1.8.08

DISCURSO DIRECTO: O Teatro como Mudança


Entrevista a Franzisca Aarflot
Claudia Galhós

«Babel» é a terceira peça que a encenadora norueguesa Franzisca Aarflot está a encenar para os Artistas Unidos. A primeira foi em 2006, «A Mata», de Jesper Hall. Desta vez, o texto é assinado por um dramaturgo português, Miguel Castro Caldas, e um norueguês, Jesper Hall. O elenco também é misto. E este multiculturalismo presente na equipa artística que compõe a peça é também tema do espectáculo, onde uma imensa torre de Babel está em construção, metáfora de uma Europa onde se confundem as línguas, com os sonhos e os direitos humanos desrespeitados. É uma peça com música, uma forte componente física e texto, para um teatro que, Franzisca Aarflot acredita, deve ser «ferramenta de mudança e lugar de discussão».

Como é que aconteceu o encontro com os Artistas Unidos?

Os Artistas Unidos estão muito interessados em escrita contemporânea. Têm produzido Jon Fosse, o dramaturgo de referência norueguês, mas estavam interessados em conhecer outros dramaturgos noruegueses. No Det Äpne Teater, que é o teatro de onde venho, trabalhamos com escritores contemporâneos e desenvolvemos a escrita para teatro contemporânea. Eles entraram em contacto connosco, e foi assim que nos conhecemos. Julgo que podemos dizer que foi uma espécie de amor artístico à primeira vista.

Há alguma especificidade na dramaturgia contemporânea norueguesa?

Não diria que há uma espeficidade. Penso que a influência de Jon Fosse existe, que é fundamental, é uma escrita muito poético e reduzida e que tem influenciado outros. Nesse sentido, não é que sejam cópias, mas percebe-se que são influenciados pela escrita dele. Existem cerca de seis ou sete relativamente proeminentes e cada um é muito particular, é singular, pelo que é dificil encontrar uma tendência específica. No entanto, quando estou fora e apresento peças norueguesas em diferentes sítios, muitas vezes as pessoas comentam os temas e identificam recorrências. Por exemplo, no sentido de que, de algum modo, a natureza está presente, ou uma certa relação com a natureza, que podem ser entendidos como uma presença comum na nossa escrita. Comparativamente com Portugal, há definitivamente uma calma e uma tranquilidade. É menos temperamental.

O universo dramatúrgico contemporâneo dos Artistas Unidos é muito variado, mas há uma vertente marcante que é a urbanidade e, de algum modo, alguma violência. Nesse aspecto é muito diferente.

Nesse sentido é diferente. Na Noruega não temos propriamente, que eu veja, uma escrita urbana contemporânea. Particularmente urbano nesse sentido não temos, essa batida dura e brutal. É mais poético, mais gentil, mais sensível.

Faz sentido, nessa lógica, que a primeira peça que fez para os Artistas Unidos se chamasse «A Mata».

«A Mata» é uma peça muito especial, porque todas as personagens na verdade são crianças, com idades entre os 4 e os 14 anos, mas que tem de ser interpretado por actores adultos. Jesper Hall afirma especificamente no início que não devem representar infantilmente ou como crianças, porque trata de sentimentos como alegria e medo, que são universais e devem ser levados a sério. É especial por esse motivo mas também porque o centro da história é o abuso infantil, mas nunca se fala disso. Acompanhamos as crianças, como elas brincam juntas, discutem, mas no background, como espectador, vais-te apercebendo o que se passa, enquanto as crianças, elas próprias, não o percebem, mas percebem que algo está errado e que ocorrem situações sobre as quais não têm muita consciência, mas é a forma como lidam com aquilo. Dá-te, como audiência, e como adultos, uma perspectiva sobre a peça que é diferente da que têm as crianças. Está lá sempre no centro a questão mas nunca é referida. É muito especial.

Tem trabalhado frequentemente com o dramaturgo Jesper Hall, mas que, nesta peça, «Babel», partilha a autoria do texto com o português Miguel Castro Caldas. Como é que foi esse processo de co-autoria da escrita?

