10.8.11

ANTEVISÃO : 3º semana

Texto de Cláudia Galhós

fotografia de Susana Paiva

Espanha chega ao Citemor na terceira e última semana do festival. Olga Mesa, Sergi Fäustino e Ana Buitrago são os nomes em presença, que traduzem três abordagens distintas ao acto criativo que, tendo a sua origem geográfica no país vizinho, não está contido nessa fronteira física e cultural. Se esse facto é verdade para a interrogação sobre o gesto artístico, a pesquisa sobre as possibilidades expressivas, simbólicas, poéticas e psicológicas do corpo, que de forma distinta cada um opera em cena, é mais ainda quando consideramos o nome de Olga Mesa. No caso de Olga, trata-se de um percurso afirmado fora do país de origem, muito como acontece com uma certa geração a que pertence, como La Ribot, por exemplo - uma primeira geração da dança contemporânea espanhola.
Em "El Lamento de Blancanieves" - que se apresenta em estreia na Oficina Municipal de Teatro (Coimbra, quinta e sexta, 11 e 12) -, o espaço construído perante o olhar do espectador instala uma proposta simultaneamente visual, plástica, cinematográfica, coreográfica e teatral. Ecrãs, câmaras de filmar, lugares de desaparecimento, aparições de imagens de ficção..., são alguns dos elementos de uma sugestiva proposta artística onde a voz que se escuta vem de dentro do corpo e liberta para o exterior um som que carrega uma profundidade delicada do sentir. Uma montagem fílmica num palco que poderia ser um espaço de galeria para uma performance onde se jogam as questões da realidade e ficção, do que é dado a ver e o que se esconde, que toca interrogações sobre intermediação e interpretação, e sobre entregar-se ali, para se dar aos outros e a si própria. O espectáculo acontece no Citemor em ante-estreia, sendo o festival co-produtor desta criação que tem estreia prevista para o início de 2012. "El lamento de Blancanieves" toma como ponto de partida a história de "Branca de Neve" por via de duas fontes de inspiração principais: por via da versão do escritor Robert Walser, que carrega e adensa de forma poética toda a densidade psicológica do conto de fadas original; e o polémico filme de César Monteiro, em que a história se escutava nas vozes dos actores, num ecrã sempre branco, onde todas as possibilidades de imaginação se expandem.
Sergi Fäustino apresenta-se pela primeira vez ao público português, com uma peça de pesquisa sobre o corpo exausto e quais as alterações, no corpo e no ambiente e espaço circundante, que esse estado limite opera. "Estilo Internacional. Investigación alrededor de un cuerpo cansado" (sábado e domingo, 13 e 14, na Quinta do Taipal) é também uma co-produção do festival e resulta na apresentação do resultado da residência de criação realizada pelo artista em Montemor-o-Velho. Significa isto que consiste na partilha com o público de um momento de pesquisa de materiais, organizada formalmente como espectáculo, mas não se constitui como apresentação de uma peça terminada.
Ana Buitrago estreia "Apuntes mínimos" (13 e 14, sábado e domingo, às 22h30, Sala B) que, desde logo pelo título, indicia a intenção de trabalhar sobre o pormenor e a minúcia. Neste caso essa composição experimental é aplicada a uma pesquisa sobre o gesto e o movimento, com o desejo de os separar "da sua possível simbologia para emergir no corpo, na sua escritura como linha e ponto, como lugar de expansão em trânsito", segundo palavras da criadora e intérprete.