7.8.09

DISCURSO DIRECTO | Francisco Camacho e Vera Mota

PRESENÇA DESCLASSIFICADA

fotografia de Susana Paiva

Em Abril passado, Francisco Camacho e Vera Mota faziam um ensaio corrido da primeira peça que criavam juntos, no estúdio da Eira, em Lisboa. «im-» estreava nesse mês, no festival da Fábrica no Porto. A conversa que aconteceu então discutia ideias ainda em desenvolvimento, que à vista da nova fase da peça, inaugurada esta semana no festival Citemor, revela o desenvolvimento e a ultrapassagem de algumas das questões suscitadas nesse ensaio. A antecipar a nova entrevista, que actualizará o olhar sobre a obra e o trabalho dos dois criadores, fica o documento de memória dessa primeira conversa.


Que afinidades levou a que tenham querido trabalhar juntos?

Vera: Foi amor à primeira vista (risos). Eu já conhecia o Francisco há muito tempo, como espectadora do trabalho dele, mas às tantas fiz o curso do Forum Dança no Porto, onde ele era um dos professores e foi lá que o conheci.

Francisco: Estivemos umas cinco semanas em contacto, que foi o tempo do curso. Nesse período a Vera desenvolveu vários trabalhos, incluindo uma performance. Ela continuou a trabalhar nessa peça, eu ainda a acompanhei um bocado, e de alguma maneira esse trabalho acabou por nos ligar.

Mas o que é que vos interessou no trabalho um do outro?

Vera: Lembro-me que quando comecei a ver espectáculos, o Francisco era uma das minhas referências. Depois, a forma como chegámos até isto foi o facto de acharmos que tínhamos algumas afinidades em termos de ideias...

Francisco: Nomeadamente, e foi uma das coisas que trabalhámos no curso, foi a questão da presença. Que ecoa aqui. Eu estava na fase do meu trabalho de criação do «Live/Evil», a que se seguiu o «Coup d'Etat». Interessava-me pesquisar um outro tipo de olhar sobre o corpo, o trabalho do corpo é muito assente nessa presença, como se sustenta a cena a partir da presença. No caso da Vera talvez o facto de haver uma forte consciência desse aspecto da presença, até pelo seu trabalho de artista plástica e também por trabalhar com fotografia e outros media, isso é muito relevante. E foi uma das coisas que me interessaram. Claro que depois entrámos numa questão pessoal, que é a afinidade com um certo tipo de presença, de estar, de olhar.

Vera: O meu trabalho também tem muito essa componente performativa, mesmo quando faço vídeo utilizo muito o meu corpo e muito a noção do corpo presente, mesmo que ele não apareça. Para mim faz todo o sentido fazer essa investigação que se estende até ao movimento e até à performance.

Desde o trabalho do «Live/Evil» que noto que as tuas peças, Francisco, são muito sustentadas pelo chão, não de o corpo se atirar para o chão, mas de tudo o que decorre e se coloca no chão. É um movimento no chão ou no subsolo, que é dado pela utilização de um certo tipo de materiais que aparecem muito, tecidos... Identificas esta ligação?

Francisco: É intencional no sentido de eu sentir que podia ir mais longe nisso. Mas é uma confluência de interesses. Porque houve uma altura em que retomámos o trabalho, porque tivemos vários períodos de encontros e informações anteriores ficaram pelo caminho e surgiram novas. E nas novas surgiu uma preocupação da Vera, com questões que ela andou a aprofundar no trabalho e relacionadas com a pesquisa académica dela.

Vera: O primeiro encontro foi para aí há 3 anos. Entretanto fizemos um grande intervalo porque o Franscisco estava com o «Blessed», da Meg Stuart, eu estava com o meu mestrado. Durante esse período, desenvolvi a tese de mestrado cujo tema andava novamente à volta do corpo.


fotografia de Susana Paiva


Em que sentido?

Vera: De algum modo como contornar a evidência constante e o confronto constante com imagens do corpo. Então, quando nos encontrámos havia uma série de ideias que tinham ficado para trás, e eu vinha com muitas ideias muito frescas, que era essa questão de como diminuir essa evidência, essa presença quase gratuita do corpo. E na altura vinha com conceitos como informe, como a ideia de mimetismo, de imobilidade, discutindo e acertando ideias com o Francisco. Aquilo que eu vim propor vem de encontro ao que disseste, essa ideia do informe remetia-nos muito para esta ideia de horizontalidade, o próprio material do cenário, que é uma cor neutra, algo que fica entre qualquer coisa... O trabalho foi muito em torno de como reduzir essa presença do corpo. Como por defeito chegar a uma presença mais intensa. Ou como esvaziar de tal forma que só restasse essa carcaça, de não estar a fazer nada. Pensámos sempre muito nessa ideia de desclassificar a presença.

E o que significa isso de desclassificar a presença?

