13.8.08

DISCURSO DIRECTO: Entrevista a Mala Voadora I


fotografia de Susana Paiva

«O decisivo na política não é o pensamento individual, mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros (disse Brecht)». Este é o extenso título da nova peça da Mala Voadora, que sugere, desde logo, o programa de intenções do espectáculo.

A política é o pretexto para uma viagem pelo mundo do espectáculo e da manipulação, que traduz precisamente essa ideia de uma certa forma de arte «de pensar a cabeça dos outros». A peça teve uma primeira versão em Serralves (Porto), em Julho, no âmbito do programa Mugatxoan. No Citemor (Montemor-o-Velho), Jorge Andrade (encenador e actor) e José Capela (cenógrafo) – a estrutura humana central da Mala Voadora – estiveram uma semana em residência para repensar a peça, que agora se apresenta numa segunda versão.

Em Setembro, o espaço O Negócio, em Lisboa (da Galeria Zé dos Bois), irá apresentar uma terceira, que resultará de uma nova residência, nessa ocasião na capital.

Este é o pretexto para uma conversa com os dois, sobre o jogo dos significados que o teatro contemporâneo compõe e abandona a cada nova visitação de uma peça que já existe mas não se fixa num objecto cristalizado. Nesta primeira parte da conversa cruzamos o passado da Mala Voadora com a peça em desenvolvimento.

A ideia da peça «O decisivo na política não é o pensamento individual mas sim a arte de pensar a cabeça dos outros», disse Brecht, surgiu de onde?

Jorge Andrade [JA]: Os nossos espectáculos normalmente surgem quando encontramos material com o qual nos apetece trabalhar. A partir deles começamos a pensar que espectáculo vamos desenvolver. No caso desta peça, quando descobrimos estes materiais estávamos de férias...

José Capela [JC]: ... estávamos a fazer um espectáculo em Faro...

JA: ... estávamos a fazer um espectáculo em Faro e encontrámos, numa Feira do Livro, duas compilações de discursos políticos no século XX. Essa foi a primeira ideia que surgiu, interessou-nos trabalhar a partir desse tipo de documentos. Paralelamente, tinha descoberto um livro que tinha saído nos Estados Unidos e que julgo não saiu ainda cá, que eram as «101 Personagens Mais Influentes Que Nunca Existiram». Quando começámos a desenvolver o projecto, pensámos fazer o cruzamento destes dois tipos de materiais diferentes. Depois, numa primeira versão do espectáculo em Serralves, à medida que fomos ensaiando, pareceu-nos que o tipo de material, o do tal «101 Personagens...», faria mais sentido para outro espectáculo e não para este. Resolvemos, então, concentrar-nos nestes discursos.

O que é que isso significa em termos do que é a relação da Mala Voadora com os textos teatrais?

JC: A última vez que utilizámos um texto de teatro num sentido convencional para fazer um espectáculo foi no «Os Justos». A partir daí temos utilizado textos pontualmente, mas nunca mais partimos de um texto convencional para fazer uma peça. Tem-nos estimulado mais esta possibilidade de abordar temas que nos interessam, trabalharmos a partir de materiais muito diversos, interessa-nos também encontrar um modo de trabalhar esses materiais que seja específico para cada espectáculo. Isto significa muitas vezes constituir equipas com profissionais de áreas muito diversas, em função dessa intenção que existe, em relação aos materiais. Em consequência de tudo isso, temos de descobrir dispositivos cénicos que sirvam e solucionem bem a apresentação do espectáculo propriamente dito. A experimentação que a Mala Voadora tem feito tem andado muito em torno destas três coisas, do material, o tipo de processo que se desenvolve a partir do material e o tipo de espectáculo. Tentamos não repetir e reinventar essas componentes da criação.

JA: Ao escolhermos esses materiais, eles acabam por não ser só um exercício formal – no sentido de como tratar esses materiais – mas também é condicionado pela temática... Quando escolhemos os materiais, aquilo que nos suscita curiosidade é, precisamente, a temática que lhe está inerente, como neste caso acontece com os discursos políticos, e a forma que encontramos para colocar em cena. Certo que os materiais têm sido os mais diversos, mas a temática também influencia a maneira de trabalhar esse material e o questionar o transporte dessa temática/material para o palco.

