28.7.11

DISCURSO DIRECTO | Arte de cama (1ª parte) | António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes

Texto de Cláudia Galhós

Contra o 'chin scratcher' e a multimédia, António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes defendem a arte de colaboração, acção directa e coreografada. O elogio da partilha de intimidade, daí a cama, faz-se no universo do desenho digital, em composição instantânea, e improvisação musical numa abordagem singular e contemporânea ao gira-disquismo.


Fotografia de Susana Paiva


O convite do Citemor é uma carta branca, em que tu - António Jorge Gonçalves - convidas o músico Pedro Lopes para uma performance improvisada de música e desenho digital. Porque é que quiseste trabalhar com o Pedro?

António Jorge Gonçalves (AJG): Há uns meses, tive este encontro às escuras com o Pedro através da Granular, que tem esta iniciativa óptima de promover estes encontros às escuras. Acho interessante porque não temos muito a cultura disso. Ainda está muito entranhado em Portugal esta ideia de que precisamos de conforto para as colaborações, pelo menos no que conheço melhor. Tenho tentado quebrar isso no meu percurso. Quando vejo alguém que tem um trabalho interessante, abordo-os. Sei que há mais pessoas que também têm esta atitude, mas não é a cultura vigente. Funciona-se mais por tribo. E a Granular tem, de facto, esse lado fantástico. E dos encontros mais felizes que tive foi com o Pedro. Tenho trabalhado muito em colaborações numa área musical numa gama muito vasta. Algo que me faz um pouquinho de confusão na intervenção contemporânea musical é quando há um uso muito fechado do computador. Há um músico americano que atribuiu uma expressão maravilhosa: os chin scratchers.


Pedro Lopes (PL): São os que ficam a ver o email.


Isso significa o quê?

PL: Há muito essa cultura, que faz parte de uma espécie de 'inside joke' do mundo dos computadores, e que significa que não se passa nada com o músico, o que frustra o público que está à espera que algo aconteça em termos de performance por parte dos intervenientes. É muito difícil ver o chin scratcher, aquele que está só a coçar o queixo e a ver o email. O público realmente não vê o que se está a passar por detrás do computador.


AJG: É o oposto da abordagem do Pedro, que é muito mais analógica, de acção directa, que é de resto o que acho mais interessante. Embora tenha, há uns anos, começado a chamar desenho digital àquilo que faço, esse termo remete para uma palavra que felizmente está a cair em desuso, que é multimédia. Associo à multimédia um universo um pouco estranho, porque na realidade executo acções extremamente analógicas. Diria mesmo que o meu desenho de performance ao vivo é mais analógico do que o desenho feito em papel, que depois vai passar para o computador e que é executado para efeitos de impressão.


Em que sentido é mais analógico?

AJG: Porque é feito em acção directa. É coreográfico. Cada vez mais há um sentido musical e o sentido da coreografia da mão e coreografia do gesto no espaço onde o traço se está a inscrever. É isso que alimenta o fluido e a dinâmica da colaboração.


Estás a falar de improvisação?

AJG: É muito acerca disso. Quanto mais me entreguei a esta linguagem, nomeadamente a improvisação e composição espontânea, mais evidente se tornou para mim que o que é importante é o fluxo. No desenho, essa qualidade não é lógico nem evidente. Normalmente o fluxo no desenho que é construído tem como fim criar uma obra. Todo o processo é só isso. É só um lado processual que não é necessariamente visível na obra final. E a ênfase não está nisso. O que acontece é que no desenho, como faço em performance, não há um objecto final, a não ser a própria dinâmica do processo.


E de que forma é que a componente musical, pela tua intervenção, Pedro, intervém nessa partilha?

PL: A minha música também não é um produto final. Claro que pela sua própria natureza, a música nunca é estática, mas não a posso entregar a alguém já composta. Ou seja, realizo-a ao vivo, é composição in loco, e a fisicalidade vem daí.


De que forma essa composição ao vivo se concretiza na tua relação com os instrumentos e os materiais que usas, nomeadamente o gira-discos?

PL: Toco um gira-discos há uns anos e é esse objecto que identifico como meu instrumento. Mas aos poucos fui percebendo que o gira-discos não é mais do que um microfone, no sentido de que as agulhas são microfones. Nesse aspecto, uso objectos que outros músicos usam. Uso percussões que muitos percussionistas usam. Bombos, pequenas peles de timbalões, de tarolas... E uso isso em cima do gira-discos. Vou percutindo, vou capturando esse som mas que fica com uma natureza diferente, tal como o desenho digital tem uma natureza diferente aqui. Ou seja, estou a capturar com um objecto que não é exactamente um microfone. Portanto, já há uma transformação. Depois também uso vinyl que eu próprio gravei, por processos de low-fy, baixa fidelidade. Não são propriamente gravadores de fábrica, portanto também há uma transformação. Todas estas referências são abordadas também como materiais plásticos. Conforme vou observando o desenho, vou escolhendo os materiais e vou agindo.


Como é que activam essa interacção entre os dois?

AJG: Da experiência que tenho, desde que me juntei à Granular há dois anos, a sensação com que fiquei das pessoas com quem colaborei é que há estratégias construídas. Há pessoas que constroem filosofias acerca disso. Na minha maneira de ver a história da arte, acho que todo o conceptualismo deriva da prática. Não acredito em ideias impossíveis. O Kandinsky tanto andou a fazer ao contrário que demorou anos até conseguir pintar aquilo de que falava há mais de uma década antes, o que prova que não dá resultado. Acho que as pessoas quando já têm um discurso, como provavelmente eu tenho e o Pedro também, é um discurso que surge da necessidade de explicar derivado destas circunstâncias específicas. O que acontece, e é o que importa, é o encontro das pessoas com as suas sensibilidades e capacidades de diálogo. Eu já actuei com músicos que nem sequer olham para o que estou a fazer, não sentem necessidade, estão absorvidos nas suas coisas... Depois há o oposto, as pessoas que estão tão coladas ao que estou a fazer que quase só mostram musicalmente o que faço a cada passo... O que acontece tem que ver com esse diálogo. E quanto mais trabalho tivermos tido com outras pessoas melhor. Quanto mais cama tivermos tido antes do nosso rendez-vous...


Essa é uma expressão que usas muito.

AJG: É antiga. Trago-a dos tempos do trabalho com argumentistas da banda desenhada. Todo o processo de partilha de autoria é um processo de cama, extremamente íntimo. Expõe-nos nas nossas grandezas e nas nossas misérias. É um bocadinho como o princípio de qualquer desporto colectivo, essa ideia de que pode haver estratégias... Tínhamos estado a falar da necessidade de ter uma partitura ou estrutura gráfica a partir da qual poderíamos trabalhar. Mas seja como for, toda a riqueza desse encontro tem a ver com a natureza humana e a qualidade de performer das pessoas envolvidas. Para mim, não há mais nada a não ser a pessoa, independentemente do artista e do seu programa. Há pessoas com a maior criatividade do mundo que já vi serem um completo desastre em colaboração. E há pessoas que têm pouquíssimos recursos e são valiosíssimas em processos de colaboração...