No início não sabiamos como iria acontecer, foi um processo em que as coisas acabaram por resultar conforme foram acontecendo. Começámos por discutir o que eles queriam fazer, se queriam co-escrever em conjunto desde o início ou se deviam, de algum modo, separar as tarefas. Discutimos e chegámos a este modelo em que Jesper Hall escreveu a história e o desenho das personagens e o Miguel Castro Caldas escreveu os diálogos. Foi o que aconteceu, embora pudéssemos ter optado por um outro modo. Falámos muito na questão da língua, na ideia de ter mais português e mais norueguês falado, ou ter partes da peça que aqui seriam apresentadas em português e que na Noruega seriam em norueguês, e talvez em inglês se fossemos para a Escócia ou Inglaterra... Mas isso seria muito complicado e acabámos por decidir que, afinal, esta é uma história sobre pessoas de diferentes nacionalidades, que têm de comunicar e precisam de partilhar uma linguagem. É normal que recorram ao comum inglês macarrónico. Então tentámos usar o inglês macarrónico de um modo divertido mas, por vezes, de forma poética. É um equilíbrio entre compreender e lidar com os mal-entendidos.

Isso está relacionado com a história da peça. Como é que a Torre de Babel, nessa metáfora original da mistura de todas as línguas, se transforma num arranha-céus que está a ser construído por emigrantes?

A história centra-se na construção da Torre de Babel que, no nosso caso, é uma torre europeia, simbólica de ideias como integração e multiculturalismo no contexto da Europa. Claro que é uma contradição porque está a ser construída por um grupo de emigrantes ilegais, sem direitos contratuais de trabalho, em que os seus passaportes lhes foram retirados, e que acabam por ser escravos. Na verdade é uma situação muito vulgar, não apenas na Europa mas em todo o mundo e eles lutam por sobreviver, porque é um ambiente de trabalho muito perigoso, e lutam por guardar um pouco o sentido de quem são. E cada vez se torna mais dificil, conforme as condições pioram. Depois, claro que há uma espécie de herói, que se chama Shit [merda], que acaba por conseguir realizar uma pequena revolução. É uma história muito simples e breve em termos de enredo.

Os Artistas Unidos têm feito peças com características diversas, mas não é habitual assistir a uma obra deles com esta presença musical, juntamente com a forte presença da componente física. Estas linguagens cruzadas no teatro são representativas do seu universo de trabalho?

Aquilo que gosto de fazer é combinar musicalidade, não no sentido que conhecemos de musicais, mas musicalidade com trabalho de texto, e gosto muito de trabalhar com actores físicos, o que os Artistas Unidos têm feito também, nomeadamente com artistas que vêm do Chapitô, a escola de circo. Isso agrada-me muito. Estes outros recursos artísticos também nos ajuda a trabalhar numa língua que nos é estrangeira. Desta vez nem tanto, porque utilizamos o inglês, que me é próximo, mas quando trabalhei em 2006, o português liberta-me mais a mente, permite-me trabalhar mais musicalmente, em termos de música e composição, e isso é algo que me agrada muito e que acaba por também estar presente aqui de algum modo.

O facto de o período final de criação da peça ter acontecido aqui, em Montemor-o-Velho, influenciou de algum modo o resultado?

Sim, é muito diferente. Não tinha estado num lugar como este, com a possibilidade de trabalhar com a calma que aqui existe, nesta vila tão sossegada. A performance consolidou-se desde que estamos aqui, também porque trabalhámos sobre a estrutura cénica, que é muito importante, e a maior parte da música também foi composta aqui. Temos trabalhado muito intensamente.

Qual é, para si, o papel do teatro hoje em dia?

Eu sou uma crente da ideia de fazer teatro para mudar o mundo (risos). Espero que o teatro possa ter um impacto na forma de pensar das pessoas, e talvez ter mesmo impacto nas suas vidas. Mas também deve proporcionar prazer e entreter. Isso também é importante. Acredito no papel sério do teatro na sociedade, como ferramenta de mudança e lugar de discussão.