Isso implica processos de criação diferentes, pesquisas diferentes, formatos de espectáculo diferentes, estruturas narrativas diferentes, colaboradores diferentes... É possível fazer uma cronologia das peças da Mala Voadora a partir dos materiais que inspiram a criação?

JA: «Os Justos» foi o último espectáculo que fizémos a partir de um texto de teatro mais convencional. O seguinte foi o «Philatelie», que partiu de uma colecção de selos que tinha de quando era miúdo. Aí interessava-nos trabalhar o íntimo, a partir de um material muito pessoal, que era a colecção de selos, mas ao mesmo tempo não nos interessava que fosse apenas passar esse lado para o palco. Passei a minha colecção de selos a uma colega...

JC: ... uma historiadora...

JA: ...uma historiadora, que construiu a contextualização histórica para os selos que seleccionou, juntamente com alguns que eu também escolhi. Depois demos ao Miguel Rocha, que se encarregou de escrever uma história para aqueles selos e, a partir daí, foi uma negociação entre nós e o Miguel relativamente à narrativa que fomos construindo a partir do que tínhamos escolhidos com a Ana. No «Projecto de Execução», o material partiu de uma proposta que lançámos a três amigas, que desafiámos a organizar jantares nas suas casas, e tratava-se de procurar como trataríamos esse material e o transportaríamos para palco.

JC: O processo partiu basicamente das gravações reais, nada manipuladas, das conversas destas mulheres – Anabela Almeida, Cláudia Gaiolas, e Teresa Ferreira. Elas fazem parte do mesmo ciclo de amizade e foi uma equipa que se constituiu, como o próprio tema do espectáculo, muito a partir da utilização dessa intimidade, passava muito pela amizade entre aquelas mulheres. Toda a equipa acabou por pertencer ao mesmo núcleo de amizade. A seguir...


fotografia de Susana Paiva

JA: Penso que foi o «Hard».

JC: Foi o «Hard». Foi muito feito a partir de notícias de jornal. Tinha uma base jornalística. O «Hard» tinha três partes, o I tinha como tema a violência; no II foi as catástrofes, e o três abordava estes temas mas relacionado com a questão do turismo. Nesse fizemos um grande trabalho de pesquisa para encontrar esse tipo de materiais. Novamente, neste caso passámos o resultado dessa pesquisa ao Miguel Rocha, que produziu um texto para o «Hard II» - o primeiro quase não tinha texto.

JA: Agora sou eu a falar da parte formal. Essas temáticas, aquilo que se pretendia nos dois primeiros «Hard», era procurar como podíamos tornar visível em palco o que é invisível, ou que é minímo. E, na parte da catástrofe, como podiamos tornar o grande pequeno suficiente para poder ser apresentado numa sala interior.

JC: Deixa-me só acabar. Por isso é que a segunda parte acabou por ser uma espécie de visita guiada a um museu de miniatura de maquetes de catástrofes.

JA: A seguir, fizemos o «Desempacontado a Minha Biblioteca».

JC: Não. Foi a peça infantil, o «Teatro-Postal».

JA: Ah, sim. Aí foi... Qual foi o tipo de material?... Para conseguirmos ter aquele discurso coerente...

JC: Foram postais de viagem.

JA: Foi a primeira vez que nos aconteceu haver uma encomenda de um espectáculo com um objectivo muito específico, que partiu do Serviço Educativo do Teatro do Campo Alegre. A ideia era fazermos uma peça para crianças que reflectisse sobre o próprio teatro. Ocorreu-nos a ideia de trabalhar a noção de viagem, de uma forma muito elementar inicalmente, de como a poderíamos transportar para dentro da sala de teatro. Porque não nos interessava fazer uma visita pelo teatro com as crianças, mostrar o que era o camarim, o que eram as luzes, o som... Portanto, fomos construindo a partir de postais que amigos meus mandavam quando estavam em férias, enquanto eu estaria a trabalhar, a fazer um espectáculo. A seguir foi o «Desempacotando a Minha Biblioteca», que começámos por fazer a partir da biblioteca do Miguel Rocha, em que ele escolhia excertos de livros, a partir dos podíamos contar várias histórias, nessa deambulação pela sua biblioteca.

