve está vivo | Elena Córdoba





EM RESIDÊNCIA | Todo lo que se mueve está vivo e Expulsadas del paraíso | Elena Córdoba





ESPECTÁCULO | Nova criação 2010 | Francisco Camacho





DISCURSO DIRECTO | Fernando Renjifo





ESPECTÁCULO | Tiempos como Espácios | Fernando Renjifo |





ESPECTÁCULO | Impromptus | Fernando Renjifo





ESPECTÁCULO | El Lugar y la Palabra. Conversación Interferida. Beirut | Fernando Renjifo





EM ENSAIO | Nova Criação 2010 | Francisco Camacho





EM ENSAIO | El Exilio y el Reino | Fernando Renjifo 





CHECK IN | Francisco Camacho





ESPECTÁCULO | La Mujer de la Lagrima | Elena Córdoba





MONTAGEM E ENSAIO | Elena Córdoba





DISCURSO DIRECTO | Colectivo 84





ESPECTÁCULO | Colectivo 84





EM ENSAIO | Morro como País | Colectivo 84





DISCURSO DIRECTO | Mala Voadora





EM MONTAGEM | Morro como País | Colectivo 84





ESPECTÁCULO | Single | Mala Voadora





EM ENSAIO | Single | Mala Voadora





EM MONTAGEM | Single | Mala Voadora





DISCURSO DIRECTO | Susana Vidal





ESPECTÁCULO | Simulacros (2) | Susana Vidal





ESPECTÁCULO | Simulacros de Susana Vidal






EM ENSAIO | Simulacros de Susana Vidal






EM MONTAGEM | Simulacros de Susana Vidal






ESPECTÁCULO | Norberto Lobo





CHECKSOUND | Norberto Lobo




FOTOGRAFIA 2010

imagens e edição de SUSANA PAIVA


ESPECTÁCULO | Diabo na Cruz









EM ENSAIO | Todo lo que se mueve está vivo + Expulsadas del paraíso | Elena Córdoba





EM ENSAIO | Expulsadas del paraíso | Elena Córdoba





EM ENSAIO | Todo lo que se mueve está vivo | Elena Córdoba





EM ENSAIO | Nova Criação 2010 | Francisco Camacho





EM ENSAIO | El exilio y el reino | Fernando Renjifo





EM ENSAIO | La mujer de la lágrima | Elena Córdoba





EM ENSAIO | Morro como país (2) | Colectivo 84





EM ENSAIO | Morro como país | Colectivo 84





EM ENSAIO | Single | Mala Voadora





RETRATO | Elena Córdoba 





ESPECTÁCULO | Simulacros de Susana Vidal





ESPECTÁCULO | Norberto Lobo









EM ENSAIO | Simulacros de Susana Vidal





15.8.10

DISCURSO DIRECTO | Pedro Mira

Teatro esculpido na areia
texto de Cláudia Galhós


fotografia de Susana Paiva

Em cena, no espectáculo «Morro como País», do Colectivo 84, de John Romão, há um carro em tamanho real, esculpido em areia. Ao fundo, em cima de uma mesa, pequenas esculturas de edifícios constroem um imaginário onde a cidade se reproduz num desconcertante e cruel encontro entre um certo real e um sonho de infância. Pedro Mira é o autor destas obras, é o escultor de areia. É todo um outro mundo de possibilidades na relação entre o corpo e a matéria para a criação de uma obra que vive muito do processo de composição – como um acto performativo - e em que grande parte do seu valor está na efemeridade. Tudo será destruído em pouco tempo. O que ficam são apenas memórias e alguns registos documentais. É um outro modo de olhar para a escultura de areia, mais habitual em contextos de grandes aparatos turísticos e reproduções de espanto para encher o olho.

Como é que a escultura de areia surgiu no teu percurso?

Interessei-me por escultura muito cedo. Estudei Belas Artes em Lisboa. No final da licenciatura aconteceu-me o mesmo que acontece a muitos dos que se formam em escultura: não há trabalho. Dei aulas, fiz um bocadinho de tudo. Tenho curso de fotografia e comecei a trabalhar com ourivesaria. Na ourivesaria fiz um trabalho figurativo. É muito complicado viver da arte e na escultura sem ser por via da criação de algo concreto. Mas sempre quis fazer escultura, não quis ser professor e fui fazendo escultura nos tempos livres e tive de encontrar uma maneira de fazer escultura e ganhar dinheiro com isso. Logo comecei a fazer uma escultura mais comercial, a trabalhar em ourivesaria e fui viver para o Alentejo, onde fazia as minhas esculturas e estava em constante viagem a Lisboa. A escultura de areia apareceu a meio do percurso. Há poucos anos, no meio de mais uma crise profissional em que não tinha trabalho, fui à procura e lembrei-me, por acaso, que havia o Festival do Algarve de esculturas de areia, o único grande festival que existe em Portugal. Fui contratado como ajudante porque não era escultor, mas passados alguns dias já estava a fazer a cena principal de uma reprodução de A Última Ceia.

Foi o suficiente para despertar um interesse artístico ou era um meio de subsistência?

Sempre fiz esculturas na praia, desde que me lembro e quem gosta de esculturas faz mais, naturalmente, do que as outras pessoas. Profissionalmente começou realmente como uma necessidade, mas apaixonei-me rapidamente. Não sabia que era possível fazer estas coisas em areia.

O que é que te despertou maior interesse nesta matéria para esculpir? Ou seja, podermos vê-la para além da exploração mais folclórica e turística habitual da escultura de areia?

A escultura de areia é folclore, no sentido de que é uma arte muito popular, para agradar às massas, para ser lucrativo, para vender bilhetes para a entrada no parque temático, etc… No estrangeiro fazem concursos financiados pelo Ministério da Cultura e das Câmaras Municipais. É uma coisa muito popular. A maior parte das vezes não é arte contemporânea. E acaba por ficar reduzida a esta associação mais imediata… No entanto, a areia enquanto material pode ser como um outro qualquer material na escultura. Ninguém diz, ‘sou escultor de ferro‘ ou ‘sou escultor de pedra‘… E as pessoas não perguntam: como é que começou a ser escultor de pedra? Perguntam: como é que começou a ser escultor? Por acaso trabalha a pedra. Na areia é-se sempre escultor de areia. E logo isso faz diferença. E de facto também na escultura em pedra, em metal ou bronze existe a abordagem como arte popular neste sentido de que falamos… Se bem que a areia pode ser espectacular, pode ter muito impacto pela dimensão, e tem sempre o lado de propor o olhar para o virtuosismo da coisa. A surpresa perante a capacidade de fazer certo tipo de esculturas na areia…

Mas a ti o que é que te interessa?

A mim interessa-me particularmente o gozo de fazer. Um dos maiores prazeres da minha vida é o trabalho que tenho. Não o trabalho como conceito e sim a relação física e psicológica com o material, é algo que vem de dentro. E a areia é um material fantástico. Em termos plásticos, consegue-se fazer tudo o que se queira em areia, é muito expressivo.

Mas acaba por ser contraditório com a ideia mais convencional de escultura, que associamos a algo que perdura, enquanto no caso da areia há a efemeridade, tal como as artes performativas. Algo que se constrói, ganha corpo e destrói-se…

É o interesse da efemeridade, de construir alguma coisa que à partida não vai resistir. Que ao fim de um mês ou algo parecido vai ser destruído, mas o que marca mais isso é uma questão técnica, tem de ser construído de modo a que dure pelo menos uma semana. Tecnicamente, para quem trabalha com uma parte física, com as mãos, é muito interessante. Estamos sempre a esculpir e a pensar em factores físicos, como a gravidade e a força física da aglomeração da água com a areia. Os factores físicos condicionam a forma, mas isso acontece com a maior parte das esculturas, seja em metal, madeira ou pedra.

Considerando tudo isso, há algum subgénero dentro das esculturas de areia com que te identifiques mais e que te defina artisticamente?

