Mostrar mensagens com a etiqueta Susana Paiva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Susana Paiva. Mostrar todas as mensagens

1.6.12

"Montemor" estreia em Marselha

O filme, de Ignasi Duarte, é uma produção Citemor e integra a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012 que vai decorrer na cidade francesa de 4 a 9 de Julho


Fotografia de Susana Paiva

No momento em que o Citemor prepara a sua 34ª edição com dificuldades reconhecidas — o festival esteve em risco de não se realizar — a sua equipa tem, apesar de tudo, um motivo de satisfação. O filme "Montemor" de Ignasi Duarte, rodado em Montemor-o-Velho e protagonizado por actores e habitantes da vila, foi convidado a integrar a Selecção Oficial da Competição Internacional do FID Marseille 2012, um festival de referência, que cumpre a sua 23ª edição e que explora na sua programação as fronteiras do documentário.
Para a direcção do festival, "nem sequer importa se o filme vai obter algum prémio, a sua selecção para uma mostra tão importante já é muito gratificante. Num momento em que o Citemor luta pela sobrevivência, mais uma vez o reconhecimento vem do exterior".
A selecção é composta por 19 produções oriundas de geografias tão diversas como: França, Alemanha, Itália, Bélgica, Espanha, Argentina, Egipto, México e Guatemala, Tunísia, Líbano, Taiwan, Palestina e EUA. O filme "Montemor", que para além de estar a concurso na Selecção Oficial participa também na Competição Primeiras Obras, é produzido pelo Citemor com Periferia Filmes (Lisboa) e Pão Filmes (Barcelona).
Numa entrevista realizada por Cláudia Galhós durante as filmagens, Ignasi Duarte falou um pouco sobre aquilo que o motivou para realizar "Montemor" e sobre a temática da longa-metragem: "Em 2005 estive aqui a trabalhar com o Roger Bernat e fiquei fascinado pela vila, pelo ambiente, pela gente da vila e do festival. E pensei fazer um documentário das pessoas, da equipa do festival, dos artistas. Partiu da ideia de pensar este deserto, que é Montemor, e como é possível um festival, a partir da vontade, da ilusão e da crença, da fé, de querer fazer as coisas. Fascinava-me pensar que podia ser uma forma de falar do que move as pessoas. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documentário, é uma ficção.
Estive no Inverno e na Primavera aqui, em Montemor, conheci o sítio, localizei os personagens que me interessavam. Era importante escolher, é muito fácil cair na dispersão, porque aqui existem muitas coisas bonitas, especiais. É a viagem de um personagem que, no caminho, encontra outras personagens. É muito simples. Parte de casa e encontra-se com distintas aventuras e depois se verá se regressa ou não a casa."

29.3.12

António Pedro Lopes e Marianne Baillot vão a Paris

O espectáculo "Measure it in inches", que estreou no ano passado no Citemor, vai ser apresentado hoje, às 19h30, no Théâtre de Vanves. A obra é uma co-produção com o Citemor, com o Théâtre de Vanves - Scéne Nationale de Danse, com o Espaço do Tempo e com o CCN Belfort.

Não podendo ir a Paris, vejam as fotos do ensaio da obra, da autoria de Susana Paiva, e a crónica de Pablo Caruana: La deconstrucción del género


4.9.11

SNAPSHOTS

Um diário poético-visual. Fragmentos que cruzam lugares, rostos e paisagens em torno do festival. Fotografias de Susana Paiva.

