30.7.08

A EUROPA ? - 1


CICLO DE CINEMA AO AR LIVRE


EUROPA, Lars Von Trier

O Ciclo de Cinema ao Ar Livre proposto no Citemor - 30º Festival de Montemor-o-Velho reúne três filmes sob o título “A Europa?”. Ao fazê-lo, aponta-se uma direcção para os olhar; juntos, proporcionam matéria de reflexão e questionamento.
O filme de Lars Von Trier intitula-se mesmo “Europa” e é o último de uma trilogia que realizou sobre a Europa, seguindo-se a “O Elemento do Crime” (1984) e “Epidemia” (1987). Conquistou o Prémio do Júri do Festival de Cannes, em 1991, a par de outros prémios e nomeações internacionais.
A manipulação é uma constante do cinema de Von Trier e aqui ela é expressa logo no início. A voz-off de Max Von Sydow, induzindo um estado hipnótico, faz o protagonista Leopold Kessler (Jean-Marc Barr) e o espectador entrarem na Europa do filme. A contagem de um a dez é dirigida tanto a ele como a nós, conduzidos a um tempo e a um espaço de subjectividade.
O filme convoca traços estilísticos e formais de diferentes contextos cinematográficos como sejam o expressionismo alemão e o cinema clássico de Hollywood, nomeadamente os filmes sobre a II Guerra Mundial. Mas a opção por filmar personagens contra projecções, a conjugação de diferentes distâncias focais, a coexistência do preto-e-branco e da cor são ferramentas de que o realizador se mune para instaurar a subjectividade e a pluralidade. Os contextos narrativos não são evidentes nas suas leituras assim como não o é a posição de Leopold Kessler.
O jovem norte-americano com ascendência alemã quer participar no esforço de reconstrução da Alemanha após a guerra. O choque do pragmatismo norte-americano com o momento histórico alemão é evidenciado pelo branqueamento que o Coronel Harris (Eddie Constantine) faz do passado Nazi de Max Hartmann (Jørgen Reenberg), subornando a testemunha judia (significativamente desempenhado pelo próprio Lars Von Trier). Se os motivos para o suicídio violento do ex-colaborador Nazi não são explicitados – embora a sua filha aponte o sentimento de culpa – já o gesto do Coronel releva de uma linha de politica externa norte-americana. O alemão, ao não conseguir pactuar seja com a culpa, seja com a perspectiva de um pais sob ingerência externa ou seja pela impossibilidade de uma sociedade assente num modelo de perfeição equivalente ao do comboio de brincar que tem em sua casa, instaura um acto que estilhaça a realidade. Ao passo que o norte-americano evidencia um gesto propriamente oportunista, fazendo com que a reconstrução do pais seja assente em mentiras e obliterando o passado, a responsabilidade.
É difícil não ler nas imagens do tempo actual da narrativa o espelho das imagens mesmas da guerra, sendo que até a rede de comboios é aquela que transportava os judeus e as outras vítimas para os campos de concentração. O surgimento do comboio é fantasmático e, ao atravessar mais tarde as suas zonas mais recônditas, Leopold Kessler confrontar-se-á com esses seres destinados ao extermínio. O passado está também ainda presente na acção dos “lobisomens”, que levam a cabo acções terroristas, perpetuadores da ideologia Nazi. Entre estes está Katharina Hartmann (Barbara Sukowa). O modo como ela descreve a Leopold a alternância da sua predisposição mental – sendo que o seu lado “lobisomen” se manifesta na noite – evidencia o conflito ideológico e moral subjacente na Alemanha.
Leopold desejaria um lugar neutro nesta Europa e a interpelação que Katharina lhe faz no final questiona, de facto, se as suas decisões corresponderão a uma tomada de posição ou ausência de posição. Na sequência do exame a que é sujeito para ascender nos quadros da empresa Zentropa e, simultaneamente, da obrigatoriedade de decidir sobre a vida e morte dos passageiros ou de quem ama, acentua-se o abismo, o pesadelo. É a vez de Leopold instaurar um acto que o liberte do pesadelo. Mas se o estado hipnótico a que Leopold e nós fomos induzidos nos permitiu testemunhar uma realidade de outro modo dificilmente suportável ou imaginável, emergir dele, emergir em pleno oceano como se renascêssemos incólumes e inocentes é impossível. Desta Europa, não há como escapar.


Francisco Camacho


Ficha técnica

EUROPA
(Zentropa, Dinamarca/ França/ Alemanha/ Suécia/Suíça, 1991)
Direção: Lars von Trier
Elenco: Jean- Marc Barr, Barabara Sukowa, Lawrence Hartman, Udo Kier, Eddie Constantine, Ernst- Hugo Järegård, Erik Mork, Jorgen Reenberg, Henning Jensen, Lars von Trier e Max von Sydow (narrador)
Roteiro: Lars von Trier e Niels Vorsel
Direção de fotografia: Henning Bendtsen, Edward Klosinski e Jean-Paul Meurisse
Efeitos visuais: Jan- Erik Sandberg
Montagem: Hervé Schneid
Figurinos: Manon Rasmussen
Música original: Joachim Holbek
Produção: Peter Aalbæk Jensen e Bo Christensen
Produtor associado: Philippe Bober
Estúdio: Alicéléo / Det Danske Filminstitut / Eurimages / Fund of the Council of Europe / Gérard Mital
Productions / Institut suisse du film / Nordisk Film / Sofinergie 1 / Sofinergie 2 / Svenska / Filminstitutet (SFI) / UGC Images / WMG Film,
Duração: 112 min