JC: Tudo isso feito a partir de um ensaio do Walter Benjamin, que também era interpretado em palco pela Fernanda Lapa, que tratava dos livros e das bibliotecas do ponto de vista do que são os objectos, e a relação que o coleccionador tem com os objectos que colecciona. Depois, na segunda parte é que fazia uma espécie de viagem pelo conteúdo da biblioteca de alguém. Aliás, a nossa ideia inicial em relação a esse projecto era repeti-lo muitas vezes, partindo sempre da biblioteca de uma pessoa muito diferente. Isso implicava um empreendimento muito grande porque cada vez que se escolhia alguém diferente, significava um espectáculo novo. Talvez o venhamos a fazer, mas ficou adiado...

É possivel, a partir dessas experiências, encontrar traços que caracterizem o vosso trabalho? Suscita a ideia de «found objects», trabalhados num sentido mais teatral, uma dimensão de intimidade...

JA: Não consigo encontrar uma unidade, mas isso também nos agrada. Isso significa que partimos para cada espectáculo a partir dos tais materiais que encontramos, se bem que isso exista de forma transversal a grande parte dos artistas contemporâneos, mesmo do teatro ou performance. Quando referimos materiais estamos a falar de memórias, emoções, documentos, o que for... Agrada-nos não ter isso definido previamente. O material e a temática é que vão determinar o tratamento e, por consequência, o tipo de espectáculo que irá resultar desse trabalho. Isso agrada-nos. Fica-nos sempre uma sensação de vertigem, não sabemos como o espectáculo vai sair. Não existe um ‘know how’, que possa garantir uma qualidade mínima, porque existe o risco de ficarmos satisfeitos com aquilo, que eu pessoalmente raramente fico, ou de dizer, ‘grande merda, não resultou bem’. Há peças em que dá para fazer novas versões de um espectáculo, que não resultou, como é o caso deste que estamos a fazer aqui, em residência, em que trabalhamos a partir da peça que já tinha sido apresentado em Serralves. Mas agrada-nos essa inexperiência de que, em cada uma das peças, não sabemos que tipo de espectáculo vamos ter.

Mas que procura é essa que iniciam a cada novo espectáculo?

JA: Acho que é algo tão simples quanto a vontade de fazer.

JC: Não temos como objectivo criar um estilo, nem sequer nos interessa muito a questão da linguagem. Preferimos deixar que se construa na medida do que é necessário, do que propriamente tentar estabelecer uma linguagem própria para a companhia. Preferimos esse risco de nos tentarmos reinventar, mesmo admitindo que não temos uma capacidade infinita de reinvenção. Imagino que visto de fora seja mais fácil identificar algumas linhas comuns, alguns pressupostos que se possam ir repetindo. Mas agrada-nos pensar ao contrário, pelo menos ter essa ilusão. Mas estávamos no outro dia a discutir que, em relação ao âmbito temático, há uma tendência clara para tratarmos questões quotidianas. Acabamos por lidar sempre com coisas que são do território do comum, muito banais, e por mais diferenças que se possam estabelecer entre os temas que vamos abordando, acho que se enquadram entre temáticas que tendem a ser ou de ordem afectiva, em que a dimensão do quotidiano explorada é mais afectiva, e outras em que a dimensão do quotidiano que é explorada é mais política. Talvez isso possa funcionar como uma espécie de baliza em relação aos temas que temos vindo a abordar. Talvez este enquadramento permita caracterizar o trabalho no seu conjunto.

Jorge, concordas com isto?

JA: Desculpa?... Perdi-me... Mas acho que sim (risos). Concordo! Concordo! O Capela, pela formação dele, não tem uma necessidade tão grande de uma justificação para o tipo de trabalho que se desenvolve. Dito assim parece que eu, vindo... tenho de ter um discurso definido ou uma preocupação social. Com isto quero dizer que, de alguma forma, o tipo de trabalho que desenvolvo tem de ter um objectivo concreto, não é no sentido de querer transformar o público ou que a arte tenha uma função muito concreta, que dará frutos muito concretos no confronto da obra com o público. Nesse sentido, é capaz de recair nas duas vertentes. O Capela falou da parte política e da parte social. Eu, inicialmente, tinha muito essa necessidade de sustentar o trabalho nesse campo. Neste momento, agrada-me mais, não permitindo que a temática seja ultrapassada pelo lado formal, o especulativo no confronto com as duas coisas. E ver daí o que poderá resultar.

