7.8.11

DISCURSO DIRECTO | Onde estamos aqui e agora? Onde estamos? (1ª parte) | Carlos J. Pessoa

Texto de Cláudia Galhós

A questão acompanha Carlos J. Pessoa no seu quotidiano nos últimos tempos: o que significa este "aqui e agora"? Onde é aqui? E quando é agora? Faz parte da investigação que está a fazer para a sua tese de doutoramento. E faz parte do sentido desestabilizador que se instala em cena na peça "Sede Remix" que criou para o Citemor. A entrevista é atravessada também por este tema, que está ligado ao que define como "a perigosa desestabilização entre o humano e o tecnologia" e o regresso ao corpo.

fotografia de Susana Paiva

Estás a investigar o conceito "aqui e agora" na tese de doutoramento que estás a fazer, mas o mesmo também surge na peça "Sede Remix". Em que sentido o estás a abordar?
A questão, genericamente, é o 'aqui e agora' nas práticas teatrais na era digital. O conceito de 'aqui e agora' é aquele que mais diferencia o teatro das outras artes e de grosso modo serve de empurrão à emergência de todo o movimento da performance e dos performance studies e as questões levantadas, a partir dos anos 70, pela Escola de Antropologia, do Victor Turner e do Richard Schechner. O que as tecnologias vêm fazer é desestabilizar este conceito de "aqui e agora", que abordamos neste espectáculo, por exemplo. Onde é que estamos? Estamos aqui ou não estamos aqui? Interessa-me explorar isso. Do ponto de vista de uma abordagem do humano, de uma definição do que é o humano neste confronto com esta evolução exponencial da tecnologia, há uma desestabilização que é perigosa.

Em que medida é perigosa?
Gozo de fininho com isso na peça, com o pós-humano. Acho o pós-humano muito perigoso, porque o pós-humano é, de certa maneira, depositar uma esperança nas máquinas e na integração. É o movimento ao contrário do que devia ser. Por isso é que faço este espectáculo assim. É o movimento de sujeição das pessoas às máquinas, e não sujeição das máquinas às pessoas.

Mas não ultrapassámos já essa ideia, de as máquinas como fim em si mesmo e antes as máquinas como meio ao dispor do Homem? É a sensação que tenho a partir da leitura das artes performativas actuais e a forma como se dá o recurso às tecnologias que, quando acontece, serve para evidenciar mais o lado humano...
Não sei. Estas coisas são cíclicas e de ciclos cada vez mais rápidos e acelerados. É a sensação que me dá. E por conseguinte agora creio que quando vês objectos de cultura popular de grande consumo, como o 'Matrix' e outros sucedâneos, coloca-se essa questão. Outro exemplo é a revisitação do Philip K. Dick, o sucesso recente dele, considerando que vem dos anos 80 e, no entanto, hoje em dia é uma estrela. Agora fala-se imenso dele e até tens o Nuno Rogeiro a traduzir "O Homem do Castelo Alto". Portanto, estas coisas são cíclicas e são ciclos rápidos e acelerados, de grande velocidade. Não há digestão. As coisas não têm um tempo de gestão e consolidação e de estabilização conceptual suficientemente sólido. Há muito deslumbramento e muita conversa de chacha. Há muito a preocupação com o estar na moda e não há a preocupação com os conceitos. A questão não está resolvida, porque se quisermos já vem da Leni Riefenstahl, e da propaganda nazi, e a Noite de Cristal.
A questão da tecnologia e da relação do homem com a técnica já vem daí. Acho que toda a filosofia do Heidegger anda à volta da relação do homem com a técnica. Temos resultados práticos, se considerarmos a relação com a medicina e a telemedicina e toda aquela avalanche de imagens produzidas a propósito dos avanços, das tomografias computorizadas, mais as endoscopias, e não sei que mais....
Nessa ligação com a técnica já não é o humano, é o biológico. Tudo isto são questões muito importantes que me interessam porque acabam por ser factores decisivos do que se pode gerar numa época de radicalismo, como aquela em que vivemos. Também ninguém imaginaria na Europa que, de repente, vem um tipo e começa a matar pessoas na Noruega. Essa estabilização não está feita. E tanto não está que estão sempre a aparecer fenómenos bizarros, que a meu ver são sintomas de uma grande desestabilização.