Tenho uma paixão enorme pelo figurativo, o que não é o caso desta peça que fiz para o espectáculo. A anatomia humana… Na escultura em areia somos muitas vezes confrontados com essa solicitação, pedem-nos muito…

O que significa para ti este encontro com o espectáculo, esta possibilidade de encontrares um novo contexto para enquadrares as tuas esculturas?

Tenho uma ideia muito formada de querer fazer mais com as esculturas de areia do que o que é possível neste circuito que existe e do qual já falámos. Há alguns que não são tão comerciais, quando há concursos em que não definem o que temos de construir e permitem uma maior liberdade autoral, em que podemos escolher a nossa peça. Gostava de poder vir a pensar as esculturas de areia de uma outra maneira, talvez dentro de uma galeria, que acho que nunca aconteceu... Enquadrá-la num espaço artístico, num centro cultural, retirá-lo desse vínculo comercial e situá-lo na arte.

Qual foi a peça mais desafiante que fizeste?

Tinha de me lembrar de todas as peças que já fiz… No primeiro ano em que comecei a trabalhar com areia fiz uma escultura muito interessante. Fui convidado a ir para a China por uma empresa holandesa, e quando lá cheguei vi-me deparado com uma tarefa impressionante. Fazer um Gulliver com uma colega. Tinha 21 metros de comprimento e 21 metros de largura, e tínhamos 6 dias para o fazer. Esse foi um desafio técnico e físico. Há um aspecto na escultura de areia que é interessante, que é aliar a parte intelectual à parte física. Para se fazer uma escultura de areia é preciso ter uma grande preparação física… É um trabalho muito pesado, duro…

E não é preciso recorrer a outros materiais para a escultura durar mais tempo? Chegam a ter de durar um Verão inteiro, principalmente nesses parques temáticos…

Para construir só usamos areia e água. É isso que faz a magia da escultura de areia. Há quem misture resina para tornar o material permanente, como na China e nos Estados Unidos. Mas perde a magia da escultura de areia. Normalmente compactamo-la para ficar mais sólida e durar mais tempo. E quando está no exterior fazemos um revestimento impermeável para não destruir tanto.

9.8.10

DISCURSO DIRECTO | Colectivo 84

Histórias de um país à beira da morte
texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

A dupla John Romão e Mickael Oliveira regressam ao Citemor com uma peça de retrato negro e desencantado, com humor e poesia, dos tempos actuais. Portugal ecoa nas imagens e palavras cruas e viscerais cujo cruzamento no corpo dos intérpretes desenha uma tensão invulgar e por vezes desconcertante, mesmo se o ponto de partida é um texto do dramaturgo Dimítris Dimitriádis, «Morro como País», que fala de uma possibilidade de um país do futuro. O que eles nos dizem de um tempo por vir transporta as marcas e as chagas de um tempo presente. É a morte de um país que testemunhamos? E morremos nós com ele? Fala a geração de 84 [Colectivo 84].

O quê na realidade que estamos a viver criou o impulso para esta peça que faz tanta ressonância aos tempos que estamos a viver? Nesse impulso original, identifico qualquer coisa de paralelo ao espectáculo da Mala Voadora, «Single», mesmo se os objectos de palco sejam totalmente distintos.

John Romão: Uma diferença de origem entre o ponto de partida deste espectáculo e o da Mala Voadora é que esta partiu de um texto de uma realidade passada e este texto do Dimítris Dimitriádis de que partimos é ficcional e não fala de um passado, embora possam haver pontes com o passado e as pessoas possam identificar alguma localização geográfica, como quando fala da Grécia, por exemplo. Mas retirámos quase todos os referentes concretos. Ele fala de um país e uma situação do futuro. Para nós, esta abordagem é mais interessante, o facto de não partirmos de um facto histórico, mas sim de uma ficção, uma suposição. Nesse sentido, o Dimítris fala muito da escrita, de que a escrita não descreve, a escrita revela. É assim de um país de futuro.

Mickael de Oliveira: Depois há uma gra
nde parte do texto que foi escrita por mim, e há uma relação muito directa com a nossa realidade.

Estava a referir-me mais a um impulso primeiro, de uma realidade que vos assalta o momento de criar e acaba por se impôr ao espectáculo. Nesse sentido, que visão do país e da vida hoje vos conduziu até esta peça?

JR: Quando li este texto do Dimítris, «Morro como País», de 1978, interessou-me o lado ficcional e o facto de ser muito poético. Gosto muito da escrita actual dele, e sendo este um primeiro texto para teatro que escreveu, entendi como um desafio voltar ao seu primeiro texto para teatro. Desde logo, porque habitualmente não trabalhamos muito a partir de texto. Inicialmente queria mesmo fazer uma peça a partir deste texto e foi nesse sentido que trabalhámos nas duas primeiras semanas. Nessa fase, a ideia era o Mickael intervir mais a nível de acompanhamento dramatúrgico, mas depois decidimos fazer cortes. Quando tínhamos o texto final já distribuído pelos actores, decidimos fazer um corte radical e sentimos que o que tínhamos não nos chega para dialogar com a realidade que estamos a viver.

MO: Estive no Brasil e quando voltei sen
ti que, provavelmente, as aproximações que podiam haver entre o texto do Dimítris e as imagens eram delicadas e complicadas. A linguagem em termos de estilo é um bloco e não serviria as variações que a cena estava a propor.

JR: Foi então que decidimos cortar e perceber o que nos interessava trabalhar, por causa da construção cénica, por causa da identificação de qual era a linha do trabalho que estávamos a desenvolver. Nunca misturo as duas vertentes, uma coisa é o texto e outra são as imagens cénicas. Estava a ser difícil encontrar um diálogo entre a vertente cénica das acções e os movimentos que estava a explorar. O texto do Dimítris não nos era suficiente para o que queríamos. E fomos para um discurso muito mais directo, mas ainda assim poético. Uma das opções claras foi retirar as referências concretas que tinha, nomeadamente a países, as batalhas, movimentos dos soldados…

Mas que insuficiência do texto era essa, o que dizia de um sentimento do mundo que não chegava a expressar?

JR: Há uma grande desilusão geracional. Uma desilusão política.


MO: Sentimos que depois de uma revolução de esquerda, que trouxe muitos direitos sociais, estamos agora a assistir à queda dos valores defendidos nessa revolução. Estamos a viver a retirada do estado social. Há um momento em que o Cláudio diz: o Estado Social que se foda, Ele só verbaliza algo que sentimos que está a acontecer. Depois pensamos: houve evolução. Claro que houve, nos países todos. E no entanto a taxa de emigração em Portugal é tão alta quanto era na década de 70. Estes são alguns dos indicadores do desenvolvimento…

JR: Na arte fala-se muito da evolução e progresso. A nós interessam-nos também os desastres deste progresso e desta evolução. Queremos em simultâneo ter uma linguagem poética que apresente um outro lado, o dos desastres...

Mas não acaba por ser uma imagem pessimista e negativa? Tão negativa que parece instigar a uma nova revolução? Parece que o cenário é a apresentação da cedência a uma inacção pelo pessimismo, mas essa inacção acaba por instigar a acção, quase como se apelasse a uma nova revolução?

MO: Há a ideia da inércia. Chegámos a um ponto em que estamos em crise, as pessoas estão a começar a passar fome a sério. Mas há uma grande inércia, em termos políticos e sociais. É uma característica do país. Outros países, como a França ou mais recentemente a Grécia ou a Itália, quando tens greves ou manifestações, as ruas começam a ser ocupadas com carros a arder. E aqui temos medo.