 14.8.11

13.8.11

12.8.11

11.8.11

10.8.11
9.8.11

8.8.11

7.8.11

6.8.11

5.8.11

4.8.11

3.8.11

2.8.11

1.8.11

31.7.11

30.7.11

29.7.11
 
28.7.11

1.9.11

FOTOGRAFIA 2011

imagens e edição de Susana Paiva

EM ENSAIO | Apuntes Mínimos | Ana Buitrago



EM ENSAIO | Estilo Internacional | Sergi Fäustino



EM ENSAIO | Massacre | Colectivo 84



EM ENSAIO | Measure it in Inches | Marianne Baillot & António Pedro Lopes



EM ENSAIO | Lost Ride | Francisco Camacho



EM ENSAIO | Carta Branca | António Jorge Gonçalves & Pedro Lopes



EM ENSAIO | Sede | Teatro da Garagem

15.8.11

CRÓNICA | A vida entre os mortos

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

"Ela está deitada de olhos fechados" - lê-se nas legendas mudas que surgem num dos ecrãs em cena. "Ela", tudo indica, é Branca de Neve. Afinal trata-se do espectáculo "El lamento de Blancanieves" de Olga Mesa. Mas esse "ela" toca mais fundo a natureza humana a que se refere. "Ela" é uma experiência sensível, interior, profunda. Diz de nós que não sabemos como viver se não num mundo de mortos. Uns porque são carrascos. Outros porque se recusam a sonhar. É disso também que nos fala a introdução à peça? No texto que vai subindo no ecrã podemos ler: "Nesta nova versão do conto, Branca de Neve acorda depois do beijo, num campo de concentração abandonado".
O cenário do viver é tendencialmente de guerra - interior ou exterior, inter-pessoal ou de massas. Também na obra de Olga Mesa, a guerra é uma paisagem que se insinua. Mesmo que exista apenas como uma banda-sonora distante, num movimento de luz escondido dentro de um labirinto de cartões, onde habitam risos, olhares de sedução e medo. De quem fala então Olga Mesa quando fala de Branca de Neve? De quem fala Olga quando fala de Branca de Neve e fala da rainha? Quando fala de Branca de Neve e da rainha, Olga Mesa e Sara Vaz - que com ela partilha a cena - falam ainda de Olga Mesa e de Sara Vaz. E de todas as pessoas que debruçam o seu olhar sobre elas - os espectadores, as câmaras apontadas a elas, a câmara que transportam consigo e que desloca o seu próprio olhar fora do corpo? Fala de morrer entre os mortos? Ou fala de resistir?
Uma das abordagens possíveis ao espectáculo "El lamento de Blancanieves" é por via das leituras simbólicas sugeridas pelo seu complexo aparato material e formal. São impressões marcadas na carne de um império de terror, onde a vida humana vale muito pouco quando comparada com o preço dos bens essenciais que as medidas de austeridade e a fome propagam em diferentes proporções e por diferentes causas em paisagens tão distantes como a Somália e os países europeus que, em resposta à crise económica, implementam os ditos planos de austeridade. A vida acontece entre guerras e tudo são mortes sem sentido. Como as milhares de crianças assassinadas por senhores do mundo que fazem uma desigual distribuição da riqueza. Há um infanticídio que permanece impune, de que fala Jean Ziegler em "L'Empire de la Honte": "No início do III milénio, a miséria atingiu um nível mais chocante que em qualquer outra época da história. É assim que mais de 10 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem cada ano de sub-nutrição, de epidemias, de poluição de águas e de insalubridade. 50% destas mortes ocorrem dentro dos seis países mais pobres do planeta. 42% dos países do Sul abrigam 90% das vítimas. Estas crianças não são destruídas por uma falta objectiva de bens, mas por uma distribuição desigual destes. Ou seja, por uma falha artificial."
Este é o mundo de que "Branca de Neve" de Olga Mesa faz parte, com filiação no espírito das versões do poema de Robert Walser ou do polémico filme de João César Monteiro. A Branca de Neve de Olga Mesa é uma mulher que foge. Há a fuga para a floresta densa - real ou simbólica -, a respiração acelerada, o riso nervoso e o grito. A escuridão pressente-se na primeira parte da obra, com os momentos de luz quase inexistente e os panos pretos que cobrem as lentes das câmaras de filmar fixas. As "câmaras objectivas"? A escuridão materializa-se numa segunda parte, por via dos ecrãs negros que o público pode ver, por vezes interrompidos apenas por um movimento de letras brancas, e nas imagens vídeo projectadas onde o olhar persegue a mulher que foge para dentro de uma outra negritude.
O imaginário comum partilhado da dor humana recupera imagens do Holocausto, de Hiroshima. O abismo da morte a espreitar a vida. Ou a vida a espreitar a morte. Mas esse recuo até ao passado faz a ligação a um presente que instala uma outra ordem de horror, num misto de atracção e medo.
Walser e César Monteiro, matéria inspiradora deste espectáculo, propõem uma outra leitura de Branca de Neve. Há um ano, quando partilhava os materiais de uma fase mais inicial da peça, também em residência artística em Montemor-o-Velho, já extra festival, Olga falava disso mesmo: Branca de Neve é a morte. "Para mim, um dos aspectos mais curiosos é a convicção que tenho que o César Monteiro conhecia a 'Branca de Neve' do Walser, onde às tantas se lê 'em vez de olhar, prefiro escutar'. Quando li essa frase no Walser pensei que o César Monteiro tinha entendido que a Branca de Neve é a morte. César Monteiro não estava apenas a mandar a lógica da indústria, neste caso do cinema, às urtigas. Está em sintonia com o Walser. A Branca de Neve deles não queria estar neste mundo, estava desinteressada do mundo, como provavelmente César Monteiro estava. Ele realizou mais um filme e morreu."
O branco permanente do ecrã de César Monteiro não contraria a imagem cinematográfica, antes abre em possibilidades infinitas o potencial de aparição de imagens. O branco é o espaço aberto, depois que tudo acabou. É a possibilidade em potência depois da destruição avassaladora.
Poderíamos supor que o apelo ao público que Olga faz a partir deste discurso, passaria por uma negação do sentido da imagem, inerente à entrega a esse primeiro gesto: fechar os olhos. E escolhendo uma relação mais crítica com o olhar, pôr em jogo com maior implicação de significado a audição. É um facto que a banda-sonora é trabalhada ao pormenor, e tem um papel fundamental nesta peça, ganhando sentido diverso no acompanhamento que faz na primeira parte, ao vivo, do sentido que carrega na segunda parte, projecção de vídeo. Na composição sonora desta Branca de Neve, cabem palavras ditas, sons de breves gritos ou suspiros, silvos interiores, banda sonora instrumental para criação de ambiente (suspense, terror, mistério), e músicas iconográficas - a morte do cisne, em "O Lago dos Cisnes" de Stravinsky, que as duas intérpretes dançam nuas, em permanente queda.
Mas esta aproximação crítica à ditadura da imagem não é pura rejeição ou negação da mesma. É antes procurar uma outra relação, investigar as possibilidades de ver para além do imediato. Significa não a retirar ou anular, mas antes incluí-la na equação, numa combinação de imagens provenientes de fontes diferentes e intermediadas por via de diferentes meios, sendo um deles o "corpo-operador" das intérpretes. Parte das filmagens são feitas assim 'sem rede', ao vivo, em plano contínuo, entre a elaboração do enquadramento e a reprodução da instabilidade da mão humana - interface de relação da câmara com o "corpo-operador" -, na imagem tremida pela câmara móvel, a "câmara subjectiva". Esta, que é uma questão estimulante, que na fase em que o projecto está, não está superada. Mas como superar a imagem, no seu sentido mais mundano, sedutor e manipulador, não negando simplesmente a imagem, mas antes usando-a? O que resta depois?
"O que me interessa não é construir com o corpo as imagens, mas falar do que está por detrás", dizia Olga em 2010. É um interesse que tem paralelo no conceito de "fora de campo", que há muito pesquisa, e que é evocado no nome da sua estrutura, Association Hors Champ/Fuera de campo. Em "El Lamento de Blancanieves" o tema ressurge. "Comecei a desviar e a procurar não a acção em si mesma, não a captação das coisas, mas o espaço em redor das coisas. Relativamente ao tema da guerra, era interessante, porque estava à procura, primeiro, dos indivíduos e não tanto da guerra. Também não era tanto o momento da guerra mas o depois, quando tudo está quase já perdido. Quando tudo tem que recomeçar ou inevitavelmente a vida continua."
E de um modo que nunca se rende ao óbvio, repete em nova fórmula esse movimento do desviar do foco de atenção do centro para a periferia. Revaloriza num sentido interrogador, sem soluções para já, tudo o que ficava além do que o olhar via, fosse por se situar na margem ou por estar escondido para lá (ou nos bastidores) da imagem. Talvez para reivindicar a crença na utopia.
"A utopia não é visível se não ao olho interior", escrevia Jorge Luis Borges. O gesto revolucionário é esse, de fechar os olhos. O realismo da utopia é então uma urgência. Bem entendidos que, se formos generosos na forma de entrega à utopia podemos permitir a entrada do sonho na sua prática quotidiana. Mas esta noção de utopia implica uma qualidade específica para esse estado, que chamaremos sonho, mas pode ser delírio, pode ser fuga, pode ser resistência... Implica mudança. Morte. Implica alterar ritmos - logo, tem implicações na vertente temporal da peça, já não simplesmente no interrompimento da velocidade exterior, mas em pulsações de ritmos variantes mas que não cedem a uma ideia de gestão de eficácia da atenção do espectador, antes reforça o desafio à atenção. Implica agir sobre o espaço - a moldura de cena são paredes finas, brancas, que amplia em versão aberta e simplificada o labirinto de cartão castanho situado no seu interior. Implica alterar o sentido de personagem - nessa instabilidade da identidade, que transita entre ser Branca de Neve, Rainha, as próprias intérpretes ou uma outra entidade que não pode ser contida em nenhuma destas ou outra tipificação e que dispara para referentes reconhecíveis, mesmo que alterados de forma libertária e libertadora - as bailarinas de "O lago dos Cisnes", aqui em versão de corpo feminino nu, em pontas, em permanente desequilíbrio; uma vertigem da imagem e grito de terror, entre "Blair Witch Project" e despojos humanos da guerra; o temperamento físico de vaudeville em final de festa, saltos altos, corpo semi-nu e máscara de brilhantes, a citar o filme "O lamento da Imperatriz" de Pina Bausch, em que uma bailarina desce em passo titubeante, saltos altos, com um acordeão uma montanha instável de pedras negras, ao som da música do mesmo filme que transita para a cena e o filme em "O lamento de Blancanieves".
Mas tudo o que podemos ver está ainda para além do reconhecimento destas imagens. Está nas vozes interiores. O apelo a esta sensibilidade delicada do ver e escutar há muito faz parte do universo de Olga Mesa. Mas concretamente, na última criação, esse era um tema assumido, "Solo as ciegas (com lágrimas azules)".
Com os olhos fechados, importa suspender o olhar para além do horizonte - diríamos se juntarmos a voz de Henri Lefevre a Borges. O que escreve o primeiro sobre este assunto? "Os que pensam suspender o seu olhar sobre o horizonte e se ficam a contemplar o que todos vemos, os que reivindicam o pragmatismo e tentam fazer somente uso do que temos, não têm hipótese alguma de mudar o mundo... Apenas aqueles que focam o olhar em direcção ao que não vemos, os que olham para além do horizonte são realistas. Esses têm hipótese de mudar o mundo... A utopia é o que está para lá do horizonte".
Nesta lógica, o que ela faz ao pôr em acção, como conceito e estado humano, um corpo que opera um artifício - neste caso uma câmara de filmar - é mais do que meramente assumir em cena a materialização da ideia propagada de um corpo contemporâneo tecnológico. Ela procura o sentido dessa relação, entre o humano e o tecnológico, superando a mera constatação de que os sentidos se ampliam através de novas próteses, acessórios que fazem por exemplo os olhos ver o que não existe através de câmaras e projectores de hologramas 3D, entre outros... Todo o aparato técnico e material que é convocado nesta peça não fala disso. Toma essa realidade como um factor adquirido e vai para além dele. Indo para além, empreende um duplo movimento, simultaneamente para o passado e para o futuro, sublinhando a experiência do presente. Por isso se jogam as memórias.
A história da humanidade sangra a preto e branco num ecrã que, num primeiro momento, nos escapa ao olhar. Está escondido no interior do labirinto de cartão. Para além das três câmaras de filmar e os projectores que revelam a imagem, temos cartão, corpo humano e pouco mais.
Estes são alguns dos aspectos de uma narrativa possível que podemos identificar dentro da estrutura de composição física daquele espaço cénico-expositivo. Entramos aqui na análise conceptual ou teórica sobre as questões de ordem artística e normativa postas em cena - onde cabem noções-queridas da coreógrafa como "corpo-operativo", "câmara subjectiva", "câmara objectiva", "fora de campo", etc. Estes conceitos em pesquisa na prática artística, disparam nesta peça em referentes literários, cinematográficos, coreográficos, cujo levantamento por si permitiria a escrita de um dicionário com o léxico pessoal da criadora e um glossário de fontes de referência, a maior parte caracterizando-se por escapar ao património mais mainstream da memória comum, mesmo que passando por ele... Em toda essa viagem, depois dos olhos fechados, é o corpo em abandono de uma mulher, abandonado também pela própria mulher, em que nos fixamos. Um corpo num espaço na fronteira limite do espelho de Alice, que ficou preso à superfície reflectora. Não passou para o outro lado, nem se mantém no seu exterior. É um corpo que nos escapa, que se escapa ao corpo próprio, e que não quer ser aprisionado pela imagem. O que resta depois? É isso que Olga Mesa procura.

