1.8.09

CRÓNICA | A cidade dos homens-água

fotografia de Susana Paiva

Eis a hora. Ponto de encontro: Igreja da Misericórdia.
Vivemos a temperatura que desce. A noite. Hora de humidade nas margens do rio. O Mondego ali ao fundo, alcançado no caminho que cruza os campos de milho alto. Todo esse reino de criaturas escondidas na escuridão, na folhagem alta. Cidade rente às águas lentas do rio. Cidade de folhas, de ventos e de estrelas.
Chegam as pessoas, encostadas aos muros, nos grupos que murmuram a espera do caminho que vão partilhar juntas. Vêm de perto. Vêm de longe. Vêm gente do teatro e vêm gente da terra. Misturam-se as geografias para orientar os passos, iluminados por lanternas, embrulhados pelo sopro de instrumentos que somam à textura sonora dos animais nocturnos. Começa a caminhada. Em caminho de terra. Muros altos de plantação verdejante. Mal vistos por entre a penumbra da meia lua.
A cidade de folhas conduz o grupo para o manto docemente embalante dos homens-água. Espreitam em melodias animais por detrás da folhagem. Espreitam em assobios que se confundem com pirilampos as conversas distraídas dos passeantes. O primeiro sinal da água repousa na cana de pesca atirada ao rio. O pescador faz o teatro, faz de pescador, em alvoroço, no entusiasmo da personagem encontrada pela primeira vez. Trocou o lugar nos bastidores, na assistência técnica, e lança a linha para o primeiro vislumbre de miragem que surge a deslizar sobre o rio.

fotografia de Susana Paiva

Lá ao longe, avista-se a primeira jangada. Surge o primeiro homem-água. Vem da cidade da escuridão. Aquela que se perde no negrume que a vista não alcança. Faz-se de corpo em movimento, em equilíbrio precário, em cima do pequeno quadrado de madeira. Nilo Gallego chamou-lhes «Pigmeus do Mondego». São imagens que constroem a aparência de uma ilusão, que se faz da simplicidade dos elementos da natureza habitados pelo homem, o homem criativo, que constrói paisagens sonoras e paisagens de revelação ao olhar. Compõem-se com o desarmante banal gesto de fazer habitar pela vida, e pela melodia da música, um lugar natural que os tempos da contemporaneidade deixaram abandonados.
A ausência da ausência, afirmada nesta presença tão humana e deliciosamente simples, é o gesto que instala, de forma categórica, a experiência poética. A paisagem da cidade dos homens-água, assim estranhamente assim tranquilamente, habitada por música e por imagens fugazes, opera a transformação do sentido do lugar. Restitui-lhe a carga que a história guardou apenas como memória. Ou como esquecimento.
Ouviram-se gargalhadas no Mondego. Por baixo da Ponte de Alagoa, canoas navegaram em bando, como patos, atrás da gaita de foles que girava hipnoticamente em redor da sua base, ocupadas por remadores e músicos locais, alguns da Banda Filarmónica de Montemor-o-Velho.
As águas servem o ritmo da noite, em constante derivação entre a tempestade e a tranquilidade. A aproximação ao silêncio, sem lá exactamente chegar, e a aproximação à catástrofe, aos caos, sem exactamente lá chegar, fizeram destes «pigmeus» uma comunidade temporária com variações rítmicas próprias. A cidade dos homens-água desenhou a traços brutos de paus cravados na terra a fisionomia de um lugar concreto, que é este de Montemor. É um projecto quase oferenda de escuta generosa e sensível do lugar. De construção de um estar que entra em sintonia com o que naturalmente existe, como se lhe restituísse uma vida que lhe pertence mas que está ausente. Daí esse acto performativo tão fortemente poético de criação instaurar uma experiência de ausentar a ausência. Os elementos cénicos, que acrescenta ao que já existe, são iluminações sobre um olhar que amplia os sentidos possíveis abertos à imaginação. Com as jangadas, as canoas, os instrumentos e músicos flutuantes, o vídeo quase realista e risível sobre o pilar da ponte ou os meros mergulhos e brincadeiras na água, abre as portas para o mundo que se esconde na penumbra da noite, como se mergulhássemos para além do que os olhos não vêem mas nesse movimento de imaginação não deixássemos de tocar o humano.

fotografia de Susana Paiva

Nilo Gallego escutou o lugar pelas referências que fez à própria história do lugar, ao riso lançado às águas do Mondego que subiram e que transformaram todo o Montemor num grande rio. Lançou o riso sobre esses dias de tempestade que, ciclicamente, a cada novo ano, ameaçam as terras desta cidade de folhas. Escutou o lugar ao criar as cumplicidades artísticas entre os músicos e intérpretes e os músicos e os canoistas da terra. A comunidade provisória alimenta-se do encontro, dentro e nas margens do espectáculo, de todas as comunidades possíveis, locais, artísticas e estrangeiras. No final, fica esse som de caixa de música, a iluminar a visão e a escuta da implicação atenta que este acto poético, humano, popular, contemporâneo, feito de sombras, deixou a navegar, sob a neblina nocturna fumegante do rio.

Cláudia Galhós