1.10.12

Citemor em Madrid


De 4 a 14 de Outubro o festival de Montemor-o-Velho estende-se à capital espanhola afirmando a vitalidade e potencial do projecto





É no Teatro Pradillo, em Madrid, que decorre a extensão da 34ª edição do Citemor, um programa que conta com 9 sessões de 3 espectáculos, uma vídeo-instalação, duas “maratonas” de vídeo e uma projecção de cinema.
Uma criação em progresso do Teatro do Vestido, “Monstro (parte 1: Calamidade)”, abre o programa. Esta é a primeira parte de um projecto dividido em três (1: Calamidade; 2: Hecatombe; e 3: Apocalipse), em que o colectivo expõe a situação económica e social em que Portugal se encontra, entendendo que “este é o momento para fazer teatro sobre isto”. “A ‘isto’ chamámos calamidade, e ao conjunto de calamidades que nos trouxeram até aqui, chamámos monstro”, lê-se na sinopse da obra. O espectáculo será apresentado nos dias 4, 5 e 6 de Outubro, às 21h.
Também a partir do dia 4, e até ao final do programa, Luís Alegre passa por Madrid com uma versão para o Teatro Pradillo de “Play Them #02”, vídeo-instalação apresentada na edição de 2011 do Citemor. “Play Them #02 [Pradillo]” é composta por quatro animações produzidas para o festival em que o artista, após pesquisar os registos videográficos do Citemor, opta por intervir sobre a documentação da obra da coréografa Elena Córdoba, artista residente no Teatro Pradillo. A presença de Luís Alegre no Citemor decorre de um programa de curadorias delegadas na área das artes visuais, tendo a sua obra sido comissariada por José Maçãs de Carvalho.
Nos dias 7 (das 12h às 24h) e 14 (das 12h às 20h) de Outubro decorre “Maratón de Video”, uma mostra de vídeos de criadores espanhóis no Citemor comissariada por Fernando Renjifo. Os vídeos são realizados por Hugo Barbosa, colaborador do festival de Montemor-o-Velho, e dizem respeito a espectáculos apresentados no Citemor a partir de 1999. Entre os vídeos propostos encontram-se obras que não estrearam em Madrid, criações in situ e obras realizadas numa grande diversidade de espaços que o festival vem a ocupar em Montemor-o-Velho (ruínas, armazéns industriais, igrejas, campos de arroz, etc.). Esta acção documenta também a relação que os criadores estabelecem com os espaços e a forma como estes marcam as suas criações.
A segunda semana do programa segue nos dias 11, 12 e 13 de Outubro com dança em dose dupla: Francisco Camacho e Rafael Alvarez. “Nossa Senhora das Flores”, um solo do bailarino e coreógrafo português Francisco Camacho, estreado em 1993, é uma das obras de referência da dança contemporânea portuguesa.  Segue-se Rafael Alvarez com a antestreia de “sweetSKIN”, solo com estreia marcada para Novembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Realizando um investimento marcante no desenvolvimento do seu trabalho a solo, o bailarino e coreógrafo português questiona “de que forma é que a percepção de qualquer imagem é afectada pelo que sabemos, pelo que acreditamos, da mesma forma que a distância ou a proximidade definem a perspectiva de como olhamos e analisamos um objecto ou uma acção.” Os espectáculos decorrem às 21h.
A presença do Citemor em Madrid termina com cinema. “Montemor”, de Ignasi Duarte, uma co-produção Citemor, Periferia Filmes e Pão Filmes, estreou no FID Marseille 2012 onde conquistou uma Menção Honrosa na categoria de Primeiras Obras. “Montemor” tem estreia em Espanha no dia 14, às 21h, no Teatro Pradillo.
O Citemor transporta para Madrid o modelo de acesso aos espectáculos experimentado na sua última edição, onde cada espectador define o preço do bilhete de acordo com a sua condição financeira e expectativas.


Indicador de vitalidade
O Citemor designou, estrategicamente, o espaço peninsular como a sua zona de intervenção preferencial, concretizando na sua relação com Espanha parte nuclear da sua internacionalização. Durante mais de duas décadas, o Citemor revelou em Portugal criadores espanhóis, acompanhou os seus percursos e co-produziu novas obras, ao mesmo tempo que captava financiamentos e apoios para participar produções nacionais e ampliar a difusão dos artistas portugueses nas diversas autonomias. A presença do festival em Madrid surge, de acordo com a direcção do Citemor, “de forma natural, como algo orgânico que resulta de uma prática e uma ética constantes”. A direcção acrescenta ainda que “a ocupação do Teatro Pradillo, em Madrid, durante estas duas semanas, mais do que uma distinção, é um indicador da vitalidade e potencial do projecto, apesar do sub-financiamento a que foi condenado. É um sinal do reconhecimento da influência do festival enquanto entidade produtora e da sua importância para a criação contemporânea na Península Ibérica.” 

Nova direcção do Teatro Pradillo. Fotografia de Marta Pontes


Teatro Pradillo
A 34ª edição do Citemor foi uma edição de resistência, onde se verificou uma alteração de paradigma: deixou de produzir novas obras com os criadores e companhias e passou, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associaram ao festival com o estatuto de co-produtores. O Teatro Pradillo, que  se uniu a esta edição de resistência com a presença de dois dos seus criadores residentes, recebe agora uma extensão do Citemor com artistas portugueses.
Situado no Bairro de Chamartín, o Teatro Pradillo foi inaugurado em 1990 e desenvolveu uma programação artística baseada na difusão de teatro independente. Em 2012, após 22 anos de actividade, uma nova direcção pretende agora revitalizar o projecto, assente num novo modelo de gestão, para assegurar uma posição de referência na criação cénica contemporânea, enfrentando os desafios artísticos, económicos e de relação com os públicos que um novo contexto sócio-económico implica.

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