11.8.11

CRÓNICA | Introdução ao corpo-operador de Olga Mesa

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Em 2010, Olga Mesa apresentou uma versão em fase inicial do projecto de pesquisa que tem aprofundado nos últimos anos e que dá por nome de labOfilm, de que "El lamento de Blancanieves" é o primeiro episódio. Hoje (dia 11 de Agosto) apresenta em antestreia a mesma peça em fase mais aprofundada de pesquisa, mas a estreia está marcada para o início de 2012, em Guimarães.
Este é um mundo complexo, que mergulha num pensamento sobre a arte, o corpo, a imagem, a subtileza do que se escolhe dar a ver e o que se esconde, e o valor simbólico desse jogo de revelação e ocultação que transporta um sentido poético e filosófico que chega a nós por via desta forma singular que toca a dança, a performance, o teatro, o cinema, as artes visuais, a instalação...
São várias as portas possíveis de entrada no mundo de Olga Mesa. Para já, fica uma primeira aproximação que recupera a memória das primeiras experiências de Olga Mesa com câmaras em contextos performativos, num breve excerto de uma conversa tida em Agosto de 2010, fase de residência criativa de Olga Mesa em Montemor-o-Velho, que antecedeu uma partilha de materiais nesta localidade, já extra o programa do festival. Primeiras impressões sobre conceitos como "corpo-operador", "câmara subjectiva" e "câmara objectiva" em aprofundamento nesta peça.

"No projecto labOfilm há muito material de obras anteriores. Creio que é um projecto que está à procura de um dispositivo num espaço. Está a questionar o corpo em relação a esse espaço com o interface da câmara. É mais a articulação dramatúrgica que põe em questão o que o corpo-operador vê a partir do subjectivo e o que constrói. O ponto de partida do labOfilm foi o ano de 2007, então com duas câmaras. Havia a câmara subjectiva - que levava comigo -, e a objectiva - que era posicionada fora, com alguém detrás dessa câmara, a olhar para mim, a filmar-me. Era um primeiro dispositivo de alguém que filma alguém que filma. Havia já esse olhar duplo exterior.
Aí trabalhámos com esse pequeno dispositivo. A ideia ligava-se com o retomar a origem do meu trabalho, o que remetia para o uso de uma câmara. Ao longo destes anos percebi que, quando comecei, usava a câmara porque tinha por objectivo fazer uma peça cénica e uma peça visual. Foi quando fiz o vídeo "Europas", em 1995, com o Francisco Camacho e a La Ribot e, em paralelo, uma produção para o CCB, quando Gil Mendo era programador de dança, em 1994, "Des/Aparições". E fiz este filme, um vídeo de 15min, que na altura foi uma complicação... Não era vídeo-dança, eu estava já a trabalhar com a câmara, não tanto relativamente à dança mas por relação com os espaços. A ideia era construir uma dramaturgia a partir dos espaços e do quadro/moldura. O corpo estava presente a olhar. Era um corpo já espectador dentro do quadro...
O que se passou depois daí, na minha trajectória, é que levei a câmara para o palco. Não fiz mais filmes fora desse contexto. Até 2004, com "Solo a ciegas", a câmara tem assumido diferentes identidades. E essa câmara estava cega. Filmávamos gestos e momentos que o público não via. Não mostrávamos imagem. Chegar a essa câmara cega foi o aproximar do que realmente interessa, que não é a imagem dada a ver, mas o que está por detrás da câmara. Neste caso está relacionado com o corpo-operador. É aí que identifico este interesse, não tanto pelo visível, não tanto pela imagem em si mas o interesse pelo que o espaço pode construir no emergir da imagem..." (a continuar...)

