13.8.08

FRANCISCO CAMACHO - Entrevista in progress I



fotografia Susana Paiva

Retrato em construção do coreógrafo português Francisco Camacho, numa série de conversas, que decorrem no contexto do Festival Citemor 2008, com o qual colabora há muitos anos, como criador e artista programado e também, como acontece nas últimas edições, como o programador do ciclo de cinema.


Infância e início na dança


Angola


Nasci em Maio de 1967, em Lisboa, e, aos 8 meses, os meus pais foram para Angola. O meu pai foi convidado para administrar uma fábrica que tinha de criar em Angola, relacionada com aquela em que trabalhava cá. Fomos para Nova Lisboa, que agora é Huambo. Dessa viagem não me lembro de nada. Sei que fomos de barco, mas nada mais. Depois disso, tenho muitas memórias de Angola, apesar de ter regressado para Portugal depois de fazer os 4 anos, antes da Revolução.

Tenho dúvidas, nestas minhas memórias iniciais, sobre até que ponto algumas são construídas. Mas acho que são reais, porque não eram histórias que os meus pais me contassem ou que eu guardasse de fotografias que vi. Guardo particularmente as traumáticas, as sensações de abandono. Uma dessas memórias aconteceu com a minha mãe.

Eu gostava muito de carrinhos. Ficava horas a brincar com os legos e os carrinhos, aqueles de miniaturas metalizadas. Tinha quilos desses brinquedos. E fazia histórias, envolviam pessoas, nem sei como porque na altura não havia muita televisão, pelo que não era por esse tipo de influências. Se calhar tinha a ver com a reprodução dos modelos sociais, porque em Angola a vida era muito social. Apesar de estarmos em Nova Lisboa, o meu pai pegava no carro e iamos passar o fim-de-semana a Luanda ou a Lubito visitar os vários ramos da família. Viajávamos imenso. A vida era muito de encontros, jantares, almoços, cartadas. Todas essas coisas que eu ainda mantenho um pouco. Gosto de jogar jogos sociais e mantenho um bocado isso. Mas voltemos a essa história do medo.

Gostava muito do carro de uma tia minha, e num desses passeios quis ir com ela, mas pensava que a minha mãe também ia ali. Quando me vi sem ela, foi o drama da minha vida. Lembro-me perfeitamente disso. A minha mãe ia no carro de outra tia minha e eu berrava que a queria, e elas diziam-me para deixar... Aquelas coisas das crianças... Mas eu não acalmava. E a minha mãe, como protectora, lá mandou parar o carro e fez com que eu fosse com ela.

Houve depois uma outra situação. A nossa casa ficava numa praça. Vivíamos numa moradia e estava a brincar num jardim no meio da praça, com a minha irmã, que é cinco anos mais velha que eu. Faço aqui um parêntesis. A minha mãe foi grávida para Angola, a criança nasceu prematura, e só havia um médico que sabia trabalhar com a encubadora no Hospital. Não se encontrou o médico, e a criança, que seria uma segunda irmã minha, acabou por morrer. Mas disso não tenho memória, sei porque me contaram. Voltando ao jardim.

Habitualmente, brincava muito com a minha irmã e as amigas dela. Era mais um brinquedo que elas tinham. Houve uma altura em que apareceu um mendigo nessa praça, uma daquelas figuras assustadoras para uma criança, e elas desataram a correr e deixaram-me sozinho, com aquele homem aterrador à minha frente. Eu desatei a fugir, a fugir, a fugir muito assustado.

São estas as memórias que tenho de Angola. Tenho poucas recordações de momentos felizes. Só talvez os sabores... O sabor do marisco, que é, ainda hoje, a minha comida favorita. O sabor da lagosta, por exemplo, que tenho como uma experiência intensa porque, durante muito tempo, em Lisboa, não comíamos, não era acessível. Muitos anos mais tarde é que revisitei esse sabor e me recordei dele.

Tenho pensado por que razão tenho este tipo de recordações, mas não cheguei a grandes conclusões. Quando fiz terapia, não explorei essas questões, estava mais interessado em tratar os ataques de pânico. Talvez haja relações... mas de facto são estas que estão mais presentes. Também me lembro que odiava ser fotografado. Tenho fotos do meu último aniversário em Angola em que estou a chorar, foi um horror, estava infelicíssimo. Pode ser que tenha tido outros motivos, para além de estar a ser fotografado, como a atenção do meu pai em relação à minha irmã. Mas essa é outra questão – a das preferências... Mas acabou por desembocar na foto e isso estragou-me o dia de aniversário.