JR: A inércia foi uma das linhas que quisemos trabalhar neste espectáculo. Ao contrário da «Velocidade Máxima», aqui quisemos a velocidade mínima. O Michael Marmarinos fez uma encenação do texto no Festival d’Outone, em Paris, e ele escolheu ter um grupo de pessoas paradas ao fundo da cena. O próprio texto diz que aquelas pessoas todas assistiam a estas alterações, aqueles movimentos migratórios de fuga, e sentiam-se presas e impotentes. Havia uma inércia. Acabámos por usar apenas duas partes do texto do Dimítris, uma delas é o último monólogo que a Cláudia [Dias] diz. Há um no início que projecto em que diz que as pessoas assistiam a tudo paradas, perplexas, perante aquela alteração. Estavam imobilizadas, sentiam-se encurraladas. Eles iam para as montanhas e sentiam-se cercadas… Ali já estava essa ideia de inércia, de impotência…

MO: A inércia é o sentimento que surge antes da queda, antes do fim, pelo menos no nosso imaginário. Depois as pessoas param. Param e vêem o fim. Há a inércia contemplativa, estão a ver o fim a chegar. E «Morro como País» tem muito essa impressão de estar a assistir ao fim que está a acontecer.

JR: Este texto e esta peça fala de uma morte natural. Mas em que não existe capacidade de reconhecimento de que as coisas chegam a um fim. Tal
como uma planta, as coisas morrem, para renascer. Esse é o problema que vivemos hoje: o não reconhecimento do fim. O fim das coisas.

MO: Fugimos cada vez mais da morte. Os cemitérios estão cada vez mais longe da cidade. A procura da beleza e juventude é isso.

JR: Queremos viver mais e queremos viver à força. E é engraçado porque inventamos esta estética dos regressos ao passado, dos anos 70, que vamos recuperar para viver melhor hoje com o estilo dos anos 70, por via desse revivalismo da música, da forma de vestir…

MO: Mas também é o recusar de um fim do sistema económico e social…


fotografia de Susana Paiva

Fazem um retrato geracional muito negro, artificial, e que corresponde à vossa geração. Até que ponto é o retrato da geração que acreditam que existe?

JR: Corresponde a uma visão plástica de viver.

MO: Não estamos na cabeça das pessoas, mas é aquilo de que nos apercebemos através dos comportamentos sociais.

JR: Revejo-me nessa imagem com alguma impotência. Custa-me alinhar com um certo tipo de comportamento que vejo nos meus amigos e sinto-me um bocado solitário. É esta lógica do ‘live fast and die young’. Sou um tipo mais tradicional, gosto de ir pouco a pouco, apalpando o terreno. Esta solução de sair do país e fazeres-te à vida é uma coisa que me custa. Gosto da ideia de construção e das coisas naturais que acontecem nesse processo natural de construção, que resulta de um crescimento natural. O que temos é uma evolução que não é natural, é plástica e artificial. É preciso recorrer ao artifício para conseguir crescer. É preciso seguir caminhos paralelos que não têm nada a ver com o que estás a fazer, que se desviam da essência do que prossegues, para conseguir alcançar algo.

[John e Mickael começam numa conversa entre eles a ilustrar essa ideia] Diz John para Mickael: Falamos daquele nosso grande querido que se dá muito bem com aquele grande director daquele clube, e que dá para fazer peças lá dentro e conseguir evoluir cá fora. Esse director do clube que não percebe nada do assunto… Coisas desse género…

JR: É tudo um jogo. É como o sadomaso, é um jogo. Não dói, não faz mal. É tudo um jogo e também aí vais testando os limites, o limite da dor…

MO: É quando já entramos no plano da mediocridade e da corrupção. É o que estamos a viver, e o texto também fala disso.

JR: E é tudo tão evidente. E nós falamos destas questões, mesmo que não directamente…

Mas as coisas mudaram assim tanto na passagem deste ano, entre o Citemor do ano passado e este? Ou apenas o que mudou foi que tudo o que estava um pouco ainda escondido se tornou visível e evidente? Porque há uma passagem de um tema sobre realidade marginal - no caso de «Velocidade Máxima» era a prostituição masculina - para o abordar uma questão mais central e global da vida, sociedade e política.

JR: Interessam-me particularmente essas realidades que não estão à superfície, como a prostituição da «Velocidade Máxima» ou a pedofilia no «Hipólito», a notoriedade pública no «Só os Idiotas querem ser radicais» que fiz com o Ângelo Rodrigues… Nesta peça achámos que era urgente falarmos do que é evidente e que está a acontecer.

MO: No ano passado tínhamos mais dinheiro de apoio do Ministério da Cultura e as pessoas ficavam escandalizadas quando dizíamos que tínhamos pouco [Nota: por ocasião da entrevista, no dia a seguir à estreia da peça, ainda não tinham saído os resultados dos concursos de Apoios Sustentados Às Artes da Direcção Geral das Artes - Ministério da Cultura]…

JR: Ouvi comentários sobre como era possível estar a queixar na «Velocidade Máxima» quando tinha 20 mil euros de apoio, o que realmente acaba por ser um privilégio, um caso isolado. E eu já sabia. Mas também sabia que nada me garantia que este ano tivesse e no ano anterior não tinha tido. E quando dizemos isso, estamos também a pensar nos outros jovens artistas que estão na merda e não há um investimento estruturante pensado sobre o assunto.

MO: O problema é pensar que 20 mil euros para uma equipa de 8 ou 9 pessoas a trabalhar durante dois meses é muito, e mais sem sequer tendo em conta tudo o que o teatro precisa, cenários, adereços… Mas estamos há cinco meses à espera dos resultados dos concursos...

Mas o que te fez passar de um tema sobre questões das margens para uma visão mais geral da sociedade?

JR: Sempre tivemos urgência de falar do presente. Agora mais ainda, quisemos falar de uma realidade que está presente na vida mas não é visível. Nesta peça, percebi isso a meio, foi quando pedi mais textos ao Mickael. E as pessoas querem e precisam de ouvir falar sobre isto também. É como às tantas se diz no espectáculo: sentem uma grande catástrofe com eles dentro. Querem falar da catástrofe, querem pertencer. As pessoas estão baralhadas e não sabem como agir. Há uma grande taxa de estudantes que vão para fora fazer licenciatura e não têm hipótese de trabalhar cá. Isto choca-me.

MO: É a impressão de teres um país que não te quer, que não te valoriza, que não dá trabalho, mesmo quando tens competência. Isso atrasa. Essa é a grande tragédia do nosso país.

JR: No caso específico deste trabalho, não temos prevista para já a possibilidade de circular em Portugal, e no entanto temos datas lá fora… Levamos a bandeira de Portugal. Eu sou exótico lá fora por ser português e cá em Portugal não se passa nada… Também explorámos a ideia de identidade. O que é um país? O que é pertencer a um país? Essa ideia de nacionalidade e de fronteiras… Houve uma exposição do Raymond Depardon e do Paul Virilio na Fundação Cartier Pour L’Art Contemporain, em Paris, «Terre Natale – Ailleurs commence ici», em que o Depardon, realizador e documentarista, fazia uma suposição interessante e que se revelou importante para o nosso trabalho: quando andamos todos a alta velocidade atingimos a inércia no pico da nossa velocidade. Esta inércia pode ser de apatia, perante a acção, uma inactividade, mas pode ser uma inércia da velocidade. Já as vivemos às duas.

MO: E não andamos todos à mesma velocidade em termos sociais, a nível europeu. É mais um problema. E reflecte-se nas trocas comerciais. É mais um problema que também temos em conta quando se fala do que é ser um país, do que é ser um país menor, em termos económicos e culturais, quando nem temos dinheiro para exportar a nossa cultura, ou criar uma rede que permita circular no país. É uma ausência de pensamento. No nosso país não se pensa. Não se pensa de forma estruturante o jovem criador, que devia ser pensado, porque tudo o que não é pensado acaba em corrupção.

