13.8.08

DISCURSO DIRECTO: Entrevista a Mala Voadora II



Como se olha para uma peça que tem três momentos diferentes de apresentação – primeiro em Serralves, depois do Citemor e falta ainda no O Negócio/ZDB – que é diferente de uma digressão de uma mesma peça, mas antes representa uma obra que não se chega a estrear-se, mas antes existe em constante elaboração, redefinição, reformulação?
É este o caso de «O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros (disse Brecht)». E esta segunda parte da conversa, é mais um exercício de memória sobre a primeira apresentação ao público (em Serralves) e algumas questões que atravessaram a residência artística em Montemor-o-Velho, que deu origem à versão apresentada na Sala B, do Citemor.

Falam de uma composição a partir da redefinição, composição, do desfazer de significados... que é uma forma de pensar a criação contemporânea... Mas o que significa isso de desfazer de significados?

JC:
Acho que o Jorge tem muita tendência para pensar os espectáculos e as suas estruturas quase como uma espécie de filigrana de significados...

JA:
Tão filigrana, tão filigrana que... que não tem leitura... Acontece ver algo que, para mim, é muito claro e as pessoas não lêem o mesmo. Questiono-me muitas vezes: mas não é evidente? Porque para mim é evidente. Ainda ontem falávamos do «Desempacotando...». Para mim era evidente que, para além de se fazer aquela viagem pelo conteúdo por diferentes livros e fazer ao contrário do que Benjamin falava – tratar a Biblioteca como objecto de uma colecção – era pegar em excertos, fazer uma viagem pelas histórias que cada livro encerrava. Para mim, era óbvio que, tentar contar uma história a partir do conteúdo desses livros significava estar constantemente a abandonar outras histórias. Talvez o que eu andasse à procura fosse a ideia de que cada um conta a história que quer com os seus livros. E havia uma tentativa de contar essas histórias de uma forma que interrompia o que estava a acontecer. Talvez fizesse parte da minha formação mais inicial, em que havia um abandono e dizia não, desta forma não me apetece contar a história, desta forma não me patece contar história... E íamos fazendo uma viagem ao longo das diferentes maneiras de contar histórias...

Isso não é uma contradição? Querem colocar-se em total risco, mas depois queres controlar ao pormenor os efeitos desse risco.

JC:
Sim.

JA:
Mas faz parte da descoberta desse novo caminho. Significa eu ter uma espécie de rede ou ir enriquecendo novos caminhos, em que vou juntando significados. Esse caminho não é ponderado porque o material e o tema, o confronto entre as duas coisas, é que vai definindo o caminho. Falamos de limpar os significados porque depois, ao pegar num espectáculo e identificar o que nos agradou ou não, e mesmo estando satisfeito com os resultados obtidos, experimentamos outras formas possíveis. Fazemos isto precisamente através do desfazer a forma de fazer. Uma vez que os significados estejam bem definidos, podemos optar por outro tipo de significados, outro caminho. Quer na forma de fazer, quer naquilo que se procura. Isto no âmbito do desenvolvimento da mesma peça. No caso desta que apresentamos aqui, imaginemos que o final significava, para nós, uma certa alienação enquanto conteúdo e uma espécie de denúncia entre aspas da espectacularização da política. Ainda não está definido se o resultado será este ou se não nos interessa uma outra abordagem a este tipo de espectacularização que se faz da política. Esta era a discussão que estavámos a ter esta manhã. Interessa-nos outra coisa que não sabemos o que é. Não nos interessa a denúncia da alienação em relação ao conteúdo.

Mas isso implica alterar a forma e o que constitui o final?

JA:
Às vezes basta eu estar ou não presente. Ou basta eu continuar a ter um texto ou deixar de o ter.

JC:
Ou estar com certos materiais em cena e, de repente, o modo como o fazes se alterar.

Neste caso em concreto, como começaram a construir a peça?

