6.7.11

Citemor 2011

texto de Cláudia Galhós

O teatro à procura do sentido do mundo num mundo em crise. Ou como o teatro se propõe acabar com a crise mundial, colocar o corpo em profunda relação com a mente e, através da poesia e da denúncia, retomar o espírito fraterno. Espanha e Portugal continuam em destaque na programação.

Sara Vaz em ensaio de "El lamento de Blancanieves" | Fotografia de Susana Paiva

Um programa cultural é, cada vez mais, um programa político. Uma inevitabilidade de que a arte não consegue escapar, nem mesmo quando se afirmava mais autoreferencial e pensava sobre si própria – nas vanguardas do princípio do século XX ou nas transgressoras décadas de 60 e 70 passadas. Nos últimos anos, essa condição tem-se afirmado cada vez mais de forma mais clara, quer se traduza num discurso poético ou surja declaradamente panfletária. E depois de todas as revoltas da imaginação, com as recusas dos academismos e das categorizações redutoras dos géneros artísticos estanques e fechados, o festival Citemor regressa em 2011 sob o rumor da crise e o hálito podre do aprofundamento das desigualdades sociais.
A maturidade dos seus 33 anos, permite-lhe colocar-se para além da discussão das linguagens que aqui se falam. Se é português ou espanhol pouco importa, as duas mantêm uma forte presença. Se é teatro, dança, artes plásticas, música, ou nenhuma das referidas em cima, menos ainda importa. Cada artista transporta uma visão pessoal do mundo. E isso é o mais relevante. Mas daí, desde logo, novamente, a inevitabilidade política. E mais do que um festival que privilegia a relação entre programadores e artistas, apostando nas residências de artistas em criação durante períodos alargados em Montemor-o-Velho – que também é e faz parte da sua identidade mais profunda –, o Citemor reafirma em 2011 a tendência dos últimos anos ao apresentar um conjunto de criadores que têm algo a dizer. E daqui emergem temas urgentes dos tempos que correm: pensar as formas do relacional; a ideia de corpo e imagem; o incorformismo e a denúncia; entre outros. Estas são algumas das linhas temáticas evidenciadas pelo programa de 2011 do Citemor.

As formas do relacional
«Não há sentido se o sentido não se partilha, e isto não porque haja uma significação, primeira ou última, que todos os seres humanos tenham em comum, mas sim porque o sentido mesmo é a participação do ser» (in «Ser singular plural» de Jean-Luc Nancy)

O Citemor, a cada novo ano, insiste em pôr em prática o dilema da arte contemporânea que permanece íntima da vida e distante do mercado fútil e de consumo rápido de massas. Ali, diluem-se fronteiras entre processos e produtos. Os espectáculos ali desenvolvidos respiram uma verdade da procura, nem sempre compatível com as normas regulamentares da eficácia do resultado dos objectos de consumo. O sistema de valores activado é de outra ordem: do simbólico ao transformador – nem que seja do olhar com que cada um vê o mundo. O tempo joga aqui um papel fundamental. Entende-se que na efemeridade inerente a esta experiência, deve-se investir no aprofundamento: de ideias, de interrogações e de relações. A imagem deste ano traduz esse tempo. A materialidade compacta do gelo, e os seus opostos, a sua transparência e o prenúncio do desaparecimento, lentamente. Mas também a ironia, por referências múltiplas que suscita, nomeadamente relativas ao Verão.
O festival caracteriza-se pelo investimento nas relações entre programadores/direcção/técnicos do Festival e artistas. É assim que, dentro desta lógica descrita, os nomes que surgem transportam consigo um historial significativo que os liga àquele projecto. É o caso do regresso do Teatro da Garagem, de Carlos J. Pessoa, e da espanhola Olga Mesa, por exemplo. Nomes que retornam com novas criações, exploradas em residência artística, co-produzidas pelo Citemor. O coreógrafo Francisco Camacho regressa também, dando continuidade a uma colaboração ininterrupta que já conta uma década. Com a nova peça que ali apresenta, «Lost Ride», traz Sílvia Real, bailarina e coreógrafa que também já passou por aqueles palcos. É curioso este pretexto de combinação de dois nomes de artistas, com tempos diferentes de relação com o festival, que em dupla ali regressam. É também o caso de John Romão, o encenador da nova geração do teatro contemporâneo português de autor, que faz parceria com Paulo Castro em «Massacre». Depois há os novos nomes no âmbito daquele programa: são os casos dos espanhóis Sergi Fäustino (com «Estilo Internacional. Investigación Alrededor de un Cuerpo Cansado») e Ana Buitrago (com «Apuntes Mínimos») e os portugueses Luís Alegre (com a instalação «Play Them #2»), António Pedro Lopes (com «Measure it in inches»), que convida a performer francesa Marianne Baillott, António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes (carta branca para performance improvisada entre o autor de banda desenhada e cartoonista e o músico, respectivamente).

