9.8.08

DISCURSO DIRECTO: Entrevista a David Marques


fotografia de Susana Paiva

Um corpo à procura, onde a palavra também ganha um corpo, em diálogo com o outro, o de carne e sangue do intérprete. «Motor de Busca» apresenta um novo criador em início de percurso artístico. David Marques fala de um corpo à procura de quem é, e nesse questionar desenha caminhos ainda erráticos, por onde se lança e se perde, construindo um mundo de sentidos múltiplos que constantemente se destroem.

«Motor de Busca» é a tua segunda peça. Conta-me o teu percurso.

Venho de Torres Novas. Comecei a fazer dança aos 5 aos, e até aos 17, na escola, duas vezes por semana. Interessava-me a abordagem contemporânea, que havia na escola, e o facto de algumas pessoas, que tinham saído para a Escola Superior de Dança [ESD], que voltavam, mais actualizados. Mesmo não estando numa escola com intuito profissionalizante, acabei por ter contacto com uma realidade mais vasta, desde a minha primeira classe e até ao 12 ano.

Em que momento começaste a pensar na dança como carreira?

Nunca pensei muito nisso. Apesar de Torres Novas ser uma cidade pequena, os meus pais nunca puseram isso em causa, e eu próprio nunca me coloquei muitas questões. O meu pai trabalhou em rádio muitos anos, havia alguma abertura em casa. Para mim não havia obstáculo nenhum e isso foi sempre natural.

Mas que ideia de bailarino tinhas?

Era uma ideia muito misturada. Tinha a ideia que ser bailarino era criar, e criar era também dar aulas, acho eu... Não via as coisas espartilhadas, também o contacto que tinha com esse mundo era assim, quem me dava aulas também criava e dançava. Entretanto, fui para a ESD com 17 anos e acho que, na altura, a minha intenção era encontrar um sítio que, com a segurança de 4 anos, pudesse aprender. Era também a ideia de ir para Lisboa, me permitir ter contacto com outras coisas.

Nesse percurso, que encontros, que descobertas, te foram determinantes?

Dentro da escola houve dois ou três momentos particularmente importantes, e principalmente com coreógrafos. Com a Sílvia Real, com quem trabalhei no segundo ano, e foi muito importante porque integrou a palavra. Gosto muito de escrever, editei com a minha irmã, quando tinha 15 anos, um livro em edição de autor. Portanto, essa relação com a palavra já existia. Esse trabalho com as palavras fez-me perceber que as estas podiam estar no meu trabalho e de uma forma que me agradava, que não era literal. Depois houve o Francisco Camacho, com quem trabalhei no quarto ano. E também foi importante o encontro com a Patricia Milheiro, que faz a assistência ao meu trabalho, e foi minha colega e vinha com um outro olhar. Para além disso, foi ver muitos espectáculos.

Mas como é que chegas a este imaginário conceptual, em que a palavra tem um papel importante no diálogo com o corpo? Que está já na primeira peça que fazes na Eira.

Estive muito tempo em residência, a experimentar, na Eira. No meu trabalho de final de curso, na escola, utilizava já uns cartões muito parecidos com estes e utilizava palavras, e fui orientado pelo Francisco. Foi uma experiência que, ao nível da orientação, correu muito bem. Mantivémo-nos sempre em contacto depois disso, senti alguma disponibilidade da parte dele, e eu tinha muito interesse em continuar aquele trabalho que tinha feito na escola a solo, mas não tinha onde trabalhar. Em conversa com ele, surgiu essa possibilidade de fazer a residência na Eira e talvez isso tenha sido importante. Quando comecei a residência ainda nem tinha acabado o curso, foi um mês antes, mas tive tempo suficiente para me desligar de umas coisas e me ligar a outras. Mas foi, acima de tudo, para experimentar.

fotografia de Susana Paiva

E o que experimentaste?

Peguei nesse trabalho e tentei, em termos formais, tornar aquilo num solo, colocar a hipótese do que seria se fosse um solo. Claro que deu imensos problemas, éramos quatro pessoas a fazer originalmente. Mas decidi abordá-lo com essa questão formal, e nesse processo surgiram algumas coisas que me apercebi que eram importantes e que me interessava trabalhar, que tinham que ver com o procurar qualquer coisa de certa. Era esta ideia de estar à procura de alguma coisa mais acertiva. Acho que tem muito de auto-referencial. São as coisas que me apetece trabalhar.

Mas o que significa isso de acertivo?

Tentar perceber como é que eu conseguia acompanhar com o corpo qualquer coisa que era uma procura minha, interna. Que era um pensamento. Era esta ideia de procurar qualquer coisa o mais próxima possível de um pensamento qualquer, que é algo muito simples. Logo no ínicio do processo tinha muito presente esta ideia de coração, mente, instinto, corpo, procura, de construir e destruir alguma coisa. Isto existia desde o ínicio do trabalho. Tinha já os cartões, mas não sabia que palavras ou que conteúdo estava a procurar exactamente. Mas a pesquisa do corpo tinha a ver com o procurar e com estes elementos. Depois abandonei isto durante muito tempo, fiquei só com movimento, depois procurei palavras... Acabei por encontrar outras palavras a partir do corpo. Depois entao surgiu essa primeira versão de «Motor de Busca», que era aquele primeira peça...

Que era mais determinada, mais limpa e cirúrgica.

