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14.8.09

DISCURSO DIRECTO | Francisco Camacho e Vera Mota II

fotografia de Susana Paiva

O que existe no intervalo, entre uma presença aparente e uma ausência aparente? Esta é apenas uma das questões que a peça im- de Francisco Camacho e Vera Mota coloca.

O percurso do Francisco Camacho é já longo, e temos vindo a tratar dele nas últimas edições do Citemor. Mas nesta peça assina a criação conjuntamente contigo, Vera [Mota], que estás a começar. Qual foi o teu percurso até chegares à dança?

Vera: O meu interesse pela dança surgiu quase em simultâneo com a formação em artes plásticas. Quando entrei para a faculdade, comecei a fazer aulas de dança contemporânea. A ideia na altura era ter mais uma ferramenta para usar no meu trabalho nas artes visuais. Sempre me interessei pelo corpo, pela forma, pelo conceito, por tudo. A pesquisa era simultânea, desde os materiais plásticos e do corpo na dança, comecei a cruzar de maneira muito natural as duas linguagens E no segundo ano do curso, em 2002, fiz a minha primeira performance, em que pesquisava sobre a questão da matéria inerte e do corpo. Até que ponto as coisas se misturavam, até que ponto o corpo dependia do espaço e dos objectos? Abordei as teorias do Merleau-Ponty. Começou por aí, sempre numa pesquisa do que seria esse corpo, até onde iam os seus limites formais e conceptuais. A minha tese de mestrado foi uma continuação dessa pesquisa.

Qual é o tema da tua tese de mestrado?

Vera: O título é: «Por um corpo menos evidente – imobilidade, mimetismo e informe». A minha intenção foi tentar perceber de que maneira se poderia evitar a evidência ou a literalidade do corpo. O uso excessivo da imagem do corpo, que está cada vez mais explorada e banalizada, que quase não tem efeito. A minha investigação era perceber de que maneira esse corpo podia desaparecer e até que ponto. Até que ponto poderíamos reduzir a participação do corpo a algo de essencial, sem o tornar literal, sem o planificar, sem abusar de alguma maneira da sua imagem. Eu propunha essas três hipóteses como formas de escapar a essa evidência.

O que significa cada uma delas: a imobilidade, o mimetismo e o informe?

Vera: O mimetismo fui buscar a textos do Roger Caillois, um francês dos anos 30 que estudava o mimetismo nos insectos. Ele abordava essa reacção nos insectos não como forma de defesa, mais como contágio. Uma absorção do espaço por esses insectos. O que entendia e relacionava com o meu trabalho era isso: o corpo, de alguma maneira, ao fundir-se ou absorver características do espaço poderia, de algum modo, desaparecer. A imobilidade também contribui para esse desaparecimento do corpo, porque na medida em que eu tento adquirir uma qualidade que é dos objectos e, portanto, do inerte, ele nega a sua organicidade, o seu movimento que lhe é natural, embora haja sempre movimento de vibração, pulsação, respiração. Isso nunca desaparece. Aí junto ao mimetismo a imobilidade e tento reduzir ao máximo essa presença, essa evidência do corpo.

E o que significa, no contexto dessa pesquisa, o informe?

Vera: Usei muito referências da fotografia surrealista, Man Ray, entre outros, que pesquisavam essa ideia de informe. Faziam fotografias em que o corpo, a forma reconhecível do corpo, desaparecia. Depois, juntamente com essa parte teórica, há a questão do olhar e toda a negação do olhar, que é negação do sujeito. Ao mesmo tempo há quase que uma vertigem, porque não havendo o olhar, imagina-se uma infinidade de olhares possíveis. Além disso, a imagem ampliada cria quase, como referência, a ideia de alienígena. E essas eram as minhas hipóteses para encontrar esse corpo menos evidente.

Todas estas ideias trouxe-as, de algum modo, para esta peça. Quando nos encontrámos novamente para trabalhar, falei de tudo isto ao Francisco. Está aqui presente muito esta questão da imobilidade, a fusão com o espaço, o Francisco está mesmo lá em baixo, principalmente na primeira parte isso é particularmente visivel. A questão do informe aparece de um modo mais natural, não tanto aquilo que eu tinha explorado, mas aparece na segunda parte. Assim como toda a oposição entre o horizontal e o vertical, que tem muito que ver com o informe. Mesmo o momento inicial da voz tem que ver com essa quase redução do corpo a uma função, neste caso emitir um som, que parece não dizer nada realmente, porque parece menos importante, é mesmo apenas uma pesquisa de uma função...

Partilham, através desta peça e de modo diferente, o interesse de pesquisa sobre o corpo. A procura de um corpo que supere a imagem estereotipada. Porquê este interesse do corpo? O que pode ser esse corpo essencial?

Vera: Acho que o interesse pelo corpo tem que ver com um certo narcisismo. A coisa mais próxima de nós é o nosso corpo. No seu âmago, penso que esse interesse vem daí. Toda a História revela esse interesse. Na Renascença, a pintura foi influenciada pelas descobertas científicas, pelaa dissecação dos corpos... Portanto, este interesse é algo que acaba por abarcar uma amplitude de interesses muito diversos, e passa pela cabeça de toda a gente. Depois o que é particular é a forma como quis que isso aparecesse no meu trabalho. Neste momento, já que o corpo é tão usado, de tantas maneiras, está de tal modo gasto, interessava-me perceber de que forma é que esse corpo podia continuar a ser abordado e de que maneira era possível continuar a falar do corpo. Há artistas que tratam do cyborg, como o Stelarc, que assume o corpo como obsoleto e avança com a tecnologia. Mas de que maneira ainda é possível conservar o corpo como ele é? De que maneira se pode voltar atrás e recuperar um corpo menos plano, recuperar um corpo com mais informação, mais denso. Agora, olha-se para o corpo e quase que ele desaparece.

Francisco, tendo em conta um longo percurso de questionamento do corpo no teu trabalho, ainda, e de que modo, faz sentido continuar a questionar o corpo hoje?

Francisco: Desde do "Live/Evil" (2005), mas mais acentuadamente com o "Coup d'État" e depois agora com o "im-", estou numa fase de investigação diferente. Até aqui, surgia muito junto com a questão dos constrangimentos sociais, religiosos... Como é que o corpo lidava com esses constrangimentos e como é que procurava uma maior plenitude, no sentido do que poderia ser uma essência de uma liberdade para o corpo, se ela existia ou não. Agora, estou num plano muito mais desligado desses contextos sociais e religiosos e estou num ponto em que me interessa o corpo quase como uma abstracção. É um corpo que já não é necessariamente um protagonista ou um portador de uma narrativa. É um corpo, que é uma forma, e que está em ligação com o espaço. Não deixa de estar ancorado numa ficção, porque este corpos aqui propostos são corpos ficcionados.

Interessa-me essa ideia da identidade enquanto ficção, e aqui ligam-se também as questões do corpo humano, do limite do humano e do pós-humano. Mas aí não me interessa ir para as imagens tecnológicas, enquanto corpo. Interessa-me procurar ,com meios muito simples e quase minimais, o que esse corpo pode transportar dessas ideias e dessa reflexão sobre o que são os limites do humano e o que é o pós-humano. É questionar o plano em que está o nosso corpo hoje, no século XXI, mas através desses meios muito simples, minimalistas e sem recursos a grande aparato tercnológico. Isto remete para a primeira parte. Passado algum tempo de iniciado o processo criativo, decidi ir para baixo do pano, como tinha feito no "Coup d'État", mas levar isso mais longe neste projecto, ser constituinte de toda uma cena e explorar mais. Depois há a questão da minha prática diária e tentar ir mais longe com os materiais, e descobrir configurações diferentes para o corpo. Apeteceu-me não começar logo com uma coisa orgânica como era o "Coup d'État", em que havia aquele movimento nas toalhas no chão. Aqui apeteceu-me explorar a imagem quase como uma esfera, que se desloca muito lentamente, e pouco a pouco vai insinuando uma humanidade mas que não chega a instalar-se. Isso na primeira cena. Na segunda, para mim é completamente 'queer', aquelas figuras, tanto que uma das fontes de inspiração foi o Leigh Bowery, e ali estamos num plano em que não há uma identidade fixa. Aquelas figuras não se podem inscrever claramente numa tipologia de personagem ou de identidade. São mutantes, são seres, podemos tentar atribuir um sexo ou não. Cabe a cada um de nós confrontarmo-nos com o que pode ser aquela identidade.

Na terceira parte houve uma alteração. Esta terceira parte já conheceu duas versões públicas. Para além das internas. Relativamente à diferença da primeira para esta no Citemor, achei que a minha figura era demasiado humana inicialmente. Não me fazia sentido, depois de toda a estratégia da primeira e da segunda parte, ela aparecer tão claramente com uma cara. E mesmo o tipo de movimento que explorava, que era o meu corpo a tentar encontrar uma dança, já não me interessava. Podia ser mas não era o mais coerente com a primeira e a segunda partes. Apeteceu-me voltar a uma ideia de corpo que está à procura de uma forma e não de uma dança. Está a tentar inserir-se naquele espaço e reforçar as questoes de horizontalidade e verticalidade que explorávamos. Ele quase pode regressar por baixo do pano e manter-se nesta tensão entre estar numa vertical ou regressar a uma horizontalidade e diluir-se mais uma vez naquele cenário. Disseminar mais uma vez aquela identidade. Ir desaparecendo...

O que é isso de identidade como ficção?

Francisco: Não acredito num essencialismo em relação a uma identidade. Não acredito que haja uma identidade estanque. Não acredito que sejamos algo de fixo e tenhamos que descobrir o que é. Não acredito naquelas tendências New Age, de descobrir o verdadeiro 'eu'. Acho que isso é uma treta. Acho que temos de aprender a lidar com todas as variantes de tudo o que somos, e em cada momento vamo-nos constituindo em diferentes 'eus'.

Mas isso significa que já não continuas a defender uma ética artística, no sentido de uma postura envolvida com o real, de crítica do real?

Vera: Como não há uma narrativa explícita, o espectáculo mantém-se aberto a todas as possibilidades. A ideia de não estar a produzir nada parece uma perda de tempo, tendo em conta a sociedade em que vivemos...

Francisco: Profissionalmente para mim isso é uma questão. Tenho uma forte resistência a objectos que me são propostos enquanto espectáculos, em que a estratégia é dar uma pista, eu adivinho, e depois o autor através do seu objecto-espectáculo confirma-me que eu acertei.

