20.7.12

Resistir

A 34ª edição do Citemor decorre em circunstâncias extraordinárias. Após cortes sucessivos impostos pela DG Artes, que representam no nosso caso uma perda, em dois anos, de aproximadamente 75%, esta é uma edição de resistência. Um gesto simbólico que pretendemos com significado político.
Nesta edição verifica-se uma alteração de paradigma. O Citemor deixa de produzir novas obras com os criadores e companhias e passa, excepcionalmente, a ser participado por estes, que se associam ao festival com o estatuto de co-produtores. Este modelo, implementado para obviar os custos de uma paragem em 2012, é, naturalmente, irrepetível.
Numa edição particularmente difícil, só possível graças ao empenho de parte da comunidade artística, o Citemor reforça a sua presença em Coimbra partilhando a sua programação com as três principais salas da cidade: Oficina Municipal de Teatro, Teatro da Cerca de São Bernardo e Teatro Académico de Gil Vicente. 
O modelo de acesso aos espectáculos pretende ser inclusivo e desafiar o público a participar. Os bilhetes não terão preço fixo, sendo este estabelecido pelos próprios espectadores no momento da sua aquisição. Queremos viver cada momento deste festival como uma celebração, com a consciência de que poderá ser o último de 34.
Quando falamos do Citemor, não está em causa apenas um festival. O Citemor é muito mais do que uma mostra. Dada a sua vocação produtora, além de contribuir para a ampliação de um circuito de difusão, co-produz e está associado à criação de dezenas de novas obras no teatro, na dança, nas artes visuais e algumas propostas híbridas, um traço de identidade fundamental no projecto.
Apesar das dificuldades evidentes e da suspensão da programação do Teatro Esther de Carvalho, o nosso balanço não é de todo negativo. Teve estreia em Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura, "El Lamento de Blancanieves", de Olga Mesa, uma co-produção Citemor com o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, com a FRAC Alsace e com o Théâtre Pôle Sud de Strasbourg; em Junho integrámos com "Montemor", de Ignasi Duarte, a Selecção Oficial do FID Marseille, festival de referência que explora as fronteiras do cinema documental, obtendo uma Menção Honrosa; e estamos a programar para Outubro, no Teatro Pradillo, em Madrid, uma mostra de criadores nacionais.
O Citemor é hoje um factor decisivo de identidade territorial, contribuindo para uma imagem moderna da região associada à criação artística. Revela um impacto considerável na economia local e teve sempre uma estratégia de internacionalização eficaz. Mas o capital que detemos, proveniente de mais de 30 anos de uma prática continuada, está definitivamente em causa.
Neste momento queremos reafirmar algumas posições já assumidas. A cultura é um sector cronicamente sub-financiado e sub-avaliado quanto ao seu real contributo para a economia das cidades, das regiões e do país, em particular as artes performativas. Não nos parece sensato, sob o ponto de vista económico, desinvestir desta forma e impôr cortes cegos num sector que, apesar de já descapitalizado, mantinha a sua capacidade produtiva intacta.
A cultura não é uma despesa, é um investimento. A criação artística contemporânea constituirá amanhã o nosso património, o nosso legado. Um país sem criação contemporânea é um país desmaiado, sem alma e, a prazo, sem identidade.
A Direcção do Citemor