JA:
Este espectáculo foi, mais uma vez sendo piegas, doloroso. Não me lembro quantos discursos tinha cada um dos volumes. Comprámos mais um ou dois volumes, e inicialmente fiz trabalho de mesa com o Pedro Gil. Estivémos a ler os textos, chegámos a alguma definição sobre o que não nos interessava nessa relcolha.

E o que não interessava?

JA:
A denuncia, ou fulanizar os textos ou situá-los numa época muito concreta. Não nos interessava chamar as coisa pelos seus nomes. Interessava-me mais a ideia política que estava na origem desses textos. Essa foi uma primeira coordenada para escolhar os textos. Depois continuei a fazer esse trabalho de uma forma mais solitária. Quase por acaso, os que achei mais fortes eram os que falavam de guerra ou de revolução. Isso até nos levou a discutir ideias para outro espectáculo, que seria falar só sobre a guerra. Depois, interessou-me este confronto que existe entre guerra e revolução, em que comumente temos uma visão mais negativa da guerra e simpatizamos com a revolução. Interessou-me cruzar esses dois tipos de texto sem tomar qualquer partido sobre nenhum deles.

Esse segundo final não corre o risco de ser moralista? Tendo em vista o significado que pode produzir, dar uma visão?

JC:
Estávamos precisamente a falar do significado preciso que iria ter a parte final do espectáculo. O espectáculo é feito com uma colagem de textos das tendências políticas mais diversas que existiram ou existem. É uma colagem feita sem costuras. O que pretendemos é que essa colagem, como uma espécie de contínuo, não acuse onde acaba um discurso e começa outro. O objectivo é instalar a ambiguidade entre as várias tendências politicas e a relatividade em relação a elas para acentuar a questão da retórica, para diminuir um bocadinho o que pode ser o conteúdo. Não é que não estejamos interessados no conteúdo, mas antes porquo espectáculo tem um carácter um bocadinho perverso porque intencionalmente confunde discursos que nos parecem muito pertinentes com outros que não nos parecem nada pertinentes, e são até muito perniciosos na história. Mas a questão é que se trata de retórica. Os discursos foram todos nivelados e, no final, o que acontece é que essa lógica do que é o discurso político e a lógica da própria retórica do discurso político é abandonada a favor de outra coisa qualquer. E até aqui estamos todos de acordo. Depois, a questão é saber se, abandonando o conteúdo até chegar a um ponto em que exista retórica e espectacularidade por si mesma, nessa altura o que se fazia era um pouco o sumo do que é a retorica do discurso politico ou até que ponto o abandono do conteúdo conduz o espectáculo para outro sitio qualquer. Agrada-me pensar que o espectáculo é conduzido para outro sitio qualquer. E precisamente porque acho que é bastante menos moralista. Isto porque se pega no que são os ingredientes da espectacularidade política e os da espectacularidade da publicidade. Neste caso estamos a falar da exibição do corpo, do apelo à sexualidade, da comida, de uma espécie de alegria de viver, que é muito explorada nestas coisas da persuasão. Há a tendência para explorar estas coisas de que as pessoas podem ser felizes e pode haver uma espécie de paraíso. E o que se está a mostrar é como se pode chegar a uma espécie de paraíso – seja dando um determinado tipo de champô, seja aderindo a um determinado discurso político. De qualquer modo, a questão é: como é que esses ingredientes podem, no espectáculo, ser utilizados para construir uma outra coisa. Eu prefiro pensar o espectáculo dessa maneira. A lógica do discurso político é abandonada e esses ingredientes contra os quais não temos nada, podem ser compostos para visionar uma outra coisa.

