11.8.08

DISCURSO DIRECTO: Entrevista a Ignasi Duarte


fotografia de Susana Paiva

Ignasi Duarte esteve pela primeira vez no Citemor, em 2005, como dramaturgo de Roger Bernat, e regressou nesta edição para filmar uma invulgar longa metragem que se chama «Montemor» e que tem por protagonista a vila, captada a partir das pessoas que a habitam e sem que a vila apareça. «Um grande fora de campo», muito pessoal e sentimental – assim esperamos ver «Montemor».

Conta-me a tua história. Como é que uma criança de 13 anos decide, e faz, uma entrevista ao Vasquez Montalban?

Nasci em Barcelona, numa família de classe média, em que não havia quase livros em casa, não havia um ambiente intelectual. Era uma família trabalhadora, mas com muita consciência, principalmente o meu pai, de que tinha de dar uma boa educação aos seus filhos, precisamente porque ele não tinha tido, porque tinha vivido a ditadura, o franquismo, e queria que os seus filhos estudassem, tivessem uma formação, que fossemos alguém na vida. Então, cresci numa escola onde se vivia precisamente o ambiente do período de transição do regime, nos anos 80, dirigida pelo PSU, Partido Socialista Unificado da Catalunha, que estiveram na clandestinidade a lutar contra o franquismo. Tinha professores anarquistas e de extrema esquerda, era uma escola muito catalanista, embora eu não seja nada catalanista, mas a escola tinha uma mente muito catalanista. Portanto, cresci num ambiente muito liberal, dos 5 aos 13 anos. Era uma escola que queria romper tabus, culturais e religiosos, radicalmente ateia. Foi aí que os professores nos introduziram no tema da literatura, falaram-nos de Borges. Éramos muito pequenos e não entendíamos nada. Com 10 anos, tudo isto podia ter resultado no efeito contrário. É verdade que houve gente que se afastou da cultura, mas também houve casos em que resultou num efeito de aproximação, como foi o meu.

Mas o que te ficou dessa altura?

A vontade de escrever. Desde o início, escrever e criar mundos imaginários fascinou-me. Na escola também nos faziam escrever ficção, contos. Tinha um professor que era escritor de literatura infantil e incitava-nos muito a escrever. Havia uns jogos florais, um concurso literário a cada ano, e todos participávamos a escrever. Foi por essa altura que comecei a ler a série Carvalho, de Vázquez Montalbán, que era uma coisa muito ajustada aos tempos de que falo, porque através do detective Pepe Carvalho faz uma radiografia de uma sociedade em transição e finalmente utiliza o género negro para falar do social e do político. Fiquei fascinado pelo Carvalho, também por esse imaginário do Bairro Gótico, das Ramblas, de uma Barcelona que não conhecia, porque não saía do meu bairro da Gracia mas sobre o qual tinha muitas referências. Li todas as novelas de Carvalho num verão, que eram doze ou treze. E na escola, como havia estes jogos literários, decidi apresentar a concurso não um texto escrito, uma poesia ou prosa, mas apresentar uma entrevista. Desde pequeno que o género documental me interessa muito.

O que é que te interessava no documental?

A paixão pelas pessoas, pela vida e pelas histórias. Pelas pessoas que falam e contam coisas. Queria fazer entrevistas para poder conhecer as pessoas que me interessavam, é a mesma razão pela qual filmámos agora o Gibóia, porque me interessa. Queria ser jornalista para entrevistar gente importante, importante no sentido de me tocarem, me emocionarem. Foi assim que comecei a fazer entrevistas. O que se passa é que me desiludi muito cedo do mundo jornalístico e deixei-o.

E em 1997 fizeste uma instalação, «O Periodico del Arte», que é uma visão crítica, mesmo que criativa, sobre o jornalismo.