Mas também era mais preparada. Foi uma coisa que, com alguma distância, não me agradou tanto, mesmo em termos cénicos, eu tinha aquelas palavras que, com muita flexibilidade, podiam ser lidas como sinónimos ou derivações, mas estavam muito marcadas no espaço, que desenhava uma linha muito definida. Acho que isso tornava o trabalho mais fechado. Foi a leitura que fiz. Talvez por serem palavras demasiado acertivas... Percebi que tinha de procurar mais do que estava a procurar naquela peça, acabava por resultar mais num sentido de que as estava a seguir do que propriamente a procurar. Talvez fosse mais interno. E não havia essa necessidade de mesmo cenicamente trabalhar esta procura, da construção, da indefinição, talvez fosse mais um pensamento único, repetido. Entretanto, percebi que não era tanto isso que me interessava, talvez tenha surgido pela vontade de querer aprofundar a peça.

Tudo isso que tens procurado, o que significa relativamente àquilo que te interessa desenvolver como artista? A presença do corpo e da palavra, com uma ligação interior e habitada de perturbações e um pouco desarrumada, ou perdida? Deambulante...

A linguagem é muito importante. Acho que é algo que, se calhar, vou resolvendo. Continuo a achar que esta possibilidade de trabalhar sentidos e usar a linguagem, é quase como um obstáculo à percepção. Acho isso acontece até um pouco por oposição ao corpo, ao meu objecto. Acho que esta ideia de que a nossa comunicação, naturalmente, é tanto física como verbal e questiono por que razão em palco, por vezes, se entende que se deve usar apenas o corpo? As palavras têm um potencial tão grande, graficamente, cenicamente. Posso criar tanto com isso, e também constroem uma relação afectiva... Acho que tenho ainda muito que resolver.

Mas o corpo, por não ser verbal, abre a possibilidade de múltiplos sentidos. A palavra, que também tem esse potencial, mais facilmente encerra o corpo num só sentido. No teu espectáculo, quando escreves, «só queria uma coisa: escapar-se», no outro lado do palco tinhas deixado um rasto em que estava escrito: «nem surpresa/ nem violência/ tu». A surpresa, como talvez a violência, são elementos que nos habituámos a esperar encontrar num espectáculo e que tu frustas ao espectador, até porque é possível adivinhar muitas vezes as palavras que vão sendo reveladas...

A escolha das frases teve muito em conta procurar possibilidades de como elas se podiam complementar, o que vamos lendo a cada vez. Depois dentro da própria frase há tipos dispersos, e formas diferentes de me relacionar com a frase. Acho que há várias coisas que foram mudando, que fui descobrindo até há pouco tempo, novas possibilidades.

O que significa para ti o estar em cena, naquela peça?

Vejo como uma espécie de confissão, mesmo que sem um carácter religioso. A última frase vai um pouco nesse sentido, «escolher as palavras para confessar». Se bem que podes não conseguir isto tudo, porque não chegas a ver «escolher». Ao mesmo tempo, é uma libertação, uma espécie de um espaço intermédio, temporal, entre o passado que eu sugiro nas frases e o futuro, que também sugiro. É como se fosse um tempo zero, de te libertares, daquilo que aconteceu, daquilo que achas para onde vais e, ao mesmo tempo, comunicares tudo isso. Essa ideia de comunicar para alguém ver é importante.

E é assim que entendes o lugar do espectáculo? Um espaço entre? Nesta peça é sugerida a possibilidade de uma história, uma personagem que percorre um caminho, que é interior, de uma vivência interior.

Há realmente uma personagem, mas não é pessoal. Há a ideia de um jovem, que não se pode distanciar de quem sou, que sou novo. Eu durante o processo usei muitos elementos da dramaturgia do «Paranoid Park», como ferramenta de trabalho. Há essa ideia do jovem, da juventude, do erro, a ideia da segunda oportunidade. De alguma coisa de que fomos protagonistas, voluntária ou involuntariamente. E tudo isto é projectado no futuro. Mas são ideias que trabalhei no processo de trabalho e que foram ficando assim como uma espécie de subtexto, que me ajudou para dar coerência à peça e serviu para ir buscar outros elementos, como o som, o figurino.

Mas falaste em confessional. O que é que confessas?

Tenho muito esta ideia do acidente, esta ideia de te envolveres involuntariamente em alguma coisa, para depois te libertares disso e poderes falar disso, mas não há nada concreto. Acho que há ali muitos pontos de contacto com questões minhas, é provável que sim, mas não fui à procura delas. Essa ideia da confissão não é usada como recolha de material de experiências minhas claras.

Como é que vês o território onde te estás a situar, a partir de uma ideia de dança muito aberta?

O trabalho de corpo é o meu objectivo. É perceber qual é o corpo. Mesmo quando estou com os cartões, estou a perguntar que corpo é, e como é que aquele corpo se vai transformando noutro, dentro da peça, e depois noutro... É um trabalho sobre o corpo e a minha exploração em estúdio tem a ver com o corpo, com o movimento, que potencial comunicativo o meu corpo tem. Acho que isso é um trabalho coreográfico da dança.

E que corpo é esse?

Este corpo agora é um corpo à procura. Se calhar é muito reflexo desta minha postura ainda, posso tentar caracterizar determinados elementos, consigo encontrar algumas características, mas não sei se é o mais importante. É um corpo à procura, e muito recolhido.

Claudia Galhós