JA:
Eu acho que corre esse risco. Há aqui um perigo e ainda não chegámos a acordo sobre isso. Podemos chegar a uma soludção mista. O que me parece é que não há volta a dar. Em relação aos conteúdos, vamos procurar outra coisa. Vamos cair nesta festa, seja de denuncia ou não. Mas a mim o que me parece é que, ao abandonar o discurso, está-se a abandonar uma facção, e a aderir a outra. Está-se a optar por um ingrediente e a pegar apenas pelo lado festivo, como se fosse o exacerbar dessa retórica que tem sido denunciada ao longo do espectáculo e ficou só a retórica, o artificio, e não o conteúdo. Agora, na outra versão agrada-me mais que continue a existir discurso. Porque essa possibilidade significa criar uma espécie de vertigem, em que abre muitas mais possibilidades de leitura, porque se mistura. A retórica acaba por ser não tão limpinha, como é apresentada ao longo do espectáculo, ou com um fundo de vídeo, ou com música, ou com o volume mais alto, mas passa a conviver muitas sobreposições do vídeo com a música, com a ocupação do palco, com muitos elementos dessa chamada festividade, e dessa retorica que é utilizada ao longo do espectáculo. Juntamos a tudo isto também o conteúdo dos discursos porque essa vertigem abre muitas mais possiibilidades e denuncia talvez a perversidade de tudo o que ali apresentámos sem tomar um partido entre uma ou outra.

Mas como chegaram à versão que apresentaram em Serralves?

JA:
Comecei a ordenar os discursos. Inicialmente estávamos muito focados com a retórica, e interessava-nos mais o facto de que grande parte da população tem contacto com essa retórica através dos mass media, ou da televiso em concreto. Por alguma razão, interessava-nos trabalhar com uma rapariga basca com quem já tínhamos trabalhado, a Itziar Zorita Agirre.

JC:
Que tinha feito os vídeos do «Hard», por exemplo.

JA:
Uma das possibilidades, em que investimentos muito no início, era filmarmos o Pedro Gil com croma.

JC:
Como se estivesse numa espécie de estúdio.

JA:
A dizer os textos como eu digo em palco, mas sem artifício nenhum, e utilizávamos duas câmaras, em que numa aparecia de corpo inteiro e na outra faziam-se gandes planos e planos contrapicados. Depois fazíamos o tratamento dessa imagem para uma tela grande, em que jogávamos com a forma como aparecia, ou apareciam apenas os grandes olhos, para ser mais persuasivo, ou com mudança de fundo, etc... Ao mesmo tempo, em palco. eu ia variando o que fazia. A primeira alteração que existiu decorreu de percebermos que a pessoa que ia estar em palco tinha de ser a mesma que estava em vídeo. Era três em um, significaria assumir a elaboração que está por detrás da imagem que nos chega. As acções em palco passava por uma série de acções que faço, pôr sons, manipular a luz, o vídeo... A imagem não estava toda editada, havia pequenos ajustes que fui fazendo em palco.

Mas o que signifava tudo isso em termos do trabalho a partir dos discursos políticos?

JA:
O formato debruçava-se mais sobre os mass media, centrava-se mais nisso.

JC:
Provavelmente resultava mais em Tempo de Antena e menos comício...

JA:
Depois o Pedro Gil não podia ser em palco, porque tinha trabalho, depois tive eu de filmar aquilo tudo para ser eu em palco... O espectáculo acabou por ser o sumo de tudo isto. Ao ser eu em palco, resultavaa numa maior denuncia ou num assumir declaramente que tudo aquilo fazia parte daquela máquina de manipulação. Depois, pareceu-me demasiada parra para pouca uva. Aquilo podia ser feito de forma muito mais artesanal, parecia-me demasiada elaboração e não tínhamos os meios para jusitifiocar aquele investimento tecnológico. No teatro à antiga, os velhos encenadores dizem: vamos fazer das dificuldades nossos amigos para encontrar soluções que não encontariamos se tivéssemos todos os meios à nossa disposição. Foi horrível porque decidi, depois do trabalho feito, que não apresentávamos nada dos vídeos.

JC:
Mas isso aconteceu em vésperas da apresentação.