Odeio esses espectáculos e acho que representam um gigante retrocesso social artisticamente. Eu continuo militante de espectáculos e gosto, enquanto fazedor, de propor aqueles em que espectador tem de fazer o seu trabalho. Ele não tem de estar aqui confortável, o seu lugar é-lhe confirmado e ele sai daqui pacificado. Quero que o espectador faça uma escolha: ou decide fazer este movimento em direcção ao que se passa em cena, vai lá e está lá e depois decide o que quer criar e chega às construções dele; ou então fica aqui e decide não entrar. Também é aceitável. Mas lançar tudo do palco para a plateia, e ter uma plateia meramente receptiva, passiva, isso não. Eu quero que também haja um movimento do público, claro que não é em termos literais. Isto porque sinto que há cada vez mais objectos que têm em si a chave e dão a chave ao espectador. São muito bons para pacificar e apaziguar as inquietações. Se calhar por isso estou interessado em aprofundar no sentido da abstracção e da subjectividade. Para acentuar ainda mais. É necessário as pessoas irem lá. Como no cinema. Acho que precisamos, mesmo no cinema mais mainstream, de um David Lynch. Precisamos de pessoas que se dão ao trabalho de ler as coisas, fazer um esforço interpretativo. Participarem, trabalharem. E não ser-lhes tudo dado, com finais felizes e chaves na mão.

Como foi o proceso de trabalho? Em termos dos movimentos que experimentaram, da relação com o espaço, da quase ausência de objectos, e que livros leram...

Vera: Começámos com algumas coisas que eu levei, que estavam relacionadas com a minha pesquisa. Autores como Bataille, o Roger Caillois, o "Bartleby" do Melville. Depois, a propósito deste também lemos uma análise do Deleuze e do Agamben sobre o Bartleby. Essas foram essencialmente as nossas refências comuns.

Francisco: A Vera trouxe este universo de referências que vinha do trabalho dela e do que ela tinha desenvolvido na tese e na faculdade e partimos daí no início. Depois, eu fui buscar o Agamben a propósito do Bartleby. Mas na minha cabeça, e que muitas vezes fica só na minha cabeça, tenho os meus outros universos de referência. Apesar de achar interessantes os que ela propôs como pontos de partida para o trabalho, eu depois preciso sempre de criar os meus mundos paralelos nestas coisas. Mesmo quando trabalho com dramaturgistas e com colaborações, quase que preciso de um espaço de retirada meu para me organizar. Acabei de ler mesmo agora, e cuja leitura coincidiu com o princípio e o fim do processo, "O homem sem qualidades" do Musil, o primeiro volume. Trouxe o livro e lemos algumas partes no ensaio. Em simultâneo sou fascinado pela psicanálise... Na minha cabeça e nos meus modos de partir para o movimento, são coisas que me vão informando sempre. Mais pela via Lacaniana, pela via do Zizec...

Vera: Que são referências que depois também coincidem com o meu universo.

Mas, o quê concretamente, experimentaram em termos de pesquisa de movimento?

Francisco: Não posso dizer coisas concretas. Há quase uma forma de pensar, e uma forma de me colocar, de tentar encontrar um outro corpo, mas não é uma coisa em que pegue numa frase e “vou tentar encontrar isto”. São sensações. É quase uma coisa impressiva. Não estou a tentar fazer uma tradução da psicanálise para movimento. Por exemplo, no "Blessed" havia um livro da Clarice Lispector , mas que me foi importante aqui, "A Maçã no Escuro", que fala de um homem numa paisagem quase desértica, um homem perdido sem identidade, que não se lembra da sua história, não sabe porque está ali. É um pouco neste sentido, tentar ir buscar sensações para encontrar um outro corpo. É uma coisa muito impressiva e muito intuitiva, não é a tentativa de uma tradução directa. Mas eu sinto-me um bocado como uma instância inconsciente, em relação à Vera. Vejo-nos como um binómio, com dois lados, em que entram inconscientes, super-egos, subterrâneo e aparente. E depois há uma coisa mais óbvia que é aquele azul na cara que me faz lembrar a lamela do Lacan, que quando o Zizec fala disso, fala a propósito do alien. Quando o alien cobre a cara. Eu vou um bocado por aí, mas de uma forma um pouco impressiva, sem querer fazer disso um programa.

Vera: Quanto a mim, estou a acabar agora "A Náusea" do Sartre que, de alguma maneira, também mostra um sujeito que se sente sempre separado do universo que o rodeia. "Os Cadernos do Subterrâneo" do Dostoievsky, também toca no sujeito que se tenta separar da sociedade de alguma maneira...

Francisco: Muito importante, "O Corpo e a Imagem" do Bragança de Miranda, que comecei a ler durante este processo.

Há claramente duas presenças distintas em palco. Esta pesquisa formal do corpo, para mim, também coloca a questão sobre que homem e que possibilidade do corpo hoje. Questionaram-se sobre isso?

Vera: No meu caso seria mais que corpo hoje. Este espectáculo anda muito, para mim, à volta desta questão. Que corpo, que presença? Mas aqui a questão do sujeito, de anulação do sujeito, mesmo quando o rosto está exposto, que é o meu caso na maior parte do tempo, há uma tentativa de anulação do sujeito. Seja pela ausência da expressão, no momento inicial em que estou muito exposta, a parte do som... Nesse início há ali quase uma identidade, uma presença... No caso do Francisco é mais evidente, essa tentativa de anular o sujeito. Mas mesmo eu estando visível, nomeadamente mostrando o rosto, penso que há sempre uma pesquisa nesse sentido.

Francisco: Mas não é no sentido de propor um ser humano para agora. É no sentido de identificares estas questões da falência das imagens e da saturação das imagens. Que modos de representar o corpo hoje, e que presença para um palco, do plano artístico?

A questão da presença é fundamental aqui. Que presença e que qualidade de presença vos interessa em palco? E isso tem correspondência com o 'fora de cena'?

Vera: Tendo sido essa pesquisa da questão da representação já sido feita, aqui quase que se torna necessário encontrar uma outra coisa. Já não é só o corpo que nos anos 60/70 começou a assumir-se com os seus defeitos e os seus erros. Acho que tem de ser diferente disso. E é por aí que o Francisco se oculta e eu assumo esta presença ausente. Acho que as pessoas já estão confortáveis com a imagem dos seus defeitos e com a apresentação do corpo na sua versão mais simples. Portanto, de algum modo, é preciso ainda... Expor essas qualidades não me parece suficiente. Então há quase como um reduzir ainda mais. Já não é a representação, a exuberância, essa coisa mais feia e grotesca, e orgânica. Tem de ser uma redução tal... que é quase deixar que as pessoas vejam e tentem ver além daquilo que é apresentado. A camada que se mostra não pode existir por si. De alguma maneira, para mim tem a ver com isto.

Francisco: Apesar de nos interessar a questão da presença, não a tratámos directamente. Tratámos por outras vias, como por exemplo da questão: como representar um corpo hoje, que corpo é que queremos propor em palco? Eu quero ocultar-me, mas estou presente, mas estou oculto, mas estou ausente como sujeito. Ninguém me pode ver, não há cabelos, não há a forma do meu corpo. Há uma forma quase abstracta, uma esfera, que depois vai desenhando outras formas, que vai aparecendo por momentos e cria movimento no cenário. O movimento de si próprio, do sujeito, não é importante.

Vera: Acho que aquilo que acaba por nos interessar é essa tensão entre o que muitas vezes é a ausência completa do Francisco em termos de imagem e a minha exposição, estando mesmo à boca de cena. A presença dos corpos neste espectáculo está nesse intervalo. O Francisco, mesmo estando coberto, no último momento é mais orgânico do que eu, que estou ali a forçar imenso o que seria natural para o que seria a minha descida rápida até ao chão.

Que presença destes corpos existe aqui? Esta questão pode ter uma leitura mais complexa, mesmo que a tensão esteja particularmente evidente na primeira parte. Nas outras situações é continuada a negação dessa presença. Na segunda parte, aqueles corpos não se assumem como humanos. São umas criaturas, os movimentos deles nunca são claros, se são mais orgânicos e naturais ou se são mais mecânicos. Na última parte continua essa ausência do rosto do Francisco, eu estou novamente mais exposta.

Francisco: A Meg [Stuart] foi ver um ensaio, e falámos no final, e ela dizia que na segunda parte, naqueles corpos azuis, vês muito mais a coreografia. Vês mais o movimento devido à anulação da personagem, da identidade. O que se faz é que ao tirares uma camada, dás a ver muito mais uma outra.

Vera: Isso remete-me para o que é a minha pesquisa: de que maneira consegues anular tudo o que é parasita, para mostrar, neste caso, o movimento. Há aquela forma sedutora que se revela, mas ao mesmo tempo... surge o movimento...

Francisco: Mas há uma coisa na presença que tem a ver com a percepção. Com a interrogação se certas estratégias de presença não minam a leitura do material que está a ser exposto. Se não promove um grau qualquer de dramaticidade. São tudo opções que eu já explorei muito. Mas desde o "Live/Evil..." que essa contenção me interessa.

Fiquei realmente com a impressão de que havia muita coreografia...

Francisco: A primeira parte está toda coreografada. A segunda está toda estruturada.

Vera: Na segunda, embora seja flutuante, embora os movimentos possam ter variações, mais à frente ou mais para trás, tem um estrutura...

Francisco: Até temos nomes para cada secção, para eles saberem as passagens que têm.

Isso também permite questionar o que significa essa opção, de querer trabalhar uma coreografia mais ou menos composta...

Francisco: O meu trabalho foi sempre muito estruturado. Mesmo tendo uma aparência de caos e improvisação. Muito por causa do tipo de trabalho que fazia. Eu optava pela introdução do erro sistematicamente nos trabalhos. Os próprios cenários e figurinos que atrapalhavam o movimento surgiam precisamente para reforçar a ideia de que estava a acontecer pela primeria vez. Era tudo uma estratéegia de improvisação. Tens de ter uma margem de adaptabilidade se tens líquidos no chão ou se estás a dançar sobre terra, etc . Mas é uma margem de adaptabilidade, não é estratégia de: “vamos criar a cena aqui, hoje e agora”. Aqui, mesmo na terceira cena, o meu percurso está fixo, há uma margem em que posso centrar mais ou menos na música, posso esticar mais a secção no chão ou não... Mas está coreografado nesse sentido, sei que vou ao chão numa direcção com o joelho... está tudo marcado.

Vera: No meu caso, tenho estado a fixar o percurso mas, de alguma maneira, não me interessa fixar os movimentos. O que sinto na última cena, é a vivência da ideia de que eu possa não estar preparada quando o movimento acontece. O movimento que faço podia ter entrado antes ou depois, não em relação à música, mas em relação a mim mesma. Há algo também na procura de um desconforto ou de um movimento errado. Isso acho que transforma o movimento, a presença, que é o que anima, de alguma maneira, esses movimentos.

Qual é a diferença entre o reclamar uma presença e uma dramaturgia que faz uma defesa do nada, de não construir, de não acção, de não produzir – como está escrito na sinopse - e ser o nada?

Vera: Temos o "Lecture on Nothing" to John Cage. É um discurso em que diz que vai falar de nada, que esteve a falar de nada... Há também todo um material que faz parte da concepção do espectáculo. Principalmente na primeira parte, naquilo que me toca fazer, parece pouco, mas há todo um processo atrás, toda uma camada densa de ideias, que de alguma maneira procuro concentrar ali. O resultado disso é que é minimo.

