10.8.08

DISCURSO DIRECTO: entrevista a Miguel Pereira


Em «Doo», Miguel Pereira retoma a dimensão autobiográfica, aqui de forma assumida. Surge também novamente a lógica de espelho. Ele, como intérprete, frente a um outro, neste caso Bernardo Fernando (PAK), que conheceu em Moçambique, país de que Miguel é natural e onde esta peça se iniciou. Este «outro» representa uma duplicidade, a possibilidade de um outro Miguel, mas é também alguém diferente de Miguel. Os jogos de espelho são uma constante na obra do coreógrafo Miguel Pereira, mas desde a peça que criou com Karima Mansour (Egipto), «Miguel meets Karima», em 2006, que o espelho se partiu.

"Doo" parte da tua história, das tuas origens, da tua memória. Explica-me esta necessidade constante de te pensares através dos teus trabalhos?

Esta recorrência à ideia de espelho e alter-ego tem-me acompanhado ao longo do meu percurso e, de alguma maneira, é quase como um desdobrar meu sobre um outro. É como se precisasse de ter um outro para me olhar a mim próprio. E a questão autobiográfica para mim é sempre muito importante porque tenho de partir sempre daquilo que pertence à minha vivência pessoal para poder construir algo. Curiosamente, desde há algum tempo, e desde o meu trabalho com a Karima, tem sido um encontro quase impossível, em que este desejo de me rever no outro acontece com dificuldade. Quase como se o espelho se tivesse partido, de alguma maneira.

Se o encontro com o outro se torna difícil, e tendo em conta esta peça, significa isso que já não consegues ver-te a ti próprio?

O facto de não me conseguir rever no outro faz com que se torne baça a minha própria existência.

A questão da interculturalidade é também uma moda. É um tema que está já presente na obra com a Karima, mas que aqui se torna mais complexa porque é a ideia da múltipla cultura que existe dentro de uma mesma pessoa.

Sim, por isso é que de certa maneira a mim, pessoalmente, não me interessa tanto a questão da outra cultura mas olhar para o outro distante, que não me é próximo. O caso do Antonio Tagliarini, que foi essa espécie de alterego, de duo, espelho. Aí houve mesmo uma espécie de simbiose. Neste caso, é mais no sentido de procurar o outro de outra cultura, que está longe. Isso fez com que me encontrasse com o outro mais a nivel pessoal do que a nível corporal. Acho que é com essa sensação que fico, destes dois encontros, com a Karima e com o PAK.

Então que outro «eu» encontraste? E que questões artísticas te surgiram?

Enquanto que com a Karima estava diante de uma pessoa que pertencia a uma cultura e um mundo que desconhecia e com o qual não tinha qualquer tipo de relação, foi um encontro casual que aconteceu por acaso, no contexto de um programa de colaboração organizado pelo Alkantara. Neste trabalho aconteceu mais que me apercebi de que é uma cultura com a qual tenho uma relação, há uma proximidade pela memória e passado, pelas raízes, mas ao mesmo tempo existe uma distância, porque me afastei dessa cultura. Aqui o que é marcante é essa dualidade, o facto de haver qualquer coisa que me liga a Moçambique e, ao mesmo tempo, qualquer coisa que hoje me é muito distante. E o conflito permaneceu na minha ida lá, quando percebo essa ambiguidade da relação. Há algo de muito próximo com qualquer coisa que existiu e ja não existe. Este trabalho é também muito sobre a memória, e esse é um aspecto importante do trabalho, como que uma abstractização daquilo que é a minha história pessoal mas, ao mesmo tempo, é hoje uma experiência de conflito, porque é muito distante, já não o reconheço. Portanto, há essa dualidade curiosa, há qualquer coisa emocional e afectiva de facto forte, porque nasci e vivi ali os primeiros 13 anos da minha vida. Mas depois dá-se um afastamento, porque a minha vida tomou um outro rumo, desenvolver-se numa outra cultura.

Mas com que expectativas foste? E o que encontraste?

Fui revisitar ou tentar perceber o que encontrava do que eram as minhas memórias dos tempos que lá vivi. E nessa tentativa, procurar reencontrar e reconstruir de alguma maneira todos esses acontecimentos que fizeram parte da minha vida. Apercebi-me que havia um corte porque tudo o que existia não existe mais. A realidade que eu construi através da minha memória já não se encaixa no que é hoje aquele país. Foi esse choque. E depois o encontro com o PAK. Tudo isso foi intensificado de alguma maneira. Aperceber-me do conflito entre qualquer coisa que tem um lado de melancólico, saudosista, e ao mesmo tempo uma realidade que desapareceu. Isso criou-me muita instabilidade.