Regresso a Portugal

Lembro-me muito pouco do primeiro ano em que vivemos em Portugal. Tenho ideia que foi um período confuso para mim. Recordo-me de voltar a fazer chichi na cama, que já não fazia há uns anos... Quando voltei para Lisboa, para uma casa desconhecida, aquilo voltou. Havia uma sensação de instabilidade. Lembro-me mal desse período, mas tenho ideia de ir conhecer familiares, do lado da minha mãe, de sentir estranheza. Do lado do meu pai conhecia, menos os que estavam na Madeira, porque estavam em Angola.

Tenho imagens de andarmos a ver casas para comprar, de andarmos em Benfica..., mas acabámos por ir viver para os Olivais. Lembro-me de, um dia em que me sentei à varanda do meu quarto, que era pequenina, e sentir que aquele era o meu espaço. Foi a primeira sensação de pertença em Lisboa.

Já em miúdo era calmo. Muito calmo. Mesmo em bébé era calmíssimo. Só chorava quando tinha fome. Não dei trabalho nenhum à minha mãe e divertia-me imenso a brincar sozinho, a criar as minhas ficções. Mas havia o meu lado teatreiro que surgia, ainda em Angola, quando ia brincar para casa de amigos. Se havia alguma coisa que não estava a correr muito bem, em vez de fazer propriamente uma birra, fingia que tinha morrido. Então, as mães dos meus amigos iam comigo, aflitas, em braços, ter a casa da minha mãe. Claro que a minha mãe desdramatizava aquilo e sossegava as senhoras. Aparentemente era convicto, elas achavam mesmo que eu tinha morrido...

fotografia de Susana Paiva

Os pais

Os meus pais não têm nada a ver com artes. O meu pai trabalhava numa fábrica. Veio da Madeira, quando resolveu fazer um curso comercial em Lisboa. Quis sair de lá novo. Andou pelas boémias de Lisboa, até encontrar o seu emprego. Depois foi chefe de produção de uma fábrica cá. Foi para Angola como administrador. Sempre teve essa vida. Cultivou a boémia de Lisboa enquanto foi solteiro, as casas de fado... Se fosse vivo tinha uma idade muito avançada. Morreu quando eu tinha 10 anos.

A minha mãe era orfã, e foi educada por uma senhora, que eu chamava de avó, mas não era, e que ela chamava madrinha. Teve uma educação completamente espartana, católica, conservadora... Ela casou depois dos 30 anos. Mesmo em adulta, ainda solteira, tudo o que fazia era às escondidas com uma amiga dela, que tinha uns pais mais progressistas, que lhe davam mais cobertura para ver um filme que não era permitido pela Igreja. Também lia livros às escondidas que não faziam parte da lista de livros que a Igreja Católica aprovava... Apesar de ser bem comportada, tinha estes rasgos que interrompiam aquela coisa tão castradora. Fez um curso de educadora de infância, mas quase não chegou a exercer. Depois, acabou por ir trabalhar como secretária para a fábrica onde o meu pai trabalhava, que foi onde se conheceram.


A escola

Comecei por estudar num externato privado, na pré-primária e na primeira classe em Lisboa, que era em Moscavide. Estive lá dois anos e depois o meu pai achou que era um gasto disparatado e fomos para a escola pública, eu e a minha irmã. Cheguei lá a saber ler e escrever, quando os meus colegas ainda não sabiam. Houve logo ali um desfasamento estranho, mas arranjei um melhor amigo. Normalmente arranjava amigos que me protegiam.

Era pequeno, miudinho, e não me envolvia em lutas. Era muito pacífico. Gosto do meu cantinho... Também estava a viver nos Olivais há pouco tempo, não saía ainda à rua nessa altura porque não conhecia muita gente no bairro e não tinha amigos. Com ele depois abri um pouco o circuito social de crianças, brincávamos muito na rua. Os Olivais prestava-se muito a isso, passávamos o tempo na rua a brincar. Mas gostava muito de ler. Para o resto não tinha grande jeito, era péssimo a desenhar. No ciclo preparatório quiseram puxar a nota de desenho para positiva, porque era a minha única negativa. De resto tinha 5 a tudo. Mas lia muito e lia desde banda desenhada até histórias infatis, contos de fada e depois comecei a ler outras coisas... Li «O Diário de Anne Frank» muito cedo. E a seguir comecei a ler Duras e a Yourcenar, aí com uns 12 ou 13. Nessa altura comecei a fazer outro tipo de leituras. A minha mãe sabia que eu gostava de ler e ia à Feira do Livro comigo todos os anos.