JR: Vivemos quase uma clandestinidade da arte. E verifico que se começam a criar laços afectivos. Por exemplo, é a primeira vez que estou a trabalhar com a Cláudia Dias. Éramos para ter trabalhado em 2002, começámos juntos a ensaiar a minha segunda criação de teatro e depois acabámos por não concluir juntos por questões privadas. De repente, começámos a criar uma ligação e não nos vamos largar. É também nisto uma espécie de regresso aos anos 70, de nos vincularmos uns aos outros, de não nos largarmos. Isto é o medo. Agimos por reacção ao mundo. Juntar para resistir.

MO: Ter alguém ao nosso lado no momento da morte.


Mas em termos formais, esta peça - precisamente por ter um texto já existente como ponto de partida, o que não é habitual no Colectivo 84 - tinha um pressuposto diferente na tua [Mickael de Oliveira] participação no trabalho?

MO: Era suposto ter uma participação muito mais pontual, de acompanhamento dramatúrgico, manipular o texto, eventualmente escrever uma coisa ou outra. A ideia não era intervir muito no texto...

JR: Pareceu-me um desafio interessante, trabalhar um escritor vivo, que está residente no Théâtre de L’Odeon, de Paris, e escreve de forma dramática, e no entanto nós voltamos a um texto que não tem essa forma. Mas depois a construção de cena nunca é uma coisa consciente, nunca sei como a vou trabalhar, não sei que imagens…

Como funciona então essa construção em paralelo de texto e imagens? Não é o texto que sugere as imagens?

JR: A primeira imagem surgiu na audição que fiz para um jovem intérprete no São Luiz, em que acabou por ficar o João Folgado. Havia uma expressão do texto que gostava imenso, que falava que eles se sentiam num rodopio perante a vida. Pareceu-me uma ideia simples e interessante, pôr as pessoas a girar. Surgiu-me então a ideia dos planetas a girar em torno do sol, uma cena do filme «As harmonias de Werckmeister» de Béla Tarr, em que chegam a uma taberna e começam a meter os bêbados a rodar enquanto explicam um eclipse total. Essa ideia do girar sobre si foi um ponto de partida. Na audição experimentei e a resposta do João marcou-me bastante. Este espectáculo é muito especial também por outros motivos, para além por exemplo do ponto de partida ser um texto dramatúrgico. É a primeira vez que não entro. Quero dizer, entro na primeira cena, mas na minha cabeça não entro, estou a operar na técnica. E há uma confiança imensa que deposito nos três intérpretes. Outro exemplo era a imagem que tinha do cuspir para a cara e propus que falássemos da personalidade de cada um a partir da forma como cada um cospe para a cara do outro. Foi uma improvisação que propus, em que a personalidade de cada um se descobre através do cuspir pedaços de maçã.

Mas o que procuravas nessa audição?

JR: Tenho dificuldade em encontrar em Portugal as pessoas com quem queira trabalhar. Por isso queria trabalhar com alguém novo que tivesse uma energia parecida com a minha.

Um alter-ego?

JR: Não sei… talvez que me pudesse substituir de alguma maneira. Encontrei o João Folgado, foi uma coincidência. Ele trabalha como duplo de cinema e televisão e para mim abriu-se um outro caminho. Parto sempre das pessoas no meu trabalho. E achei fantástico já que estávamos a falar de morte. Há uns que morrem por dinheiro, para lucrar, o que contrasta com esta ideia da morte da economia. Há uma duplicidade entre aquele que se faz cobrar para
morrer ou a morte por falência de um sistema… Depois também tenho um trabalho muito físico, como foi esse exemplo do girar, e também aí o João me marcou.

E como é que constróis sentido na relação entre texto e imagem? Tirando as sessões em que o Mickael assiste e que o texto gerado da experimentação sai para a cena…?

JR: Por exemplo, tinha desenvolvido esta imagem dos algodões, queria colar algodões no corpo. Estava a trabalhar a ideia de tapar o corpo, tapar orifícios do corpo, esconder o corpo, com objectos só de higiene ou de alimentação. Essa foi uma imagem independente que trabalhámos e o Mickael tinha um texto que encaixou perfeitamente mas nunca tinha pensado que seria aquele texto ali. Por acaso, no próprio texto ele dizia, de repente, «olha para aqui bébé, que não é algodão doce». Este é um exemplo de como a intuição pode funcionar.

Fiquei com a impressão de que há uma ideia de corpo que estás a desenhar… um corpo quase objecto? Um corpo ao sabor do uso dos outros, que está disponível, quase matéria, quase esvaziado de uma dimensão humana…

MO: Em termos de texto, efectivamente só consigo escrever se tenho os intérpretes à minha frente. O que fazíamos antigamente era abstrair e tentar inventar personagens, o que era muito complicado. Quanto mais tenho os actores à minha frente, mais ideias me surgem. Nesta perspectiva a presença do corpo para a escrita é fundamental.

JR: Tenho várias referências da performance e das artes plásticas, onde vou buscar inspiração. Normalmente tenho uma ideia, nunca sei se é possível, e experimentamos. Há coisas que não são possíveis, ou não dão de uma maneira e podem dar de outra. Nesse sentido, o corpo funde-se com os materiais e é um corpo que executa. Felizmente como trabalho com pessoas inteligentes, eles percebem que não estão a ser manipulados mas que depende deles próprios até onde podem ir. As propostas são isso mesmo, propostas que eles desenvolvem. Onde está o limite? São eles quem definem. Eu levo apenas o rascunho. Não levo coisas feitas. Depende de levar a exploração da possibilidade até ao limite ou não. Para mim torna-se muito claro, por exemplo a girar, reconheço imediatamente se o girar está a ser feito de um modo que não chega. Basta pensar: isso também eu… Alguma coisa está errada, não chega.

Estás a falar de uma insatisfação que não tem a ver com uma execução virtuosa mas é outra coisa?

JR: Depende do contexto. Este é um trabalho manufacturado. Gosto que haja rigor, mesmo que possa parecer que não. Gosto que tudo seja fluído, natural. Quando distribuo o texto, aviso logo: vocês não me conhecem mas sou muito chato com o texto.

E o que é esse ponto em que chegas e e onde queres chegar no trabalho com os intérpretes?

JR: Gosto que as coisas sejam transpiradas, sejam como suor. Gosto que a palavra seja uma extensão do que está dentro, como um canal, e que não seja artifício, que não se sinta texto, que sejam eles. O Cláudio perguntava: mas quem é este gajo? Eu dizia: esse gajo és tu. Ele dizia: não posso ser eu, porque não concordo com isso. Mas temos de encontrar uma possibilidade de também ser ele. Fizemos uma primeira abordagem mais teatral e depois começámos a limpar, a limpar, de modo a ficar o mínimo vestígio de ficção. Principalmente a Cláudia ou o Cláudio enfrentavam esse dilema quando tinham de afirmar coisas com as quais não concordam de todo em termos políticos.

Estás a dizer aos intérpretes: És tu mas não és tu, porque o que tens de dizer não é o que dirias se fosses tu mas tens de ser tu a dizer aquilo em que não acreditas…

JR: O que pedimos é que conciliem aquelas palavras com acções que não são descritivas do que estão a dizer e que essa relação seja fluida. Como a Cláudia a comer pão que tira das mamas enquanto está a falar sobre o capitalismo… É um diálogo entre as duas componentes e cria um conflito visual para o espectador.

Mas construído de um modo em que parece natural. O que é diferente do naturalismo…

JR: Para mim é natural. Porque é que cagar para cima de outra pessoa é um acto sexual para uns e para outros é bizarro? É normal. É nestas tensões que gosto de trabalhar. Porque é que mijar para cima de uma pessoa é normal para alguns e cobrir o corpo de uma pessoa de algodão, como metemos, não é normal? Mais ainda se a tua atitude transparece uma normalidade? O que proponho é uma outra imagética sobre o mundo e o corpo, com objectos reconhecíveis que nos são familiares. Um corpo com dois pães no peito é diferente. Reconheces os materiais, mas abrimos aí um campo visual e uma imagética e outras possibilidades de leitura sobre o corpo…


fotografia de Susana Paiva

Como é que surgiu e ideia da escultura de areia e do escultor de areia?