Como é que defendes que se deva lidar então com esta questão, da relação entre a tecnologia e o humano?
Acho que a relação com a técnica e com os media é algo que tem de ser reflectido. Isso resulta também do meu trabalho na escola como professor. Estas questões alteram o modo de ser e estar das pessoas. Há um efeito bio-tecno-cultural resultante desta injunção dos meios técnicos na existência das pessoas. Vejo o meu filho com 8 anos que faz filmes. A linguagem dele é diferente da minha, isso reflecte-se no seu 'bios', no seu comportamento, na maneira como está, como fala, no vocabulário que usa, na visão que tem do mundo. Não quer dizer que isto seja mau, mas tem de ser acomodado. Gozamos aqui com o Raymond Kurzweil [na peça surge com o diminutivo Zweil]. O Raymond Zweil é o americano que inventou o primeiro sintetizador de som. Nós falamos ali em tom de brincadeira e parece que é um nome inventado, mas não é. Ele existe. É um académico americano, um inventor extremamente prestigiado. Ele fala na questão da singularidade tecnológica. Há uma série de estudos publicados por ele a propósito da rapidez da evolução tecnológica. Por exemplo, o chip há dez anos tinha um tamanho x, hoje tem um nano-tamanho... Tudo isso acarreta alterações e as gerações são cada vez mais curtas. As implicações disso no comportamento e na aprendizagem, no modo de ser e estar das novas gerações é flagrante. Há que acompanhar isso.
Não posso ir falar da 'Ilíada' e da 'Odisseia' como falei no meu tempo, porque é diferente. No outro dia fomos ao remo, aqui em Montemor-o-Velho e ficámos a falar com os miúdos sobre um quadro do Thomas Eakins, um pintor americano, com remadores. Eles vão ao ipod, iphone, e está logo tudo ali... Tens os quadros todos mais uma série de textos. É incrível. No meu tempo de miúdo tinha de ir a uma biblioteca. Isso representa uma alteração. Tem consequências, não estou a dizer que são boas ou más, mas têm de ser pensadas. E quando digo que é perigoso, isso do deslumbramento e da questão do pós-humano, que é uma questão filosófica retomada por muita gente, e muita gente respeitável do ponto de vista académico, é porque acabam por contribuir para o retomar de certas teses que demonstraram ser catastróficas.

Pelo que entendo e do que vi no espectáculo, defendes a constatação dessas alterações, que podem derivar no pós-humano, mas o que propões é integrá-las em proveito de uma defesa do humano. É isso?
Acho que valorizar o humano está ligado, para mim, à ideia de evolução. Quando vês aquelas imagens no espectáculo, projectadas sobre a muralha, elas são feitas artesanalmente. Significa a clara opção de pegar na tecnologia, dar um efeito de alta tecnologia e, no entanto, aquilo é feito com um cordelinho que estica. O que me interessa é essa artesanalidade, esse regresso ao corpo. E podemos dizer, como diz o Zweill, 'sim, mas o corpo entretanto já foi transformado'...

Que é o que estavas também a dizer antes...
Claro que sim, mas essa dinâmica do humano é sempre esse complexo de uma apropriação bio-tecno-cultural, o conceito não é meu. E desde o momento em que inventaste o fogo, e o fogo vai aquecer a carne e tens acesso a proteínas... O humano está sempre ligado ao técnico, e não há que ter medo disso, mas há que o pensar. E, muito importante, há que acrescentar a terceira palavrinha que é o cultural, que significa pensar o técnico e o bio.

E nesse caso qual é o papel do teatro? E de que modo essa constatação altera o teatro que fazes?
Sempre me interessei por isto. Sempre tive esta paixão. As referências da minha vida passam pelo 'Blade Runner', o Tarkovsky... Acabam por ter uma relação peculiar com a técnica, com a ficção científica, com esta articulação com os media. Tanto o Tarkovsky como o K. Dick. Depois introduzem uma dimensão poética que me interessa. E isto vem desde sempre. Não nego que haja uma recorrência nos espectáculos. Não nego que tem o meu estilo, tem as minhas obsessões e são questões nunca acabadas. Um filósofo não resolve, está sempre em contínuo debate.

DISCURSO DIRECTO | Aqui e agora? (2ª parte) | Carlos J. Pessoa