10.8.11

ANTEVISÃO : 3º semana

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Espanha chega ao Citemor na terceira e última semana do festival. Olga Mesa, Sergi Fäustino e Ana Buitrago são os nomes em presença, que traduzem três abordagens distintas ao acto criativo que, tendo a sua origem geográfica no país vizinho, não está contido nessa fronteira física e cultural. Se esse facto é verdade para a interrogação sobre o gesto artístico, a pesquisa sobre as possibilidades expressivas, simbólicas, poéticas e psicológicas do corpo, que de forma distinta cada um opera em cena, é mais ainda quando consideramos o nome de Olga Mesa. No caso de Olga, trata-se de um percurso afirmado fora do país de origem, muito como acontece com uma certa geração a que pertence, como La Ribot, por exemplo - uma primeira geração da dança contemporânea espanhola.
Em "El Lamento de Blancanieves" - que se apresenta em estreia na Oficina Municipal de Teatro (Coimbra, quinta e sexta, 11 e 12) -, o espaço construído perante o olhar do espectador instala uma proposta simultaneamente visual, plástica, cinematográfica, coreográfica e teatral. Ecrãs, câmaras de filmar, lugares de desaparecimento, aparições de imagens de ficção..., são alguns dos elementos de uma sugestiva proposta artística onde a voz que se escuta vem de dentro do corpo e liberta para o exterior um som que carrega uma profundidade delicada do sentir. Uma montagem fílmica num palco que poderia ser um espaço de galeria para uma performance onde se jogam as questões da realidade e ficção, do que é dado a ver e o que se esconde, que toca interrogações sobre intermediação e interpretação, e sobre entregar-se ali, para se dar aos outros e a si própria. O espectáculo acontece no Citemor em ante-estreia, sendo o festival co-produtor desta criação que tem estreia prevista para o início de 2012. "El lamento de Blancanieves" toma como ponto de partida a história de "Branca de Neve" por via de duas fontes de inspiração principais: por via da versão do escritor Robert Walser, que carrega e adensa de forma poética toda a densidade psicológica do conto de fadas original; e o polémico filme de César Monteiro, em que a história se escutava nas vozes dos actores, num ecrã sempre branco, onde todas as possibilidades de imaginação se expandem.
Sergi Fäustino apresenta-se pela primeira vez ao público português, com uma peça de pesquisa sobre o corpo exausto e quais as alterações, no corpo e no ambiente e espaço circundante, que esse estado limite opera. "Estilo Internacional. Investigación alrededor de un cuerpo cansado" (sábado e domingo, 13 e 14, na Quinta do Taipal) é também uma co-produção do festival e resulta na apresentação do resultado da residência de criação realizada pelo artista em Montemor-o-Velho. Significa isto que consiste na partilha com o público de um momento de pesquisa de materiais, organizada formalmente como espectáculo, mas não se constitui como apresentação de uma peça terminada.
Ana Buitrago estreia "Apuntes mínimos" (13 e 14, sábado e domingo, às 22h30, Sala B) que, desde logo pelo título, indicia a intenção de trabalhar sobre o pormenor e a minúcia. Neste caso essa composição experimental é aplicada a uma pesquisa sobre o gesto e o movimento, com o desejo de os separar "da sua possível simbologia para emergir no corpo, na sua escritura como linha e ponto, como lugar de expansão em trânsito", segundo palavras da criadora e intérprete.

DISCURSO DIRECTO | Aqui e agora? (2ª parte) | Carlos J. Pessoa

Texto de Cláudia Galhós

A crise da decisão na sociedade da mediacracia e a defesa da responsabilidade cívica do teatro é um dos temas que constam desta entrevista ao director da Garagem, Carlos J. Pessoa. Onde se fala também do inumano, o valor da ocupabilidade e o Citemor, como festival que arranca o teatro à terra. Tudo a pretexto de "Sede Remix", espectáculo estreado nesta edição, de 2011.

fotografia de Susana Paiva

Sendo o teu teatro tão ligado a um pensamento sobre o mundo, consegues identificar o que caracteriza este momento específico que estamos a viver - este momento social, político e económico...?
Estamos a brincar demasiado, em termos da política mundial e do Ocidente, sobretudo na Europa e Estados Unidos. Estamos a esticar muito a corda. Acho que vivemos numa época de esticar muito a corda, de testar os limites, de experimentar a beira do abismo. Isso tem sido falado por muita gente. Revela uma falta de consistência em termos de lideranças. De certo modo subscrevo essa análise. A atitude de alguma irresponsabilidade perante o futuro. Tenho a sensação que as coisas se resolvem por si. Não há uma coisa que os gregos tinham muito presente, que é a ideia de decisão.
'Os Persas', que é a primeira peça, é uma peça sobre o abismo. E o Ésquilo, quando escreve aquilo, está a falar do problema de decisão ou falta dela. Acho que vivemos uma crise de decisão. As decisões não são tomadas, não há responsabilização. A democracia foi substituída por uma mediacracia. Há uma espécie de gestão de imagem, do passo seguinte, do que vem, da espuma que vem a seguir, se me é mais favorável ou menos favorável. Não se discute responsabilidade, não se decide. Nessa medida, vivemos sempre de não decisões. São sempre adiadas. Acho que isso é perigoso e configura um pouco o que é 'Os Persas', que é o acontecimento da derrota de Salamina, em que eles têm tudo e perdem tudo de um momento para o outro.
Acho que vivemos um momento perigoso a esse nível. Mas penso que é geral. Há uma esquizofrenia geral de consumo, de modas, de aparência. Tudo isso faz com que as pessoas se entreguem a um espírito, 'ah isto logo se resolve'. Mas pode não se resolver. O problema crucial é este, o da falta de decisão, de falta de responsabilidade, de dignidade. E isso é terrível.

E qual é o papel do teatro nesse contexto?
Como alguém terá dito, o teatro não cura, não é terapia para nada. Mas ajuda a aceitar o inevitável. Aceitar que há inevitabilidades na nossa existência. E esse confronto com a inevitabilidade, nesse espaço de 'aqui e agora' que o teatro proporciona, é de uma riqueza extraordinária. Acho que nos dá a prudência, que nos dá a sensatez, nos dá a civilidade. Acho que nos dá a medida da nossa dignidade. Porque a dignidade humana não tem preço nem pode ter preço. Nessa medida acho que o teatro é essencial nas nossas sociedades. Porque tem esse pequeno milagre do aqui e agora, do início da conversa. Nós temos a oportunidade de sentir, verificar, quase sentir a palpabilidade dessa prudência urgente, desse sentido de decisão e de responsabilidade. Esse face a face. Sentir a tensão do face a face, porque quando olhas para o rosto do outro, vês a tua responsabilidade, vês-te ao espelho. E isso é decisivo.

O teatro então só faz sentido quando se implica nessa relação com o outro?
A meu ver, não podemos fazer do teatro um exercício de estética pela estética, e do 'artiste', que é uma coisa que odeio, da arte pela arte. Isso, infelizmente, também descaracteriza e penaliza muito a gente de teatro, porque se perde em espaço político, porque não tem um discurso político e resolve entrincheirar-se na auto-referenciação e no discurso para os amigos. Infelizmente, tenho assistido a esse défice de voz pública, voz política, voz activa. Não estou a falar de público, público há sempre. Estou a falar de haver uma voz vinda do teatro que tenha opinião sobre o que se passa, como há noutras áreas. Nestas crises temos pessoas da ciência de muita qualidade a falar. Não tiveste nenhuma do teatro. Pelo menos não ouvi nenhuma. Já quando se corta o subsídio, aí ouves. Mas isso é miserável.
É com muita tristeza que o digo mas assisto a uma total falta de solidariedade com as novas gerações. É terrível. Os jovens são carne para canhão, são descartáveis... Acho que há uma enorme falta de responsabilidade, pública e cívica, perante as novas gerações e perante o teatro, que não se esgota no próprio umbigo. Não começa e acaba em mim.

