31.7.12

Citemor

(texto da  Mala Voadora, originalmente publicado em www.malavoadora.blogspot.pt)

Chegámos agora a Lisboa, vindos de apresentar philatélie no Citemor, em Coimbra.
O Citemor é um festival. Apesar de manter alguma actividade em continuidade, tem uma programação essencialmente concentrada em poucas semanas, como é habitual nos festivais. Mas é um festival particular. Tem um tempo particular. Em dois sentidos.
Primeiro, grande parte dos artistas que vão a cada edição do festival, em Montemor-o-Velho, vão para lá trabalhar – trabalhar de facto nos espectáculos, e não apenas montá-los, apresentá-los e desmontá-los. Cada equipa trabalha num determinado espaço, e as várias equipas encontram-se para refeições conjuntas e também nas esplanadas da praça central da vila, ou nos espectáculos umas das outras, ou à noite depois de uma dia de trabalho. Por vezes estas temporadas servem para acabar um espectáculo, outras para começá-lo. Ou fazem-se experiências curtas, de laboratório, propícias a riscos para os quais nem sempre se encontra disponibilidade. Em qualquer dos casos (e mesmo quando se apresentam produtos mais acabados) a equipa do Citemor opta por acompanhar, em duração, e não por juízos instantâneos. É esse o tempo em que decorre cada edição do festival.
Segundo, o Citemor mantém relações continuadas com os artistas que programa. Renova-se e apoia artistas novos (por vezes desde os primeiros trabalhos), varia de edição para edição, mas privilegia o retorno. É assim que os artistas desenvolvem relações com o festival e o seu amplo público, e também com outros artistas. As relações são coisas que se constroem ao longo do tempo. É esse o tempo que o festival promove ao longo das suas sucessivas edições.
Tudo isto parece bastante romântico. Ou: é romântico. Mas é também bastante político. O tempo do Citemor é, na verdade, contrário a tudo o que determinam as “leis de mercado”. É, com uma coerência e uma perseverança invulgares, anti-capitalista. E, nessa medida, é um exemplo raro para se pensar em “política cultural” com alguma profundidade política (e também para se pensar em “para que serve acumular anos de existência”).

29 de Julho de 2012
mv