Francisco: Apesar do que está escrito na sinopse, a mim não me interessa o nada. Ainda agora com os meus alunos de teatro, depois de quatro meses com eles na Escola Superior de Teatro, apesar de ter chegado lá e ter dito: vamos partir do nada, não me interessa o nada. Estás sempre a juntar coisas e é impossível estares no nada. O que me interessa de facto são esses materiais que numa primeira visão, sobretudo superficial, podem suscitar a questão: “o que é aquilo?” São materiais que não se conseguem agarrar, não é por serem nada, é por serem difíceis de identificar e de agarrar. É mais isso. É criar esses materiais, estar nessa zona em que vais fazendo investimentos até apreender dali alguma coisa, mas que eles não te dão logo um sítio, uma pista imediata, por onde agarrar facilmente. Não é porque sejam nada.


Cláudia Galhós

10.8.09

DISCURSO DIRECTO | Diogo Dória

Ideias de teatro na República das Bananas

fotografia de Susana Paiva

Diogo Dória veio ao festival Citemor com um texto sobre o amor, que promove o encontro, em cena, atravessando o seu corpo, de escritos de Ovídio e Fernando Pessoa, «Todos os casados do mundo são mal casados». É um regresso ao lugar do teatro por onde passou em 1995. O país está diferente, mas a relação com o teatro mantém-se a mesma: radical e intensa. Pretexto para uma conversa sobre visões e vivências do teatro segundo Diogo Dória.

No início da tua carreira, estudaste Filosofia e depois foste para o teatro. Hoje a filosofia ainda está no teatro que fazes? E há lugar para a filosofia no teatro que se deve fazer?

Diogo Dória: O começo não foi exactamente assim. Comecei já como estudante de Filosofia. Tudo começou com o 25 Abril. Sou um filho de Abril. Estava na Faculdade de Direito, houve a Revolução e com a Revolução comecei a fazer teatro na rua. A rua era o lugar onde achava que devia estar. Ainda fiquei numa pretensa comissão de reestruturação de Direito em 74, querendo revolucionar o sítio onde estava por dentro, mas depois percebi que eles eram fascistas mas não eram estúpidos, e eu não me podia armar em grande legislador de um momento para o outro, porque não tinha conhecimentos para isso. Por isso desandei dali e comecei a fazer teatro de rua. Fui para o Conservatório, e depois achei que tinha outros interesses. A Filosofia, na altura, era uma universidade de cursos livres. Tinha o M.S. Lourenço, o poeta, a dar um curso sobre Pessoa. Não é por acaso que Pessoa está aqui. Tinhas cursos livres e eu comecei a frequentá-los sem estar inscrito. A Revolução a mim tocou-me também nesse aspecto. Não me quis inscrever porque tive esse problema em Direito, de me dizerem, «vem cá assinar os trabalhos». Foram os anos das passagens administrativas. Eu não queria ir assinar trabalhos, dizia: «estou desestruturado». Estive dois anos a frequentar sem estar inscrito.

Mas quando entra o teatro aí?

No Conservatório comecei a fazer teatro com o Richard Démarcy, que foi muito importante. O que é relevante são os encontros. Na Faculdade foi muito importante ter conhecido o Osório Mateus. A minha vida é marcada por encontros. O encontro com o Richard deu-me o teatro como festa. Ele escrevia sobre a Revolução mas tinha a festa dentro dele. Passou-me esse lado da alegria do teatro, de romper com as coisas, ir para a rua e fazer. Lembro-me dele com uma vassoura aos saltos a dar aulas, e comunicava essa alegria. Comunicou-me uma energia saudável... O caminho está aí. O pensamento surge depois em Filosofia quando conheço pessoas que me cativaram, que foram importantes para mim, como o Carlos Silva, acho que hoje é professor na Católica. Para além de colegas que tive. Mas depois na conciliação entre a Filosofia e o teatro perderam os alemães. Ou seja, não tive tempo de trabalhar esses autores em termos do pensamento mais profundo. Trabalhei uma série de autores franceses e foi mais por aí, também porque é uma língua que conheço melhor. Não li Hegel, por exemplo, profundamente, e outros grandes pensadores como ele. Fiquei por Kant. Mas continuam a interessar-me imenso os temas filosóficos. Ainda no outro dia li um texto que a Lúcia [Sigalho] me passou do Kierkegaard, e acho particularmente interessante porque um actor em palco é uma pessoa que está numa atitude de pensamento. Uma atitude mais activa do que cá fora, e a pensar e a fazer passar o texto por ela. Acho que isso é representar. Pensar como estou neste momento a tentar responder-te é um bocadinho a mesma coisa que estar a actuar ou estar a traduzir. Traduzir também é, nas definições mais bonitas dos bons tradutores, como o Paulo Quintela ou o Vasco Graça Moura, uma forma de te confrontares com outra língua, com outro estranho. No fundo é fazer passar por ti e pela tua vida, tentando dar-lhe a melhor expressão. É tentar traduzir alguma coisa, e representar é isso. O corpo está lá e está lá o pensamento. A relação com a Filosofia tem a ver com o tipo de textos e autores que escolho, que se prendem com isso. Aqui, no caso do espectáculo que apresento no Citemor, «Todos os casados do mundo são mal casados» são dois autores que têm um pensamento sobre o amor.

Mas não é óbvio pensá-los juntos...

É um dos desafios deste texto, que foi uma montagem da Inês Pedrosa. Primeiro achei graça à ideia de fazer com duas pessoas mas a outra pessoa não pôde naquela noite e eu fui obrigado a fazer os dois papéis. Foi um acidente de percurso. Percebi ali que fazia mais sentido ser uma só pessoa. Porque há o tema da heteronímia, por causa de Pessoa, e porque curiosamente há um lado num dos heterónimos de Pessoa, neste caso o Bernardo Soares, que cola muito com o Ovídio. O Ovídio é a «Arte de Amar» sobretudo, mas também o «Amores», mas é curioso que no caso de Bernardo Soares parece quase um manual e descobres que há um lado quase didáctico, que também está presente na «Arte de Amar» do Ovídio. São textos clássicos. Quando me chegaram às mãos vi que tinha mesmo de ser para mim.

Descobres então uma afinidade entre dois autores que, à partida, pensaríamos improvável?

É uma forma de olhar o amor, mas são bastante distintos. Um de um lado cerebral, com uma certa misoginia do lado do Pessoa, mas em que surge nos textos mais engraçados do Pessoa. Mas é alguém que teoriza sobre o amor e que nós sabemos que a sua biografia não passou por ali, mas ele fala como se fosse um grande entendedor. Já de Ovídio sabemos que é um grande especialista da questão. E é impressionante pensar que já dizia isto há dois mil anos...


fotografia de Susana Paiva

Concordas com uma ideia de ti de actor que pensa? Quando começaste já pensavas no actor e no teatro desse modo?

Já sentia que no teatro me interessava mais esse confronto entre aquilo que eu sou e aquilo que está escrito. Se quiseres de uma forma muito linear e primária acontece com esta certeza: este é o texto que eu quero defender perante o público. Aí há uma relação com a escolha. Quando me chega um texto, há uma escolha. Mas a proposta muitas vezes chega-me do exterior, como chegou, na hipótese do Robert Pinget, que foi o Silva Melo que mo passou. Lembro-me que foi um desafio e que foi uma conquista da minha parte, porque chegou até mim como uma coisa estranha. O que me suscitou primeiro foi a interrogação: o que é que está aqui dito? Mas começou a interessar-me como desafio. Passa exactamente nesse sentido, de primeiro ser uma coisa estranha mas que conquisto a posse dela depois. De qualquer maneira, tem a ver com uma certa tendência para trabalhar muitas vezes sozinho, porque me é difícil, muitas vezes, partilhar. Nesses casos são encontros com autores que, depois, ficam realmente colados. O caso da Nathalie Sarraute, por exemplo, é exemplo claro disso. Fui trabalhá-la e fiquei colado com os textos da Sarraute. Quis fazer todos e fiz mesmo quase todos.
E o que é isso de ficar colado?

É ficar preso a tudo o que sei ou possa saber sobre a autora. Tem a ver com a biografia dela, com as fotografias... Com o ficar parado a olhar para a senhora de costas numa fotografia e pensar assim: mas porque é que esta mulher já morreu? E ficar indignado quando me pedem coisas sobre ela, do tipo, quando queria fazer uma tradução de um romance dela me pedirem, da Gallimard: «especifique melhor o seu trabalho para ver se damos autorização». E eu a pensar: mas que raio de direito é que você tem, seu palerma, você não tem direito nenhum! De certeza que eu a admiro mais do que você! Põe-me completamente louco! Ficámos por aí. Há muitas pessoas com quem acontece isso... que ficamos por aí, porque eu não consigo perceber. Ocorre uma falta de entendimento... Com o Armando Valente [director do Citemor] conheço-o mal, mas colámos imediatamente. Acontece quando vou falar com uma pessoa que me passa coisas, há alguma coisa de inquietação ou da vida do Armando que a mim me toca. Não acontece esse colar quando há alguma coisa da pose ou da estrutura, ou da estratégia. É outro tipo humano, não é o tipo da estratégia.

Mas no caso de autores, em que é que isso se traduz?

No caso da Sarraute, impressionou-me imenso toda a história dela. Fascinou-me saber que ela passou o século XX, e todos aqueles períodos negros, que caracterizaram o fascismo e o comunismo, que são periodos deploráveis. E ela passou por estas duas catástrofes sempre com grande dignidade e sempre do lado certo. Tenho uma admiração imensa por essas pessoas. Como é que foi possível? Judia, perseguida, em Paris, a andar a esconder o Beckett e a mulher. Isso apaixona-me. Depois vou ler a obra dela e fico completamente apanhado. A coisa aparece ali. Depois há um enquadramento que ajuda, e muito no sentido de: não importa aquilo que digas, interessa o modo como dizer. E eu percebo: pá!, mas isso é um actor, ela escreveu estas coisas para mim!
É mais um traço indicador do teu radicalismo?

Sim, e cegueira. Que me faz muitas vezes dar um passo que não sei se devo ou se me permito dar...
Então, temos radicalismo e cegueira?

É... um bocadinho. Porque há um passo que, muitas vezes, não sei se deveria dar. Sou sincero. Expludo e digo o que penso. Reajo a coisas que impedem. Sofro imenso com isto, com coisas que tocam. Refiro-me a críticas que leio, como do António Pinto Ribeiro sobre o outro Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura, ou sobre o PS. O que leio ali entristece-me imenso, porque o que ele diz que é mau é que não há dinheiro suficiente para a cultura. Ele quer dinheiro, e o que quer mais? Quer mais cosmopolitismo. Realmente confirmo que não tenho nada a ver com este tipo. Que pena este país estar cheio destes gajos. Porque não tocam, não falam das questões fundamentais, que são muitas.
E quais são as questões fundamentais?

