14.8.09

CRÓNICA | "im-" ou O corpo coisificado

fotografia de Susana Paiva

O que dizer da possibilidade de um corpo hoje? Qual o sentido da sua representação/presença em cena? Ou nenhuma destas qualidades é justa nesse identificar do inscrever de um corpo em palco? O que fica do sentido possível das imagens, que ecoam no ar, veiculadas por canais de mediatização e de imediatização consumista do viver? Estamos todos domesticados. Rendidos à escravidão do vazio. Subjugados pela mediocridade a que o olhar, esvaziado de pensamento, pairante no eco das aparências e das superficies sem fundo, vagueia.
É disto que fala Bragança de Miranda no livro «Corpo e imagem».

«Nos nossos dias a imagem atingiu a sua coisidade absoluta, e são controladas como gifs, tiffs, bmps, etc. E, em contrapartida, as coisas ficaram elas próprias enfraquecidas. Como diz Francis Ponge: 'Que espantoso servilismo! As coisas andam insípidas como imagens. Literalmente, como imagens!' Infelizmente as imagens estão a tornar-se tão dóceis como as 'coisas'. Com o que perdem umas e outras.»i

Como se pode então, por via da arte, resgatar a dimensão humana a essa coisa a que tem estado reduzido o corpo. O corpo coisificado. Precisamente em consequência de um efeito da exaustão e da profusão do corpo-imagem.
Superámos a rejeição da representação. Superámos a reclamação de uma presença em cena, ali de carne e a esvair-se em sangue, pulsante, visceral, sexual - como o fez Yvonne Rainer na década de 60, no manifesto da peça «The Mind is a Muscle». Procuremos encontrar uma nova possibilidade para que o corpo habite, reconciliado, o espaço cénico, como espaço crítico do real. Recuperemos esse corpo, como possibilidade de construtor de sentidos, que está para além da superação dessa representação e dessa presença.

“Im-“, a cena:

O ambiente desenha uma paisagem, que instala, em tons claros, a monocromia de brancos e pastel, a tocar o levemente amarelado, como um sol ligeiro de fim de dia. A silhueta feminina está claramente visível à boca de cena, do lado direito. No chão, apenas dois pequenos altos e um monte maior no canto oposto, ao fundo.
Ela calça botas, tem o cabelo preto comprido, está de pé. O olhar vagueia, lento, em redor do espaço. Ausente.
O tempo arrasta-se. Trava.
O olhar repousa perdido na quase invisível deslocação no espaço.
Aparentemente
tudo permanece,
em delicada transição.
O tempo é espaço que procura uma forma de fixar a imagem. Talvez fixando, no real encenado, a imagem como possibilidade de movimento do corpo, no contexto de uma paisagem também aparentemente estável, intacta, essa imagem possa habitar a memória. Talvez possa ser resgatada dessa vertigem redutora da fragmentação e multiplicação das imagens e das coisas. Mas o corpo-imagem que se quer reabilitar enquanto corpo e menos enquanto coisa, é uma noção que acaba por poder ser estendida a todo o envolvente.
É corpo também aquele lugar.
Corpo que inscreve texto e sentido e possibilidades de criação de sentidos. Ou pelo menos que se propõe instalar uma interrogação, interromper o fluxo repetitivo dessas convenções, e da espuma dos dias banais.
O corpo é forma e é movimento.
Forma, instável, em movimento.
O corpo é horizonte do céu. Azul. É possibilidade de desenhar outras formas. O segundo corpo está escondido. Por baixo do solo, desaparece. É corpo que se supõe, mas está ausente. Ausente do olhar. Desloca-se no espaço. Mas já não é ele. É um corpo outro. Corpo-forma instável. Enigma. Geométrico. Temperamental. Sem rosto, olhar, nem intenção identificável. É contínuo da matéria e do pensamento. Trânsito. O feminino, em destaque, desvelado, demasiado próximo para construir a aparência de tudo deixar ver, à superfície, resguarda, no seu oposto, o corpo que mergulha e desaparece, que toca uma outra camada do sentir. Não é lá atrás. É lá em baixo. A criar transformação na estabilidade do chão, a criar dinâmicas nessa pele que divide os dois patamares. Ele é chão, subsolo, inconsciente, invisível, camada subterrânea da pele. Ela é superfície, aparência, e ausência à vista do olhar.
Depois tudo é azul.
A leveza pairante das cores e dos movimentos dá lugar a uma dupla de criaturas invulgares, de formas estranhas, ainda assim de reconhecida silhueta horizontal, apesar dos volumes redondos espalhados pelo corpo e encimados no alto do que seria a cabeça por mais um círculo. Apesar da estranheza, joga-se o plano da iconografia. É para ali que se inclina a percepção do olhar. Aquelas figuras sugerem o impacto intemporal dos icones, onde se enraiza toda a narrativa do simbólico e do poder original da imagem.
O azul é o horizonte de cor que liga à cena seguinte. Movimentos aparentemente descoordenados, de dois corpos em cima de um pedestal que procuram uma forma de se relacionar, de se tocar, de se encontrar num equilíbrio, que se revela sempre precário, na dificuldade dessa figura oscilante.
O azul é cor do céu. Cor do horizonte possível dos sonhos e da imaginação. Se o céu continuasse a ser esse espaço amplo e aberto. Voltamos a Bragança de Miranda, e essa questão das imagens que, no início, «são as próprias coisas a que se colam imperceptivelmente, mas que alteram»ii. Sendo a poesia «essa máquina de alterar, que cria outros espaços e extensões, impossíveis mas necessários».

