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6.9.10

CRÓNICA | Cultura por outros meios

texto de João Manuel de Oliveira
fotografia de Susana Paiva

Por vezes, quando se pretende escrever um texto sobre um qualquer assunto, neste caso, cultura, artes performativas, políticas culturais, entre outros, existem momentos em que escrever sobre um determinado tema se torna impossível face a outros temas que emergem. E cuja urgência nos incita a reflectir e a escrever, como se com isso fosse possível alguma intervenção sobre um real que nos escapa ao nosso controlo e aos nossos desejos.

Neste caso, é preciso recordar o que se está a passar em França, com a expulsão de mais de 8 mil pessoas da comunidade Roma. Falamos da comunidade mais perseguida na Europa, até aos dias de hoje, escravizada, expulsa, assassinada até em campos de concentração. Uma questão que para as ciências sociais é sempre de reconhecido interesse é o modo como a palavra “ciganos” usada para identificar as pessoas daquela cultura é ela própria sinónima de “burlão, trapaceiro, velhaco”. Ou seja, tal como outras palavras identificadoras de pertença a grupos culturais, como “judeu”, também com este grupo a sua designação está associada a estereótipos e a normas culturais que os colocam à partida como um grupo problema.

A medida de Sarkozy de uma França musculada atenta completamente contra estas pessoas. A sua expulsão coloca a França numa posição deplorável no seio da União Europeia que ,cada vez mais, se parece definir como a Europa das fronteiras fechadas face aos outros, mas abertas apenas para quem tem o direito de cidade. Esta fortaleza Europa que agora até expulsa quem sempre viveu nela está a tornar-se um sítio menos seguro e mais assustador, onde se expulsam pessoas que não se “integram” ou se proíbe o seu acesso a direitos fundamentais como a educação, se usarem o véu, enquanto que outros e outras não têm quaisquer restrições.

Evitando a demagogia que vejo presente nalgum trabalho artístico e sem cair na comparação de horrores e contagem de mortos e balas, o segundo caso que conto aconteceu na Palestina. No território ocupado por Israel na base da colonização e infra-humanização de um outro, sem cara, a que usa o véu para cobrir o rosto, mostrando e expondo assim a sua “barbárie”, em relação à qual nos sentimos “seguros” da nossa excepcional “civilização”.

O caso trata-se de um homem palestiniano que ocultou de uma parceira sexual israelita a sua identidade palestiniana. Tendo percebido que inadvertidamente tinha sido enganada, apesar de ter tido sexo consentido com semelhante criatura, a senhora apresenta queixa e ganha o caso em tribunal na base de uma acusação por violação por “engano” (rape by deception). Das declarações de um dos juízes constam as seguintes palavras:"The court is obliged to protect the public interest from sophisticated, smooth-tongued criminals who can deceive innocent victims at an unbearable price – the sanctity of their bodies and souls."

Até que ponto é usada aqui uma narrativa de progresso e um direito legítimo como é a defesa da violação por via da sua criminalização para marcar o ferrete de infra-humanidade do colonizado face à honra ofendida da colonizadora? Esta honra ofendida e agressão à santidade do seu corpo e alma, como diz o juiz, não seria assim caso o parceiro consentido fosse israelita (recuso-me por razões de rigor analítico e ético usar aqui religiões ou pertenças étnicas como sinónimos de Israelita e Palestiniano).

Ou seja, trata-se do estigma aplicado àquele corpo, inerte na sua incapacidade de resistir à colonização e condenado a 18 meses de prisão por uma violação consentida e usada como política sexual para manter não só a intocabilidade entre israelitas e palestinianos/as, mas também punir a transgressão dessas regras. Este ferrete estigmatizador transforma o palestiniano em não humano ou infra-humano pelo modo como a sua inteligibilidade lhe assegura um lugar conspurcador do corpo do outro. Não creio que sejam aqui admissíveis as comparações com o nazismo, por anti-semitismo como vício de argumento. Não acredito em contagens de mortos, balas dispendidas nem nesse tipo de comparações necropolíticas (Mbembe) da história, descontextualizadas e sobretudo redutoras para todas as pessoas envolvidas.