Essa instabilidade atravessa a peça.

Sim, para mim está muito presente. A peça é, toda ela, feita de cortes. Há sempre qualquer coisa que parece que podia desenvover-se mas nunca se desenvolve. Essa era a construção que eu queria utilizar na peça. E também essa não comunicação, essa quase impossibilidade de chegar a algum lado. E acho que está na peça. E outro factor importante para mim que decidi usar, que quis explorar, foi a questão do som. O som como pretexto dramatúrgico, digamos. É uma peça feita com muitas camadas, tem muitas leituras, que se fragmenta toda. Às vezes não se consegue perceber muito bem para onde vai e de onde vem.

Mas o que desaparece é esse país que existia ou a ideia que a tua memória guardou e/ou construiu do país?

A minha relação com Moçambique está diferente. É uma memória idílica, porque refere-se, de facto, a um período feliz. Está associada à ideia de alguma inocência, da fruição das coisas, de uma forte relação com a natureza, uma espécie de ordem quase perfeita. É algo muito luminoso, ao contrário daquilo que hoje me apercebo que é a existência. Está muito ligada à ideia de infância. É quase a possibilidade de um paraíso. Depois encontro de facto a passagem do tempo, a deterioração. Parece que foi um sítio que parou no tempo, mas depois há um tempo que passa sobre ele, e o destrói e decompõe. Toda aquela imagem que construí está, de alguma maneira, desfeita, gasta, arruinada.

Mas de que modo é que toda esta relação que é tão tua, e trabalhando muito a dimensão autobiográfica, pode ser partilhada e ganhar um sentido que não se esgota em ti?

O que me interessa na questão autobiográfica é: partindo de um ponto de vista pessoal, como consegues tocar temas comuns à nossa sociedade enquanto seres humanos, à relação que temos com a sociedade, com a existência? Tento sempre posicionar-me, a partir da minha experiência pessoal, nesta ligação com o mundo. Só me interessa a utilização do autobiográfico para o universalizar, e não para contar meramente a minha história, que é só minha, e não interessa a mais ninguém. É um pretexto para reflectir sobre a existência.

Mas neste caso em particular, a questão do multiculturalismo e das nossas raízes e da identidade, que estão muito na moda, é invocada a partir de uma questão realmente muito pessoal: que é essa procura de ti própria através das tuas origens.

Não sei se é por me integrar no ar do tempo mas as coisas aconteceram sempre um bocado quase porque tiveram mesmo de acontecer. Já com o «Antonio Miguel» e «Miguel meets Karima» aconteceu quase espontaneamente. Eu estava ali, ela estava lá, estávamos os dois perdidos, e aconteceu. E agora aconteceu porque surgiu no culminar desse projecto. Porque no final do trabalho com a Karima fui participar nos encontros no Quenia, em Nairobi, e de repente apercebo-me que estava a entrar de novo em África e estava muito próximo do sítio onde tinha nascido. Isso tornou-se muito importante para mim. E foi muito curioso porque desde que vim de África e conforme fui crescendo, sempre fui dizendo que quando tivesse 40 anos queria voltar a Moçambique. Tenho 45, e aconteceu-me naquele momento, que foi o momento certo. Então, esta questão acaba por se relacionar com algo que está na ordem do dia, mas foi uma necessidade, não foi provocado. Começou a fazer sentido para mim, uma vez que me encontro com o outro que me é distante, faz sentido mergulhar nesta cultura que faz parte das minhas origens, quando me vejo a aproximar de onde tinha nascido e a onde nunca mais tinha voltado.

Que descobertas fazes sobre ti próprio? E sobre as possibilidades artísticas?

