16.7.12

Citemor | A festa que recusa a história de uma morte anunciada

crónica de Claudia Galhós

Se esquecermos a história, o que é que sobra desta identidade? A questão é colocada por Dinis Machado, criador e actor (não o escritor de "O que disse Molero"), a propósito da sua nova peça, "Black cats can see in the dark but are not seen", que tem antestreia na edição de 2012 do festival Citemor. E é essa uma das inquietações do espírito do tempo presente. Como avançar para um futuro se perdermos o passado? O grande e longínquo passado e aquele mais recente, que construímos juntos nas últimas décadas? Este foi um passado que, na História de Portugal - a sua história política, social, humana e artística - tem apenas cerca de 40 anos de existência em liberdade e respeito pelo valor humano. Uma história que no caso concreto das artes performativas contemporâneas, de autor, conheceu o seu maior fôlego a partir das décadas de 80 e 90. O que fazer se a querem condenar ao desaparecimento e ao esquecimento? Como construir futuro?


fotografia de Rita Couto

A maior parte da realidade diversa e rica que ganhou corpo e expressão autoral artística nas artes performativas está ainda a fazer-se adulta. Mal saiu da adolescência. Está plena de fulgor, de diversidade geracional e abordagens alternativas ao mundo. Não teve tempo de amadurecer. Mas estarão a matá-la? O Festival Citemor em 2012 surge com um sabor de fim de festa. Mas com a esperança de que depois das comemorações não fiquem apenas destroços, lamentos e ruínas, mas se erga a partir do já edificado, muito dele da ordem do imaterial e efémero, e se abra a possibilidade de continuar, indo mais além. Porque este é o dilema de uma comunidade artística em situação de asfixia, mas também é o dilema de um país, que se vê forçado a pegar nas enxadas e pás para cavar as sepulturas de quem ama e agoniza.
De algum modo, o programa do Citemor revisita muitas das suas cumplicidades, e renova algumas colaborações. A afirmação, entendida genericamente, serviria para definir qualquer uma das edições do festival. Mas este ano, este elenco de propostas artísticas surge mais completo e representativo do que tem sido o papel deste evento. Voltam "pais" do teatro português e dança contemporâneos, representantes de uma velha guarda pulsante que deseja manter o diálogo com as novas gerações, como são o caso do Teatro O Bando, de João Brites, grupo que tem para o Citemor uma importância filiadora (apresenta uma instalação de cadeiras de teatro, "De Costas", propondo ao público que se sente e fotografe a sua condição de espectador); ou o caso do Teatro da Garagem, de Carlos J. Pessoa, companhia com uma grande cumplicidade com o festival, que estreia uma nova encenação, com texto de sua autoria, chamado "Recusa"; ou caso ainda do coreógrafo Francisco Camacho, parceiro antigo e consultor do festival, que repõe o solo "Nossa Senhora das Flores". É neste patamar que também surgem alguns dos nomes de artistas espanhóis que participam desta edição, dando continuidade à linha programática em que é afirmada a duplicidade portuguesa e espanhola, que tem sido marcante nos últimos anos: Olga Mesa regressa com uma remontagem especial de "Daisy Planet" (apresentado em antestreia no âmbito deste mesmo festival em 1999) ou a coreógrafa Elena Córdoba com a estreia de uma nova peça, "Atlas, el gigante y la vértebra".
A elencagem da programação segundo um esquema geracional, sempre discutível, é a forma possível de tornar visível a renovação e dinâmica criativa de um país, que também aqui sofre da ameaça de estagnar, interrompendo um diálogo de diferenças que se faz não apenas pela idade mas também por múltiplos outros factores que constroem identidade. Há neste programa uma geração que definiríamos como intermédia, vinda do teatro e da dança, que surge com abordagens pessoais ao acto criativo, propondo possibilidades de narrativas e histórias singulares. No teatro temos a Mala Voadora, de Jorge Andrade e José Capela, com a reposição de "Philatélie" e o Teatro do Vestido, de Joana Craveiro, com a apresentação de "Monstro", uma criação em progresso.  Susana Vidal apresenta uma remontagem especial de "Bombas (ou agonias para estes tempos felizes de crises)", último espectáculo da trilogia "Bombas", e Fernando Renjifo estreia "14 Visiones". Na dança há Rafael Alvarez com a antestreia do solo "sweetSkin". 
Depois há um teatro e dança já do século XXI, com nomes como John Romão que regressa ao Citemor, numa passagem breve por entre a vertiginosa dinâmica criativa que o tem levado a todo o mundo, partilhando numa apresentação informal o espectáculo "Eu não sou bonita. Eu sou o porco", com Solange Freitas, a partir de textos de Angélica Liddell e Paulo Castro. Dinis Machado apresenta em antestreia "Black cats can see in the dark but are not seen" e António Pedro Lopes explora o ambiente privado de uma sala de uma casa particular de Montemor-o-Velho para apresentar "Agosto, melhor sentado do que de pé melhor deitado que sentado", estreia de uma peça criada a partir da escultura "Sete na Cama" de Louise Bourgeois. 
Resta referir que a vertente de artes plásticas tem um novo capítulo nesta edição, prosseguindo a lógica de consultoria iniciada com a exposição, há dois anos, do artista Maçãs de Carvalho, que foi no ano seguinte comissário deste mesmo espaço, tendo escolhido Luís Alegre. Este ano é Luís Alegre quem assina o comissariado, tendo escolhido Susana Anágua. E novamente por via de um gesto artístico, se toca um mundo que nos escapa, recuperando a História para dar sentido ao futuro. No caso de Susana trata-se de um vídeo, "Fábrica de Descasque de Arroz 1 a 9 de 9", filmado na  antiga Fábrica Patrão Rosete Sucrs, Lda (Cooperativa Agrícola de Montemor-o-Velho), onde a artista conheceu o processo de descasque e branqueamento do arroz da área do Mondego. E dali para o mundo. Simbolicamente também representado por um outro vídeo de Susana Anágua, "Do Vale do Paraíba ao Mondego", onde coexistem imagens "da festa de arroz realizada na Prefeitura de Tremembé em 2010 e as belíssimas paisagens de arroz de Montemor-o-Velho ou planos mais abstractos das máquinas de descasque em funcionamento".
Para resistir ao apagamento do passado e enquadrar toda esta dinâmica artística que liga por três semanas (26 de Julho a 11 de Agosto) Montemor-o-Velho a Coimbra (há espectáculos nas duas localidades), há ainda o blogue www.citemor.blogspot.pt, por onde passam conteúdos paralelos, entre filmes, fotografias e textos, e que incluirá uma entrevista de fundo ao economista Augusto Mateus, para um olhar especializado sobre arte e economia num mundo que precisa de sonhar, afirmar a diferença pelo reforço da identidade, para construir o seu futuro.