17.4.13

Um manifesto contra a inevitabilidade no TAGV

É a partir de textos de Tony Judt e de Boaventura Sousa Santos que Cláudia Dias, bailarina e coreógrafa, cria "Vontade de Ter Vontade", um "manifesto contra a inevitabilidade" onde a autora transforma o palco num território — Portugal. O espectáculo decorre na próxima quinta-feira, 18, às 21h30, no Teatro Académico Gil Vicente (entidade colaboradora do Citemor), em Coimbra.








"Entendo o meu trabalho de criação como um percurso que se vai edificando no sentido de um dia vir a conceber a peça - aquela depois da qual não fará sentido criar outra. Assim, vou estabelecendo relações e up-grades entre as diferentes criações, como se em cada uma descobrisse algo mais a acrescentar a um manual de instruções operático. Quase um método. Vontade de Ter Vontade insere-se neste pensamento. É, deste ponto de vista, uma peça de continuidade de um percurso que iniciei com o solo One Woman Show e dei seguimento com Visita Guiada e Das Coisas Nascem Coisas. Mas se no fim de cada criação constato que me dediquei a questões específicas do fazer artístico, em todas o início é sempre o mesmo – não saber senão a imagem detonadora. Esta peça nasce do sentimento de confrontação geracional que sinto com muitos dos meus alunos. Confronto esse que fez-me refletir sobre a minha geração e sobre a forma como me relaciono com a antecedente e precedente. Este movimento de ir para a frente, supostamente para o futuro e para trás, para o passado, situou-me no presente. Num aqui e agora. E assim nasce a imagem galvanizadora desta nova criação, a de transformar o palco num território – Portugal. Vontade de Ter Vontade é um percurso onde as dimensões individual, coletiva, pessoal e histórica cohabitam o mesmo espaço. Diria ainda que este percurso traça um olhar sobre o momento atual que vivemos na Europa (e no Mundo), pondo em evidência as relações entre o Norte e o Sul, entre o colonizador e o colonizado, entre o central e o periférico. É também um manifesto contra a inevitabilidade.
Se eu ficar aqui, sempre no mesmo sítio, as coisas irão passar por mim em vez de ser eu a passar pelas coisas. O tempo irá passar lento, rotineiro, disciplinado e eu com ele à deriva… Como se não houvesse gravidade que me conectasse a um chão, a um território. Como se fosse aterritorial e apátrida na minha própria terra. Como se o país fosse um lugar distante, ao qual não pertencesse, do qual não fizesse parte. Como se não tivesse nada a dizer. Aqui, de boca cerrada, em silêncio, de plástico, a meter tudo no mesmo saco. Os fracos, os fortes, a amizade e o utilitarismo, o apetite e a fome, a violência, a insurreição, a Revolução de Jasmim e a acampada do Rossio, os direitos, os privilégios, o pontapé na cona e o Hermitage La Chapelle, a exclamação, a vertigem, a igualdade e o discurso sobre, a Costa da Caparica e as Bahamas, a esquerda, a direita… Tudo igual. Tudo no mesmo saco. Como se não pensasse. Como se eles pensassem por mim. Como se fosse inevitável que eles pensassem por nós. Como se a inevitabilidade fosse uma lei da física. E me restasse apenas aceitar, resignada, o eterno retorno de passar pelas mesmas coisas, uma e outra vez. Como se a existência acontecesse e não me visse. Eu, discreta, à paisana na vida. Como se estivesse a ser agida."
Cláudia Dias


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