JR: Relativamente a esta ideia de identidade, crise e desilusão geracional, pensei no regresso à infância, à origem, ao ventre materno, onde nos sentimos seguros. Pensei noutros objectos, que cheguei a explorar, cheguei mesmo a ver com o Armando [Valente - director do Citemor] se eram possíveis. Tinha uma outra ideia para este espectáculo, que hei-de fazer um dia mais tarde. Antes da areia tinha uma banda de índios nativos do Peru, que toca no Rossio, em Lisboa. E convidei-os para executarem ao vivo neste espectáculo, por causa desta questão da identidade. Se fizesse o texto original faria certamente com os índios e mantinha os três actores. Mas por uma questão de datas não foi possível. Porque esta altura do ano é também a altura que eles têm mais trabalho e era mesmo complicado. Então, tive de pensar noutro tema que me pudesse abranger a cena e foi quando surgiram as esculturas de areia. Quis ter um carro porque foi sempre aquilo que me lembro de quando era puto que me distinguia dos meus amigos: quem tinha um bom carro. Os meus pais foram emigrados na Alemanha durante 14 anos. Os meus padrinhos trabalhavam na fábrica da Mercedes e quando vinha a Portugal vinha com um Mercedes, o último modelo da Mercedes, que tinha as buzinas de vaca, de mémé… Esta ideia do poder do carro, que está centrada no capitalismo, está na origem da ideia de querer ter em cena um carro mas de areia, que é permeável à erosão… Mas temos também outras esculturas… Está ligado também a querer ter uma atmosfera de imagens cruas. Em termos de materiais temos areia e madeira pinho. Fora disso temos três sacos debaixo da mesa com cores primárias, três cores diferentes. A única cor que existe que foge a estas tonalidades é dada pelas luzes… Pensei neste universo meio infantil mas que não fosse tão óbvio, e na ideia da matéria e da areia…

É curioso porque começo a identificar nos vossos espectáculos a recorrência de um elemento exterior ao universo teatral e que normalmente é dado pela participação de pessoas que não são artistas: a criança, os prostitutos brasileiros, seria o caso dos índios e, aqui, um escultor de areia… Isso é uma marca identitária do vosso trabalho?

JR: Não gosto nada de artistas. Sinto-me mal entre artistas e evito. Não aguento. Não consigo, tenho amigos meus que são artistas, e às vezes pesa-me mais o facto de estar entre artistas e amigos artistas do que estar entre amigos. Tenho necessidade de me relacionar com pessoas que não têm nada a ver com esse universo, que não estão nem aí para isso. Escolhi o João Folgado porque ele nunca fez uma peça de teatro mas está a estudar artes performativas, é duplo e faz parkour. Achei muito inteligente estar a estudar artes performativas, significa que está a estudar o corpo. Há quem diga, eu trabalho com não actores, e dizem-me logo, ‘ah, és como o encenador não-sei-quem’, mas eu nem penso nesse sentido. São pessoas. São pessoas com quem me apetece estar.

26.7.10

CRÓNICA | Em residência

texto e fotografia de Pablo Caruana Húder



Llegar al Festival de Citemor, al pequeño pueblo de Montemor-o-Velho, es darse de bruces con dos cosas: una luz ancha y blanca que se mete desde el Atlántico hasta la nuca; y trabajo, silencioso pero continuo y constante trabajo.
Estamos en el primer fin de semana del Festival. El viernes Norberto Lobo inauguró el festival con un concierto de guitarra clásica. Concierto en el que, a través de un virtuosismo galopante, parecían caber todas las músicas en los dedos y el privilegiado cerebro de Lobo. [Otro tema es porqué “virtuoso” es una de las palabras que en estos últimos 50 años ha sufrido una mayor metamorfosis semántica, habrá que darle vueltas].
Al día siguiente, uno camina y van desfilando casas blanqueadas, cuestas hacia un castillo remendado, paisanos que vuelven o van con tranquilidad, y calles vacías en las que pareciera que el Festival se esconde adrede. Nada más lejos.
El primer sitio al que nos movemos es al pequeño Esther de Carvalho, teatro del XIX en el que la noche pasada sonó a la perfección la guitarra de Lobo. El lugar ya ha sido ocupado por la compañía portuguesa Colectivo 84 dirigida por John Romão. Allí, están probando su director y el actor Cláudio da Silva un gel con el que embadurnarse para poder pegar algodones. Romao está contento, ha encontrado un gel transparente y suficientemente pegajoso en el Lidl. Dentro de unas horas tienen ensayo, por la mañana, han estado trabajando en otro espacio en las faldas del castillo, el Quarteirao das Artes. Llevan trabajando desde el lunes 19, antes se han pasado dos meses trabajando en esta nueva obra, “Morro como país” del griego Dimitriádis, en Lisboa, en el Estudio Bomba Suicida. Se estrenará en las naves industriales de Mota, el día 31 de julio, en la que ahora está actuando la compañía de Susana Vidal.



Tres calles, una plaza y dos cuestas más allá está el Espacio B, almacén abandonado, sin techo, y que es uno de los principales espacios del Festival. Allí está la otra compañía portuguesa, Mala Voadora.. Jorge Andrade, su director, está comenzando con charla los previos al ensayo. El espacio está vacío, en los próximos días entrarán los técnicos a construir una escenografía complicada. Técnicos silenciosos, siempre a disposición. Otra manera de hacer que se nota y es medio festival. Ellos, Mala Voadora, siguen trabajando, llegaron el 15 y estrenan el 29 “Single”, una obra sobre Haile Selassie, emperador de Etiopía de los años 30 a los 70. Es el segundo día que trabajan en el espacio. La residencia va cogiendo cuerpo.



Cogemos coche y nos vamos a “Vila Mota”, un complejo industrial a pocos kilómetros de Montemor que fue el centro logístico de todas las obras de reconducción del Río Mondego. Lleva diez años abandonado. En una de las naves industriales se preparan para el estreno la compañía de Susana Vidal, creadora cordobesa afincada en tierras lusas. La compañía va llegando, Alberto Lopes, director artístico, lleva ya un rato afinando sonido. Susana llega después, luego las actrices. El espacio, con 28 tarimas rosco en pendiente, impone. Se acomodan sillas, se perfilan detalles. Susana habla con todos. La residencia de creación llega a su fin. Llevan más de quince días metidos en faena.



Si hubiera que definir por algún aspecto concreto el festival sería quizá por el cuidado con el que se trata cada residencia. Ahora, vemos tres residencias en movimiento, pero éstas empiezan mucho antes. Pensando cómo y de qué manera. Andando por las cuestas me encuentro con la cuarta, recién llegada de Madrid. Acaban de aterrizar Elena Córdoba y familia, perro incluido. Son la primera flota, en los próximos días irán llegando las bailarinas y actrices de las tres obras que esta coreógrafa presenta en el festival del día 5 al 13 de agosto. Tres obras que son varios años de un estudio creativo, minucioso, reflexivo y poético sobre la anatomía del cuerpo humano.
Quien quiera abrir boca puede visitar el blog en el que Córdoba ha ido registrando y reflexionando sobre este periplo. Ahora, llega a Montemor. Un documental, dos obras ya estrenadas en España y una tercera en residencia que se estrenará el día 12 de agosto. En Montemor se podrá ver el fruto de todo este recorrido arduo y solitario, lleno de encuentros también, por el que Córdoba ha transitado. Un proyecto con el que esta coreógrafa, vital y larga en España, lleva su danza a un nuevo territorio, maduro, personal y buscado.