Literatura e cinema

Por volta dos 11 anos, tive varicela. Fiquei semanas de cama, à espera que as borbulhas secassem. Nessa altura, foi importante esta melhor amiga da minha mãe que lhe dava cobertura no início. Estamos na época do pós-25 de Abril, é uma altura muito politizada em Lisboa e nos circuitos onde eu andava. Tinha amigos que filhos de uma activista do PC, e toda a minha família era muito politizada na altura. Os filhos verdadeiros da minha avó tornaram-se completamente esquerda, com imensos conflitos com a religião e a maneira como ela os tinha educado. Portanto, vivia muito nesta coisa muito convulsiva, política e socialmente.

Eu gostava muito dessa amiga da minha mãe, ela lia muito, livros e jornais. Comecei a pedir-lhe conselhos para ler jornais, para me entreter nesse tempo da varicela. E pus-me a ler como ela me tinha dito, que o melhor era ter várias tendências políticas, para escolher. Recomendou-me o Expresso, que dizia que era o meio termo, O Jornal que era de esqueda, e O Tempo de direita, que ela odiava mas achava que eu devia ler. Durante esse período da minha vida que li estes jornais todos.

O Expresso tinha uma relevância grande em termos de cultura, crítica de cinema e divulgação de livros. Isso começou a educar o meu gosto e foi quando comecei a ler Duras e Yourcenar nessa altura. A partir daí também comecei a ir muito ao cinema, que era a minha paixão. A dança veio mais tarde. Nessa altura, quando tinha aulas, aproveitava os furos e metia-me no autocarro e ia para o Quarteto ou para o Londres. Tinha uns 13 ou 14 anos. Tinha de fazer choradinho à porta para me deixarem, porque já na altura parecia mais pequeno, que tinha 9 ou 10. Lembro-me de ir às sessões da tarde, faltava a uma aula ou outra, mas dizia sempre à minha mãe, porque não havia problema uma vez que controlava as faltas que podia dar, e tinha boas notas. Às vezes ia com amigos, outras sozinho. Nesta altura tinha um pequeno grupo, de três amigos que iam comigo. Lembro-me de ver aquela cinematografia de Leste ao Londres. A dança começou aos 15 anos.

Por esta altura do cinema, as brincadeiras de rua não eram jogos, que eu era uma desgraça para esse tipo de jogos, era mais às escondidas e à apanhada, porque era muito rápido a correr. Nas aulas de educação física, era bom na ginástica e no vólei, mas no basquete era sempre o último a ser escolhido para as equipas, era sempre escolhido depois das raparigas. Era a desgraça total.


Adolescência

Considerei sempre que não tive uma adolescência muito feliz. Talvez porque depois da morte do meu pai, o meu grande amigo, que era de uma família de emigrantes do Canadá, também se foi embora. Senti-me desamparado sem o apoio dele, e depois tive de encontrar pessoas novas. Foi quando me comecei a dar com este pequeno grupo que ia comigo ao cinema, mas eram todos dos Olivais Sul e eu era do Norte. Mais tarde tive um amigo no Olivais Norte, mas era mais velho. Houve uma altura em que me dava mais com pessoas mais velhas. Podia ficar na rua até mais tarde do que eles, ainda os ia levar a casa, e depois ficava a dar voltas para aproveitar a liberdade que a minha mãe me dava. Talvez a literatura e o cinema tivessem sido formas de evasão, possibilidades para encontrar outros mundos.

Gostava muito do cinema, mas achava que era uma profissão muito difícil. Como era bom aluno, pensava tirar um curso na faculdade e seguir uma carreira. Para o encontro com a dança, houve dois factores que foram importantes: a asma e problemas de costas. As costas, que ainda são curvadas, era mais preocupante para uma criança. A minha tia, que era a nossa médica de família, disse-me que eu tinha de fazer um desporto. Eu detestava Educação Física por causa do futebol e do basquete, e por causa da asma ela passou-me um atestado médico, que me permitiu escapar a essas aulas. Mas tive de prometer a essa minha tia que ia procurar outras actividades. Estava a pensar na natação, todos diziam que era o exercício mais completo.


O início da dança – Companhia Nacional de Bailado

Estava tudo preparado para ir para a natação, quando vejo uma entrevista do Armando Jorge na televisão a dizer que iam abrir uma classe especial para rapazes na Companhia Nacional de Bailado. Dizia que estavam a começar os cursos da CNB, e queriam sensibilizar rapazes para a prática da dança em Portugal. Não sei por que razão, mas fui. Não gostava de ballet, via aquilo na televisão e não me dizia nada. Se bem que era a altura do «Fame», que eu achava alguma graça, e do «Grease» e do «Saturday Night Fever». No caso do «Fame» achava graça mas nem era da dança, porque o Leroy não me dizia nada. Gostava mais do John Travolta nos filmes, aquele universo dos 50s no «Grease».