É por isso que integras jovens no elenco desta peça?
Há um artigo fabuloso do filósofo Fernando Gil, escrito a quatro mãos com o Mário Vieira de Carvalho sobre a questão do inumano na arte, que é diferente do pós-humano. O pós-humano é uma coisa um bocado folclórica. O inumano é mais interessante. A Paula Rego tem uma história esclarecedora sobre isso, em que diz, 'quando estou a pintar, os meus filhos só comunicam comigo pondo um papelinho debaixo da porta'. Isso parece inumano, parece cruel. É cruel e inumano. Mas não tem nada a ver com responsabilidade cívica. Um artista tem o momento de criação e o momento de comunicação. E no momento de comunicação tens de ter responsabilidade cívica. É evidente que o Glenn Gould quando está a tocar ao piano, não está preocupado com a fome na Somália. Ele é um animal, é um bicho que se fundiu com o piano. Mas essa dimensão inumana não pode ser confundida com a responsabilidade pública e cívica que tem de se ter. Mais não seja porque o artista recebe dinheiro dos contribuintes. Isso chateia-me. Preocupa-me. Por isso também é importante ter a nova geração a trabalhar connosco.
A Garagem desde o primeiro momento foi uma escola de uma primeira geração. Muita gente passou por aqui, como o Jorge Andrade, a Cláudia Gaiolas, a Maria Duarte, a Patrícia Portela, enfim... Um aspecto forte do trabalho da Garagem é essa generosidade, essa partilha. Não estou nisto para me evidenciar. Estou nisto para estar com os outros, para partilhar. Nessa medida a Garagem teve esse percurso, que é geracional, e serviu de inspiração, às vezes até por contraponto. Um dia que se pense a história dos anos 80 até aqui vai ser evidente esse papel que a Garagem teve.
Neste momento estamos velhos, temos idade para ser pai deles, a relação é diferente. Não é tanto uma relação de crescimento com eles, mas é relação de escuta, amparo e formação objectiva para dar condições para esta geração ter a sua própria gente. E depois também há surpresas. Neste espectáculo fui muito surpreendido por eles.

Mas identificas qualidades específicas nestes novos actores, que se estreiam na Garagem, que fez com que tenhas querido trabalhar com eles?
Eu não faço castings. Recuso-me. Acho essa coisa do casting de um miserabilismo ideológico. Corresponde a um 'petit povoir' completamente cretino, de imbecis. Odeio castings. Acho que é uma espécie de escravatura de pequeno poder. Estou aqui sentado e agora mostra-me lá o que sabes fazer.

Precisas de conhecer as pessoas?
E precisas de te dar a conhecer. Num casting não conheces nada de nenhum deles. Acho que isso é um desrespeito. Não sou sempre eu quem escolhe. São também os outros que me escolhem. Tenho de ser escolhido. A coisa é mútua. É o tal face a face.

Mas no concreto, então, como é que esse encontro acontece?
Às vezes são as pessoas que me procuram. Já criei papéis para pessoas que me bateram à porta a dizer 'queria muito trabalhar consigo...' É um encontro mútuo. Não estou aqui a analisá-los. Para mim dar notas é sempre um sarilho. Acredito que não há maus alunos, o que há é maus professores... Essa é a minha ética. Nisso sou muito radical... Qualquer pessoa, sendo pessoa, é linda, tem potencial de beleza. Eu gosto de pessoas. O teatro tem de ser uma dádiva, tem de ser um momento de compaixão e partilha. Tivemos uma história com um senhor que fazia parte do grupo com quem desenvolvemos trabalho comunitário no Teatro Taborda, que a Maria João Vicente, a Ana Palma e o Fernando Nobre desenvolvem. Eu fiquei a conversar um pouco com ele e ele dizia que gostava de cantar fado mas era vestido de mulher. Eu disse: ah quer? E foi assim. Não fui eu quem escolheu, foi ele que quis. Porque fazia sentido assim. Não é aquela coisa do 'artiste' e agora vou criar uma coisa de 'freackshow' porque tem efeito e é giro. Aquilo tinha uma história por trás. Acho que tem de haver sempre uma história por trás. Esse, para mim, é o sentimento da compaixão. Que é o sentimento da partilha de uma paixão que ele manifesta e eu comungo com ele. Com estes miúdos é um bocado assim. Procurei escrever para eles, conhecê-los. Não os conhecia, eram alunos da Maria João. Na Escola [Superior de Teatro e Cinema] só tive relação institucional com eles.

Pegando no exemplo da Paula Rego, dirias então que o momento da criação, no teu caso da escrita, é justo que seja um momento inumano?
Acho que esse artigo do Fernando Gil é brutal, é uma coisa publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, escrita a quatro mãos, com o Mário Vieira de Carvalho e é sobre música. Ele fala de um texto da Teolinda Gersão muito interessante, "Os Teclados", que fizemos na Garagem numa encenação do Listopad. É sobre essa relação que se tem com a arte em que muitas vezes afloras essa zona, que podes qualificar de inumano. No outro dia estavam a perguntar ao Gonçalo M. Tavares para que escrevia? Não me lembro a resposta que ele deu, mas sei que resposta eu daria. Escrevo para a escrita. Não escreves para ninguém. Estás completamente rendido, fechado, nessa relação. E o inumano é um pouco isso...

Mas depois há um outro momento em que tens de abrir, certo?
Claro, por isso é que não fico só pela escrita.

Defines então dois momentos distintos na relação com a arte, neste caso por via do teatro: um da escrita, fechado para a escrita, do inumano; e depois o do teatro, que é da abertura, da partilha, do humano?
Sim. O teatro é abertura, de uma certa higiene, senão enlouqueces…

Mas como é que abordaste o texto do Eugene do O'Neill, "Sede", sendo que a peça faz um jogo entre o que é escrita dele e a tua escrita?
A peça é fraca. A peça não é grande coisa. Peguei na peça porque era fácil de trabalhar num primeiro momento. Era uma coisa fraca, mas tinha buraco. Era muito esburacada. Muita coisa onde podia mexer e remexer. É um texto claramente experimental do O'Neill. Mas eu gosto muito do que é fraco, do imperfeito. Os meus quadros preferidos do Da Vinci são os inacabados. São os melhores. Coisas inacabadas, imperfeitas, frágeis, fracas são as melhores. Por isso digo que o texto era fraco, é nesse sentido, não no sentido de deitar fora. Fraco no sentido de que não chegou ao sítio, ficou aquém. Gosto imenso destas coisas. É como o Souto Moura quando faz arquitectura e pega numa pedra que já lá está. Este "Sede" para mim era uma pedra que já lá estava. Mas que era só uma pedra. Era uma coisa fraca nesse sentido. Como a peça falhada que fiz. Adoro fazer peças falhadas, como a do Tennessee Williams, "Camino Real". É uma peça com a qual ele próprio teve uma frustração ao longo da vida, porque as montagens daquilo foram sempre um flop. Mas acho que são textos com uma ocupabilidade muito boa, que também é um assunto que me interessa. Este texto tem uma boa ocupabilidade. Portanto fiz esta versão remix. Tem coisas que são da ordem do teatral, que fazem parte das minhas pegas com o O'Neill.

Tais como?
Por exemplo o personagem que ele torna mais rigoroso e vil, que é o marinheiro, eu torno-o o mais importante, porque o texto é racista, ele é "o preto". Agrada-me essa disputa teatral, essa disputa inter-autoral com o O'Neill a dizer que o preto ali representa o mal e para mim ele representa a luz. Esses debates, como a questão da bailarina, do gentleman, interessou-me discutir com ele. Como se fosse possível. Um bocadinho como o Tabucchi fez, embora de uma maneira um pouco mais elegíaca há uns anos, com o texto "Está ao telefone o Senhor Pirandelo". Salvo erro era o Pirandelo com o Fernando Pessoa e o Tabucchi pelo meio. Era um triálogo. Isto não é novidade, já foi feito muitas vezes.

