11.8.11

CRÓNICA | Introdução ao corpo-operador de Olga Mesa

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Em 2010, Olga Mesa apresentou uma versão em fase inicial do projecto de pesquisa que tem aprofundado nos últimos anos e que dá por nome de labOfilm, de que "El lamento de Blancanieves" é o primeiro episódio. Hoje (dia 11 de Agosto) apresenta em antestreia a mesma peça em fase mais aprofundada de pesquisa, mas a estreia está marcada para o início de 2012, em Guimarães.
Este é um mundo complexo, que mergulha num pensamento sobre a arte, o corpo, a imagem, a subtileza do que se escolhe dar a ver e o que se esconde, e o valor simbólico desse jogo de revelação e ocultação que transporta um sentido poético e filosófico que chega a nós por via desta forma singular que toca a dança, a performance, o teatro, o cinema, as artes visuais, a instalação...
São várias as portas possíveis de entrada no mundo de Olga Mesa. Para já, fica uma primeira aproximação que recupera a memória das primeiras experiências de Olga Mesa com câmaras em contextos performativos, num breve excerto de uma conversa tida em Agosto de 2010, fase de residência criativa de Olga Mesa em Montemor-o-Velho, que antecedeu uma partilha de materiais nesta localidade, já extra o programa do festival. Primeiras impressões sobre conceitos como "corpo-operador", "câmara subjectiva" e "câmara objectiva" em aprofundamento nesta peça.

"No projecto labOfilm há muito material de obras anteriores. Creio que é um projecto que está à procura de um dispositivo num espaço. Está a questionar o corpo em relação a esse espaço com o interface da câmara. É mais a articulação dramatúrgica que põe em questão o que o corpo-operador vê a partir do subjectivo e o que constrói. O ponto de partida do labOfilm foi o ano de 2007, então com duas câmaras. Havia a câmara subjectiva - que levava comigo -, e a objectiva - que era posicionada fora, com alguém detrás dessa câmara, a olhar para mim, a filmar-me. Era um primeiro dispositivo de alguém que filma alguém que filma. Havia já esse olhar duplo exterior.
Aí trabalhámos com esse pequeno dispositivo. A ideia ligava-se com o retomar a origem do meu trabalho, o que remetia para o uso de uma câmara. Ao longo destes anos percebi que, quando comecei, usava a câmara porque tinha por objectivo fazer uma peça cénica e uma peça visual. Foi quando fiz o vídeo "Europas", em 1995, com o Francisco Camacho e a La Ribot e, em paralelo, uma produção para o CCB, quando Gil Mendo era programador de dança, em 1994, "Des/Aparições". E fiz este filme, um vídeo de 15min, que na altura foi uma complicação... Não era vídeo-dança, eu estava já a trabalhar com a câmara, não tanto relativamente à dança mas por relação com os espaços. A ideia era construir uma dramaturgia a partir dos espaços e do quadro/moldura. O corpo estava presente a olhar. Era um corpo já espectador dentro do quadro...
O que se passou depois daí, na minha trajectória, é que levei a câmara para o palco. Não fiz mais filmes fora desse contexto. Até 2004, com "Solo a ciegas", a câmara tem assumido diferentes identidades. E essa câmara estava cega. Filmávamos gestos e momentos que o público não via. Não mostrávamos imagem. Chegar a essa câmara cega foi o aproximar do que realmente interessa, que não é a imagem dada a ver, mas o que está por detrás da câmara. Neste caso está relacionado com o corpo-operador. É aí que identifico este interesse, não tanto pelo visível, não tanto pela imagem em si mas o interesse pelo que o espaço pode construir no emergir da imagem..." (a continuar...)