Contudo, creio que é possível mostrar como a construção de uma pessoa colonizada corresponde não só a um processo de infra-humanização (no qual Portugal foi perito durante os anos do império colonial mais longo da história), mas um processo de absorção do discursos dos direitos das mulheres apropriados inadvertidamente para construir esta indigna segregação e demarcação de um outro, orientalizado, selvagem e sobretudo perigoso. Esta marca é possível num mundo ocidental que definiu o 11 de Setembro como uma fronteira de demarcação temporal, ponto de vista aliás profundamente ocidental e marcado pelo ataque a um Império, ele próprio fornecedor das armas que alimentam a maioria dos conflitos no mundo.

A necessidade de contestar as políticas de um país agressivo, armado até aos dentes e com um projecto sionista colonizador é e deve ser pensado no quadro do modo como trata os seus cidadãos e sobretudo os não-cidadãos, os que estão fora da inteligibilidade do humano e que, como mostra Judith Butler, não são suficientemente humanos para serem chorados ou sequer lembrados. E temos perdido muitos. Mas a culpa não pode ser só do Estado de Israel, mas sim de um ocidente particularmente permissivo e cioso do seu excepcionalismo em termos de direitos humanos, que usa este “wild wild east” para aferir dessa mesma excepcionalidade, como mostra Jasbir Puar. Mantemos este outro, colonizado, profundamente perigoso e debaixo dos véus do preconceito que não existe (!) do lado de cá... ou expulsamo-lo para que possamos fingir, viver em liberté, equalité et fraternité?