Falas de um modo imparável, numa sucessão de associações de ideias e referências [o leitor não tem a total percepção da dinâmica da fala]. És hiperactivo ao nível do pensamento?
Tenho de travar. Os miúdos quando apareceram, não me conheciam e era suposto encontrarmo-nos na quarta-feira. Eu disse que tinha ainda de escrever a peça. Apareci aqui no domingo com a peça escrita. Eram 60 páginas. Eles ficaram surpreendidos. Em três dias? Mas também sou incapaz de ter a disciplina de escrever todas as manhãs.

E como estás a viver este regresso ao Citemor?
Gosto muito deste festival. Crescemos aqui juntos, com o Armando e o Vasco [refere-se ao Armando Valente e Vasco Neves, responsáveis pelo festival], e não contava voltar aqui. Por isso fiquei muito contente. É aquela história de "não há segundo acto nas vidas americanas". Tendemos a pensar que não se é feliz duas vezes no sítio onde já se foi feliz. Acho que fui feliz aqui e agora também. Gostei muito de fazer este espectáculo. Gostei de voltar aqui, porque reconheço aqui uma inteligência que me agrada. E um manter-se atento e simultaneamente íntegro e fora dos circuitos de poder que me agrada. Tenho uma grande preocupação cívica e institucional mas não sou do poder. Porque acho que o poder corrompe estas valências que sublinhei. Acho que Montemor-o-Velho também tem essa característica. É um festival que tem preocupações institucionais, de pluralidade, tem preocupações de escuta e de reflexão, mas simultaneamente é um festival que se mantém íntegro, puro. Há uma certa pureza aqui. E senti isso, até pela maneira como os espectáculos são arrancados ao chão.
Este espectáculo foi mesmo arrancado ao chão. Nos primeiros dias apanhámos um clima terrível... Chuva, frio, depois mais as melgas, depois uma miúda que se magoou, caiu e tivemos que ir com ela para o hospital. Estive para desistir, estivemos para fazer no Teatro Esther de Carvalho..., mas depois percebi que isso não seria o festival. O festival é também no Castelo. É arrancar das pedras, arrancar do solo, arrancar dali o espectáculo. O Giordano Bruno é que dizia que tudo está em tudo. Mas há lugares que têm um espírito muito especial, um 'genius loci', e os espíritos existem, a espiritualidade existe. Aqui há essa convergência, essa espécie de polarização espiritual onde as coisas convergem. Houve uma cena que acabei por cortar, mas a ideia está lá, que era com a Nossa Senhora do Ó, mas depois aquilo desaparecia na pedra e não se via... Era uma 'private jok, que só funcionava com a Susana Paiva [fotógrafa] e as pessoas que tinham acompanhado aquilo. Foi a Susana que me chamou a atenção, "então tiraste a Senhora do Ó"... Aquilo não deu... mas foi importante passar por ali, porque sentes os escultores, como a escultura da Igreja da Misericórdia aqui em Montemor [da autoria de João de Ruão, escultor do século XVI] que ainda mantém uma vibração, uma palpabilidade. Quase cheiramos a pedra. Quase sentimos o cheiro das mãos do escultor. Essas coisas convergem aqui. Isso é bom. Arrancar os espectáculos aqui da terra. Talvez exista algo disto noutras terras, mas é preciso pessoas. É preciso oficiantes, pessoas que tenham esse espírito e sentido de missão. A certa altura não é apenas um festival. É uma missão.

O espectáculo vai ter outra vida fora do Citemor?
Não. Morre aqui. Pensei fazer no Teatro Taborda, mas se fizer será outra coisa... Morre aqui e com todo o gosto porque também é uma homenagem ao festival e a tudo isto que estive a dizer, ao aqui e agora. Quem quiser ver, vê agora. São cerca de 200 pessoas [as sessões estiveram lotadas, para além da capacidade prevista]. É um pouco como a maratona do "Pentateuco" (Citemor, 1997), que foram 14 horas de espectáculo, nunca repetidas, e que foram vistas por 200 pessoas. São as 200 que viram. Esta coisa de reduzir a cultura ao número é atroz. É para ser visto aqui e agora.

CRÓNICA | La contemplación del desastre

Texto de Pablo Caruana

fotografia de Susana Paiva

“Y sí, al final estos dos personajes que hacemos John y yo acaban pareciendo dos esquizofrénicos que vienen a profanar sobre un tema como Timor y no pasan de ser simplemente dos pibes extremadamente solitarios y violentos, locos. De ahí la última imagen en la que tiramos hacia una espectacularidad absurda, y queda flotando la soledad de cada uno en su casa, solo, agarrados a una banalidad increíble. No pasan de ser dos solitarios tristes, que solo hablan y hablan pero son dos ‘loosers’ que intentan una trashada, con guitarras, con explosivos, en plan ‘electric funeral’… Caramba, parece que estos pibes quieren hacer una revolución, pero sabemos que acaban en sus casas, solos…”
Paulo Castro, entrevista en Citemor 2011