As questões são terríveis. Estás num país em que não havia teatro e agora há teatro e não tens o que lá meter dentro. Não há. Não tens público para assistir, porque não têem feito nada. Em Braga enches o Teatro com o Antony. Não há teatro para apresentar em Braga. Não querem. Porque é que nós não conseguimos essa distância, e porque é que eu estou a ver uma ópera da rua e estou a pensar: porque é que nós não conseguimos isto? Vou ver aquilo e estamos cada vez mais longe. Vou ver o Langhoff e estamos cada vez mais longe daquilo.
Em que aspecto e longe de quê?

De formação de tudo. De cenógrafos, não somos capazes de fazer aquela cenografia, não temos aquele encenador, não temos aqueles cantores, no caso do Langhoff. Ou o caso da Ute Lemper, com duas alemãs, extraordinárias. E nós não temos aquilo. Não está um sacana preocupado em aproximar daquilo, daquela qualidade. Houve uma altura, quando foi da Madalena Perdigão na Gulbenkian, em que nos aproximámos daquilo. Foi à procura do melhor, mas logo a seguir foi corrida e maltratada. Há estes fogachos às vezes.

Esse teu radicalismo é intempestuoso.

É o que eu digo aos meus alunos. Não se pode amar sem odiar. Tens de separar os mundos, decidir o que queres. E aí arriscas. Eu não posso gostar de uma coisa verdadeiramente e de uma linha, gostando ao mesmo tempo da outra. As pessoas têm de escolher. Digo aos meus alunos que não me peçam para gostar do trabalho dos outros professores que têm, ou do trabalho que vocês gostam. Não, eu fiz o meu caminho e é assim.


fotografia de Susana Paiva

O que é que te acontece, no processo de criação, quando te envolves com um actor? Ocorre uma transformação ou não de ti como pessoa?

No caso da Sarraute foi um processo diferente. Este não tem nada a ver com isso. «Todos os casados do mundo são mal casados» é uma proposta feita de fora e eu gosto imenso do Ovídio. No caso da Sarraute foi todo um longo percurso. Começo a ler livros sobre ela, começo a perceber, e às tantas é-me difícil sair. Por isso é que depois comecei a ir aos romances. Há uma maneira de pensamento e de relação... Para mim é a única maneira de transformar e fazer e conseguir trabalhar esses textos. Ouvi uma coisa muito bonita do Pedro Burmester: "Nós não somos artistas. Artista é o autor." Muito simplesmente. Não. Nós somos intérpretes. Chega-me isto e tento fazer o melhor que sei e que posso.

Mas acontece uma apropriação do texto? Logo, há transformação e torna-se, em parte, teu.

Sim, mas não há mais do que isso. E o Burmester queixava-se e estava chateado de ser intérprete. Mas cada macaco no seu galho. Há os autores e há os intérpretes. Eu sou um intérprete, e tenho a sorte do facto de existir num mundo onde há autores, poetas, que eu admiro. Limito-me a defendê-los, a achar que merecem ser defendidos e quanto mais complicados, maior é o desafio. Mas não me é indiferente saber o que esse poeta fez como pessoa. A Sarraute e o Beckett são autores que admiro incomensuravelmente também pela mulher e homem que foram. Pela maneira como encararam as coisas, pela modo como estiveram nessas coisas que de alguma maneira envolveram cegueira ideológica. E, no caso da Sarraute, directamente. Ela nasce na Rússia e sai da Rússia em pleno estalinismo. Mas nem uma única palavra daquilo. Chega a Paris e é perseguida, é obrigada a usar a estrela judia. É perseguida e proibida de exercer advocacia, isso faz-me admirar imenso aquela senhora. Quando falamos da relação entre pensamento e teatro está ligado a isso. Por isso gostei do comentário do Burmester. Eu entendo os textos como pautas. Eu posso brincar mais ou menos ali. E aceito como princípio algo que a Sarraute dizia, e que coincide com o meu tal radicalismo: não me importa o que um actor faça em cena, o que me importa é a 'façon de dire'. Eu digo: completamente de acordo! Isto também é uma posição radical. Mas é uma autora. Uma autora que diz isto. Tive sempre questões, mesmo com os grandes encenadores. Dou-te um exemplo: fui ver o Ronconi, o maior encenador italiano, Ronconi! O espectáculo começa e os meus olhos: Pá! Espectáculo vestido por Versace. Pá! As senhoras lindas de morrer, todas com os fatos... mas às tantas começo a ver umas corridinhas, uns meninos, uns elfos, por lá, e começo a desconfiar que o texto do Torquato Tasso não tenha a ver com aquelas corridinhas. É uma desconfiança... A coisa passa. No dia seguinte, abro o jornal, e lá está a dona Agustina Bessa-Luís, que escreve: tenho algumas dúvidas sobre umas certas corridinhas... (risos) Que engraçado, eu também pensei a mesma coisa. E no El País, um crítico espanhol escrevia no título, que destruía completamente o espectáculo do Ronconi no Grec: «Roncando com Ronconi». Mas detestei o espectáculo porque justamente não encontrava razão para o que ali se passava. Para mim, é uma fotografia lindíssima, esteticamente lindíssimo. Mas às tantas o Ronconi tinha perdido a cabeça. Mas também em Espanha acho mais possível que em Portugal o crítico ter esta posição tão radical e clara em relação a um espectáculo mesmo sendo um autor que possa admirar. Porque isto de é Ronconi e basta, não é assim.

Mas isto vem a propósito daquilo que ainda esperas do teatro e do teu conceito de teatro. Qual é?

É a defesa de um certo teatro, que tem a ver com o pensamento. E um teatro que está ligado a um pensamento e a uma forma de literatura com que eu me identifico e que acho mais importante. Repara que é um teatro que parte sempre do literário. O teatro pode não ser literário. Acho que o meu caminho é continuar a fazer teatro de texto. Eu trabalho para este sentido do teatro. No fundo é muito básico se quiseres. Aqui, uma palava em movimento é menos forte que uma palavra estática. Se te quiser dizer uma coisa importante, não te vou dizer a correr de certeza. O peso da palavra está ligado a uma posição estática. É com este tipo de coisas básicas que trabalho. Não tem a ver com essa noção de: mais rápido, mais rápido. Tem a ver com esta defesa de que o peso da palavra está ligado à palavra estática. Que o silêncio não é um inimigo. Tudo coisas básicas. E é isso que eu trabalho e que acho interessante trabalhar.

É um teatro que implica uma certa densidade...

Tem um peso. Se estão lá escritas, têm de se lhes dar um tempo para terem vida, e não tem de se distrair. Mas reconheço, e sou o primeiro a admitir, que há diferenças de públicos, e lugares. E não há problema de fazer espectáculos que comunicam directamente com o público. Como este caso do «Recital e tal», acho que é bom, como é bom pôr em cena os poemas mais hardcore do Bocage. Que começa «pau, rei dos paus, marmeleiro»... Não tenho nada contra esse tipo de textos, mas há outro tipo, que procuro e com o qual trabalho, que se enquadra no teatro da palavra, que hoje em dia está um bocadinho posto de lado. Passámos pelo período do movimento. Depois a história do teatro-dança. E toda a gente está de acordo que misturar e dar de novo não deu nada. A coisa não se resolve com o pôr os bailarinos a representar e os actores a dançar. Não se resolve por aí. Os bailarinos deixaram de dançar, e depois quando apanhas a dança a sério na televisão, ficas: «ahhh! Que maravilha!» A questão do corpo e da palavra está longe de estar resolvida. Desde os gregos que a coisa não está de todo resolvida. São duas linguagens diferentes, que não colam. Desde os gregos que está separada, em Apolo e Dionísio. Claro que se está constantemente a procurar, mas quando procuras, pões o movimento fora e dá isto. Voltando ao teatro do Ronconi. O Tasso tinha uma profundidade e há um menino que não tem vida para o estar ali a representar. Mas como imagem funciona, é lindíssimo. A questão da densidade está toda aí. O empenhamento tem de ser totalmente colado ao que estás a dizer, focado, o movimento extemporâneo não está ligado a isso. A dança exige isso, o movimento repetitivo, a coisa da máquina, mas que depois não cola com palavra nenhuma nem com nada do que estejas a dizer, porque é apenas uma questão de forma.

Mas essa é precisamente uma das grandes questões da dança contemporânea. Que recusa ser apenas aparência, forma, e reclama uma dimensão, profundidade, interior.

A questão da relação do corpo com o pensamento e com o movimento é um desafio. A relação está sempre na distância, o que não tens e tens de conquistar. Deve mover ou não? Experimentas mover. E depois dizes a frase. O texto perde peso. Se digo uma coisa importante, se quero dar-lhe o máximo de amplitude, não posso temer o silêncio e não lhe acrescento o movimento. Se quiseres, na tua linguagem, é apenas movimento interior, não uso o movimento no espaço. Raramente coincide palavra e movimento. Porque acho que perde força. O movimento tem todo o peso, mas é movimento por si. Porque são dois tipos de linguagens completamente diferentes. São dois mundos. O mundo da cabeça e o mundo do corpo. Depois há quem diga, esse actor representa apenas com a cabeça. Está bem, mas são duas linguagens muito diferentes. Claro que quando te empenhas e encarnas, está todo o corpo nela.

Mas aqui estás a falar de coisas importantes e estás em completo movimento.

Estou sempre a falar-te com entusiasmo. Entusiasmo é uma palavra que acho lindíssima, quando descobri o que significava. Sabes o que é entusiasmo etimologicamente? Ter Deus dentro de si. É seres habitado. Evidentemente que podes começar aos gritos, mas o movimento obriga-te à repetição. Não é o pensamento. É a repetição do mesmo.

fotografia de Susana Paiva

O movimento obriga à repetição? Em que sentido?

Não é um qualquer texto que pode ter movimento. Para teres movimento no espaço e no teatro, tens de ter um texto pensado já para o movimento. E o pensar-se o texto para o movimento é usar a repetição. Sempre.

Não vejo que exactamente assim...

Acho que sim. É essa a minha experiência. Um dia gostava de usar o movimento juntamente com o texto, mas sempre que encontrei textos possíveis de usar, são textos que usam o movimento. A proposta que fiz ao Armando, há uns anos, era fazer uma residência de criação aqui com um texto de um poeta francês, que era fazer o "poeme au marche", especificamente para trabalhar essa questão do texto como movimento. Isso não obsta a que como princípio eu acho que se tens algo importante a dizer dizes estático, não dizes em movimento. O movimento aí aligeira a tua questão. Podes dizer a andar, uma conversa, mas o que preside ao teu movimento é a tua cabeça. É nesse sentido que estou a dizer, não digo que é proibido andar. Se o andar nao tem uma justificaçao qualquer, entre a frase ou alguma coisa. A simultaneidade faz perder força ao texto, se for um texto que tenha força, que valha a pena ser dito.

Fala-me da tua relação com o Citemor. Que empatia foi essa que tiveste logo com o Armando [Valente]?

