7.8.09

CINEMA AO AR LIVRE | The Order

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O Ciclo de Cinema ao Ar Livre da 31ª edição do festival Citemor reúne obras assinadas por artistas que têm desenvolvido a sua actividade primordialmente nas artes plásticas, onde se distinguiram.

Depois de “Zidane – um retrato do século XXI”, realizado por Douglas Gordon e Philippe Parreno, segue-se um filme de alguém a quem o New York Times se referiu como o artista mais importante da sua geração: Matthew Barney, nascido em 1967.

“The Order” é uma sequência retirada do final do filme “Cremaster 3”, sendo o ciclo Cremaster constituído por cinco filmes que não foram rodados pela ordem em que se inserem no conjunto. “The Order” encontra-se disponível para compra por parte de quem o queira adquirir ao contrário dos filmes que constituem o ciclo. Serve aqui de aperitivo, de entrada numa obra que configura um universo de ressonâncias mitológicas e de características herméticas, que tanto tem sido objecto de fascínio como de rejeição liminar.

Cabe referir que cremaster é a designação do músculo responsável pelo movimento dos testículos e que todo o ciclo se organiza em função do fenómeno da descida das gónadas, definindo a natureza sexual do embrião. As personagens concebidas pelo autor jogam frequentemente no terreno da ambiguidade, numa estratégia de questionamento da identidade. A par da sexualidade, são importantes os limites do humano, estando as suas figuras frequentemente já no domínio pós-humano, cruzando humano e animal, corpo e artifício, carne e prótese. A presença da modelo e atleta amputada Aimee Mullins em “The Order” é, neste plano, emblemática.

Podemos pensar a hibridização como a pedra de toque do universo do autor, implicando os diferentes planos da sua prática. Como acontece noutros filmes seus, é difícil dizer que o Museu Guggenheim de Nova Iorque é simplesmente o cenário de “The Order”, uma vez que os espaços arquitectónicos como que tomam o lugar de personagens. Similarmente, as personagens podem olhar-se invocando a escultura enquanto os objectos escultóricos, e o seu fazer, adquirem protagonismo no desenvolvimento narrativo.

Este filme estrutura-se enquanto um videojogo desdobrando-se os pisos do museu emblemático da autoria do arquitecto Frank Lloyd Wright nos cinco níveis que o aprendiz (interpretado pelo autor) tem que percorrer. O quinto e ultimo nível apresenta-nos Richard Serra, escultor fundamental da geração anterior à de Matthew Barney. Também ao nível processual e da inserção da sua obra na tradição da arte e no seu mercado, são desafiadores estes filmes do artista norte-americano. A par de uma série de referências, Matthew Barney é devedor da prática desenvolvida no âmbito da performance dos anos 60 e 70, mas enquanto nesta foi preponderante o aspecto efémero, ele materializa as suas criações, sendo que os objectos criados e os filmes se constituem enquanto obras coleccionáveis e comercializáveis. Simultaneamente, a opulência de meios, a recorrência a modos de fazer e certos elementos representados evocam o universo de Hollywood e os seus blockbusters.

Francisco Camacho