O meu trabalho tem andado muito à volta da questão entre o pensamento, ou a racionalização, a cerebralização, e a ideia da fruição e do prazer da sensação. De algum tempo para cá, comecei a aperceber-me que estava a anular o lado emocional no meu trabalho. Na própria construção do trabalho. Sempre fui um bocadinho o objecto e o corpo das minhas peças, e estando presente é como se elas existissem pela minha presença, acção e energia. Acho que os trabalhos existiam por isso. Depois cheguei a um trabalho em que senti necessidade de estar ausente das peças, como observador, que foi o «Corpo de Baile, que acho que é a peça em que fui mais longe em termos de cerebralização porque me coloquei de fora. O que aconteceu foi que com o meu encontro com a Karima Mansour, um pouco circunstancialmente, voltei a ter de entrar como corpo dentro do trabalho. E aí surgiu um novo conflito e comecei a lidar muito com esta questão da exposição. Nessa questão, o «Antonio Miguel» foi um trabalho de muita exposição, nesse sentido é um trabalho-chave. Mas depois tive necessidade de me resguardar um pouco disso. E quando faço o trabalho com a Karima, surge novamente essa questão entre o expor-me e o querer ficar de fora. Por isso é que fico escondido por trás daquela imagem, desapareço por baixo do fato negro que me cobre. Neste novo trabalho, inicialmente não queria entrar, queria estar de fora, mas depois foi mais forte do que eu. E as coisas que surgiram do contacto com Moçambique, de ter lá estado e ter lidado um bocadinho com aquela cultura. Fui-me apercebendo que nós, no Ocidente, dentro deste meio que é este movimento, esta comunidade, que é a zona artística ou o pensamento artístico, talvez pensemos demais. Lá é tudo muito mais vivido. Tudo isto fez com que eu também tivesse vontade de explorar nesta peça outro tipo de caminhos e outro tipo de relações. Isso fez com que surja esta recorrência ao som e aos sentidos, até mais à audição do que à visão.

Porquê a escolha do PAK?

Curiosamente por uma contradição. Fiz uma audição em Moçambique e foi a pessoa mais enigmática e mais contraditória relativamente à ideia e estereótipo que tens de um africano. Ele é muito reservado. Gostei muito desse lado ambíguo dele, esse aspecto de contradição entre alguém que vive muito o corpo e, ao mesmo tempo, uma espécie de cerebralidade que existe nele, num contexto em que há uma forte fisicalidade. Se calhar tem a ver com essa ideia de me rever, porque eu preciso sempre, de alguma maneira, de me rever no outro, encontrar um elo de ligação no outro, mesmo que seja muito distante de mim. Com a Karima havia uma relação muito forte entre mim e ela, de algo que nos liga e nos afasta. Aqui acho que acontece o mesmo, há qualquer coisa que me atrai nele por um lado e ao mesmo tempo o contrário. Em ambos os casos não há qualquer espécie de contacto físico.

O que é isso de espelho partido, que acontece na peça com a Karima?

Significa que há uma imagem que construo ao longo do tempo de mim mesmo, que encaixa em mim, e de repente ela deixa de existir. Tudo aquilo que achava que era eu, tudo aquilo que me era confortável na relação com o outro, perdeu-se. Acho que com a Karima foi uma relação mais ao nível pessoal e aqui a personalização é simbolizada pela cultura, digamos, porque o PAK representa a relação que tenho com aquela cultura, com aquele país. Mas havia essa imagem que tinha de mim e que achava fácil de apresentar e lidar com. Depois da Karima, quando o espelho se parte, tenho de desencaixar dessa imagem e tenho de a reconstruir.

Mas representando o PAK uma cultura, e havendo a história portuguesa do colonialismo, não receias que a peça possa ser lida com esse olhar?

Claro que obviamente fui confrontado com o facto de estar a tocar um tema muito delicado e importante ligado à história portuguesa. E todo esse discurso que também está hoje muito na moda, sobre o pós-colonialismo, é precisamente aquilo que não me interessa de todo tocar nesta peça. Por isso mesmo, a peça pode ter uma postura politicamente não correcta. Obviamente tenho consciência e ponderei sobre essa questão, mas não foi a abordagem que me interessasse. É de facto um trabalho sobre a minha experiência pessoal, a partir das minhas origens e o que isto diz sobre a nossa relação como seres humanos, como construímos a realidade, como é isto de construirmos um pensamento, e como é esta coisa de vivermos apenas de sensações. É algo que escutei de alguém, que dizia: quem me dera ser só sensações e nada de pensamento. É mais nesse sentido que me interessa este trabalho, porque precisamente tenho muito a tendência para o pensamento e aqui trata-se mesmo da tentativa de procurar o caminho das sensações.

Claudia Galhós