Eu estive cá em 1995. Depois não voltei cá. Mas a empatia foi na nossa conversa ao almoço. Estabeleces pontes, percebes que é alguém que não está no lado da Instituição. Não consigo...

És rebelde?

Eu sou completamente integrado. Sou professor. Não tem nada a ver com isso. Não me drogo, não tomo cocaína. Sou banalíssimo. Mas as pessoas que me tocaram, são pessoas que nunca estiveram bem com a Instituição. Com o Armando, gosto de conversar. Gosto de o ouvir, porque encontro afinidades e percebo as questões, encontro-me no que ele diz, as dificuldades de fazer um Festival aqui. O facto de a população passar ao lado. Estas são as questões que devem estar num discurso político cultural. Não é a merda do cosmopolitismo mais o dinheiro para a cultura. Quero que se vão todos lixar. O que interessa: dar mais dinheiro para a cultura? Isso não interessa nada. Resolve os teatros vazios? Resolve a formação de teatro, que nunca foi pior? Essa é a grande tragédia de Portugal. Tens uma educação pior do que tive no meu tempo no Conservatório. Eu tive o Richard Demarcy. Os que estiveram antes de mim tiveram o Peter Brook. E agora tens quem? Não está lá o Jorge Silva Melo, não está lá o Cintra. Os gajos que fazem o trabalho, que têm alguma coisa para ensinar. Não há muitos, são meia-dúzia, mas não estão lá. Não sou indiferente ao facto de, há bocado, ter aberto o jornal e ter lido uma entrevista ao António Calvário, e ele diz três coisas: não leu livro nenhum, só leu o livro dele. Segundo pensamento: qual é o seu anseio de futuro? Ser convidado para uma telenovela. E que se admira muito de nunca ter sido convidado. Eu também me admiro muito [risos]. A terceira: jantar com o Ruy de Carvalho, o nosso melhor actor português, de quem é amigo, e que seria com certeza um serão agradável porque já não o via há muito tempo. Desculpa lá!, mas tu não vives na República das Bananas?

Cláudia Galhós

7.8.09

DISCURSO DIRECTO | Francisco Camacho e Vera Mota

PRESENÇA DESCLASSIFICADA

fotografia de Susana Paiva

Em Abril passado, Francisco Camacho e Vera Mota faziam um ensaio corrido da primeira peça que criavam juntos, no estúdio da Eira, em Lisboa. «im-» estreava nesse mês, no festival da Fábrica no Porto. A conversa que aconteceu então discutia ideias ainda em desenvolvimento, que à vista da nova fase da peça, inaugurada esta semana no festival Citemor, revela o desenvolvimento e a ultrapassagem de algumas das questões suscitadas nesse ensaio. A antecipar a nova entrevista, que actualizará o olhar sobre a obra e o trabalho dos dois criadores, fica o documento de memória dessa primeira conversa.


Que afinidades levou a que tenham querido trabalhar juntos?

Vera: Foi amor à primeira vista (risos). Eu já conhecia o Francisco há muito tempo, como espectadora do trabalho dele, mas às tantas fiz o curso do Forum Dança no Porto, onde ele era um dos professores e foi lá que o conheci.

Francisco: Estivemos umas cinco semanas em contacto, que foi o tempo do curso. Nesse período a Vera desenvolveu vários trabalhos, incluindo uma performance. Ela continuou a trabalhar nessa peça, eu ainda a acompanhei um bocado, e de alguma maneira esse trabalho acabou por nos ligar.

Mas o que é que vos interessou no trabalho um do outro?

Vera: Lembro-me que quando comecei a ver espectáculos, o Francisco era uma das minhas referências. Depois, a forma como chegámos até isto foi o facto de acharmos que tínhamos algumas afinidades em termos de ideias...

Francisco: Nomeadamente, e foi uma das coisas que trabalhámos no curso, foi a questão da presença. Que ecoa aqui. Eu estava na fase do meu trabalho de criação do «Live/Evil», a que se seguiu o «Coup d'Etat». Interessava-me pesquisar um outro tipo de olhar sobre o corpo, o trabalho do corpo é muito assente nessa presença, como se sustenta a cena a partir da presença. No caso da Vera talvez o facto de haver uma forte consciência desse aspecto da presença, até pelo seu trabalho de artista plástica e também por trabalhar com fotografia e outros media, isso é muito relevante. E foi uma das coisas que me interessaram. Claro que depois entrámos numa questão pessoal, que é a afinidade com um certo tipo de presença, de estar, de olhar.

Vera: O meu trabalho também tem muito essa componente performativa, mesmo quando faço vídeo utilizo muito o meu corpo e muito a noção do corpo presente, mesmo que ele não apareça. Para mim faz todo o sentido fazer essa investigação que se estende até ao movimento e até à performance.

Desde o trabalho do «Live/Evil» que noto que as tuas peças, Francisco, são muito sustentadas pelo chão, não de o corpo se atirar para o chão, mas de tudo o que decorre e se coloca no chão. É um movimento no chão ou no subsolo, que é dado pela utilização de um certo tipo de materiais que aparecem muito, tecidos... Identificas esta ligação?

Francisco: É intencional no sentido de eu sentir que podia ir mais longe nisso. Mas é uma confluência de interesses. Porque houve uma altura em que retomámos o trabalho, porque tivemos vários períodos de encontros e informações anteriores ficaram pelo caminho e surgiram novas. E nas novas surgiu uma preocupação da Vera, com questões que ela andou a aprofundar no trabalho e relacionadas com a pesquisa académica dela.

Vera: O primeiro encontro foi para aí há 3 anos. Entretanto fizemos um grande intervalo porque o Franscisco estava com o «Blessed», da Meg Stuart, eu estava com o meu mestrado. Durante esse período, desenvolvi a tese de mestrado cujo tema andava novamente à volta do corpo.


fotografia de Susana Paiva


Em que sentido?

Vera: De algum modo como contornar a evidência constante e o confronto constante com imagens do corpo. Então, quando nos encontrámos havia uma série de ideias que tinham ficado para trás, e eu vinha com muitas ideias muito frescas, que era essa questão de como diminuir essa evidência, essa presença quase gratuita do corpo. E na altura vinha com conceitos como informe, como a ideia de mimetismo, de imobilidade, discutindo e acertando ideias com o Francisco. Aquilo que eu vim propor vem de encontro ao que disseste, essa ideia do informe remetia-nos muito para esta ideia de horizontalidade, o próprio material do cenário, que é uma cor neutra, algo que fica entre qualquer coisa... O trabalho foi muito em torno de como reduzir essa presença do corpo. Como por defeito chegar a uma presença mais intensa. Ou como esvaziar de tal forma que só restasse essa carcaça, de não estar a fazer nada. Pensámos sempre muito nessa ideia de desclassificar a presença.

E o que significa isso de desclassificar a presença?

Vera: Obviamente que nesse processo de desclassificar uma coisa há muitas outras questões que vão surgir. Esta noção de desclassificar tem a ver com este conceito de informe e que passa por reduzir uma coisa ao seu estado. Bataille, que sempre falou deste conceito, referia-se à palavra informe como uma coisa que é informe não apenas no seu aspecto, na sua aparência, mas como algo que em determinadas circunstâncias sofre uma transformação em que adquire uma qualidade que não é a sua. Neste caso, quer pela ideia de imobilidade, quer pela de horizontalidade, que é uma condição não associada à ideia de construção, de ideia de ser sublimado que é o homem, que atinge uma horizontalidade por oposição aos seus menores, os animais. Todas estas operações deveriam ser formas de desclassificar esta presença. Claro que não há aqui originalidade nenhuma em aparecer um corpo parado. As pessoas trabalham há muitos anos com a imobilidade em cena. Mas novamente quisemos usar essa ideia de não fazer nada. E depois também usamos a personagem do Bartleby, do Melville.

Que surge relacionado com essa ideia de possibilidade de não fazer nada?

Vera: Tem a ver com essa possibilidade de ocupar o tempo sem fazer nada. Daí também estar nesta cena sem fazer nada. E também consideramos o Bartleby por ser uma personagem que se vai desclassificando ao longo da sua história.

Eu vi uma eminência constante da queda, do corpo em queda, em desequilíbrio, que é uma imagem que conheço da dança contemporânea, mas que surge aqui como iminência mas não concretização. E com uma noção temporal totalmente distinta. É a presença da ameaça constante da possibilidade da catástrofe. Que se pressente a partir de uma perturbação interior, que permanece em contenção.

Francisco: Para mim está lá. Mas não foi decidida em comum, essa iminência da catástrofe.

Vera: Estamos numa situação-limite, desde a introdução. Não há indícios de construções, de algo que remeta para uma civilização ou um enquadramento mais seguro, construído.

Eu vi o espaço inicial como um deserto...

Francisco: Houve quem tenha visto um espaço lunar. Mas o que queremos é deixar em aberto. E a aposta na opção duracional da cena é permitir que possam existir essas projecções e sejam suscitadas ideias e possibilidades de leituras, como o meu corpo lá de baixo também está em metamorfose mais evidente que o dela.

É uma oposição, entre essa forma escondida debaixo do solo, que não identificamos o que seja e se vai ampliando, e o corpo humano, visível, que se vai recolhendo e reduzindo. Mas há um oposto também entre esse momento e a fantasia das figuras azuis, que parecem marionetas, por causa da qualidade do movimento.

Vera: Há uma ideia que atravessa todo o espectáculo que é o facto de estarmos sempre os dois presentes e nunca haver um diálogo. Este momento, para além de criarmos figuras que pela sua estranheza se distinguem ou teriam sido desclassificadas ou tornadas outra coisa que não aquilo que ele e eu somos, mesmo dentro de cena, havia essa ideia de estando tão próximos continuarmos com um contacto de distância.

Francisco: Em que não nos encontramos. Em que não é fusão e o embate do toque é ocupar o espaço um do outro, sem conseguir partilhar o espaço.

Vera: Uma dependência mas uma repulsa, de realmente não haver comunicação nenhuma, de ser mais um elemento com o qual tenho de lidar, tenho de gerir, mas que continuo a não conhecer ou a não estabelecer comunicação.

Francisco: Quanto ao lado marionético do movimento...

Vera: Também há aquela questão...

Francisco: Qual? (risos)

Vera: A questão técnica.

Francisco: A questão técnica...?

Vera: De adaptação ao espaço, e ainda faltar definir...

Francisco: Mas já estava lá. Quando estamos envolvidos numa acção, e isso era mais evidente antes de termos o espaço, em que o olhar está completamente desligado dessa acção.

fotografia de Susana Paiva


O olhar é um elemento fundamental deste trabalho. É fortemente marcante na primeira parte e torna-se marcante pela sua ausência na segunda.

Francisco: Tinha medo que não resistisse porque isso foi um factor importante para a sua construção. E a primeira vez que vestimos os fatos perdemos aquilo, mas depois fomos pelo lado do movimento e funciona.

Nesta organização em três partes, há um sentido de solidão que se acentua na terceira...