7.8.10

CRÓNICA | ‘Intelectuais’ do sound byte

texto de João Manuel de Oliveira


fotografia de Susana Paiva

Montemor o Velho, 3 da tarde. Uma reflexão surge sempre a partir de um lugar, de uma experiência, de um espaço. Desmascarar uma experiência de universalidade a partir de uma marca assente no contexto, elucida-nos sobre o modo como o pensamento se constrói como uma praxis social. Ora, escrevo este texto a partir de um contexto, unidade fundamental para perceber as condições de existência e de emergência dos discursos.
Uma reflexão a partir deste ponto privilegiado, onde práticas artísticas se inscrevem num espaço marcado pela periferia face aos grandes centros de produção e irradiação cultural implica para lá da constatação geográfica, um questionamento político dos modos como se pode fazer chegar a criação e a produção cultural contemporânea às cidadãs e cidadãos.
Ao contrário de determinados 'intelectuais' do sound byte que pululam nos media cada vez mais marcados pela rapidez na transmissão da informação e subsequentemente pela ausência de uma reflexão crítica sobre os sound bytes produzidos, tenciono neste texto explicitar as razões pelas quais os investimentos de estado na cultura e na criação contemporânea são cada vez mais insuficientes. Por essa penúria crónica do sector cultural, priva-se o país de um desenvolvimento que seria necessário para romper com uma tradição de exílio cultural imposto pelo fascismo, mas também pela falta crónica de apoios até ao consulado Carrilho no primeiro governo de António Guterres. Esse exílio cultural em Portugal ao manter a população num condição de constante ignorância também foi concomitante com a inoperância do sector educativo em integrar a contemporaneidade cultural nos curricula. Para além do contributo para mediocridade generalizada que os media em muitas situações não só compactuam, como promovem.
Na chamada sociedade do conhecimento, a cultura deveria constituir-se como um lugar incontornável de exploração, de apreensão de diferentes inteligibilidades sobre o mundo e de fruição artística. Um lugar que oferece a possibilidade de nos repensarmos, fomentando competências consideradas fundamentais para esta economia do conhecimento supostamente alicerçada na capacidade cognitiva de adaptação.
Sem a auto-reflexividade trazida por estas práticas artísticas, diminui substancialmente o desenvolvimento social das populações privando-as assim de recursos fundamentais. Tal constitui, a meu ver, uma condição para a criação de uma população marcada por uma imbecilidade ideológica de antigos futebóis, fátimas e fadinhos, incapaz de se posicionar criticamente face aos constantes sound bytes arremessados por media cada vez mais alinhados ideologicamente com um regime de verdade marcado pela primazia da crise face a outras preocupações éticas e políticas e cada vez mais marcados por um acantonamento político da opinião pública à direita.
Ler 'intelectuais' do sound byte a proferirem declarações sobre o modo como a cultura é uma prática de elite corresponde a uma posição de classe que tenta mostrar a inutilidade da cultura contemporânea sem sequer a conhecer. É ignorar completamente a história de um país da semi-periferia do império, marcado pelo atraso crónico, que outros tantos da mesma cepa ‘intelectual’ usam para se diferenciarem positivamente do comum dos mortais e sobretudo consiste em privar as populações do acesso democrático a bens culturais que lhes deviam pertencer por direito. Convido-os a virem ao Citemor, a verem uma população envolvida activamente num festival com anos de tradição na criação contemporânea em vez de lamentarem que na cultura se gaste a fabulosa quantia equivalente a 2 kms de auto-estrada, privando assim as populações de conhecer o trabalho de criadores outros, lesando o desenvolvimento de mais criação contemporânea e de condenarem as artes em Portugal a uma fraca internacionalização, que seria facilmente colmatada com maior investimento público, dado o interesse estrangeiro nestes trabalhos.
Numa altura de crise, o país precisa urgentemente de preservar o seu desenvolvimento que é a condição de desenvolvimento das populações e de sair do patamar acrítico e imbecilizante que a economia do sound byte a colocou. Para mim, a melhor maneira de o fazer seria fazer-nos sair desta condição, investindo no desenvolvimento intelectual da população, pelas várias vias possíveis, educacional, formativa e através da exposição a criação, ela bem mais estimulante e interessante do que as imprecações tradicionais vindas de quem se coloca na posição artificial de sem sequer conhecer presumir a irrelevância e o gasto público de dinheiro dos contribuintes, dando-se ao luxo de continuar o exílio cultural a que temos sido votados por esta falta de dinheiro crónico e a fingir-se amigo do povo, que necessita de ser mantido ignorante a todo o custo, para poder ser mais bem mandado.

(João Manuel de Oliveira publicará regularmente em http://citemor.blogspot.com/ durante os próximos meses)

10.8.09

CRÓNICA | Meta im- ou in im-?

fotografia de Susana Paiva

“acts, gestures, desires produce the effect of an internal core or substance, but produce this on the surface of the body, through the play of signifying absences that suggest, but never reveal the organizing principle of identity as a cause.”
Judith Butler, “Gender Trouble”


