26.7.09

CRÓNICA - História da dor

fotografia de Susana Paiva

Há três narrativas que se cruzam, em cena, como três linhas de vida desenhadas na palma da mão. Todas elas partem de uma dimensão muito pessoal: a história de Angélica, a história de Jacqueline e a história da humanidade. História de guerra. São tudo variantes de uma mesma história: a história da dor. Ou o porquê. Porquê? O que nos mantém vivos.
A leitura do destino é traçada a partir do interior. Da fuga do aparentável e da imersão profunda no em si. Traz de dentro, para fora, as marcas desse horror. Marcas gravadas na carne, marcas que expressam a dificuldade do dizer. É o percurso interrompido da respiração, arrancada, em sangue, ao corpo. Partilham, neste cruzamento, a proximidade vertiginosa com a morte. Como quem se debruça sobre o abismo, quando espreita para dentro de si.
O tapete de violoncelos a seus pés. Regados a gotas de sangue.
Pousa o olhar na lentidão do cigarro que queima e se apaga, em cinzas, no tampo de madeira. Deixa-te ficar, preso a esse fogo que queima. Ternamente. A mesma madeira que é base também das garrafas de cerveja vazias, despejadas do seu interior. O cabelo negro desalinhado. Despido já da cabeleira loura que lhe cobria o rosto e a mergulhava numa outra identidade. Angélica Liddell é Jacqueline Du Pré. Angélica é Jacqueline. E as duas são o pacto de sangue que a vida assina com a morte. Desde o nascimento. A vida assim íntima alimenta-se do paladar promíscuo do assassinato de todas as guerras. As armas entram em cena, ao lado da cera que derrete os dedos frágeis da música sensível. E a julgam calar para sempre. Mas os dedos que derretem, permanecem na eternidade da memória dos vivos a tocar as cordas dos violoncelos que derramam sangue, os mesmo que disparam o tiro da espingarda. Porquê?
Angélica é Jacqueline. E as duas são parte de uma história da humanidade que grita a razão de viver. A razão arrancada às entranhas do existir. A história vai a meio, quando ela se senta na cadeira, no final do tapete de violoncelos. Está isolada do mundo que a rodeia. A barreira sonora da música que lhe entra nos ouvidos pelos auriculares, que apenas ela escuta, diz dela que não está já ali. No colo, uma boina de lã, que vai cosendo com as mesmas agulhas que antes tinha espetado no próprio corpo, na carne, por baixo dos braços, para cobrir o peito nu com o pano branco manchado de sangue. A guerra no colo. Amparada por esse embalo maternal. Que melodia é essa que apazigua o som ensurdecedor das mortes? O violoncelo de Du Pré? Aquele desejante que inveja a condição da ternura do desaparecimento?
Naquele gesto caseiro, Angélica é devolvida aos tempos da infância, às memórias de família, a esses rituais de recolhimento lento e de afectos que criam a ilusão da felicidade. Naquele colo, naquele ondular cego das mãos, com a música de Du Pré nos ouvidos, a boina sobre as pernas, as agulhas a coser, Angélica é Jacqueline. As duas são um corpo de mulher que narra uma história atravessada pela história da vida, da sobrevivência, da dor, da guerra, do sangue.
A voz de Angélica reproduz os sons impulsivos, em desorganização perturbada, do violino de Jacqueline, que habita, inaudível, a atmosfera da sala. Desestabiliza-lhe os movimentos. Atira-lhe o corpo para trás. Perde-se a visão do rosto nesse descair do tronco. Desaparece na escuridão. Cada gesto aproxima-a mais do abismo. Aproxima-a um pouco mais, delicadamente, da morte. Há uma ternura que tenta essa aproximação. Aqui, é o inferno. Aquele que ela rasga a cortes de navalha no tampo do violino. Ódio aos vivos. O mesmo que o soldado tem escrito na boina, «war is hell», nas imagens de vídeo finais, que inauguram esse momento de «Jacqueline no Vietname».
Talvez tenhamos já escutado estas imagens que ressoam como eternas verdades, repetidas vezes professadas e que nos dizem do inferno aqui na terra. Mas Angélia não faz apenas isso, não se limita a recriar essas impressões dolorosas do viver mais uma vez. Ela faz muito mais do que isso, e que acaba por ser a razão da força poética das suas performances: ela acrescenta-se a si. Angélica acrescenta-se a si ao olhar que debruça sobre o mundo. Dá-se. Partilha a delicada vulnerabilidade do seu viver. É acto de entrega. De partilha. De profunda poesia.
Em «Te haré invencible con mi derrota», Angélica acrescenta-se a si à obra. Acrescenta-se ao implicar o seu corpo, ao dar-se ali, atravessada por todas as misérias e todas as inquietações, como a matéria carnal que completa os procedimentos ritualísticos que ela convoca, das entranhas da terra, complementados pelo cenário de objectos que compõem o seu imaginário criativo, que é a medida pulsante do seu imaginário de vida. Aos 42 anos, Angélica é Jacqueline. Tão próximas do horizonte da morte.

Cláudia Galhós