Francisco: Estávamos muito com a ideia de trabalhar a impossibilidade, e há uma consciência e uma insatisfação com aquilo e uma ideia de começar de novo. E aí ligamos ao Bartleby, quando tomas uma decisão estás a anular uma série de outras possibilidades. E então aquele fim é quase como um recomeço, que é esse recorrente voltar ao zero.

Vera: Para mim, faz parte de um sentido de desenvolvimento da peça. Há uma primeira parte que parece de aceitação de que não há nada. Depois dessa contenção, e mesmo depois de algum excesso que aparece dessa segunda parte, permanece uma atmosfera fria. Não há nada que expresse os sentimentos. E para mim, essa última parte, ainda dentro desse a-sentimento, há um bocado um recuperar algum sentimento, alguma emoção, desses rasgos, que são muito rapidamente abandonados. E mesmo a escolha das músicas – que nesta altura ainda não eram definitivas – também têm a ver com isso, com um imaginário colectivo, que nos remete para memórias e são músicas carregadas de emoção. E depois a nossa presença na parte constrastante permite deixar-se afectar, reagir em concordância um com o outro.

Mas permanece uma impressão de solidão imensa.

Vera: O encontro continua impossível.

Cláudia Galhós

4.8.09

DISCURSO DIRECTO | Angélica Liddell

SANGUE NO ESGOTAMENTO DE UM FULGOR


fotografia de Susana Paiva


A vida que nasce da dor. A transgressão como profunda comoção do espírito. O sangue que corre no corpo, desenho de uma estética que recupera imagens de pinturas clássicas.
«Aprendi a cortar-me a olhar quadros, a olhar pintura, a olhar o Renascimento, a olhar as feridas desenhadas nas pinturas nos museus. É uma mistura destas coisas. Por um lado, todas as referências estéticas. Por outro, uma transgressão espiritual como acto de reivindação individual.» É este o programa teatral, e de vida, de Angélica Liddell. Em cena, recupera um sentir intenso, que marca profundamente o existir, que é antigo. Tão antigo como o Homem.
São estas as chagas de Angélica. Partilhadas com o público no encontro marcado no armazém da Mota-Engil, na estreia de «Te haré invencible con mi derrota», no Citemor. Peça criada em residência artística nas margens do Mondego.

Já em «Boxeo para celulas e planetas» aparecia Jacqueline Du Pré como inspiração. De onde vem o interesse pela violoncelista?

Angélica: Jacqueline encarna na perfeição o conflito terrível entre a matéria e o espírito. Isso era o que tratava em «Boxeo...». Esse é o conflito aterrador. Quando o corpo está acima da vontade do homem. É esse conflito entre a possibilidade de criar beleza e a destruição. E o esgotamento de um fulgor. A extinção de Jacqueline está relacionada com a ideia de injustiça. Às vezes parece que os melhores estão destinados a morrer para que sobrevivam os medíocres e os imbecis. Então, é algo que por um lado me aterra e por outro lado me desassossega, essa espécie de injustiça natural. Quando o corpo vem massacrar a beleza. E isso é o que me atraiu e também o que me atrai nas suas qualidades de interpretação de música. Também este diálogo que iniciei em «Boxeo...» transladei-o para esta peça. Ou parecia-me que este era o momento adequado para falar da minha própria derrota pessoal. A peça foi como o meu veículo, a minha interlocutora. Através dela falei da minha dor. Utilizei-a um pouco como um cabo. Através dela pude expressar a minha própria angústia. A minha própria decepção. Por outro lado, uma decepção com o mundo dos vivos torna-se mais próxima do mundo dos mortos. Uma profunda decepção. Quando te arruínam a vida, começas um caminho de desconfiança brutal. Sinceramente apetecia-me ter uma morta como interlocutora.

Que dor específica é esta deste momento e desta peça? Porque as tuas obras são sobre dor. As anteriores já eram...

Sim, sempre refleti sobre a dor. Falar sobre dor e sofrimento parece-me algo de revolucionário, porque é uma batalha contra a banalidade e a vulgaridade. Tentam controlar-nos, há uma espécie de integrismo da banalidade, discurso da banalidade, mesmo de discurso intelectual sobre a banalidade. Acaba por funcionar como arma de arremesso contra tudo o que é profundo, sincero, belo. Falar de dor é algo de revolucionário. Falar dos sentimentos mais profundos é algo de revolucionário e é um pontapé no cu à banalidade e à vulgaridade. Isto tem estado presente na minha obra. E sempre o fiz passar através dos meus sentimentos, mas nesta ocasião concretizou-se mais. Porque também se vão acumulando máscaras, mas chegas a um limite da tua vida. Trabalhas com esse desgarro interior e chegas a um ponto de: não posso mais.

E o que é que te conduz a esse não podes mais?

Pois... Quando tentas dar o melhor de ti e em troca recebes uma patada, recebes dor, em troca recebes agressão... O único resultado que tenho de partilhar os meus melhores sentimentos é que me têm fodido a vida. E quando isso se torna muito claro, decides trabalhar com o ódio. Às vezes dá-me a impressão que agora mesmo não tenho nada mais do que ódio e ira e não posso trabalhar com outra coisa. Antes trabalhei com o amor...

Mas era uma forma de amor intensa...

Sim, só é possível trabalhar estas questões intensamente, senão parece-me que o melhor é desaparecer. Não me interessam as relações medíocres ou medianas. Mas encontras-te numa sociedade medíocre, egoísta. Os melhores sentimentos são massacrados e o amor que queres dar é massacrado. Em troca recebes dano. Então, a partir de agora prefiro trabalhar com o ódio. E não quero negar a minha capacidade para odiar. Tenho uma capacidade para odiar imensa. Tenho uma capacidade de ódio infinita.

fotografia de Susana Paiva

O amor e ódio estão muito próximos. Já não tens capacidade para amar?

Cada um tenta sempre dar o seu melhor. Mas no fundo são sentimentos que podes transformar em objecto estético e podes transformá-los em algo belo. Para mim era muito importante transformar o ódio em beleza. E com esta peça, através de Jacqueline, tento transformar esse ódio em beleza.

Mas de que beleza estamos a falar?

É a beleza que vem fazer justiça. Penso que quando o mundo se converte em algo injusto, a beleza vem fazer justiça. A beleza é uma das formas da justiça. E para mim é algo muito profundo. Quando me falam da transgressão, por exemplo, a transgressão não está associada ao escândalo. Para mim, a transgressão tem a ver com as profundas comoções do espírito. E a beleza é esse momento de profunda comoção ante o inexplicável. Ante o inefável. Geralmente as grandes emoções procedem do inexplicável e de territórios confusos, obscuros, misteriosos. Não trabalhei esta peça com um guião muito determinado. Dei muita oportunidade ao mistério.

Mas como foi o processo de trabalho?

O que me influencia é a vida. E há um processo vital. Há um processo de deterioração espiritual e de derrota espiritual. O que faço é ir conectando com Jacqueline, com estes objectos, com o sangue. Ao mesmo tempo há uma investigação estética e há aí uma opção estética, que é o sangue e as feridas. E é um processo que não sei onde começa. Não posso saber onde começa, mas sei que foi concluído aqui. E diria que é uma dor muito prazenteira.
Mas o que é que aconteceu na residência que te conduziu ao desenho deste espectáculo?

Foi um processo muito misterioso. Eu tinha vontade de trabalhar com todos estes elementos, e tinha uma certa estrututra, mas não sabia muito bem como a ia organizar. Dei tempo à emoção, à relação com os objectos e, no final, o guião acabou por se destruir. O que experimentava emocionalmente dia-a-dia, durante os ensaios, era o que ia transformando tudo. Inclusive, havia algo fundamental que era esta vontade de contactar com um médium. Isto foi um tarefa de loucos...

Isso tem a ver com o filme «Opening Night», de Cassavettes?

O «Opening Night» é um filme em que nunca pensas que vais chegar a essa situação de limite e, de repente, quando vês a Gena Rowlands com 40 anos, dás-te conta de que te converteste nela. O resultado é ficar aterrorizada pelo passar do tempo. E interrogas-te sobre a esperança. Sobre o que queres. Eu quero pelo menos ter esperança. Porque já nem sequer procuro a felicidade. Apenas ter a esperança para poder levantar-me no dia seguinte. Então, a Gena Rowlands tenta pôr-se em contacto com os mortos para buscar resposta… Acontece quando os vivos já não te podem dar nenhuma resposta, quando o mundo já não te pode dar nenhuma resposta, quando já te foderam tanto. Acabo por recorrer aos mortos, como nesse filme. Acabo por recorrer aos lugares mais insuspeitos, quando te instalas na desconfiança total. Eu já não confio em ninguém. Em nada. Já não acredito que nada me possa ajudar.
Como digo na obra, não preciso de ajuda para ser feliz. Para ser feliz preciso que deixem de me foder a vida definitivamente. Então, buscas respostas noutras coisas, na música, na beleza. Busco respostas em Jacqueline Du Pré, busco respostas em Glenn Gould, busco respostas nos retábulos medievais, na pintura clássica e num passeio pelos arrozais. E nada mais... E durante essa busca estava a contactar, com cepticismo também, com Jacqueline morta. E contactámos com um professor, que se chama Tamimou. E fomos ali, o Armando, o Sindo e eu, dispostos a gravar a sessão. Não foi exactamente uma sessão... O professor não se pôs em contacto com a Jacqueline. No final, o que resultou foi que acabei por me encontrar também com os meus próprios sentimentos. Acabei por me encontrar com o ódio, com as pessoas que odiava, com o meu medo de solidão, o meu medo da morte, com a superstição. São tudo questões muito pessoais com que tentei trabalhar todo este tempo.

Mas que questões colocaste ao médium?

O diálogo foi muito difícil. Falava entre francês e português e eu insistia que queria falar com a Jacqueline e ele tirava uma pedras e insistia em dizer-me que Jacqueline e eu éramos a mesma pessoa. O que acabou por me dizer foram coisas sobre mim. Ele dizia-me que Jacqueline e eu temos a mesma estrela, que alguém está a trabalhar para nos fazer mal, e que Jacqueline mata. O que extraí de toda esta informação é a essência poética. No fundo relaciono-me com estas frases e estas mensagens de uma forma poética. Acabo por utilizá-las de uma maneira poética porque, evidentemente, Jacqueline não mata, mas poeticamente sim. Poeticamente há uma morte muito profunda, dentro de cada um de nós. Dentro de mim, agora mesmo.

Até que ponto a questão que colocas existe realmente em ti: precisas mesmo de encontrar a razão que justifique continuares a viver?

