7.8.10

CRÓNICA | ‘Intelectuais’ do sound byte

texto de João Manuel de Oliveira


fotografia de Susana Paiva

Montemor o Velho, 3 da tarde. Uma reflexão surge sempre a partir de um lugar, de uma experiência, de um espaço. Desmascarar uma experiência de universalidade a partir de uma marca assente no contexto, elucida-nos sobre o modo como o pensamento se constrói como uma praxis social. Ora, escrevo este texto a partir de um contexto, unidade fundamental para perceber as condições de existência e de emergência dos discursos.
Uma reflexão a partir deste ponto privilegiado, onde práticas artísticas se inscrevem num espaço marcado pela periferia face aos grandes centros de produção e irradiação cultural implica para lá da constatação geográfica, um questionamento político dos modos como se pode fazer chegar a criação e a produção cultural contemporânea às cidadãs e cidadãos.
Ao contrário de determinados 'intelectuais' do sound byte que pululam nos media cada vez mais marcados pela rapidez na transmissão da informação e subsequentemente pela ausência de uma reflexão crítica sobre os sound bytes produzidos, tenciono neste texto explicitar as razões pelas quais os investimentos de estado na cultura e na criação contemporânea são cada vez mais insuficientes. Por essa penúria crónica do sector cultural, priva-se o país de um desenvolvimento que seria necessário para romper com uma tradição de exílio cultural imposto pelo fascismo, mas também pela falta crónica de apoios até ao consulado Carrilho no primeiro governo de António Guterres. Esse exílio cultural em Portugal ao manter a população num condição de constante ignorância também foi concomitante com a inoperância do sector educativo em integrar a contemporaneidade cultural nos curricula. Para além do contributo para mediocridade generalizada que os media em muitas situações não só compactuam, como promovem.
Na chamada sociedade do conhecimento, a cultura deveria constituir-se como um lugar incontornável de exploração, de apreensão de diferentes inteligibilidades sobre o mundo e de fruição artística. Um lugar que oferece a possibilidade de nos repensarmos, fomentando competências consideradas fundamentais para esta economia do conhecimento supostamente alicerçada na capacidade cognitiva de adaptação.
Sem a auto-reflexividade trazida por estas práticas artísticas, diminui substancialmente o desenvolvimento social das populações privando-as assim de recursos fundamentais. Tal constitui, a meu ver, uma condição para a criação de uma população marcada por uma imbecilidade ideológica de antigos futebóis, fátimas e fadinhos, incapaz de se posicionar criticamente face aos constantes sound bytes arremessados por media cada vez mais alinhados ideologicamente com um regime de verdade marcado pela primazia da crise face a outras preocupações éticas e políticas e cada vez mais marcados por um acantonamento político da opinião pública à direita.
Ler 'intelectuais' do sound byte a proferirem declarações sobre o modo como a cultura é uma prática de elite corresponde a uma posição de classe que tenta mostrar a inutilidade da cultura contemporânea sem sequer a conhecer. É ignorar completamente a história de um país da semi-periferia do império, marcado pelo atraso crónico, que outros tantos da mesma cepa ‘intelectual’ usam para se diferenciarem positivamente do comum dos mortais e sobretudo consiste em privar as populações do acesso democrático a bens culturais que lhes deviam pertencer por direito. Convido-os a virem ao Citemor, a verem uma população envolvida activamente num festival com anos de tradição na criação contemporânea em vez de lamentarem que na cultura se gaste a fabulosa quantia equivalente a 2 kms de auto-estrada, privando assim as populações de conhecer o trabalho de criadores outros, lesando o desenvolvimento de mais criação contemporânea e de condenarem as artes em Portugal a uma fraca internacionalização, que seria facilmente colmatada com maior investimento público, dado o interesse estrangeiro nestes trabalhos.
Numa altura de crise, o país precisa urgentemente de preservar o seu desenvolvimento que é a condição de desenvolvimento das populações e de sair do patamar acrítico e imbecilizante que a economia do sound byte a colocou. Para mim, a melhor maneira de o fazer seria fazer-nos sair desta condição, investindo no desenvolvimento intelectual da população, pelas várias vias possíveis, educacional, formativa e através da exposição a criação, ela bem mais estimulante e interessante do que as imprecações tradicionais vindas de quem se coloca na posição artificial de sem sequer conhecer presumir a irrelevância e o gasto público de dinheiro dos contribuintes, dando-se ao luxo de continuar o exílio cultural a que temos sido votados por esta falta de dinheiro crónico e a fingir-se amigo do povo, que necessita de ser mantido ignorante a todo o custo, para poder ser mais bem mandado.

(João Manuel de Oliveira publicará regularmente em http://citemor.blogspot.com/ durante os próximos meses)