Sim. Propuseram-me fazer uma intervenção num hotel, a pretexto de um festival de artes plásticas em Barcelona. Foi no primeiro ano em que o jornal apareceu em Espanhol. Havia edições diferentes em diferentes países mas em Espanha não, e em Espanha já fechou, durou apenas um ano. Fiz um jornal apenas com os anúncios, em que o espaço das notícias estava em branco, e estavam no chão, porque tinham caído todas. Havia um espaço sonoro construído por artistas sonoros, e pessoas a ler. Os visitantes entravam e pisavam as notícias... E havia jornais em branco que levavam, muitos utilizaram como diários pessoais... Era um objecto bonito...

Mas entre o desejo de conhecer pessoas, essas ficções reais, e a desilusão do jornalismo, o que encontras?

O que eu gosto é de fazer coisas. O espaço onde as faço é indiferente. O que importa são as ideias, que podem ser aplicadas a diferentes disciplinas. Não acredito na ideia de uma pessoa se dedicar toda a vida a uma coisa, claro que te podes especializar mas eu não gosto da especialização. Gosto de chegar às coisas sem saber, investigar. Sou muito pouco constante. Aborreço-me muito. Farto-me muito rapidamente das coisas. O jornalismo chateou-me porque não ganhava dinheiro. E não podia fazer o que queria. Não fazia o que queria e não ganhava dinheiro...

fotografia de Susana Paiva

Mas como consegues viver numa área criativa, fazendo o que queres e ganhando dinheiro?

Comecei aos 18 anos a fazer coisas. Antes vivia com os meus pais. E vivi até aos 23. Aos 23 comecei a trabalhar no Canal Metro, e aí pagavam-me muito bem. Nessa altura, vivi um ano e meio muito bem.

Foi nessa altura que fizeste retratos de pessoas famosas em 30 segundos?

Entre 23 a 30 segundos. Era uma personalidade pública, muito conhecida, a fazer uma acção quotidiana, vinculada a um objecto. Estava Marta Carrasco a dormir com a cadela Salomé, Mariscal estava a fumar marijuana, o cantor Pau Riva a tomar um duche...

Mas como consegues ir concretizando ideias, quando muitas vezes partes de projectos que não estão definidos?

É muito difícil. Tomo ansiolíticos e vou ao psiquiatra. Não sei como te explicar. Não é nada especial. Tenho ideias e vendo-as. Por exemplo, no caso dos retratos para a televisão. Tive uma ideia, porque cheguei de Londres e não aprendi inglês. Cheguei de Londres, tinha 23 anos, e não tinha trabalho e já não havia dinheiro para continuar a viver à custa da mãe. Ela mandou-me uma carta para Londres, a dizer que havia este canal Metro, de Barcelona, que estava a pedir vídeo-artistas. Eu tinha esta ideia e telefonei-lhes e, conforme lhes ia falando, a ideia foi-se construindo. No dia seguinte assinámos um contrato. Foi muito rápido. Normalmente funciona assim: tenho ideias e faço propostas a pessoas. Agora tenho um projecto para a prisão de Barcelona. Faz um ano que estou a discutir com os políticos. A ideia é que os presos contem um conto popular que todas as pessoas conhecem, tipo o Capuchinho Vermelho, a pessoas que vêm de fora da prisão para os ouvir. Eles dizem que gostam muito mas acabam por não chegar a acordo entre o director da prisão com o político que é responsável pelas instituições penintenciárias. Há muitas ideias que não se concretizam, se saiem bem, se não, mas é uma ideia que conduz a outras ideias...

fotografia de Susana Paiva

Qual é a tua relação com o teatro? Estiveste pela primeira vez no Citemor como dramaturgo do Roger Bernat. Posso concluir que é através da escrita dramatúrgica?

Escrevo pouco. Sou mais de entrevistas. Tenho muitas crónicas, mas chegou um momento da minha vida em que senti que não me interessava muito a ficção. Também não leio romances, não me interessa. Estou mais interessado no registo diarístico, na realidade, mais o género da entrevista. Há muitos anos que penso que temos de reinventar a entrevista. A conversa é um género fascinante. Mas o que se passa é que não tive tempo para investigar o género. Penso que talvez um dia possa fazer um livro com entrevistas, mas pode ser que não. De qualquer modo, essa ideia agora está repartida em muitos formatos e projectos diferentes. A televisão que fiz no ano passado, com muitas entrevistas, tenho vontade de fazer rádio... Não sei se algum dia vou fazer esse livro que pensei, porque de algum modo já os estou a fazer em outros meios.