Corpo e imagem
«Uma vez um homem estava a contar uma história, e era uma história muito boa, e isso fazia-o muito feliz, mas ele contou-a tão depressa que ninguém a entendeu» (in «Destruction of the Father / Construction of the Father», Louise Bourgeois)

E assim, com uma frase que faz parte de um livro de gravuras raro de Bourgeois, «He Disappeared into Complete Silence» (1947), se dissipa o dilema entre forma e conteúdo, com importância determinante para as duas. O corpo e o sentido que a forma da sua representação em palco constrói é um dos temas desta edição. Ele surge por via de criadores mais próximos da dança e da performance, como é o caso de Sergi Fäustino, Ana Buitrago ou Francisco Camacho e Sílvia Real, mas também nessas peças de linguagens artísticas aparentemente menos físicas, como é o caso da instalação de Luís Alegre ou a improvisação de música e imagem de António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes.
A abordagem ao corpo é diversa. Desde logo, quando ela é suscitada, de forma directa ou não, em propostas provenientes do campo das artes plásticas, do desenho, da animação e da música. O real possível do que acontece ao vivo, projectado num momento partilhado, que flui entre a materialização e o desaparecimento a cada gesto de uma forma de som e imagem são a matéria transparente do encontro entre António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes.
Luís Alegre evoca a experiência do imaginário fabuloso de filmes como «Avatar» ou «Matrix», com recurso a processos elaborados de manipulação artificial da animação e do real para introduzir a questão que explora na instalação «Play Them #2»: «Tendo em conta o carácter híbrido inerente às diversas formas de representação do movimento, esta instalação reúne um conjunto de trabalhos de desenho que, através da animação, especulam, entre outros assuntos, o facto de a animação e o desenho estarem constantemente a negociar o seu lugar entre o real e o fantástico no sentido em que essa relação é fundamental para a nossa experiência e, sobretudo, a nossa experiência do corpo animado».
Na linha mais performativa, o coreógrafo Francisco Camacho, em colaboração com Sílvia Real, que interpreta, regressa em «Lost Ride» ao paradoxo irresolúvel entre o real e o artificial. E a experiência de figuras humanas confrontadas com um ambiente que as constrange e as dilacera. Questiona dualidades como sentir e exprimir ou estar e habitar talvez para acabar com elas. Mas sempre mergulhado numa permanente angústia.
Sergi Fäustino e Ana Buitrago questionam os limites do corpo. Ele investiga o corpo cansado, passando por provas auto-impostas que o conduzam, ou não, «para outra fisicalidade». Ana Buitrago fala do lugar do corpo, a par de um lugar do olhar, da atenção. «Colocar, assim, o corpo nesse limite de onde vem o corpo relacional, vinculado, em entre-corpos».
Olga Mesa regressa com «El Lamento de Blancanieves» à pesquisa sobre a vivência do olhar perante o que lhe é dado a ver. Voltam as câmaras e o jogo do corpo do intérprete que sendo aquele que é visto pelo espectador assume também o papel de observador. Inspirada na versão de «Branca de Neve» do escritor suíço Robert Walser e o polémico filme do português João César Monteiro, a criadora espanhola acrescenta uma camada à estrutura simbólica, coreográfica e filosófica ao seu universo poético: agora, as intérpretes (Olga Mesa partilha o palco com Sara Vaz) são também as produtoras e intermediárias conscientes da imagem que o corpo constrói e transmite. Elas não agem apenas, mas também são as portadoras das câmaras que reproduzem em movimento, como próteses do corpo, o que cada uma vê. Ou seja, o que a outra faz.

Inconformismo e denúncia

«A arte não deve ser tranquilizadora», Rodrigo García

«Um choque Moral» é o que propõe o Teatro da Garagem. De forma mais radical, John Romão e Paulo Castro apresentam-se como «dupla explosiva». Ambos, de modo opostos, procuram iluminar a realidade disfarçada pela aparência. No primeiro, o Teatro da Garagem com a peça «Sede», o teatro serve de matéria de questionamento do real, numa pesquisa poética do texto homónimo de Eugene O’Neill. Em residência em Montemor-o-Velho, pesquisam a essência cruel que habita as palavras do dramaturgo norte-americano. Fazem-no através de um posicionamento claramente político, por via de uma «peça violenta em que personagens sem remissão, à deriva num mar infestado de tubarões, exprimem, no seu exemplo trágico, a necessidade de remissão ou, pelo menos, de retomar um espírito fraterno urgente». É Carlos J. Pessoa, encenador e director da companhia, o autor destas palavras. E das seguintes: «Julgo, como cidadão e artista, que há uma miséria bem mais funda que os bolsos vazios que é essa de ficar calado, de, mesquinhamente, não olhar o próximo, de rejeitar o face-a-face, a responsabilidade de dizer, face-a-face, ao que vimos e o que nos propomos fazer».
Para John Romão e Paulo Castro não há contemplações nem estratégias teatrais para suavizar o impacto da mensagem. Partilham, embora cada um a seu modo, uma forma de fazer teatro muito directa ao assunto. A peça que apresentam tem o título de «Massacre» e, com as devidas ressalvas, é disso que se trata. Ou não fosse uma das grandes influências teatrais de Romão, o encenador espanhol Rodrigo García.
O contexto é o de um mundo onde o dinheiro surge «como forma de comprar a dignidade humana e de fazer esquecer os massacres». Timor Leste e China são exemplos citados. «Massacre» é sobre «a imbecilidade que se estabelece entre dois intérpretes que trabalham com as armas do grotesco e do sarcasmo, com o texto e as acções que decorrem em cena». Prometem tratar assuntos perigosos: «resolver as crises mundiais, o caos económico actual e, claro, os problemas de Timor Leste».
No final, o festival faz-se dessa característica de ser relacional. Entre artistas e programadores, entre a arte e o real, entre diferentes linguagens artísticas, entre diálogos a partir de vozes e culturas distintas. E talvez, se não se resolverem crises mundiais e o caos económico actual, que o Teatro, assim com letra grande, significando essa forma artística reconhecida enquanto tal mas que pode passar pela dança, artes performativas etc... possa cumprir o que Carlos J. Pessoa deseja para a peça que apresenta, «Sede»: «Que o teatro possa servir esse desígnio de acção fraterna, sempre inacabada, sempre imperfeita, sempre em esforço de reconhecimento».