28.7.11

ANTEVISÃO: 1ª SEMANA | O Citemor já derrete

Texto de Cláudia Galhós

I'm always behind you#02 | Luís Alegre


"Não sou do teatro. Sou do cinema de animação, do design e dos jogos de computador". Em paisagem nocturna, escuta-se a voz de um dos actores de "Sede Remix", a nova peça que o Teatro da Garagem criou em residência de duas semanas no Castelo de Montemor-o-Velho, a partir da peça homónima de Eugene O'Neill.

Este ano o teatro volta a instalar-se por entre a maravilha do enquadramento amuralhado, depois de alguns anos de ausência daquele cenário. Durante dois dias (sexta, 29, e sábado, 30), o elenco de treze actores desdobra-se numa linguagem contemporânea que combina teatro, dança, vídeo, projecção em tempo real, texto dramático e um jogo de malabarismo entre a representação e a rebeldia do actor que recusa manter-se refém da narrativa, numa aparente improvisação que apenas adensa o paradoxo entre o real e a ficção. No teatro de Carlos J. Pessoa fala-se da vida e fala-se do teatro. E no dilema existencial e vertiginoso que vivem as personagens de "Sede Remix" faz-se crítica à sociedade, onde parece não haver outro horizonte de futuro que não seja um trabalho de caixa de supermercado. Onde fica então o design e o cinema de animação?
É significativo e relevante dos tempos que vivemos que a abertura do festival se faça na aposta nestas linguagens, abordadas com um sentido mais complexo, que escapa ao facilitismo mastigável da indústria das imagens, e portanto mais autoral, experimental e artístico. Temos então a instalação de Luís Alegre, de cinema de animação ("Play Them #2", de 28 de Julho a 14 de Agosto, no espaço Alcáçova) que revisita o património efémero e muito recente da história da performance, a partir do registo em vídeo de um espectáculo da coreógrafa espanhola Elena Córdoba, no festival Citemor de 2010, ou do imaginário de Pina Bausch, por exemplo. No Teatro Esther de Carvalho, às 22h30, há performance improvisada de diálogo entre o desenho digital e a música, criados em tempo real, de António Jorge Gonçalves e Pedro Lopes.O primeiro fim-de-semana do Citemor, termina com uma versão ao ar livre, no Castelo, de "Lost Ride", coreografia de Francisco Camacho para interpretação de Sílvia Real, que marca o reencontro entre estes dois nomes da primeira geração da Nova Dança Portuguesa.