E estas filmagens que estão a decorrer em Montemor-o-Velho, o que são? Ainda não compreendi...

Eu também, ainda não compreendi nada.

Mas qual é a ideia inicial?

Em 2005 estive aqui a trabalhar com o Roger Bernat e fiquei fascinado pela vila, pelo ambiente, pela gente, da vila e do festival. E pensei fazer um documental, das pessoas, a equipa do festival, dos artistas. Partiu da ideia de pensar este deserto, que é Montemor, e como é possível um festival, a partir da vontade, da ilusão e da crença, da fé, de querer fazer as coisas. Fascinava-me pensar que podia ser uma forma de falar do que move as pessoas. É uma boa metáfora, pensá-lo como uma viagem documental para perceber o que move as pessoas, o que faz com que se activem. Entretanto, passaram três anos. Falei com o Vasco várias vezes do projecto e finalmente vim. Entretanto, a ideia inicial mudou completamente. Já não é um documental, é uma ficção.

Mas qual é a ideia da ficção?

Um tipo que desaparece e está por aí. Passam-se coisas, encontra pessoas... A ideia é fazer um filme que seja como um estado de espírito, que seja uma coisa muito de pele, sentimental.

O que tens estado a filmar?

Vim com cerca de vinte e cinco sequências pensadas. Filmámos quase todas, algumas desistimos porque já não gostava. Criámos situações e deixámos caminho livre à improvisação dos intérpretes. Eu dava algumas pautas, algumas frases, eles improvisavam. A partir daí a ideia era experimentar, improvisar, arranjar material novo, dar um salto ao vazio e vir aqui captar o que se move na vida. É uma experiência incrível e só é possível com uma equipa muito pequena, com muita paixão, com muito amor, conhecendo bem todos e tudo o que está envolvido. Estive este Inverno e na Primavera aqui, em Montemor, conheci o sítio, localizei os personagens que me interessavam. Era importante escolher, porque é muito fácil cair na dispersão, porque aqui existem muitas coisas bonitas, especiais. A ideia também era fazer um retrato da vila sem que apareça a vila. Inclusive na ficção nunca aparece a vila. É a viagem de um personagem que, no caminho, encontra outras personagens. É muito simples. Parte de casa e encontra-se com distintas aventuras e depois se verá se regressa ou não a casa.

Não estás a trabalhar com actores, apenas com pessoas normais, certo?

Tenho um actor, o Nuno Castilho, que faz a personagem, mas tenho preferência por trabalhar com pessoas normais, há mais realidade.

E filmas cenas com pessoas a improvisar. Portanto, a narrativa final vai resultar da tua montagem?

Sim. Por exemplo, vamos filmar a Banda Filarmónica de Montemor, como se fosse uma procissão pela rua, de noite, uma marcha fúnebre, que chama ‘A Última Agonia’. E para nós, mais do que a música, interessa-nos filmar como afinam, os preparativos, antes de começarem a tocar. Gosto muito desse momento antes, essa ideia dos preparativos, das pessoas que se preparam para fazer algo. É algo que normalmente não explicamos, que não mostramos. Começamos sempre com as coisas a partir do momento em que funcionam... A ideia é que a película resulte numa experiência muito pessoal, que não se definam muito as coisas. Por isso me custa expressar e defini-las verbalmente. A ideia é que seja um grande fora de campo, em que quem vê não entenda muito bem o que se está a passar. O importante não é o que se está a passar mas o que isso provoca nas pessoas. Há uma sequência de dois meninos que jogam xadrez e não sabes muito bem o que estão a fazer, mas o facto de estarem a jogar xadrez é perfeito para ver as caras.

Com tudo isso, como defines aquilo que fazes, quem és?

Pedi ao Gibóia para se definir em três palavras e ele disse: El Corte Inglês.

E tu?

Em quantas palavras?

Três.

Muito dificil. Eu estou aí. São três palavras. Eu Estou Aí.

Claudia Galhós