26.7.11

DISCURSO DIRECTO | O fim da mentira (1ª parte) | Luís Alegre

Texto de Cláudia Galhós

Chama-se "Play Them" ao jogo de cumplicidade entre o cinema, a animação, as artes performativas e o real que o designer e artista contemporâneo Luís Alegre instala no Citemor. Num espaço de natureza mais expositiva colocam-se estratégias de engano em acção. Mas sem mentiras. À descarada. Será a ficção criada e assumida enquanto tal, neste caso por via do cinema de animação, a maior aproximação possível que temos do verdadeiro? A aparência mais artificial será a forma estética mais honesta de tocar o real? E nesse real tocamos o corpo humano.


"Play Them #2", que apresentas no Citemor, é uma segunda abordagem ao tema proposto no título. O primeiro aconteceu no ano passado, num cruzamento entre o desenho animado e o cinema, a performance e a imagem pré-filmada. Que projecto era esse?

"Play Them" foi uma exposição que pretendia reflectir sobre as questões da imagem e, nesse caso, as relações da imagem animada, do cinema, do corpo com o cinema, da imagem com o cinema... Pretendia também abordar a imagem cinética no sentido da sua actualidade, de que hoje as plataformas web nos estão sempre a veicular, mais os telemóveis com os vídeos vernaculares, em que alguém filma qualquer coisa e imediatamente envia... Digamos que a comunicação é muito feita com base em estruturas cinéticas. Por outro lado, visava pegar em imagens de sequências do cinema pelas imagens em si, umas mais conhecidas do que outras, sem ser relevante se é cinema de autor ou mainstream e nessa escolha incluir também sequências de vídeos vernaculares, virais. São assim incluídas imagens retiradas do "The Big Lebowski", dos irmãos Coen, de um vídeo de um jogador de basebol que consegue fazer uma habilidade espantosa, de pôr o taco a rodar e apanhar, e não importa que as pessoas não identifiquem de onde vem o quê. Implica reduzir o que seria a estrutura do filme e, ao mesmo tempo, operar uma deslocação da narrativa do que acontece nestes vídeos. Transformo sequências em vídeos destes, pequenos excertos que ganham autonomia sem qualquer tentativa de construir uma narrativa própria.


Essa deslocação e redução é apenas parte do processo de transformação porque não passas por fazer uma cópia decalcada para desenho das imagens dos vídeos. Há apropriação, certo?

Sim. Há apagamento de figuras que estão no original, por exemplo. Há uma síntese e uma apropriação que devolve uma certa liberdade e novidade, porque lhe altera o contexto mas também a plasticidade, a forma e os personagens.


Qual é o critério para a escolha das sequências a partir das quais trabalhas?

São momentos que me despertam a atenção por algum motivo. Pode ser pelo movimento obsessivo que contém. E faço-o utilizando um número de desenhos menor em comparação com os frames que eram precisos. Ou seja, havia ali um movimento obsessivo e eu consigo que a transformação permita reduzir a uma fracção muito menor de imagens mas cujo resultado é enfatizar ainda mais essa repetição e o sentido obsessivo dos movimentos. Como a imagem do beijo, em que resulta numa repetição obsessiva como se estivessem colados.


O título sugere uma intenção de jogo. Em que sentido?

Uma espécie de jogo de descoberta, mais em relação ao público, de que falava. Talvez por isso a escolha aconteça entre o vernacular e o erudito. Está ligado a uma ideia de as pessoas poderem descobrir, ou não, quem são as figuras que aparecem nas animações. O Super-Homem é reconhecível (em "Super-Super Man") mas o nome Jesus Quintana [que dá título à peça "Untitled (Jesus Quintana)", fazendo referência à personagem retirada de "The Big Lebowski" para aquele curto filme de animação] provavelmente não diz nada a muita gente. Em alguns dou pistas no título que atribuo. Noutros não. E pode ser de filmes ou de vídeos, mas podem ser retirados de um jogo... Há esse lado de descoberta do objecto que está por trás disto.


Tudo por via da animação, mas fora do seu circuito mainstream.

A animação também tem essa capacidade, de reduzir, de transpor ou transformar a imagem. Ela tem essa capacidade de transformar sempre em qualquer coisa que desconfiamos, que não é suposto ter acontecido e que faz parte da invenção...


Não nos ilude e não nos quer fazer crer que até pode ser real ao contrário do que acontece no cinema? Também usas isso?

É isso que me interessa quando mostro a habilidade, como é o caso do malabarismo do jogador com o taco de basebol, por exemplo. Na peça incluída no "Play Them #1", "Crazy-bat-swing", as pessoas ficam desconfiadas, acham que não é verdade, por causa da animação. Um dos pressupostos do cinema é permitir acreditar que é possível fazer coisas que na realidade são impossíveis. Para isso recorre a estruturas de 'motion capture', para pôr os personagens a fazer aquilo que não seria possível na realidade. Em termos técnicos uso uma técnica clássica, quase primordial, do cinema de animação, a rotoscopia, que significa desenhar sobre formas pré-existentes e que é uma espécie de visão maldita da animação. A animação também está habitualmente num registo que nem é as artes plásticas nem cinema. Situa-se num campo de divisão, ou por auto-exclusão ou por não aceitação dos outros. Há artistas que usam a animação e estão no universo das artes performativas, o caso mais evidente é o do William Kentridge, mas ao mesmo tempo não são reconhecidos como cinema de animação. Esse território dúbio também me interessa. Em termos plásticos interessa-me esse lado de dúvida: o objecto que estou a apresentar é um objecto do cinema? Da arte? Do desenho? Essa questão é uma espécie de fio condutor da minha obra: a multidisciplinariedade que transporta sempre a dúvida e por isso é difícil de enquadrar. É design. E agora, é artes plásticas?


E qual a diferença, e o específico, deste "Play Them #2"?

No que diz respeito àquilo que estou a fazer em resposta ao convite do Citemor, os pressupostos são os mesmos mas o contexto é diferente. Já tinha feito vídeos em que tinha partido do universo da dança, do filme "O Lamento da Imperatriz" da Pina Bausch. Para o Citemor desenvolvi quatro vídeos novos a partir do espectáculo que a coreógrafa Elena Córdoba apresentou na edição do ano passado. A ideia foi ir ao arquivo do Citemor e acabei por me centrar nela. Nestes vídeos interessa-me o sacrifício do corpo, que de algum modo associo à linguagem da Pina Bausch... É a ideia de sacrifício e de habilidade. Sempre me interessou essa habilidade que a arte exige. Ou o que um certo público de arte exige...


DISCURSO DIRECTO | O fim da mentira (2ª parte) | Luís Alegre