18.11.14

Márcia Lança em Montemor-o-Velho

Festival de Montemor-o-Velho encerra a edição de 2014 com a apresentação da última coreografia de Márcia Lança. A obra intitulada "Evidências Suficientes para a não Coerência do Mundo" será apresentado sexta 28 de Novembro, às 21:30, no Teatro Esther de Carvalho. Cabe ao espectador definir o preço do bilhete.


Este trabalho apresenta um desaparecimento brusco de várias evidências, revela incoerências enquanto paradoxos, questionando-se sobre se as coisas produzem sentidos ou se produzimos sentidos a partir das coisas. Reflecte sobre contextos e os seus artifícios de fabricação e transfiguração. Um contexto é por si só um enquadramento, um quadro, uma construção cultural. Ao fazer-se arqueologia com pessoas, estas são retiradas dos seus lugares, de lá, de onde estavam, e apresentadas num outro lugar – descontextualizadas e recontextualizadas. Descrevemos um contexto, imaginamo-lo. Descrevemos alguém, construímos alguém. Evidências Suficientes para a Não Coerência do Mundo serve-se de várias histórias: do corpo e de seus monstros, da pintura retratista, do traje, do uso de cenários frente aos quais as pessoas se deixavam, em tempos, capturar, e da construção de relações sociais de poder, entre outras. É proposta uma narrativa coreográfica, não cronológica, de carácter ficcional com contornos documentais.
Colocou-se, então, a seguinte questão: “Se uma pessoa nunca se mexer e tudo mudar à sua volta será que ela mudou?”
Márcia Lança



Hoje, ao falar com um amigo, pus-me a lembrar que era costume a minha mãe levar-me a tirar fotos em estúdios de fotografia, daqueles que têm cenário por trás, a imitar a realidade. E fui descobrir as fotos antigas, não todas, mas algumas em que me fiz fotografar diante desses cenários irreais.
Esta é um exemplo, a minha preferida. É impressionante tudo o que se pode imaginar olhando para este arranjo. Faz-me pensar no Sidibé Malick e no Seydou Keita, em como eles conseguiram retratar gerações inteiras fotografando as mais variadas pessoas nos seus estúdios em Bamako.

Dezembro 2010, Berlim (do caderno de trabalho de Márcia Lança)

11.11.14

Teatro do Vestido estreia “Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas”

Com textos e direcção de Joana Craveiro, a mais recente criação do Teatro do Vestido é composta por sete palestras performativas sobre a ditadura portuguesa, a revolução e o processo revolucionário. A obra tem estreia marcada para o dia 13 de Novembro, na ZDB, e decorre até dia 16. O espectáculo tem sempre início às 20h00.

Seis anos passaram desde o 25 de Abril, e os meninos da classe da professora Luísa, do Externato Grão Vasco, encontram-se num fotógrafo na avenida com o mesmo nome. Estamos em 1980 e Joana pouco ou nada sabe sobre a revolução. Tem memória da reeleição do General Ramalho Eanes, mas preocupa-se mais em apanhar folhas para os bichos da seda.
Assim começa “Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas”, um projecto composto por sete palestras performativas acerca da ditadura portuguesa, da revolução e do processo revolucionário. Partindo de uma pesquisa sobre as memórias da história recente de Portugal, Joana Craveiro, directora da companhia e autora da obra, apresenta aqueles três importantes períodos numa perspectiva histórica, política e afectiva. Com base em testemunhos de pessoas comuns, a autora procura desafiar as grandes narrativas que se têm construído, sobretudo, sobre a ideia de protagonistas militares e políticos. Sob a forma de um solo, o espectáculo mostra onde estão as pessoas no meio destas memórias e narrativas e como é que a transmissão deste período crucial da história do país se opera nos dias de hoje. Que omissões, revisões e rasuras estão a acontecer, como e por quem.
De acordo com Marianne Hirsch, a segunda e terceira gerações são as ‘gerações da pós-memória’ e é precisamente nessa condição que o Teatro do Vestido constrói as sete palestras performativas: “como uma lição de história que não se aprende em nenhuma discilplina que conheçamos – e talvez por isso mesmo estejamos a construir este espectáculo, por nunca o termos podido aprender mesmo quando pedimos que nos ensinassem, que nos contassem como as coisas se tinham realmente passado.”
Depois de ter sido apresentado em antestreia no Citemor e no Festival Y, num formato mais reduzido, “Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas” tem estreia absoluta na ZDB, no dia 13 de Novembro, às 20h00. No final de cada espectáculo haverá uma conversa com o público moderada, no dia da estreia pela historiadora Irene Pimentel. Os bilhetes custam 12€ (10€ para grupos de 10 ou + estudantes) e incluem uma ceia. As reservas podem ser efectuadas através do e-mail reservas@zedosbois.org ou do telefone 213 430 205.