Seguimos camino, nos encontramos en las puertas de un edificio público de la comarca a Vasco Neves, director de Citemor, hablando con Fernando Renjifo y Alberto Nuñez. Ambos en parada corta. Al día siguiente salen para San Paulo para hacer una versión de “El lugar y la palabra” en el festival de performances Verbo, organizado por la Galería Vermelho. Vienen a preparar su aterrizaje en Montemor donde presentaran tres piezas. Una realizada en Beirut, exactamente “El lugar y la palabra”, otra que (entre otras partes) se creó en residencia en el mismo Montemor, “Improptus”; y una tercera, “Tiempos como espacios”, realizada en Níger. Verdadero desembarco intercontinental e igualmente, como en el caso de Córdoba, una cita, esta de Montemor, donde culminan años de trabajo y esfuerzo. Un festival también es celebración, de nacimiento, de cierre del círculo, de llegada a buen puerto.



Ahí los dejo, salgo otra vez a las pequeñas calles de Montemor. Blancas y vacías, que suben o bajan. Son las siete de la tarde. No se oye nada.

1.12.09

Citemor_TV: Colectivo 84

"Velocidade Máxima" estreia em Espanha
Colectivo 84 na Laboral Escena em Gijón e em Bratislava

A obra desenvolvida em residência na ZDB e que teve estreia na última edição do Citemor é agora apresentada no seio de outro dos seus produtores, o Teatro La Laboral em Gijón (Espanha). No início do próximo ano a equipa volta a reunir-se para rumar à Eslováquia. "Velocidade Máxima" estará em cena em Lisboa de 20 a 30 de Janeiro no Negócio/ZDB.
O espectáculo, que aborda o universo da prostituição masculina, tem dramaturgia de Mickael de Oliveira, direcção e interpretação de John Romão e conta com a participação de três prostitutos de nacionalidade brasileira.

4 e 5 Dezembro, Teatro La Laboral (Gijón)
12 Janeiro 2010, The Meteorit Theatre (Bratislava)
20 a 30 Janeiro 2010 (quarta a domingo), Negócio/ZDB (Lisboa)
5 Fevereiro 2010, Mostra de Teatro de Almada (Almada)

Citemor_TV: Colectivo 84
1. Video de André Godinho para "Skaters"
2. Excerto de "Hipólito"
3. "Velocidade Máxima": entrevista de Cláudia Galhós com John Romão (encenador) e Mickael de Oliveira (dramaturgo)
4. "Velocidade Máxima": imagens de ensaio
5. "Velocidade Máxima": imagens de espectáculo.
Em todos os videos de "Velocidade Máxima" as imagens foram recolhidas e pré-editadas por Hugo Barbosa e Pamela Gallo - hb:prgms.

http://colectivo84.blogspot.com/


DISCURSO DIRECTO | John Romão
texto de Pablo Caruana Húder

Hablamos con John Romão, nacido en el 84 tiene ya a sus espaldas seis obras y se enfrenta a su séptimo estreno, “Velocidade Máxima”, producida por CITEMOR y por el Teatro La Laboral de Gijón, de España. [ler mais…]


8.8.09

DISCURSO DIRECTO | John Romão

fotografia de Susana Paiva


Hablamos con John Romão, nacido en el 84 tiene ya a sus espaldas seis obras y se enfrenta a su séptimo estreno, “Velocidade Máxima”, producida por CITEMOR y por el Teatro La Laboral de Gijón, de España. En “Velocidade…”, Romão sigue trabajando con actores no profesionales, metiéndose él mismo en escena e intentando hablar de los problemas que nuestra sociedad, en particular la portuguesa, se niega a mirar ni siquiera de soslayo. Hablamos con él de sus anteriores montajes, de sus influencias, de su relación con el texto y su compañero de compañía y dramaturgo Mickael de Oliveira, de sus actores salidos de la calle; y de Portugal, de qué está pasando en Portugal y de lo que es crear y hacer teatro en este país.



Velocidade Máxima está dentro de un ciclo al que habéis denominado: “Ciclo de poder y posesión”. ¿Podrías explicar en que consiste?

John Romão: Decidimos contextualizar las tres piezas que hemos hecho este año bajo este ciclo. Son “Hipólito, monólogo masculino sobre la perplejidad”, que es un texto que Mickael de Oliveira escribió para mí, escrito en inicio para un niño de sietes años. En la obra se trata la infancia en una situación de poder, la pedofilia. La segunda fue “70 kilos” en la que se trataba como en la adolescencia se tiene posesión de una ética y de un sentido de la responsabilidad a través de la historia de un skater. Esta es la tercera pieza “Velocidade Máxima”, en el que trabajo también con tres no actores, en este caso tres prostitutos brasileños que residen en Lisboa.

¿Por qué te interesa la juventud?

Bueno, en “Hipólito” era más la infancia, en “70 kilos” se trataba la adolescencia y en “Velocidade Máxima” es más la juventud, están entre los 25 años y los 28, en una fase ya adulta. La realidad de todos ellos está más próxima a la mía. Además, yo tengo una cierta laguna en mi adolescencia, me hice adulto, serio, demasiado rápido. Y me gusta volver atrás, bueno, no volver atrás, sé donde estoy, pero si estar en contacto, convivir con personas que están en ese tiempo que yo perdí. Hay cosas que no hice y no pude hacer, jugar y bromear, eso me gusta.

Si te parece podemos hablar de la obras anteriores a este estreno. En España no han sido vistas y creo que también muy poca gente habrá tenido la oportunidad de verlas en Portugal… Comenzamos con “Skaters”, que es del 2005:

“Skaters” (2008), se hizo tan sólo una vez en Almada, en la inauguración de una muestra de la Cámara de Almada, en la Quincena de la Juventud. Me propusieron hacer un espectáculo de inauguración, querían algo multidisciplinar y moderno, y yo decía, “está bien, está bien…”, lógicamente hice lo que me interesaba. Sí había skaters y multidisciplinareidad, pero se hablaba de la caída, de la muerte… La Cámara se puso en contra mía porque tenía un discurso artístico y no era un espectáculo de entretenimiento. Hubo un conflicto real, en un ensayo general una de las subdirectoras de la Cámara vino a hablar conmigo, a decirme que la obra era demasiado fuerte y estaban preocupados, que al día siguiente venían todos los directores de los concejos y de las asociaciones culturales de Almada y estaban preocupados porque era “fuerte”. Es difícil usar dinero público, tener un discurso y que no quieras hacer un espectáculo de entretenimiento, divertido, con falsas sonrisas, es difícil. Fue preocupante, me dijeron que el video que tenía donde se les veía haciendo skate encima de las tumbas de un cementerio había que retirarlo. Lo denostaron con dos palabras… Se puso. Lo hice un día y nunca más, y era un espectáculo que la Cámara podía haber hecho girar. Pero sin embargo, ahora la Cámara habla del espectáculo, es divertido, como un gran referente de valentía y como trabajo que conseguía lo que siempre habían querido y no habían sabido o querido hacer, como un trabajo que unía la comunidad artística local con la comunidad social de Almada. Y sí, había un músico local y un artista local y un coreógrafo local y diez skaters. Lo que ellos no hicieron en diez años. Quiero girar con ese espectáculo, me gustaría mucho poder hacerlo.


John Romão em "Velocidade Máxima"
fotografia de Susana Paiva

“A Direcção do Sangue” (2008), lo hicimos durante dos semanas en el Teatro Taborda en Lisboa, un teatro pequeño, antiguo y bonito. Teatro da Garagem es compañía residente allá y nosotros inauguramos un ciclo que se llama “Try better, fail better” que es para nuevos creadores. Era un espectáculo con tres niños de 7, 8 y diez años. Es con el que comenzamos el ciclo de la infancia. Sólo ha estado ahí, intenté venderlo pero nada. Y es un espectáculo que quiero mucho, el único que he hecho hasta hoy y del que no cambiaba nada si tuviera que hacerlo de nuevo. El espectáculo funciona. Es arriesgado, es una obra en la que nunca hay palabra hablada hasta el final que hay un monólogo. Siempre cuando arriesgo pienso en que estoy en un contexto portugués y quiero hacer que ese riesgo sea útil, quiero formarme con el público de aquí. Nunca haría una movida súper high-tech o de enormes dimensiones, de alguna manera tiene que ser algo que sea útil. De repente no había palabra en un espectáculo de teatro, intentábamos crear paisajes de cuerpos, de fluidos, de imágenes, con palabras escritas o proyectadas… Eso no es común en Portugal. Es una preocupación que tengo, no quiero hacer algo súper disparatado que aquí no se entienda y que además encuentre su fundamento precisamente en eso. No me interesan las cosas radicales, destruyen totalmente las visiones del teatro. Yo sigo creyendo en el teatro en un sentido clásico, donde las palabras, los actores, los diálogos y el tiempo siguen existiendo.


