21.7.10

RETRATOS SEM ROSTO


fotografia por Susana Paiva


No meio de uma desordem sem ordem...ERRO. Esquece...no meio de um abandono...esquece. Indagar-te. Esquecer-te. Vejo a tua cara a meias. Ocultas-me. Ocultas-te. Perdeste o teu rosto. Esqueces-te. Esqueces-te dele. Um simples rosto em desfigura...procuro-lhe...atentamente... ERRO...voltar ao início...no meio duma ordem sem desordem ...esqueces-te de ti...abandonaste o teu rosto...esquece. ERRO. Perdeste-me. Desfias a tua cara...fragmentas as palavras...distorces o vermelho dos teus lábios...indagas nos teus olhos...esqueci-me...ERRO...voltar ao fim...
Como me tornarei fim. Perdias-te. Sem me tornar louco. Esquece. Perco-me num espaço minúsculo. Perco-me no quarto...na casa de banho...Perdia-te. Na cozinha, na memória, na rotina, na vida, na cidade, na alma, no teu corpo...perco-me na cama...esquece. Num espaço tão minúsculo como a tua cama. Perdeste. ERRO...fuzilar. Abandono a ordem para te procurar. Abandono-me modelando a tua cara nos meus pesadelos. ERRO. Sonhos. Vês a metade da minha cara. Vês como sinto o meu rosto por baixo dos fios que o fazem mexer...vês que te perdes. Ocultas que te esqueces. ERRO. Vês que te esqueceste de mim. ERRO. De ti.
1, 2...não sei onde ficaste...nunca voltei a encontrar o teu rosto...nem a tua cabeça perdida...nunca soube dos teus olhos...nem da tua forma de olhar para mim...esqueci-me. ERRO. Esqueceram-se de nos dizer. Esqueceram todos de que tu pertencias à minha memória. Formavas parte da minha cara...ERRO da minha vida. 1, 2, 3....Espera, espera... na cara não... ERRO... Voltar ao fim...
Como voltarei ao fim. Perdias-me e tornavas-te louco. Esquece. Perdia-te num espaço minúsculo. Até chegar ao fim...lembro-me de estar de pé a pensar em ti e ouvir o som do “destempo”, uma contagem decrescente que acelerava na minha cabeça. Esqueci-me. ERRO. Lembro-me do tempo em que fuzilar era uma contagem. ERRO...fuzilar era a paragem...ERRO. Esquece. Voltar ao início...
E a minha filha disse-lhe...”ya vuelvo que me voy a hacer de puta...”ERRO. Não diz nada. Um rosto que nunca vi...um rosto como o meu...sei que és alto. Fuzilar...esquece...voltar ao fim. ERRO.


Susana Vidal
Julho 2010