1.8.12

Citemor continua em Montemor-o-Velho com proposta ibérica

texto de Cláudia Teixeira

O festival de Montemor-o-Velho regressa à vila do Baixo Mondego depois de ter passado pelas três principais salas de Coimbra. Até 11 de Agosto, o público pode contar com uma proposta ibérica e multidisciplinar, onde o espectador define o preço dos bilhetes 

(fotografia de Eric Costa)

A segunda semana do festival começa com bombas. “Bombas (ou agonias para estes tempos felizes de crises)” é um espectáculo “dissidente” de Susana Vidal. A obra constitui-se como a última parte da trilogia “Bombas”, da qual fazem parte também “Bombas (ou morrer durante uma semana)” e “Bombas (ou pequenas explosões a sós)”. A autora define a obra como “um trabalho em agonia (…), uma derrota intimista e, ao mesmo tempo, um grito de resistência”. Com o objectivo de “furar o nosso estar e nos deixar uma bomba nas mãos para rebentar mais tarde”, a peça vai decorrer nos dias 1 e 2 de Agosto, na Igreja de St. António, em Montemor-o-Velho, às 22h30.
Segue-se um fim-de-semana preenchido com dança e teatro. A Sala B, em Montemor-o-Velho, abre, pela primeira vez nesta edição, para receber os espanhóis Fernando Renjifo e Elena Córdoba. O primeiro chega-nos com “14 Visiones”, uma vídeo-performance criada a partir do livro ‘Las contemplaciones de los misterios’ (escrito por Ibn Al’Arabi nos finais do século XII) e interpretada pelo actor árabe Ziad Chakaroun. De acordo com o autor, “14 Visiones é uma chamada de atenção, a partir de um ateísmo anti-religioso perante a desespiritualização e despoetização da sociedade em que vivemos.” O espectáculo é uma estreia nacional e será apresentado nos dias 3 e 4 de Agosto, às 22h30. Nos mesmos dias, às 23h30, a bailarina e coreógrafa Elena Córdoba estreia “Atlas, el Gigante y la Vértebra”, que dedica a seu pai, onde a autora constrói um paralelismo entre a primeira vértebra da coluna (de seu nome Atlas) e Atlas, o gigante castigado por Júpiter, que o obrigou a segurar o céu para que este não desabasse sobre a terra. 
Continuamos com dança, com uma remontagem especial de “Nossa Senhora das Flores”, do bailarino e coreógrafo português Francisco Camacho. O solo, estreado em 1993, é uma das obras de referência da dança contemporânea portuguesa, tendo sido galardoado com a Menção Especial do Prémio ACARTE/Maria Madalena de Azeredo Perdigão 1992/93  - Fundação Calouste Gulbenkian. O público pode ver, ou rever, a obra no dia 5 de Agosto, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho.
“Black Cats Can See In The Dark But Are Not Seen”, é o que o Citemor propõe para os dias 7 e 8 de Agosto. A obra é de Dinis Machado e constitui “um trabalho para três performers em acção para construir um único corpo”. “Através da sua relação com os materiais mais precários eles constroem dispositivos e olhares provisórios, num espaço onde o corpo enquanto elemento metabólico fundamental, se revela a si mesmo enquanto fonte primeira de desejo, vontade, possibilidade e prazer.” A obra, co-produzida com o Citemor, teve residência artística em Berlim (com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian) e será apresentada como uma antestreia, no Teatro Esther de Carvalho, às 22h30.
Prefere estar de pé, sentado ou deitado? António Pedro Lopes é peremptório: ‘melhor sentado do que de pé melhor deitado que sentado’. A frase pertence a Samuel Beckett e é com ela, no encontro com Jorge Gustavo de Figueiredo Ciríaco e com a obra ‘Sete na Cama’, de Louise Bourgeois, que o performer propõe “Agosto, melhor sentado do que de pé melhor deitado que sentado”. António Pedro Lopes sugere que procuremos estas referências no Google e as consumamos sem parar e sem moderação. E sugere um encontro, convidando os espectadores a “invadir um espaço doméstico e a permanecerem penetráveis”. A obra, proposta como uma apresentação informal e intimista, vai decorrer em duas sessões por dia (22h30 e 23h30), nos dias 9 e 10 de Agosto, nas Escadas Dr. Baptista Loureiro s/n, em Montemor-o-Velho.
A fechar a 34ª edição do Citemor, no dia 11 de Agosto, o Teatro do Vestido apresentará “Monstro (parte 1: Calamidade)”, uma criação em progresso. O colectivo explica que “o país onde nascemos está a saque” e que “este é o momento para fazer teatro sobre isto”. “A ‘isto’ chamámos calamidade, e ao conjunto de calamidades que nos trouxeram até aqui, chamámos monstro”, lê-se na sinopse. O projecto “Monstro” tem três fases e vai decorrer durante o resto do ano de 2012: 1.Calamidade, em Montemor-o-Velho e Lisboa; 2.Hecatombe, em São Paulo; e 3.Apocalipse, em Lisboa. “Monstro (parte 1: Calamidade)” pode ser visto na Sala B, em Montemor-o-Velho, às 22h30.
Até ao dia 11 de Agosto, o público pode ainda visitar a instalação “De Costas”, do Teatro O Bando, na Praça da República, em Montemor-o-Velho, a qualquer hora do dia ou noite. Das 19h às 22h (excepto às segundas-feiras), no Quarteirão das Artes, está patente a vídeo-instalação “GATÕES - Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9”, de Susana Anágua, uma obra que se centra na produção de arroz característica do Baixo Mondego. As entradas são de livre acesso.
Sob o lema ‘Quem dá o que pode a mais não é obrigado’ o preço dos bilhetes será definido pelos espectadores no momento da sua aquisição e de acordo com a sua condição financeira e as suas expectativas. Desta forma, a direcção do Citemor define um modelo que “pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar.”