Con “Hipólito” (2009), estuvimos en Almada en una muestra de juventud de la ciudad, luego en Lisboa en el CCB y fuimos a Oporto un fin de semana. No tenía mucho dinero público, tenía dinero de la Fundación Gulbenkian y de Almada, pero éramos sólo dos personas, por eso pudimos hacer en total 11 funciones. Es un texto escrito de inicio para un niño de sietes años pero Mikael, el dramaturgo con el que trabajo, tuvo que inventar un mito, el de Hipólito era un mito que no servía para nada para un niño, así que hicimos un mito en el que contexto fuera el amor y la pedofilia… Cruzamos así la relación de Fedra con Hipólito pero más que para explicar el mito para poder hablar de lo que está pasando y de lo que la gente no quiere hablar, usar el teatro como un espacio de debate en un espacio público, eso queremos. Hay cosas que tienen que ser oídas y discutidas. Con “Hipólito” tuvimos un problema ya que el texto era muy crudo, pornográfico y directo y teníamos a un niño en escena. Lo solucionábamos poniéndole unos cascos con su música preferida. Tenía siete años y su grupo favorito era Linkin Park. Se creaba una relación muy pervertida entre el adulto, yo, y el niño. Cuando no tenía puestos los auriculares nos divertíamos, hacíamos juegos y bromeábamos todo el rato. Teníamos unos juegos preestablecidos, unos más perversos visualmente que otros. Por ejemplo, estábamos los dos en paños menores y nos pegábamos en broma, o le cogía un brazo y le retorcía la piel hasta que él decía ay y teníamos acordado que ahí parábamos. Pero esto para el espectador, que había recibido los textos anteriores, donde se explicitaba esa situación de poder, tenía otro significado que el niño no podía ver.

“70 kilos” (2009), se hizo una vez en Almada dentro otra vez de la Quincena de Juventud, como “Skaters”, y se va a hacer dos veces en noviembre en el Festival de Tiago Guedes, Materiais Diversos. Era un espectáculo en el que estaban en escena un skater, su novia y su perro. Él había trabajado conmigo en una pieza anterior que se llamaba “Skaters” en la que había diez jóvenes skaters entre 16 y veinte años. Él era uno de ellos y durante el trabajo nos contó como a los 17 años cuando trabajaba en la construcción se le cayó una viga de hierro de 70 kilos en las costillas y lo dejó en coma. Estuvo en coma durante un tiempo y cuando salió no podía hacer skate, era su gran tristeza, no podía, andaba súper lento y medio lisiado. Yo conté la historia de su vida, cómo venció esa imposibilidad, cómo volvió a la plaza de siempre a hacer skate y cómo ahora gana campeonatos. Quería contar a partir de esta historia la posesión de una moral, de un físico, de una responsabilidad en la adolescencia. La novia daba también su punto de vista en escena y el perro completaba el cuadro dando un ambiente familiar. También intentamos poner en la boca de ellos dos palabras que nunca dirían, hablaban de filosofía como si conociesen todos los libros. Es algo que me gusta e interesa, el subvertir, distorsionar las ideas preconcebidas sobre la personas como los skaters que son marginales y siempre están en la calle… Por ejemplo, hablaban de Horacio, como había inspirado su vida, él decía que si viviese Horacio ahora tendría 2074 y que por eso iban a celebrar su aniversario. Así que sacaban una tarta y celebraban.


TEXTO Y ESCENA

¿Cómo se trabaja el texto y la escena entre dramaturgo y director?

Al principio, Mickael me envió dos textos y me quedé, en el buen sentido, en shock. No conocía nadie que abordase algunas temáticas como la obscenidad, que él trabaja a nivel dramatúrgico y yo escénico, de una manera tan precisa y directa. Otra cosa que me flipo es cómo revisita los mitos. Por ejemplo, tiene un texto, “Fedra o la madre que amó a sus hijos con las manos” que para mí fue tremendo. De ahí, surgió el proyecto de “Hipólito”, no podíamos hacer “Fedra…” porque eran cinco actores y pensamos que el mito de “Hipólito” podía complementarlo. “Hipólito” surgió, por tanto, de un texto previo y yo trabajé sobre él, aunque el texto también está escrito con imágenes que yo quería trabajar en escena. En “70 kilos” fue diferente, yo quería escribir algunos textos, dudaba si Mickael podría no acabar en el diálogo teatral etc…. Pero no fue así, Mickael se metió y fue perfecto como construyó con el texto individuos, con cabezas propias, y no grupos sociales. Es un trabajo muy íntimo, no trabajábamos con un skater, trabajábamos con Hugo Bastão que además, es un skater. Bien, en esta ocasión el texto surgió de un trabajo previo en escena, en fín, la escritura estaba muy dirigida a las personas que estaban en escena, que no eran actores. Hay que hablar con ellos, ganarse la confianza y construir una relación. Lo mismo pasó en “A Direcção do Sangue”, donde yo comencé a escribir en escena y luego llegaron más textos. En cambio en “Velocidade Máxima…” se comenzó a trabajar con los chicos, grabamos conversaciones con ellos, empezamos a trabajar algunas acciones, comenzamos a trabajar con Elena Córdoba –creadora y coreógrafa española- el cuerpo; y los textos fueron trabajándose en paralelo, para simplificar le pedí a Mickael que escribiera un texto sobre cada uno de los chicos. Acabó escribiendo tres sobre cada uno. Mickael venía a los ensayos, yo trabajaba con ellos y con Elena y él iba ahí mismo escribiendo, yo no sabía que escribía, él escribía mientras veía trabajar esos cuerpos. No hay una relación directa pero estábamos todos en el mismo espacio, reunidos. Eso fue muy importante porque los textos, aunque subliman nada de lo que pasa en escena, de alguna manera hay una magia por haber sido creados a la vez que la escena, juntos, en el mismo espacio- En “Velocidade…” los textos, si otras veces surgían más de improvisaciones, son básicamente relatos personales en los que nunca llegas a saber qué es verdad y qué es mentira. Los textos son muy locos y aún así siempre existe la duda de si son ciertos o no. La vida de estos tipos es tan loca, tan irreal las cosas que te cuentan, que no sabes cuál es el límite de lo real, el límite físico… Eso es muy bonito, entras en un campo desconocido, de riesgo, donde no sabes quien ataca y quien se defiende. Y vamos a seguir trabajando juntos, con Mickael de Oliveira quiero decir. Tenemos proyectos. Por ejemplo, hacer esa “Fedra” de la que hablaba antes y que es un texto magnífico. Además, ese texto tiene que hacerse ahora, porque al igual que en “Hipólito” se hablaba de la pedofilia, que es una cosa presente en nuestro país pero que no se quiere ver, en “Fedra” hablamos de la era de pos-colonialismo, de los combatientes que estuvieron en ultra mar… Hay mucha gente hecha mierda, con problemas y no se quiere ver, hay muchas cosas que son ocultadas. Mi padre estuvo allá. Lo mismo pasa con “Velocidade Máxima”, los actores no son unos prostitutos cualquiera, son brasileños, y no viven en cualquier parte, viven en Lisboa. Basta abrir el periódico y ves inmensos anuncios de prostitutos brasileños, y nadie quiere hablar de ellos. Son como pequeños diablos, rechazados… En teoría, su trabajo es un trabajo temporal para resolver problemas, una solución rápida para ganar dinero, en fin…

fotografia de Susana Paiva

DESDE Y EN PORTUGAL

En la producción, a parte de CITEMOR, entra el Teatro de La Laboral de Gijón, España. ¿Crees que es un paso importante?

