4.8.11

ANTEVISÃO: 2ª SEMANA

Texto de Cláudia Galhós

Fotografia de Bruno Simão

Esta é a semana das ligações perigosas. Juntam-se os artistas em parcerias explosivas cujo resultado é uma incógnita: "Measure it in inches" de e com António Pedro Lopes e Marianne Baillot, e dramaturgia e som de Rita Natálio (quinta e sexta, às 22h30, no Teatro Esther de Carvalho) e "Massacre" de e com Paulo Castro e John Romão (sábado e domingo, às 22h30, na sala B). É o prolongar da presença da criação contemporânea portuguesa, que marcou o primeiro bloco de apresentações no Citemor, deixando para a terceira semana - a final - a criação vinda de Espanha.

Marina Abramovic - artista visual e de performance americana de referência - dizia, a propósito do que devia ser o futuro dos museus, que desejava que estes fossem "espaços onde acontecem coisas, espaços plurais, de inquietude e tensão, mas também de gozo e prazer". A caracterização deste modo do lugar do museu define, em traços largos, o que deve ser o lugar da arte. A arte que se faz hoje e que age sobre a actualidade. Deve ser esse o lugar da arte, mais ainda quando esta tem uma natureza ao vivo, que transporta um sentido de partilha em tempo real, e se dissipa inevitavelmente em memória fugidia. É também um espaço de poesia. Inevitavelmente. A efémera poética do suspiro que se despede dos lábios no mesmo momento em que beija a vida.

Nos quatro dias deste final de semana de Agosto, o Citemor apresenta dois espectáculos que confirmam o Festival de Montemor-o-Velho como o lugar onde a arte acontece, como espaço plural, de inquietude e tensão, gozo e prazer. Sobre os espectáculos revela-se pouco. Serão experiências para serem vivenciadas por quem entende o acto artístico como interrupção do real, mas intimamente ligado ao real. São dois espectáculos co-produzidos pelo festival e estreados no festival. Não há adormecimento possível de sentidos em qualquer uma das duas opções, seja o "Massacre" - que reúne dois nomes de duas gerações do teatro português contemporâneo mais radical, pessoal, político, físico e provocativo, que são Paulo Castro e John Romão - seja a desconcertante e tumultuosa sessão de agradecimentos de "Measure it in inches" - que reúne, em colaboração, dois nomes da nova geração da dança contemporânea portuguesa, com personalidades muito distintas, em papéis também distintos: António Pedro Lopes, com uma voz muito singular e biográfica como criador e intérprete, juntamente com a francesa Marianne Baillot, e Rita Natálio que se situa entre a teoria e a prática artística, num olhar informado e fundamentado sobre o sentido e as possibilidades da arte hoje, que aqui assina a dramaturgia e o som.