Teatro político, politic theater, teatrrrrrrrrrro político. Cuatrocientos mil muertos en Timor, régimen comunista chino del 49 hasta hoy setenta y siete millones de muertos, comunismo soviético sesenta y dos millones hasta el 91, sesenta y dos millones en la segunda guerra mundial, tres millones en la guerra de Corea, millón y medio en Angola, un millón en la guerra de Yugoslavia, otro millón en la de Mozambique, novecientos mil en la Guerra Civil Española… Y dos idiotas, dos loquitos haciendo su puto espectáculo. Qué vas a decir, cómo y desde donde. Teatro político, carajo. Las ganas de poder hablar de la brutalidad de lo otro, de aquellos que se matan, que mueren sin razón alguna, de los que agonizan pero no por angustia existencial sino porque los humillan, los arrasan, los descuartizan, los pisan, no valen nada, se les aplasta. Y juntar eso con la locura mental propia del individuo, del desorden mental ante esa realidad que aunque se esconde en el día a día está bien presente, carcome, juntar eso con la soledad propia llena de impotencia y humillación ante la injustica social y ante la injusticia de simplemente haber nacido.
Puto micro y macro, juntarlo como la única manera del teatro político. Decía Castro en la entrevista que el teatro se reduce a lo que afirmaba Beckett, a un público que decide reunirse para contemplar un desastre, pero ese desastre no puede ser representado, tiene que ocurrir en escena. Este es el núcleo de “Massacre”, de esta obra hecha por dos hombres nacidos en Portugal, zarandeados por el mundo, por la edad, por las luchas pírricas a las que se enfrentaron, con algún espacio de aire conseguido, con diez mil perdidos, con tres o cuatro cicatrices indelebles, como todos.
Empieza la obra, Romão fuma, Castro tiembla, tiembla y baila –hermoso baile-, ya todo respira la estética del desecho, de un teatro que se quiere fuerte, que se constituye centrípeto, que irradia libertad en el pensar y hacer. El espacio teatral como campo de batalla, donde cabe todo, donde todo puede ser hecho y se decide ir al límite. Y eso no es fácil. El teatro tiene sus reglas, tiene muchos lenguajes, una combinatoria infernal de cuerpo, palabra, espacio, luz y energía donde todo se codifica. Tienes que jugar con códigos y jugar con ellos es siempre frágil, la materia con la que jugar siempre se arriesga a quedar en tontería, a caerse, a que no se sostenga.
Por eso, en este espectáculo que empieza y acaba con dos hombres solos en sus respectivos espacios de solitaria cotidianeidad (un salón con libros al fondo y una cocina hecha para el ritual portugués de la sopa), es clave la escena tonta, hecha desde un código liviano -dicha a público con chufla- de las cartas. Paulo y John reciben cartas, cartas solicitadas a parte de la inteliguentsia intelectual de la escena: Paul Auster, Jan Fabre, Rodrigo García, Edward Bond, Mickael de Oliveira… Acto por un lado de exorcismo, todo se ridiculiza, y acto que expone la reflexión meta-teatral que cuestiona desde donde es posible hacer en escena. Cuáles son las estéticas posibles, cuáles las lícitas, cuáles las apropiadas. Y también, o sobretodo, se quiere plasmar un mundo donde todo está en lucha, donde el hombre se mueve por reacción, también en el mundo intelectual hay arribismos, suficiencias, machismos, etc. Rodrigo los manda a la mierda, Liddell ni ha escrito, de Fabre se dice que está anticuado, Oliveira manda un sobre vacío como si nada pudiera decir en esto, de Auster Castro quiere sacar dineriño… Parodia hilarante que acaba en violencia, con Castro reafirmándose ante los ataques de Rodrigo, insultándolo, ventana de transición que utiliza el espectáculo para ir al espacio estético y ético que ha elegido: el de la violencia corporal y energética del trash. Suena una guitarra metalera, suben las luces, Romão se agarra a una palabra, bombs, y comienza un trabajo físico, de exposición corporal, en el que se escenifica el desastre, continuo, largo, de decibelios que se meten sin permiso hasta el hueso.
E interesante es la combinación en este trabajo de esa manera de hacer, corporal y visual, con otra de una mayor dramaturgia construida sobre el personaje. Hasta este momento de la pieza, “Massacre” ha transitado por un teatro posdramático, donde el personaje desaparece, donde prima el actor que habla desde su yo en escena y la política y poética escénica del cuerpo. Y es a través de una escena simbólica, en la que Castro entierra a Romão bajo baldosas lisboetas, en la que el código escénico varía. Romão es ya Timor, muerto y enterrado, Castro primero lo entierra, luego se viste de la policía federal indonesia y lo desentierra, luego le roba el dinero de los bolsillos y luego se lo folla en acto necrófilo. A partir de ahí la obra muta y se vuelve una locura donde los actores primero son de la policía federal indonesia, se escenifica la ignominia moral del torturador (es notable como esta parte de la obra recuerda al teatro de los setenta-ochenta argentinos, a ese teatro psicológico de Tato Pavlovsky), donde luego pasan a ser países-personaje, uno es Indonesia, otro Timor, otro pasa a ser los países del Este, otro Australia… La obra se agarra a un diálogo constante, rápido y veloz sobre la locura de la geopolítica, de las excusas morales de la política, vericuetos y piruetas mentales que tiene que hacer el hombre para soportarse, para poder justificar el fracaso ético que el género humano supone. Timor colonia, Timor descolonizado, luego invadido, luego militarizado, luego arrasado, lleno de fantasmas, Timor terreno de Naciones Unidas, Timor frontera del primer y tercer mundo, de la Australia del desarrollo que quiere tener buenas cancelas en ventanas y puertas, Timor sufrimiento culpable y real de los portugueses, Timor puta historia contemporánea del planeta.
De ahí el trash. Decía Castro que en Australia encontró exiliados timorenses que le daban al trash. En el espacio reina una bandera de la banda de metal Slayer. Es este mundo lleno de muertos donde Satán más que una negación de la bondad divina se vuelve una cordura exigente a través de la negación que es crítica, negación de la bondad cristiana que es aceptación del crimen sistemático, afirmación de la violencia que es resistencia. Y es esa violencia tratada en este espectáculo como respuesta frágil, que si bien no entra en liza ni puede contestar a la violencia real, la que se erige en espacio de resistencia ética. Respuesta que no va a conseguir nada, que no soluciona pero que es en cierta manera la respuesta que le queda al individuo, la de la denuncia que además dice “aquí estoy, y no me derrumbas, aquí estoy y como te acerques muerdo, ya estoy loco, y mi locura es mi arma, mi fuerza”. Por eso, en toda lógica, acaba el espectáculo en ritual del metal, en un absurdo de espectacularidad en luz, llamas y energía corporal. Bueno, la obra no termina así. Después de ese “ritual de lo habitual” a lo Perry Farrel, con música de Slayer, Castro y Romão vuelven a sus habitáculos, habitáculos de la derrota, esos donde en vez de espacios de libertad individual son tantas veces pequeñas prisiones de soledad e impotencia. Ahí acaba la obra, en derrota.
Hoy comienzan las cinco funciones que la obra tiene en el ZDB de Lisboa. Luego, a principios del 2012 la obra viajará a Australia. Cabe resaltar, por último, el acierto de ver a Castro colectivizado por 84 y a Romão engullido por el psicologismo esquizo de Castro. Todo un encuentro.

7.8.11

DISCURSO DIRECTO | Onde estamos aqui e agora? Onde estamos? (1ª parte) | Carlos J. Pessoa

Texto de Cláudia Galhós

A questão acompanha Carlos J. Pessoa no seu quotidiano nos últimos tempos: o que significa este "aqui e agora"? Onde é aqui? E quando é agora? Faz parte da investigação que está a fazer para a sua tese de doutoramento. E faz parte do sentido desestabilizador que se instala em cena na peça "Sede Remix" que criou para o Citemor. A entrevista é atravessada também por este tema, que está ligado ao que define como "a perigosa desestabilização entre o humano e o tecnologia" e o regresso ao corpo.

fotografia de Susana Paiva

Estás a investigar o conceito "aqui e agora" na tese de doutoramento que estás a fazer, mas o mesmo também surge na peça "Sede Remix". Em que sentido o estás a abordar?
A questão, genericamente, é o 'aqui e agora' nas práticas teatrais na era digital. O conceito de 'aqui e agora' é aquele que mais diferencia o teatro das outras artes e de grosso modo serve de empurrão à emergência de todo o movimento da performance e dos performance studies e as questões levantadas, a partir dos anos 70, pela Escola de Antropologia, do Victor Turner e do Richard Schechner. O que as tecnologias vêm fazer é desestabilizar este conceito de "aqui e agora", que abordamos neste espectáculo, por exemplo. Onde é que estamos? Estamos aqui ou não estamos aqui? Interessa-me explorar isso. Do ponto de vista de uma abordagem do humano, de uma definição do que é o humano neste confronto com esta evolução exponencial da tecnologia, há uma desestabilização que é perigosa.

Em que medida é perigosa?
Gozo de fininho com isso na peça, com o pós-humano. Acho o pós-humano muito perigoso, porque o pós-humano é, de certa maneira, depositar uma esperança nas máquinas e na integração. É o movimento ao contrário do que devia ser. Por isso é que faço este espectáculo assim. É o movimento de sujeição das pessoas às máquinas, e não sujeição das máquinas às pessoas.