Sim. Há uma versão do Livro de Job, bíblico, em que as primeiras perguntas são uma variação das perguntas que Job faz a Deus. Deus é o primeiro filho da puta e Job é o primeiro que se rebela contra esse filho da puta. Eu tenho o meu próprio filho da puta pessoal, a quem faço as perguntas que Job fazia a Deus, porque no fundo há sempre gente que é uma praga, e deixa-te o corpo cheio de chagas. Então, tens de interrogá-lo. Questionas: porquê? No fundo é a pergunta que Job fazia a Deus. Deus foi um grande filho da puta que jogou com o diabo, apostou com ele a fé de Job e fez cair sobre ele todas as desgraças. Mas Job afortunadamente rebelou-se e perguntou-lhe: porquê? Esses são os meus primeiros textos do espectáculo. Porquê? Porquê? E claro que dentro desse porquê está: por que continuo com vida se quis morrer? Por que continuo com vida? O trabalho criativo permite-me sobreviver e também compreender porque continuo aqui. Está muito ligado à minha vida e ao sentido da vida. Tento compreender porque fazemos tudo isto, este quotidiano de comer, deitar e levantar. A aguentar tudo isto. A capacidade de suportar tudo isto sem saber porquê. E essa é a grande interrogação...

Mas encontraste algum sentido ou resposta para essa questão?

Suponho que não se aprende nada, não se encontram respostas, apenas te assombras. Continuas a assombrar-te uma e outra vez. Assombras-te com a capacidade para fazer mal e com a capacidade para suportar o mal que te fazem. E é a única coisa que podes tirar disto: o assombro, uma e outra vez.

No teu site espantou-me uma entrada que parecia a inscrição de uma lápide: Angelica Liddell/Filha da puta/ e as datas 1966 (nascimento) e 2008. O que significa? Uma morte simbólica?

No fundo o que queria era acabar com uma maneira de estar em cena e começar algo diferente, mas é muito conectado à vida. Acho que o que queria era ficar sozinha de uma vez por todas. Há a marcação disso.

Ficar só em que sentido?

No sentido de que quando deixas de confiar nas pessoas, o melhor é ficar só.

Mas o que significa isso no que diz respeito a mudar a forma de estar em cena?

É aquilo de que quero falar, é o que quero compreender neste momento. É mais uma decisão da vida, é o isolamento. O que quero é tentar compreendê-lo através da obra e aquilo de que estou a falar aqui, e do que vou continuar a falar. As decisões que tomo na vida influenciam a obra e a obra influencia a vida. Isto no filme de Cassavetes é uma revelação. E nessa ambiguidade é onde está a riqueza e onde está o assombro; nesse intercâmbio entre a obra e a vida e a vida e a obra. E como uma coisa afecta a outra. E não quero que deixem de se afectar, quero mesmo que se contaminem mutuamente.

fotografia de Susana Paiva

O lado transgressor da tua obra tem um sentido particular, diferente da performance art da década de 60, apesar de conter ligações a essa corrente artística. Sentes proximidade do teu trabalho com a performance art?

Há algo de classicismo na agressão ao corpo e não evito de todo as referências. Parece-me uma soberana estupidez evitar as referências, porque qualquer referência é a origem da alma, do que estamos a tentar revelar, que são matérias acerca do ser humano. Parece-me fundamental ter referências e de um ponto de vista clássico. Assim, há uma vontade de classicismo na agressão ao corpo; por outro lado está ligado a uma ideia de transgressão mas transgressão espiritual, porque a transgressão tem a ver com o espírito, com esse dar-se e com essa exposição das comoções internas. Quero dizer com isto que o que expressa o corte são as comoções internas. Longe de ser algo superficial, está conectado ao desastre espiritual, à catástrofe espiritual e à derrota espiritual, e essa é a segunda parte. Depois, é uma opção estética, em que também tem as suas referências e as correspondências na pintura do Renascimento e nos retábulos medievais. Aprendi a cortar-me a olhar quadros, a olhar pintura, a olhar o Renascimento, a olhar as feridas desenhadas nas pinturas nos museus. É uma mistura destas coisas. Por um lado, todas as referências estéticas. Por outro, uma transgressão espiritual como acto de reivindicação individual. Nesta era dos massacres e das mortes colectivas e da colectivização das condutas, parece-me que reivindicar o eu é um acto político de liberdade e de agressão ao massivo. Essa transgressão tem a ver com a defesa do eu como acto político contra a colectivização das condutas. Depois tens a outra parte, de que falávamos antes, que é a referência absolutamente clássica de algo que cada um utiliza como quer. Porque não há uma vontade de originalidade. Há uma vontade de expressar-me com liberdade e fazer o que me dá na real gana. Expressar-me através de recursos absolutamente clássicos, que são os cortes.

Mas sendo essa a matéria com que tens trabalhado, a forma como chega ao público é radicalmente diferente das peças anteriores. Não senti desta vez, também por causa do dispositivo cénico, que inicias um confronto, uma batalha, com o público. Nas anteriores, o espectáculo era o momento do confronto.

Já não é efectivamente uma batalha. Não quero que seja uma agressão ao público, não estou a provocar. Estou a falar da dor. Estou a falar da dor e utilizo os objectos e recursos que expressam isso, mas não há vontade de provocação, apenas pura expressão da dor.

Para mim, para além das linhas narrativas entre a tua vida, a Jacqueline Du Pré, há um terceiro elemento, que é a guerra, que é a violência. E o facto de abordares isto a partir de um ponto de vista pessoal – há momentos simbólicos disso, desde logo a bóina que colocas ao colo e que vais cosendo, com as mesmas agulhas que espetas em ti e fazes sangue – resulta na restituição de uma dimensão humana, do resgatar do anonimato da multidão. Restitui a dimensão pessoal, individual, à guerra.

Há uma conexão do privado com a humanidade. Pela catástrofe que supõe ser humanidade. E aí está a guerra. Para mim, a profunda decepção a que havia chegado da relação com as pessoas, neste percurso do espectáculo chego a pensar que a guerra nem sempre é o pior.

Não?

Quero dizer, a nível humano não precisas de disparar uma arma para seres verdadeiramenre malvado. Não precisas de uma guerra para seres violento. E ao conectar estas duas coisas, o pessoal com a humanidade, desenhas essa proximidade entre as duas dimensões. No fundo, volto sempre uma e outra vez ao íntimo e ao particular. Também a Jacqueline e a Guerra do Vietname são contemporâneos. Era algo que estava a acontecer ao mesmo tempo, eram duas guerras, de ordens diferentes, que aconteciam em simultâneo. São duas dimensões da dor e da catástrofe. Estamos a falar do mesmo: de uma dor muito profunda.

Nos teus trabalhos, os objectos têm uma dimensão que entendo como quase ritualística. São colocados e apresentados de um modo que parecem ganhar uma dimensão simbólica particular, que remete quase para uma experiência ancestral, primária. Mas para além desta ideia mais genérica, pergunto se cada objecto surge porque está associado a uma simbologia concreta, de origem espiritual ou ligado a práticas que realmente existem?

Não trabalho a partir do ponto de vista simbólico. Mas claro que ganham uma dimensão simbólica, desde logo a partir do momento em que os situas fora do seu contexto natural, aí têm de ser reinterpretados pelo espectador. A mim agrada-me trabalhar do ponto de vista do concreto e para além disso alí está, inclusive, uma história entre os objectos.

Mas se falarmos do final com as pipocas, por exemplo?

As pipocas é o cinema. Mas não quero dar uma explicação de cada objecto, porque tenho diálogo específico com cada um. Mas estabeleço uma relação do ponto de vista do concreto, não a partir do ponto de vista do simbólico.

Mas o tempo, a forma como te associas aos objectos, mesmo que sejam do quotidiano, rementem para uma energia e um tempo que parece associado a uma outra dimensão do ser, mais ritualísitica...

Não. São coisas que têm a ver com o quotidiano, com a minha vida quotidiana e que incorporo no espaço. Há um espaço que pode estar relacionado com o ritual mas não o utilizo de uma maneira ritual, apenas os incorporo para que expressem de melhor maneira a ideia com que estou a trabalhar e o conceito que estou a desenvolver. Mas estou a trabalhar do ponto de vista do concreto. Poderia quase dizer: esta poderia ser a minha habitação num momento dado. Trabalho desde esse ponto de vista e não do símbolo. Trabalho do ponto de vista do que é possível. Eles existem, este espaço existe por si mesmo, tem sentido por si mesmo, sem necessidade de lhe dar maior manipulação do que estar ali colocado, sem maior manipulação que resulta da sua presença. No fundo, trabalho com a presença dos objectos. Depois, claro que há num conflito. Tento que haja uma batalha entre todos e que todos estejam em conflito e a dialogar e que se crie uma espécie de rede e de sentido. Não é exactamente de simbólico, mas estão carregados de sentido.

E que escolha fazes sobre a qualidade da presença do intérprete, que neste caso és tu, em cena? Porque a fronteira desse estar realmente em cena, de utilizar o corpo e a tua vida como material, leva-te a experiências de entrega extremas. Na primeira noite, comentavam que desabaste no final em choro, em resultado de um entregares-te a essa dor, que faz parte da história do espectáculo, e que levanta a questão de: que qualidade é esta do estar em palco que defendes e que tens nesta peça?

São decisões que têm de ser feitas num segundo. Decides assumir um risco emocional ao mesmo tempo que estás a lidar com a demência controlada. O que se passa é que estás a trabalhar com sentimentos-limite, e podes usá-los ou decidir distanciar-te. Trabalho com o que se está a passar comigo nesse momento ou posso distanciar-me. Neste último caso, trata-se de deixar o trabalho na sua dimensão formal. E às vezes é uma escolha que fazes no mesmo instante em que estás a trabalhar diante do público. Foi o que sucedeu no primeiro dia. Tive de decidir entre acabar a cena, como todos os dias, ou trabalhar essa angústia que estava a começar a invadir-me e a fazer-me muito dano. Decidi trabalhar com isso. Mas no fundo sempre há um controle da loucura. Se a loucura não estiver controlada no cenário, é muito aborrecido. Os loucos são muito aborrecidos nos espectáculos.

fotografia de Susana Paiva

Mas estás a entregar-te ao limite? E porque é isso que optas como presença no palco?

Sim, porque o que estou à procura é da maior aproximação possivel à verdade. Quero funcionar por oposição à mentira. E nessa busca da verdade, há caminhos que cada um escolhe e que não são necessariamente os correctos. Há caminhos que não sabes de estás a fazer bem ou mal, podes estar a enganar-te nesse momento. Mas é uma busca importante.

É o terceiro ano que vens ao Citemor. São cinco peças, mas o teu repertório é muito mais vasto. O que é que o público de Montemor não conhece do teu trabalho?

Apanharam-me numa época de transição total. Entre um personagem que me fez muito feliz, Ricardo III, que não tem nada a ver com isto. É sempre um trabalho no sentido de ir tirando máscaras. «O Ano de Ricardo» tem esta personagem, Ricardo III, que é uma personagem muito construída e, nesse sentido, mais convencional. Mas no fundo também é uma busca da verdade. Acredito que é isso que não conhecem os montemorenses. Esse foi o passo que saltaram. Começaram já com encontros noutra fase e penso que os surpreenderia muito o «O Ano de Ricardo». Mas ao Ricardo já o matei. Já lhe cortei a cabeça e já lhe demos passaporte.

