15.8.10

DISCURSO DIRECTO | Pedro Mira

Teatro esculpido na areia
texto de Cláudia Galhós


fotografia de Susana Paiva

Em cena, no espectáculo «Morro como País», do Colectivo 84, de John Romão, há um carro em tamanho real, esculpido em areia. Ao fundo, em cima de uma mesa, pequenas esculturas de edifícios constroem um imaginário onde a cidade se reproduz num desconcertante e cruel encontro entre um certo real e um sonho de infância. Pedro Mira é o autor destas obras, é o escultor de areia. É todo um outro mundo de possibilidades na relação entre o corpo e a matéria para a criação de uma obra que vive muito do processo de composição – como um acto performativo - e em que grande parte do seu valor está na efemeridade. Tudo será destruído em pouco tempo. O que ficam são apenas memórias e alguns registos documentais. É um outro modo de olhar para a escultura de areia, mais habitual em contextos de grandes aparatos turísticos e reproduções de espanto para encher o olho.

Como é que a escultura de areia surgiu no teu percurso?

Interessei-me por escultura muito cedo. Estudei Belas Artes em Lisboa. No final da licenciatura aconteceu-me o mesmo que acontece a muitos dos que se formam em escultura: não há trabalho. Dei aulas, fiz um bocadinho de tudo. Tenho curso de fotografia e comecei a trabalhar com ourivesaria. Na ourivesaria fiz um trabalho figurativo. É muito complicado viver da arte e na escultura sem ser por via da criação de algo concreto. Mas sempre quis fazer escultura, não quis ser professor e fui fazendo escultura nos tempos livres e tive de encontrar uma maneira de fazer escultura e ganhar dinheiro com isso. Logo comecei a fazer uma escultura mais comercial, a trabalhar em ourivesaria e fui viver para o Alentejo, onde fazia as minhas esculturas e estava em constante viagem a Lisboa. A escultura de areia apareceu a meio do percurso. Há poucos anos, no meio de mais uma crise profissional em que não tinha trabalho, fui à procura e lembrei-me, por acaso, que havia o Festival do Algarve de esculturas de areia, o único grande festival que existe em Portugal. Fui contratado como ajudante porque não era escultor, mas passados alguns dias já estava a fazer a cena principal de uma reprodução de A Última Ceia.

Foi o suficiente para despertar um interesse artístico ou era um meio de subsistência?

Sempre fiz esculturas na praia, desde que me lembro e quem gosta de esculturas faz mais, naturalmente, do que as outras pessoas. Profissionalmente começou realmente como uma necessidade, mas apaixonei-me rapidamente. Não sabia que era possível fazer estas coisas em areia.

O que é que te despertou maior interesse nesta matéria para esculpir? Ou seja, podermos vê-la para além da exploração mais folclórica e turística habitual da escultura de areia?

A escultura de areia é folclore, no sentido de que é uma arte muito popular, para agradar às massas, para ser lucrativo, para vender bilhetes para a entrada no parque temático, etc… No estrangeiro fazem concursos financiados pelo Ministério da Cultura e das Câmaras Municipais. É uma coisa muito popular. A maior parte das vezes não é arte contemporânea. E acaba por ficar reduzida a esta associação mais imediata… No entanto, a areia enquanto material pode ser como um outro qualquer material na escultura. Ninguém diz, ‘sou escultor de ferro‘ ou ‘sou escultor de pedra‘… E as pessoas não perguntam: como é que começou a ser escultor de pedra? Perguntam: como é que começou a ser escultor? Por acaso trabalha a pedra. Na areia é-se sempre escultor de areia. E logo isso faz diferença. E de facto também na escultura em pedra, em metal ou bronze existe a abordagem como arte popular neste sentido de que falamos… Se bem que a areia pode ser espectacular, pode ter muito impacto pela dimensão, e tem sempre o lado de propor o olhar para o virtuosismo da coisa. A surpresa perante a capacidade de fazer certo tipo de esculturas na areia…

Mas a ti o que é que te interessa?

A mim interessa-me particularmente o gozo de fazer. Um dos maiores prazeres da minha vida é o trabalho que tenho. Não o trabalho como conceito e sim a relação física e psicológica com o material, é algo que vem de dentro. E a areia é um material fantástico. Em termos plásticos, consegue-se fazer tudo o que se queira em areia, é muito expressivo.

Mas acaba por ser contraditório com a ideia mais convencional de escultura, que associamos a algo que perdura, enquanto no caso da areia há a efemeridade, tal como as artes performativas. Algo que se constrói, ganha corpo e destrói-se…

É o interesse da efemeridade, de construir alguma coisa que à partida não vai resistir. Que ao fim de um mês ou algo parecido vai ser destruído, mas o que marca mais isso é uma questão técnica, tem de ser construído de modo a que dure pelo menos uma semana. Tecnicamente, para quem trabalha com uma parte física, com as mãos, é muito interessante. Estamos sempre a esculpir e a pensar em factores físicos, como a gravidade e a força física da aglomeração da água com a areia. Os factores físicos condicionam a forma, mas isso acontece com a maior parte das esculturas, seja em metal, madeira ou pedra.

Considerando tudo isso, há algum subgénero dentro das esculturas de areia com que te identifiques mais e que te defina artisticamente?

Tenho uma paixão enorme pelo figurativo, o que não é o caso desta peça que fiz para o espectáculo. A anatomia humana… Na escultura em areia somos muitas vezes confrontados com essa solicitação, pedem-nos muito…

O que significa para ti este encontro com o espectáculo, esta possibilidade de encontrares um novo contexto para enquadrares as tuas esculturas?

Tenho uma ideia muito formada de querer fazer mais com as esculturas de areia do que o que é possível neste circuito que existe e do qual já falámos. Há alguns que não são tão comerciais, quando há concursos em que não definem o que temos de construir e permitem uma maior liberdade autoral, em que podemos escolher a nossa peça. Gostava de poder vir a pensar as esculturas de areia de uma outra maneira, talvez dentro de uma galeria, que acho que nunca aconteceu... Enquadrá-la num espaço artístico, num centro cultural, retirá-lo desse vínculo comercial e situá-lo na arte.

Qual foi a peça mais desafiante que fizeste?

Tinha de me lembrar de todas as peças que já fiz… No primeiro ano em que comecei a trabalhar com areia fiz uma escultura muito interessante. Fui convidado a ir para a China por uma empresa holandesa, e quando lá cheguei vi-me deparado com uma tarefa impressionante. Fazer um Gulliver com uma colega. Tinha 21 metros de comprimento e 21 metros de largura, e tínhamos 6 dias para o fazer. Esse foi um desafio técnico e físico. Há um aspecto na escultura de areia que é interessante, que é aliar a parte intelectual à parte física. Para se fazer uma escultura de areia é preciso ter uma grande preparação física… É um trabalho muito pesado, duro…

E não é preciso recorrer a outros materiais para a escultura durar mais tempo? Chegam a ter de durar um Verão inteiro, principalmente nesses parques temáticos…

Para construir só usamos areia e água. É isso que faz a magia da escultura de areia. Há quem misture resina para tornar o material permanente, como na China e nos Estados Unidos. Mas perde a magia da escultura de areia. Normalmente compactamo-la para ficar mais sólida e durar mais tempo. E quando está no exterior fazemos um revestimento impermeável para não destruir tanto.