Nesse sentido, esta peça em particular é paradigmática desse confronto entre essas duas realidades, o espectáculo do teatro e da política.

JA: Ainda hoje estivemos a discutir a parte final do espectáculo. Perguntávamo-nos o que aquela última parte significa exactamente. Somos exaustivos na procura do que significa o que fazemos. Pode acontecer neste sentido: querer dizer algo e procurar a forma de o fazer. Pode ter este efeito. Ou então haver uma espécie de...

JC: ... especulação...

JA: ... de deixar as coisas correr. Pode acontecer deixarmos as coisas surgirem, de algum modo, improvisadas e de nos surpreendermos com o significado que pode ter. Estas residências para repensar espectáculos que já foram feitos, muitas vezes não passam por grandes alterações, mas antes concentrar-nos neste objecto e pensarmos a relação entre o que fazemos e o significado que pode resultar daí. Tínhamos como intenção dizer isto, ou achávamos que significava isto, e debruçamo-nos sobre que outras pistas isso poderá dar. Não estando na nossa mão o significado todo, podemos ter uma espécie de branqueamento do significado que já tínhamos como seguro e fazermos o exercício de pensar que outros significados podem suscitar. Uma vez encontrados, esses outros significados possíveis, tentamos explorá-los. Pode até acontecer interessar-nos mais esses outros que descobrimos do que aquele primeiro, que já nos satisfazia. Este é um exercício que me agrada porque, apesar de poder ser de alguma forma demasiado doloroso – que é uma palavra demasiado piegas – apesar de ser difícil desfazermo-nos de significados que já estavam adquiridos...


Falam de uma composição a partir da redefinição, composição, do desfazer de significados... que é uma forma de pensar a criação contemporânea... Mas o que significa isso de desfazer de significados?

JC: Acho que o Jorge tem muita tendência para pensar os espectáculos e as suas estruturas quase como uma espécie de filigrana de significados...

JA: Tão filigrana, tão filigrana que... que não tem leitura... Acontece ver algo que, para mim, é muito claro e as pessoas não lêem o mesmo. Questiono-me muitas vezes: mas não é evidente? Porque para mim é evidente. Ainda ontem falávamos do «Desempacotando...». Para mim era evidente que, para além de se fazer aquela viagem pelo conteúdo por diferentes livros e fazer ao contrário do que Benjamin falava – tratar a Biblioteca como objecto de uma colecção – era pegar em excertos, fazer uma viagem pelas histórias que cada livro encerrava. Para mim, era óbvio que, tentar contar uma história a partir do conteúdo desses livros significava estar constantemente a abandonar outras histórias. Talvez o que eu andasse à procura fosse a ideia de que cada um conta a história que quer com os seus livros. E havia uma tentativa de contar essas histórias de uma forma que interrompia o que estava a acontecer. Talvez fizesse parte da minha formação mais inicial, em que havia um abandono e dizia não, desta forma não me apetece contar a história, desta forma não me patece contar história... E iamos fazendo uma viagem ao longo das diferentes maneiras de contar historias...

JC: ...e respectivo abandono.

JA: E o abandono ali seria o essencial para compreender toda a estrutura do espectáculo, pelo menos desta segunda parte. Para mim era evidente que pegando no Titanic e fazendo brrlrup brrlrup brrlrup, se estava a afundar o drama burguês, não era nada evidente para quem o via.

JC: Daí ter gerado imensos equívocos. Mas estava a falar da filigrana, porque o Jorge tem muita necessidade de justificar o detalhe em função do significado que tem. Eu não tenho tendência para ser tão minucioso em relação aos significados. Acho que a ideia geral tem de estar segura. Mas também acho que precisamente a segurança que eventualmente a ideia geral garante, pode permitir que, por vezes, se tomem decisões um bocadinho menos ponderadas, e se escolha um signifcado não tão preciso.

JA: Isso é a típica opinião de quem não está lá com o corpo a fazer [risos]. Porque se vou buscar um balão tenho de ter uma intenção. Ah não! [nota: a caricaturar], o balão vai-se buscar sem nenhuma intenção. Não! Não! Tens de pensar se vais a correr, se vais devagar.

JC: Às vezes temos essa divergência, entre a minúcia, ou a não minúcia dos significados das coisas.

Claudia Galhós