A persistência das velhas crenças na objectividade, neutralidade e isenção, credo partilhado pela ciência positivista, originou um mal estar nas possibilidades de interpretação marcadas pela presença, parcialidade e participação. A externalidade do olhar é ligada, para Donna Haraway, ao olhar de “deus”, uma mítica qualidade estranhamente partilhada por cientistas e crentes, em que se assume ser possível um ponto de observação num plano distanciado (de cima para baixo, na metáfora), não implicado e em que se assume que o discurso corresponde a uma descrição da “realidade” implícita nesse contexto.
Não creio que um olhar externo possa localizar um objecto. Inversamente, acho que uma política da localização enuncia e contextualiza o modo como o objecto é construído (e não apenas como ele é apresentado). Em im- (um prefixo de negação), desenvolvi, no processo de criação, uma consultoria que habitualmente faço nos trabalhos da EIRA. Este texto visa reflectir essa experiência, num movimento de dentro para fora, assumindo o privilégio epistemológico da perspectiva parcial e situada.
Esta proposta foi construída a partir de um processo de cruzamento entre dois artistas (Vera Mota e Francisco Camacho) e traduz um espanto comum face à possibilidade de não-relação apesar da simultaneidade da presença. Assim, a peça implica-se nas possibilidades da não-inscrição dos acontecimentos nos corpos, de que a primeira cena é exemplar. A marca psicanalítica é evidente na presença oculta de um “isso” (id) que se faz sentir, mas que não se revela nem denuncia a sua face. Apesar desse jogo, em que imagens presentes mas ocultas se contrapõem ao rosto aberto, parece-me haver igualmente uma dificuldade em chegar à linguagem, em separar-se de uma possível mãe (uma particularmente fetal, interior e obstrusiva, que entra no real falogocêntrico). É como se o sujeito não quisesse chegar a essa condição, mantendo-se num plano de recusa de fronteiras entre si e o mundo. Para Kristeva, a má relação com o abjecto ocorre neste processo de separação da mãe, de transformação em sujeito individual com a aquisição da linguagem e simultânea entrada no real. Esse abjecto é visível no momento em que, out of the blue, duas figuras emergem e rompem com a lógica de contenção da performer que se foi deitando, indiferente e deslocalizada às mudanças no cenário que varia entre um deserto e uma paisagem alienígena, que às vezes me faz pensar no Dune de Lynch.
Esse momento particularmente queer, pela exterioridade/visibilidade do abjecto fora de um qualquer armário epistemológico e pela alteridade introduzida na condição de humano, ilude as possibilidades de uma narrativa moderna, interventora e instrumental, que fica assim condicionada à potência de uma não-presença. A recusa de uma identidade fixa – porque não inteligível - é contudo transposta para um momento de tentativa de relação em que os termos em relação são para nós desconhecidos, pois não detemos aquele código, aquela normatividade que regula seres azuis. Assim, não é tanto a não resolução que é proposta enquanto material reflexivo, mas sim as possibilidades de inteligibilidade, fora de padrões de relação que desconhecemos.

fotografia de Susana Paiva

No final, a tentativa de relação que falha constantemente é aludida e desta forma proporciona uma semi-inteligibilidade. Tratam-se de humanos, apesar de já infectados com a condição de alteridade anterior, e assim não completamente constrangidos a uma performatividade sujeita às normas do humano. Tentativas várias de individuação e de relacionalidade são tentadas até ao abandono da desértica paisagem. As sucessivas operações sobre o sistema de género implicam um processo de identificação mas simultaneamente de obliteração dessas normatividades, pois há várias figuras em que o género pode ser adivinhado, mas nunca completamente confirmado, mantendo uma qualidade queer durante todo o tempo da peça. O género pode ser lido na sua acepção butleriana, em que é conceptualizado como performativo, lido e interpretado no quadro de uma inteligibilidade normativa, reguladora do significado dos actos e gestos. Trata-se de um género que é feito e não tem relação directa com a identidade (o que aliás é evidente noutros trabalhos de Camacho como “Nossa Senhora das Flores”).
Esta peça, na leitura que fui fazendo dela, fala pouco de identidades, preferindo a exploração dos terrenos mais ambíguos da des-identificação e das possibilidades de re-leitura da condição (pós) humana, fora das normas de estruturação das identidades. Ao mesmo tempo, essa des-identificação é-nos devolvida, fazendo-nos repensar as nossas próprias performances e as nossas identificações que são estratégicas, parciais e reguladas pela própria sujeição às normas que nos transforma em sujeitos.
Neste processo criativo, fui convocado como testemunha crítica, e de uma forma dialógica e através dessa interpelação, construí esta possibilidade de leitura. Não sendo uma leitura “oficial” ou definitiva nem uma meta-narrativa que obstrua outras possibilidades de construção de significados sobre a peça, traz contudo essa marca dialógica de contacto e das possibilidades de devir com os outros, não entendidos como outros generalizados, mas próximos e figurados. O trabalho de investigação permite essa aproximação interpretativa e nesta perspectiva, a distância metodológica perde o carácter situado e contextualizador que os conhecimentos podem e devem ter. Tratam-se de compreensões parciais, não de metaleituras. In im- e não sobre im-.

João Manuel de Oliveira
Investigador em teoria feminista e estudos de género/queer
EIRA e CIS/ISCTE