Mas não ultrapassámos já essa ideia, de as máquinas como fim em si mesmo e antes as máquinas como meio ao dispor do Homem? É a sensação que tenho a partir da leitura das artes performativas actuais e a forma como se dá o recurso às tecnologias que, quando acontece, serve para evidenciar mais o lado humano...
Não sei. Estas coisas são cíclicas e de ciclos cada vez mais rápidos e acelerados. É a sensação que me dá. E por conseguinte agora creio que quando vês objectos de cultura popular de grande consumo, como o 'Matrix' e outros sucedâneos, coloca-se essa questão. Outro exemplo é a revisitação do Philip K. Dick, o sucesso recente dele, considerando que vem dos anos 80 e, no entanto, hoje em dia é uma estrela. Agora fala-se imenso dele e até tens o Nuno Rogeiro a traduzir "O Homem do Castelo Alto". Portanto, estas coisas são cíclicas e são ciclos rápidos e acelerados, de grande velocidade. Não há digestão. As coisas não têm um tempo de gestão e consolidação e de estabilização conceptual suficientemente sólido. Há muito deslumbramento e muita conversa de chacha. Há muito a preocupação com o estar na moda e não há a preocupação com os conceitos. A questão não está resolvida, porque se quisermos já vem da Leni Riefenstahl, e da propaganda nazi, e a Noite de Cristal.
A questão da tecnologia e da relação do homem com a técnica já vem daí. Acho que toda a filosofia do Heidegger anda à volta da relação do homem com a técnica. Temos resultados práticos, se considerarmos a relação com a medicina e a telemedicina e toda aquela avalanche de imagens produzidas a propósito dos avanços, das tomografias computorizadas, mais as endoscopias, e não sei que mais....
Nessa ligação com a técnica já não é o humano, é o biológico. Tudo isto são questões muito importantes que me interessam porque acabam por ser factores decisivos do que se pode gerar numa época de radicalismo, como aquela em que vivemos. Também ninguém imaginaria na Europa que, de repente, vem um tipo e começa a matar pessoas na Noruega. Essa estabilização não está feita. E tanto não está que estão sempre a aparecer fenómenos bizarros, que a meu ver são sintomas de uma grande desestabilização.

Como é que defendes que se deva lidar então com esta questão, da relação entre a tecnologia e o humano?
Acho que a relação com a técnica e com os media é algo que tem de ser reflectido. Isso resulta também do meu trabalho na escola como professor. Estas questões alteram o modo de ser e estar das pessoas. Há um efeito bio-tecno-cultural resultante desta injunção dos meios técnicos na existência das pessoas. Vejo o meu filho com 8 anos que faz filmes. A linguagem dele é diferente da minha, isso reflecte-se no seu 'bios', no seu comportamento, na maneira como está, como fala, no vocabulário que usa, na visão que tem do mundo. Não quer dizer que isto seja mau, mas tem de ser acomodado. Gozamos aqui com o Raymond Kurzweil [na peça surge com o diminutivo Zweil]. O Raymond Zweil é o americano que inventou o primeiro sintetizador de som. Nós falamos ali em tom de brincadeira e parece que é um nome inventado, mas não é. Ele existe. É um académico americano, um inventor extremamente prestigiado. Ele fala na questão da singularidade tecnológica. Há uma série de estudos publicados por ele a propósito da rapidez da evolução tecnológica. Por exemplo, o chip há dez anos tinha um tamanho x, hoje tem um nano-tamanho... Tudo isso acarreta alterações e as gerações são cada vez mais curtas. As implicações disso no comportamento e na aprendizagem, no modo de ser e estar das novas gerações é flagrante. Há que acompanhar isso.
Não posso ir falar da 'Ilíada' e da 'Odisseia' como falei no meu tempo, porque é diferente. No outro dia fomos ao remo, aqui em Montemor-o-Velho e ficámos a falar com os miúdos sobre um quadro do Thomas Eakins, um pintor americano, com remadores. Eles vão ao ipod, iphone, e está logo tudo ali... Tens os quadros todos mais uma série de textos. É incrível. No meu tempo de miúdo tinha de ir a uma biblioteca. Isso representa uma alteração. Tem consequências, não estou a dizer que são boas ou más, mas têm de ser pensadas. E quando digo que é perigoso, isso do deslumbramento e da questão do pós-humano, que é uma questão filosófica retomada por muita gente, e muita gente respeitável do ponto de vista académico, é porque acabam por contribuir para o retomar de certas teses que demonstraram ser catastróficas.

Pelo que entendo e do que vi no espectáculo, defendes a constatação dessas alterações, que podem derivar no pós-humano, mas o que propões é integrá-las em proveito de uma defesa do humano. É isso?
Acho que valorizar o humano está ligado, para mim, à ideia de evolução. Quando vês aquelas imagens no espectáculo, projectadas sobre a muralha, elas são feitas artesanalmente. Significa a clara opção de pegar na tecnologia, dar um efeito de alta tecnologia e, no entanto, aquilo é feito com um cordelinho que estica. O que me interessa é essa artesanalidade, esse regresso ao corpo. E podemos dizer, como diz o Zweill, 'sim, mas o corpo entretanto já foi transformado'...

Que é o que estavas também a dizer antes...
Claro que sim, mas essa dinâmica do humano é sempre esse complexo de uma apropriação bio-tecno-cultural, o conceito não é meu. E desde o momento em que inventaste o fogo, e o fogo vai aquecer a carne e tens acesso a proteínas... O humano está sempre ligado ao técnico, e não há que ter medo disso, mas há que o pensar. E, muito importante, há que acrescentar a terceira palavrinha que é o cultural, que significa pensar o técnico e o bio.

E nesse caso qual é o papel do teatro? E de que modo essa constatação altera o teatro que fazes?
Sempre me interessei por isto. Sempre tive esta paixão. As referências da minha vida passam pelo 'Blade Runner', o Tarkovsky... Acabam por ter uma relação peculiar com a técnica, com a ficção científica, com esta articulação com os media. Tanto o Tarkovsky como o K. Dick. Depois introduzem uma dimensão poética que me interessa. E isto vem desde sempre. Não nego que haja uma recorrência nos espectáculos. Não nego que tem o meu estilo, tem as minhas obsessões e são questões nunca acabadas. Um filósofo não resolve, está sempre em contínuo debate.

DISCURSO DIRECTO | Aqui e agora? (2ª parte) | Carlos J. Pessoa

29.7.11

ANTEVISÃO | TEATRO DA GARAGEM

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva


Aqui e agora? Onde estamos? Estas são algumas das questões que Carlos J. Pessoa, director do Teatro da Garagem e encenador, transporta na peça "Sede Remix" que estreia hoje no Citemor, no Castelo de Montemor-o-Velho. Breve excerto da entrevista a publicar no blogue do festival.

"O 'aqui e agora' nas práticas teatrais na era digital é uma questão que me interessa muito. O conceito de 'aqui e agora' é aquele que mais diferencia o teatro das outras artes e, de grosso modo, serve de empurrão à emergência de todo o movimento da performance e dos Performance Studies e as questões levantadas a partir dos anos 70 da Escola de Antropologia, do Victor Turner e Richard Schechner. O que as tecnologias vêm fazer é desestabilizar este conceito de 'aqui e agora', que abordamos neste espectáculo, 'Sede Remix', por exemplo. Onde é que estamos? Estamos aqui ou não estamos aqui? Interessa-me explorar isso. Porque do ponto de vista de uma abordagem do humano, de uma definição do que é o humano neste confronto com esta evolução exponencial da tecnologia, há uma desestabilização nisto, que é perigosa. Gozo com isso de fininho no espectáculo. Com o pós-humano. Acho o pós-humano perigoso porque significa, de certa maneira, depositar uma esperança nas máquinas e da integração. É o movimento ao contrário do que devia ser. Por isso é que faço este espectáculo assim. É também sobre o movimento de sujeição das pessoas às máquinas, e não sujeição das máquinas às pessoas.