10.8.09

CRÓNICA | Meta im- ou in im-?

fotografia de Susana Paiva

“acts, gestures, desires produce the effect of an internal core or substance, but produce this on the surface of the body, through the play of signifying absences that suggest, but never reveal the organizing principle of identity as a cause.”
Judith Butler, “Gender Trouble”


A persistência das velhas crenças na objectividade, neutralidade e isenção, credo partilhado pela ciência positivista, originou um mal estar nas possibilidades de interpretação marcadas pela presença, parcialidade e participação. A externalidade do olhar é ligada, para Donna Haraway, ao olhar de “deus”, uma mítica qualidade estranhamente partilhada por cientistas e crentes, em que se assume ser possível um ponto de observação num plano distanciado (de cima para baixo, na metáfora), não implicado e em que se assume que o discurso corresponde a uma descrição da “realidade” implícita nesse contexto.
Não creio que um olhar externo possa localizar um objecto. Inversamente, acho que uma política da localização enuncia e contextualiza o modo como o objecto é construído (e não apenas como ele é apresentado). Em im- (um prefixo de negação), desenvolvi, no processo de criação, uma consultoria que habitualmente faço nos trabalhos da EIRA. Este texto visa reflectir essa experiência, num movimento de dentro para fora, assumindo o privilégio epistemológico da perspectiva parcial e situada.
Esta proposta foi construída a partir de um processo de cruzamento entre dois artistas (Vera Mota e Francisco Camacho) e traduz um espanto comum face à possibilidade de não-relação apesar da simultaneidade da presença. Assim, a peça implica-se nas possibilidades da não-inscrição dos acontecimentos nos corpos, de que a primeira cena é exemplar. A marca psicanalítica é evidente na presença oculta de um “isso” (id) que se faz sentir, mas que não se revela nem denuncia a sua face. Apesar desse jogo, em que imagens presentes mas ocultas se contrapõem ao rosto aberto, parece-me haver igualmente uma dificuldade em chegar à linguagem, em separar-se de uma possível mãe (uma particularmente fetal, interior e obstrusiva, que entra no real falogocêntrico). É como se o sujeito não quisesse chegar a essa condição, mantendo-se num plano de recusa de fronteiras entre si e o mundo. Para Kristeva, a má relação com o abjecto ocorre neste processo de separação da mãe, de transformação em sujeito individual com a aquisição da linguagem e simultânea entrada no real. Esse abjecto é visível no momento em que, out of the blue, duas figuras emergem e rompem com a lógica de contenção da performer que se foi deitando, indiferente e deslocalizada às mudanças no cenário que varia entre um deserto e uma paisagem alienígena, que às vezes me faz pensar no Dune de Lynch.
Esse momento particularmente queer, pela exterioridade/visibilidade do abjecto fora de um qualquer armário epistemológico e pela alteridade introduzida na condição de humano, ilude as possibilidades de uma narrativa moderna, interventora e instrumental, que fica assim condicionada à potência de uma não-presença. A recusa de uma identidade fixa – porque não inteligível - é contudo transposta para um momento de tentativa de relação em que os termos em relação são para nós desconhecidos, pois não detemos aquele código, aquela normatividade que regula seres azuis. Assim, não é tanto a não resolução que é proposta enquanto material reflexivo, mas sim as possibilidades de inteligibilidade, fora de padrões de relação que desconhecemos.

fotografia de Susana Paiva

No final, a tentativa de relação que falha constantemente é aludida e desta forma proporciona uma semi-inteligibilidade. Tratam-se de humanos, apesar de já infectados com a condição de alteridade anterior, e assim não completamente constrangidos a uma performatividade sujeita às normas do humano. Tentativas várias de individuação e de relacionalidade são tentadas até ao abandono da desértica paisagem. As sucessivas operações sobre o sistema de género implicam um processo de identificação mas simultaneamente de obliteração dessas normatividades, pois há várias figuras em que o género pode ser adivinhado, mas nunca completamente confirmado, mantendo uma qualidade queer durante todo o tempo da peça. O género pode ser lido na sua acepção butleriana, em que é conceptualizado como performativo, lido e interpretado no quadro de uma inteligibilidade normativa, reguladora do significado dos actos e gestos. Trata-se de um género que é feito e não tem relação directa com a identidade (o que aliás é evidente noutros trabalhos de Camacho como “Nossa Senhora das Flores”).
Esta peça, na leitura que fui fazendo dela, fala pouco de identidades, preferindo a exploração dos terrenos mais ambíguos da des-identificação e das possibilidades de re-leitura da condição (pós) humana, fora das normas de estruturação das identidades. Ao mesmo tempo, essa des-identificação é-nos devolvida, fazendo-nos repensar as nossas próprias performances e as nossas identificações que são estratégicas, parciais e reguladas pela própria sujeição às normas que nos transforma em sujeitos.
Neste processo criativo, fui convocado como testemunha crítica, e de uma forma dialógica e através dessa interpelação, construí esta possibilidade de leitura. Não sendo uma leitura “oficial” ou definitiva nem uma meta-narrativa que obstrua outras possibilidades de construção de significados sobre a peça, traz contudo essa marca dialógica de contacto e das possibilidades de devir com os outros, não entendidos como outros generalizados, mas próximos e figurados. O trabalho de investigação permite essa aproximação interpretativa e nesta perspectiva, a distância metodológica perde o carácter situado e contextualizador que os conhecimentos podem e devem ter. Tratam-se de compreensões parciais, não de metaleituras. In im- e não sobre im-.

João Manuel de Oliveira
Investigador em teoria feminista e estudos de género/queer
EIRA e CIS/ISCTE