Ao ouvir os primeiros LPs, os Supertramp e outros do género, eu imaginava espectáculos. Imaginava essa música no contexto de um espectáculo, não apenas como concerto, mas algo mais completo, com luzes, cenografia... Bom, inscrevi-me na CNB e fui aceite. Fiquei lá um ano. Depois conheci o António Câmara.

Foi um ano muito complicado, porque tinha aulas de manhã e à tarde, por sorte houve um dos anos em quen tive aulas só de tarde – também sempre tive mais tendência para ter aulas à tarde, o que me deu esta vida mais noctívaga. Os meus dias estavam sempre muito cheios, ia fazer a barra de chão muito cedo, no edifício da CNB na Vítor Cordon, depois voltava, ia a casa almoçar a correr, e ia para as aulas do Liveu. À noite ainda ia fazer a aula especial de rapazes. Andava ali numa correria, fiz um esforço grande, mas não baixei notas.

Tinha um compromisso com a minha tia, por causa da asma, mas aquilo depois entusiasmou-me. E o António abriu-me um outro circuito social novamente, que foi muito importante no primeiro ano. Ao mesmo tempo que começava a gostar mais de dança, comecei a ver a Gulbenkian, de que gostava mais do que da CNB. Teria entre 15 e 16 anos.


O Ballet Gulbenkian

Aos 16 entrei para o curso da Gulbenkian. O António também gostava muito de cinema, começámos a ir à Cinemateca, o que me abriu outro circuito. Nessa época vivi o reforço do lado do cinema, o interesse pelas artes, ia ver espectáculos, o que não fazia antes, vi as primeiras encenações do La Féria, a Casa da Comedia. Em termos da dança, a CNB deu-me uma disciplina do corpo e um envolvimento com o trabalho do corpo, que gostei.

O António Câmara soube que iam abrir um curso especial para rapazes na Gulbenkian, convenceu-me e fomos fazer audição. Entrámos e deixámos a CNB. Nessa altura, fomos aprendendo com professores que tinham ido fazer o curso ao Bolshoi ou ao Kirov e vinham ensinar as metodologias do Ballet Russo. Acho que o João Miranda fez o Bolshoi e estava a aplicar connosco, na Nacional, depois o Carlos e a Ulrique Caldas estavam a fazer isso com o método Kirov na Gulbenkian. Eram aulas duríssimas, mas comecei a ver mais espectáculos da Gulbenkian. Foi a época em que a Olga Roriz faz «Lágrima» (1983), que é marcante. Ela usa a Nina Hagen, que era uma das minhas preferências musicais na altura, tinha a ver com os meus universos de música, e era uma peça muito diferente do que se fazia. Não era já apenas umas dancinhas e uma coreografia, havia aquela emoção e um universo que rompe muito e foi imporante para mim. Foi daquelas pessoas que eu gostei realmente de ver, que me fez pensar que a dança tinha futuro.

Nessa altura, não sei se tinha muita consciência de que queria seguir a dança. Mas no final desse primeiro ano na Gulbenkian, o Jorge Salavisa convida-me para estagiário, no Ballet Gulbenkian. Não estava nada à espera daquilo. Havia outros rapazes e muita pressão de outros professores para escolherem outro que não eu. Eu era pequenino, não tinha grande técnica. O Jorge disse-me um dia que via em mim qualidades que recordava que ele próprio tinha quando ele era mais novo. Falou-me de uma certa suavidade e concentração.

Nessa fase inicial de aprendizagem, recordo que não era grande coisa na linguagem clássica. Nos dois anos que estive como estagiário, lembro-me de sentir que podia ter algum interesse na dança quando estava em contacto com propostas mais contemporâneas, diferentes, como as aulas da Sonia Mota, uma professora brasileira que ia lá de vez em quando, que se baseava no Limón, mas misturava outras coisas, como ideias de relaxamento e contacto entre os corpos e só depois é que entrava na parte técnica. Havia o Louis Falco, que também é uma das referências da Olga. Era nesse campo de um trabalho de corpo diferente, que sentia que havia alguma possibilidade para mim. Aí já como intérprete. A única coisa que dancei em palco, enquanto estagiário da Gulbenkian, foi «A Terra do Norte» da Olga, em que fiz a reposição do elenco original. No ano em que entrei para o BG, entrou também a Vera Mantero, a Cláudia Nóvoa, o Luís Mascarenhas e o Álvaro Correia. Os rapazes sairam todos depois.

Claudia Galhós