Há dois anos disseste que estavas numa fase em que odiavas o teatro e as pessoas do teatro. Manténs isso?

Sinto cada vez mais asco e mais ódio pelo teatro e pela gente do teatro. Procuro encontrar amigos noutro lugar.

Mas o teatro ainda faz sentido porquê?

Porque já não sei fazer outra coisa. Quando deixar o teatro, suponho que vá viver com as lontras, animais que vivem na água. Vi um documentário em que havia uma avó, que vivia com duas lontras ao lado de um rio e é esse o meu projecto. Quando me fartar de tudo isto, irei para as margens de um rio viver com duas lontras.

No Mondego?

Claro, Claro. Fazemos algo com os mosquitos! Imagina, no final terminar, farta de tudo, mas em Montemor! (risos)


Claudia Galhós

1.8.09

CRÓNICA | A cidade dos homens-água

fotografia de Susana Paiva

Eis a hora. Ponto de encontro: Igreja da Misericórdia.
Vivemos a temperatura que desce. A noite. Hora de humidade nas margens do rio. O Mondego ali ao fundo, alcançado no caminho que cruza os campos de milho alto. Todo esse reino de criaturas escondidas na escuridão, na folhagem alta. Cidade rente às águas lentas do rio. Cidade de folhas, de ventos e de estrelas.
Chegam as pessoas, encostadas aos muros, nos grupos que murmuram a espera do caminho que vão partilhar juntas. Vêm de perto. Vêm de longe. Vêm gente do teatro e vêm gente da terra. Misturam-se as geografias para orientar os passos, iluminados por lanternas, embrulhados pelo sopro de instrumentos que somam à textura sonora dos animais nocturnos. Começa a caminhada. Em caminho de terra. Muros altos de plantação verdejante. Mal vistos por entre a penumbra da meia lua.
A cidade de folhas conduz o grupo para o manto docemente embalante dos homens-água. Espreitam em melodias animais por detrás da folhagem. Espreitam em assobios que se confundem com pirilampos as conversas distraídas dos passeantes. O primeiro sinal da água repousa na cana de pesca atirada ao rio. O pescador faz o teatro, faz de pescador, em alvoroço, no entusiasmo da personagem encontrada pela primeira vez. Trocou o lugar nos bastidores, na assistência técnica, e lança a linha para o primeiro vislumbre de miragem que surge a deslizar sobre o rio.

fotografia de Susana Paiva

Lá ao longe, avista-se a primeira jangada. Surge o primeiro homem-água. Vem da cidade da escuridão. Aquela que se perde no negrume que a vista não alcança. Faz-se de corpo em movimento, em equilíbrio precário, em cima do pequeno quadrado de madeira. Nilo Gallego chamou-lhes «Pigmeus do Mondego». São imagens que constroem a aparência de uma ilusão, que se faz da simplicidade dos elementos da natureza habitados pelo homem, o homem criativo, que constrói paisagens sonoras e paisagens de revelação ao olhar. Compõem-se com o desarmante banal gesto de fazer habitar pela vida, e pela melodia da música, um lugar natural que os tempos da contemporaneidade deixaram abandonados.
A ausência da ausência, afirmada nesta presença tão humana e deliciosamente simples, é o gesto que instala, de forma categórica, a experiência poética. A paisagem da cidade dos homens-água, assim estranhamente assim tranquilamente, habitada por música e por imagens fugazes, opera a transformação do sentido do lugar. Restitui-lhe a carga que a história guardou apenas como memória. Ou como esquecimento.
Ouviram-se gargalhadas no Mondego. Por baixo da Ponte de Alagoa, canoas navegaram em bando, como patos, atrás da gaita de foles que girava hipnoticamente em redor da sua base, ocupadas por remadores e músicos locais, alguns da Banda Filarmónica de Montemor-o-Velho.
As águas servem o ritmo da noite, em constante derivação entre a tempestade e a tranquilidade. A aproximação ao silêncio, sem lá exactamente chegar, e a aproximação à catástrofe, aos caos, sem exactamente lá chegar, fizeram destes «pigmeus» uma comunidade temporária com variações rítmicas próprias. A cidade dos homens-água desenhou a traços brutos de paus cravados na terra a fisionomia de um lugar concreto, que é este de Montemor. É um projecto quase oferenda de escuta generosa e sensível do lugar. De construção de um estar que entra em sintonia com o que naturalmente existe, como se lhe restituísse uma vida que lhe pertence mas que está ausente. Daí esse acto performativo tão fortemente poético de criação instaurar uma experiência de ausentar a ausência. Os elementos cénicos, que acrescenta ao que já existe, são iluminações sobre um olhar que amplia os sentidos possíveis abertos à imaginação. Com as jangadas, as canoas, os instrumentos e músicos flutuantes, o vídeo quase realista e risível sobre o pilar da ponte ou os meros mergulhos e brincadeiras na água, abre as portas para o mundo que se esconde na penumbra da noite, como se mergulhássemos para além do que os olhos não vêem mas nesse movimento de imaginação não deixássemos de tocar o humano.

fotografia de Susana Paiva

Nilo Gallego escutou o lugar pelas referências que fez à própria história do lugar, ao riso lançado às águas do Mondego que subiram e que transformaram todo o Montemor num grande rio. Lançou o riso sobre esses dias de tempestade que, ciclicamente, a cada novo ano, ameaçam as terras desta cidade de folhas. Escutou o lugar ao criar as cumplicidades artísticas entre os músicos e intérpretes e os músicos e os canoistas da terra. A comunidade provisória alimenta-se do encontro, dentro e nas margens do espectáculo, de todas as comunidades possíveis, locais, artísticas e estrangeiras. No final, fica esse som de caixa de música, a iluminar a visão e a escuta da implicação atenta que este acto poético, humano, popular, contemporâneo, feito de sombras, deixou a navegar, sob a neblina nocturna fumegante do rio.

Cláudia Galhós

26.7.09

CRÓNICA - História da dor

fotografia de Susana Paiva

Há três narrativas que se cruzam, em cena, como três linhas de vida desenhadas na palma da mão. Todas elas partem de uma dimensão muito pessoal: a história de Angélica, a história de Jacqueline e a história da humanidade. História de guerra. São tudo variantes de uma mesma história: a história da dor. Ou o porquê. Porquê? O que nos mantém vivos.
A leitura do destino é traçada a partir do interior. Da fuga do aparentável e da imersão profunda no em si. Traz de dentro, para fora, as marcas desse horror. Marcas gravadas na carne, marcas que expressam a dificuldade do dizer. É o percurso interrompido da respiração, arrancada, em sangue, ao corpo. Partilham, neste cruzamento, a proximidade vertiginosa com a morte. Como quem se debruça sobre o abismo, quando espreita para dentro de si.
O tapete de violoncelos a seus pés. Regados a gotas de sangue.
Pousa o olhar na lentidão do cigarro que queima e se apaga, em cinzas, no tampo de madeira. Deixa-te ficar, preso a esse fogo que queima. Ternamente. A mesma madeira que é base também das garrafas de cerveja vazias, despejadas do seu interior. O cabelo negro desalinhado. Despido já da cabeleira loura que lhe cobria o rosto e a mergulhava numa outra identidade. Angélica Liddell é Jacqueline Du Pré. Angélica é Jacqueline. E as duas são o pacto de sangue que a vida assina com a morte. Desde o nascimento. A vida assim íntima alimenta-se do paladar promíscuo do assassinato de todas as guerras. As armas entram em cena, ao lado da cera que derrete os dedos frágeis da música sensível. E a julgam calar para sempre. Mas os dedos que derretem, permanecem na eternidade da memória dos vivos a tocar as cordas dos violoncelos que derramam sangue, os mesmo que disparam o tiro da espingarda. Porquê?
Angélica é Jacqueline. E as duas são parte de uma história da humanidade que grita a razão de viver. A razão arrancada às entranhas do existir. A história vai a meio, quando ela se senta na cadeira, no final do tapete de violoncelos. Está isolada do mundo que a rodeia. A barreira sonora da música que lhe entra nos ouvidos pelos auriculares, que apenas ela escuta, diz dela que não está já ali. No colo, uma boina de lã, que vai cosendo com as mesmas agulhas que antes tinha espetado no próprio corpo, na carne, por baixo dos braços, para cobrir o peito nu com o pano branco manchado de sangue. A guerra no colo. Amparada por esse embalo maternal. Que melodia é essa que apazigua o som ensurdecedor das mortes? O violoncelo de Du Pré? Aquele desejante que inveja a condição da ternura do desaparecimento?
Naquele gesto caseiro, Angélica é devolvida aos tempos da infância, às memórias de família, a esses rituais de recolhimento lento e de afectos que criam a ilusão da felicidade. Naquele colo, naquele ondular cego das mãos, com a música de Du Pré nos ouvidos, a boina sobre as pernas, as agulhas a coser, Angélica é Jacqueline. As duas são um corpo de mulher que narra uma história atravessada pela história da vida, da sobrevivência, da dor, da guerra, do sangue.
A voz de Angélica reproduz os sons impulsivos, em desorganização perturbada, do violino de Jacqueline, que habita, inaudível, a atmosfera da sala. Desestabiliza-lhe os movimentos. Atira-lhe o corpo para trás. Perde-se a visão do rosto nesse descair do tronco. Desaparece na escuridão. Cada gesto aproxima-a mais do abismo. Aproxima-a um pouco mais, delicadamente, da morte. Há uma ternura que tenta essa aproximação. Aqui, é o inferno. Aquele que ela rasga a cortes de navalha no tampo do violino. Ódio aos vivos. O mesmo que o soldado tem escrito na boina, «war is hell», nas imagens de vídeo finais, que inauguram esse momento de «Jacqueline no Vietname».
Talvez tenhamos já escutado estas imagens que ressoam como eternas verdades, repetidas vezes professadas e que nos dizem do inferno aqui na terra. Mas Angélia não faz apenas isso, não se limita a recriar essas impressões dolorosas do viver mais uma vez. Ela faz muito mais do que isso, e que acaba por ser a razão da força poética das suas performances: ela acrescenta-se a si. Angélica acrescenta-se a si ao olhar que debruça sobre o mundo. Dá-se. Partilha a delicada vulnerabilidade do seu viver. É acto de entrega. De partilha. De profunda poesia.
Em «Te haré invencible con mi derrota», Angélica acrescenta-se a si à obra. Acrescenta-se ao implicar o seu corpo, ao dar-se ali, atravessada por todas as misérias e todas as inquietações, como a matéria carnal que completa os procedimentos ritualísticos que ela convoca, das entranhas da terra, complementados pelo cenário de objectos que compõem o seu imaginário criativo, que é a medida pulsante do seu imaginário de vida. Aos 42 anos, Angélica é Jacqueline. Tão próximas do horizonte da morte.

Cláudia Galhós