JA:
Decidi que só utilizava os vídeos que pudessem servir de fundo e ficava eu a dizer os textos em palco.

JC:
A retórica do discurso político era mais do que suficiente.

JA:
Grande parte do vídeo não fazia sentido utilizar.

Mas no dia do espectáculo, em Serralves, estás sem rede e vais para cena sem a peça pronta.

JA:
Não cheguei sequer a conseguir ensaiar o espectáculo.

JC:
A questão fundamental é que tudo o que eram recursos que o vídeo já garantia, a partir do momento em que se desiste de utilizar grande parte do vídeo, o Jorge fica responsável pela manipulação de luz, de vídeo, de tudo.

JA:
Eu achei que só fazia sentido este ‘one man show’ se fosse totalmente visível.

JC:
Isso significou que ficou com essa tarefa nas costas, de manipular o espectáculo inteiro, o que não é nada fácil e tem de ser muito ensaiado.

JA:
Para mim, era evidente que tinha de operar aquilo tudo. Mas a questão era como ia conseguir, ainda mais com a tarefa de dizer o texto ao vivo. A versão anterior era ir habitando o palco, ia metendo a banda sonora, o video, e pondo luzes, mas tudo o resto já estava editado. No palco ia apenas representando uma espécie de quotidiano. Tínhamos uma ideia de um piquenique, bastante popular. E todos os materiais que eram utilizados na representação desse quotidiano, eram os mesmo que serviriam de fundo no tempo de antena do político. Havia uma ideia de uma certa passividade de te deixares levar, e talvez tivesse uma vertente mais pedagógica.

Havia então um ambiente de alienação?

JA:
Talvez... Enquanto espectáculo era mais uma espécie de denuncia que, a meu ver, era já demasiado evidente. A toalha que serve para pôr a comida, era a toalha de fundo para a Elisabeth Staton para falar sobre o feminismo, repetindo a ideia de que enquanto estás a comer o bolo no piequenique, estás a ser conivente com a manipulação que fazem de tudo o resto. Isso também nos pareceu que pouca evolução. Foi com esse argumento, de que era por honestidade intelectual para com o trabalho, que era mais honesto que eu fizesse aquilo tudo, e para isso tinha de não usar o vídeo que tínhamos feito e convenci a Itziar... Houve desespero, gritos, lágrimas e suor [risos]...

Há, no historial da Mala Voadora, momentos em que a política é importante, mas se olharmos de forma mais abrangente para as tendências teatrais actuais, nota-se um regresso assumido das questões políticas ao teatro. A vocês, porque a política vos interessa?

JC:
O «Os Justos» já era um espectáculo puramente político.

JA:
O título deste espectáculo remete logo para a sua dimensão política, de uma forma mais directa, mas quando falamos do «Philatelie» ou do «Projecto de Execução» não deixamos de nos debruçar sobre política ou assuntos que nos são próximos.

Podemos sempre vê-los no sentido de uma religação ao real, que tem uma dimensão politica.

JC:
A falência do sistema político vigente é tão evidente que acho natural que não só os pensandores como a arte se debrucem sobre essa matéria. Estamos a passar por um período particularmente grave nesse sentido, o sistema de representação é muito questionado nos tempos que correm, a democracia do sistema democrático é muito questionada nos tempos que correm...

JA:
Mas não sei se é por ai. Ultimamente há uma maior necessidade dos artistas de não serem neutros, de tomarem partidos. A nós nunca nos interessou trabalhar um tema só ficando pelo tema, ou só como um exercício formal. Nunca se tratou, por exemplo, de procurar descobrir como se transporta a catástrofe para dentro da sala de teatro. Ao fazermos isso, se calhar não é inocente estarmos num período em que as tais alterações climáticas estavam na ordem do dia, falava-se do os blocos de gelo estarem a derreter... Não nos interessa o teatro sobre o teatro.

Cláudia Galhós