Vera: Obviamente que nesse processo de desclassificar uma coisa há muitas outras questões que vão surgir. Esta noção de desclassificar tem a ver com este conceito de informe e que passa por reduzir uma coisa ao seu estado. Bataille, que sempre falou deste conceito, referia-se à palavra informe como uma coisa que é informe não apenas no seu aspecto, na sua aparência, mas como algo que em determinadas circunstâncias sofre uma transformação em que adquire uma qualidade que não é a sua. Neste caso, quer pela ideia de imobilidade, quer pela de horizontalidade, que é uma condição não associada à ideia de construção, de ideia de ser sublimado que é o homem, que atinge uma horizontalidade por oposição aos seus menores, os animais. Todas estas operações deveriam ser formas de desclassificar esta presença. Claro que não há aqui originalidade nenhuma em aparecer um corpo parado. As pessoas trabalham há muitos anos com a imobilidade em cena. Mas novamente quisemos usar essa ideia de não fazer nada. E depois também usamos a personagem do Bartleby, do Melville.

Que surge relacionado com essa ideia de possibilidade de não fazer nada?

Vera: Tem a ver com essa possibilidade de ocupar o tempo sem fazer nada. Daí também estar nesta cena sem fazer nada. E também consideramos o Bartleby por ser uma personagem que se vai desclassificando ao longo da sua história.

Eu vi uma eminência constante da queda, do corpo em queda, em desequilíbrio, que é uma imagem que conheço da dança contemporânea, mas que surge aqui como iminência mas não concretização. E com uma noção temporal totalmente distinta. É a presença da ameaça constante da possibilidade da catástrofe. Que se pressente a partir de uma perturbação interior, que permanece em contenção.

Francisco: Para mim está lá. Mas não foi decidida em comum, essa iminência da catástrofe.

Vera: Estamos numa situação-limite, desde a introdução. Não há indícios de construções, de algo que remeta para uma civilização ou um enquadramento mais seguro, construído.

Eu vi o espaço inicial como um deserto...

Francisco: Houve quem tenha visto um espaço lunar. Mas o que queremos é deixar em aberto. E a aposta na opção duracional da cena é permitir que possam existir essas projecções e sejam suscitadas ideias e possibilidades de leituras, como o meu corpo lá de baixo também está em metamorfose mais evidente que o dela.

É uma oposição, entre essa forma escondida debaixo do solo, que não identificamos o que seja e se vai ampliando, e o corpo humano, visível, que se vai recolhendo e reduzindo. Mas há um oposto também entre esse momento e a fantasia das figuras azuis, que parecem marionetas, por causa da qualidade do movimento.

Vera: Há uma ideia que atravessa todo o espectáculo que é o facto de estarmos sempre os dois presentes e nunca haver um diálogo. Este momento, para além de criarmos figuras que pela sua estranheza se distinguem ou teriam sido desclassificadas ou tornadas outra coisa que não aquilo que ele e eu somos, mesmo dentro de cena, havia essa ideia de estando tão próximos continuarmos com um contacto de distância.

Francisco: Em que não nos encontramos. Em que não é fusão e o embate do toque é ocupar o espaço um do outro, sem conseguir partilhar o espaço.

Vera: Uma dependência mas uma repulsa, de realmente não haver comunicação nenhuma, de ser mais um elemento com o qual tenho de lidar, tenho de gerir, mas que continuo a não conhecer ou a não estabelecer comunicação.

Francisco: Quanto ao lado marionético do movimento...

Vera: Também há aquela questão...

Francisco: Qual? (risos)

Vera: A questão técnica.

Francisco: A questão técnica...?

Vera: De adaptação ao espaço, e ainda faltar definir...

Francisco: Mas já estava lá. Quando estamos envolvidos numa acção, e isso era mais evidente antes de termos o espaço, em que o olhar está completamente desligado dessa acção.

fotografia de Susana Paiva


O olhar é um elemento fundamental deste trabalho. É fortemente marcante na primeira parte e torna-se marcante pela sua ausência na segunda.

Francisco: Tinha medo que não resistisse porque isso foi um factor importante para a sua construção. E a primeira vez que vestimos os fatos perdemos aquilo, mas depois fomos pelo lado do movimento e funciona.

Nesta organização em três partes, há um sentido de solidão que se acentua na terceira...

Francisco: Estávamos muito com a ideia de trabalhar a impossibilidade, e há uma consciência e uma insatisfação com aquilo e uma ideia de começar de novo. E aí ligamos ao Bartleby, quando tomas uma decisão estás a anular uma série de outras possibilidades. E então aquele fim é quase como um recomeço, que é esse recorrente voltar ao zero.

Vera: Para mim, faz parte de um sentido de desenvolvimento da peça. Há uma primeira parte que parece de aceitação de que não há nada. Depois dessa contenção, e mesmo depois de algum excesso que aparece dessa segunda parte, permanece uma atmosfera fria. Não há nada que expresse os sentimentos. E para mim, essa última parte, ainda dentro desse a-sentimento, há um bocado um recuperar algum sentimento, alguma emoção, desses rasgos, que são muito rapidamente abandonados. E mesmo a escolha das músicas – que nesta altura ainda não eram definitivas – também têm a ver com isso, com um imaginário colectivo, que nos remete para memórias e são músicas carregadas de emoção. E depois a nossa presença na parte constrastante permite deixar-se afectar, reagir em concordância um com o outro.

Mas permanece uma impressão de solidão imensa.

Vera: O encontro continua impossível.

Cláudia Galhós