No sé si lo será, para mí lo importante es poder girar con una obra. Cosa que no he podido hacer, y en teatro es vital saber cómo comunicas con los espectadores… Es tan básico y tan complicado hablar de esto con un español siendo portugués. Que un director de teatro en Portugal tenga un discurso personal aquí se ve como extraño. Hay compañías o hay directores buenos pero lo que hacen es dar a conocer el discurso de otros, de los autores. La obra va a estar dos días en Gijón, hace cuatro días que sabemos que nos han dado una ayuda del Ministerio y hemos decidido ir a hacer funciones sin caché, a gastar dinero. Hay que girar. Oporto, por ejemplo, cuando hicimos “Hipólito” fue muy bien recibido, fue el espacio más importante en el que hemos estado, el público entendió, me sentí muy cerca del público, con una conexión muy buena. Esos es vital. Así que gastaremos dinero e iremos, este espectáculo es más caro y sé que nadie lo va a programar en Portugal a caché. Es un poco triste gastar el dinero así, pero es lo que hay. Es un dispendio y no se justifica porque estemos comenzando.

¿Por qué os llamáis Colectivo 84?

Mickael de Oliveira y yo hemos nacido en 1984. Nos conocimos hace tres años en Lisboa, yo venía de Almada, él ganó un premio, le leí, yo hablé de mis ideas y surgió una gran empatía entre los dos… Y también coincidíamos en nuestras opiniones cuando íbamos a ver piezas juntos, nos preguntábamos porqué esa obra existía, porqué era todo tan ridículo, porqué nada significaba… Nos dimos cuenta que teníamos muchas coincidencias. Lo de 84 era la voluntad de marcar un tiempo. Con las generaciones no sabes definir cuando empieza o cuando acaba una, así que decidimos marcar un año, es lo que objetivamente tenemos en común, el año en que nacimos. El año 84 es nuestro tiempo. Además, pensamos que en Portugal y en Europa también, en general, no puedes percibir bien cuál es el tiempo de cada persona, los tiempos ya no están bien definidos, se han borrado un tanto. Hay gente ahora que está haciendo lo que se hacía en los años noventa u ochenta. Hay algo de esa noción del tiempo que parece escaparse entre las manos y nosotros tuvimos la necesidad de decir: Estamos aquí, ahora, nacimos en el 84 y ahora estamos aquí. Y a partir de aquí, veremos lo que pasa. Pero por lo menos, queríamos ser claros con nosotros y con los demás. No me gusta algo que se da en el teatro, parece que hay gente que quiere vivir los tiempos de otros, que ya fueron, no el suyo. Por ejemplo, gente quiere seguir siendo joven a toda costa. Yo trabajo con adolescentes pero no hablo de mi cuerpo, hablo del de los de ellos, que sí lo son, pienso en sus cuerpos, los utilizo, si manipularlos………………

En “Hipólito”, en “70 kilos” y en esta, en “Velocidade Máxima” estás dentro de escena…

En “Skaters” también estaba. Siempre digo que nunca más y acabo por entrar siempre. En “Hipólito” lo dije fuertemente: nunca más, estar dentro y fuera es terrible, es un sufrimiento terrible. Pero en esta piezas no había otra solución, podría haber tenido otro actor, pero no encuentro actores que consigan hacer lo que yo quiero, lo que yo ya tengo preadquirido como regla cero, y no me apetece estar enseñando a otras personas esas reglas… Además, en Portugal es muy difícil pensar en actores. En España no, hay actores que si podrían tener esas mismas ideas.

fotografia de Susana Paiva

¿Cuál es la diferencia entre los actores portugueses y los españoles?

En Portugal siento que los actores quieren hacer un buen trabajo, quieren ser correctos, profesionales, son limpios, son higiénicos… Ahí no reina la vida, en escena me gusta que haya vida, imperfección. En España veo que pueden percibir eso, que no tienen esa presión, que están en escena más relajados, tienen la presión de estar, de estar en todo momento pero no de hacer un trabajo “bien hecho”. Bueno, hablo de los actores que yo conozco, de Juan Loriente, de Juan Navarro, de Nuria Lloansi, de Jorge Hornos… Están, habitan, y no tiene pretensiones de hacer algo bien hecho, no sienten la necesidad de cerrar el trabajo, si de ser concretos pero no de cerrar las cosas. Aquí un buen trabajo es el que es preciso, correcto, geométrico. Mismamente el descontrol en Portugal es súper geométrico. Es como cuando ves un texto de Rodrigo García en Francia, es falso, va a ser eternamente falso. Siempre con la idea del actor armado, por ejemplo, en joven. Es un problema incluso de la propia edad, de la propia edad del actor. El ser humano ya tiene un problema con la evolución del tiempo y aceptar la edad de su propio crecimiento. Y parece que los actores tienen incluso ese problema mayor. Es ridículo cuando ves a una persona de 40 años haciendo de joven, por ejemplo. Creen que pueden hacer todo los papeles porque son actores y no pega ni para atrás. Esta idea del tiempo tiene que ver con lo que decía antes sobre el Colectivo 84, con la idea del tiempo que tenemos, de cómo situarse en el tiempo y saber lo que eres y lo que vas a ser en el presente.

¿Te pasa lo mismo, ya no con los actores, sino con las demás compañías y gente que trabaja en el teatro en Portugal, la distancia entre lo que haces y lo que encuentras es muy grande?

Tengo un prólogo de diez minutos en este espectáculo en el que hablo del estado del arte en Portugal. Acabo por hablar de estas cosas. Un amigo mío me decía que unos programadores portugueses le decían: Pero, ¿quiénes son los artistas portugueses, los nuevos creadores? Conocen a Vera Mantero, a João Fiadeiro, a Tiago Guedes y ya está. No ha habido un verdadero apoyo para los nuevos creadores, solo conocían eso y nada más. Y es curioso, lo que conocen es siempre danza, con el teatro hay una laguna mucho mayor. Portugal para fuera no hace nada. No hay ningún apoyo. En cuanto a lo que me preguntas de si veo cosas en Portugal… Me gusta ir al teatro, y la verdad no hay muchas cosas que me toquen… Siempre veo espectáculos que tienen una idea de, pero ya está. Ves algo y te dices: tenían la idea de hacer, pero no llega, son como ejercicios fallidos, no se alcanzan objetivos en escena,; y esto me ocurre más en danza, en teatro ya es un páramo. Está el Teatro Praga y… ¿Qué más? En danza también faltan muchos apoyos pero, es curioso, tienen mucha más visibilidad. Quizá también por la idea minimalista, de escenarios sobrios, es decir, es más barato, circula más. Quien se pone a inventar escenarios en este país a intentar moverse, a trabajar con actores…

¿Con que creadores y trabajos te has educado, sorprendido, reflejado?

En Portugal, con muy poca gente, es curioso, más con la danza cuando mi trabajo no tiene nada que ver con danza, pero sentía una mayor libertad, con João Fiadeiro, o Vera Mantero, o Guedes… No sé, es fuera donde encontré más cosas. Con Rodrigo García a quien yo admiraba y luego pude dar un curso con él de tres meses; y luego he podido trabajar con él como ayudante de dirección. Y Jan Fabre, Angélica Liddell, Romeo Castellucci… Ahí si siento una empatía, pero bueno, estamos ya hablando de una dimensión, puff. Es divertido, porque la dimensión del trabajo que yo hago es otra, no tiene nada que ver…

Pablo Caruana Húder