Temos então o azul. O Céu.

«Tudo recai na mudez da fisicalidade, coisas e 'imagens'. Eis o motivo para que seja possível separar coisas e imagens. A crise que inquieta Müller é repetida. De facto, esvaziado o 'céu', já sem deuses, fica sozinho, sem nenhuma 'imagem que o fixe', as próprias nuvens vistas de um avião são um obstáculo, 'um vapor que nos tira a vista'. A ascensão torna-se técnica, o olhar do céu é impedido pelas nuvens, nas quais já se pôde caminhar um dia.»iii

fotografia de Susana Paiva

Voltamos então ao plano do solo. Agora sobre o solo. O corpo reconhecível novamente. Mas o azul, no caso do intérprete masculino (Francisco Camacho), ainda lhe cobre a cabeça, nos cabelos, que lhe escondem também o rosto. Se tomarmos o azul como essa promessa de imagem originária de um céu que era sentido de possibilidade de perduração de imagem na memória, mesmo quando já ausente. Mas o que temos é o confronto com essa eterna erosão da multiplicidade.
Os dois corpos, que se encontram num plano mais terrestre e mais próximo do reconhecível, tocam o desejo tentador de se tornarem sedutores. Estão envoltos pelo ambiente sonoro de músicas pop, na qual ressoa esse eco de uma paisagem de um passado perdido - «where did all the flowers go...» Mas também aqui há resistência. Resistem a deixar-se dominar por esse compasso, que é apenas sinal de evidência desta mesma erosão do sentido do corpo, para que possa resgatar o corpo coisificado, o corpo-imagem. Ele estremece, convulsiona, perturba-se, aproxima-se do chão. Ela hesita, cede ligeiramente à música, retrai-se, contém-se, descai levemente.

Análise final:
Talvez não se encontre aqui a resposta para as várias questões que a peça coloca. Mas o enunciar e o identificá-las é o primeiro gesto no sentido de uma afirmação de pensamento e de posicionamento crítico e não conformado com a realidade. É aí que a arte pode surgir. E com ela a transformação. É aí que esse corpo pode ter lugar para se resgatar.
Falamos então de que corpo? O corpo que «dá lugar à existência», no dizer de Jean-Luc Nancy?iv Corpos que, no gesto de tocar o sentido, devem alcançar o estatuto justo, de estarem na condição que supera a coisificação e supere o serem reféns dessa escravidão do corpo-imagem. É sempre trânsito. Movimento instável, no contínuo entre a matéria e o pensamento.

«Os corpos não têm lugar, nem dentro do discurso, nem dentro da matéria. Eles não habitam nem o 'o espírito', nem o 'o corpo'. Eles têm lugar no limite, enquanto limite: limite – bordo externo, fractura e intersecção do estranho no contínuo do sentido, dentro do continuo da matéria. Abertura, discrição.»v

Claudia Galhós

i J.A.Bragança de Miranda, «Corpo e imagem», Nova Vega, Lisboa, 2008, pag. 36
ii op.cit., pag.38
iii op.cit., pág. 38
iv Jean-Luc Nancy, «Copus», Métailié, Paris, 2006, pag. 16
v op.cit., pag. 18