26.7.08

EXERCÍCIOS do OLHAR 1: O sentido poético da morte

«Boxeo para celulas y planetas»
Angélica Liddell
25 de Julho de 2008
Praça da República

fotografia de Susana Paiva

Qual a fronteira entre um gesto que desenha um afecto, no traço poético do existir, e a convulsão interior que emerge à superfície da pele em sangue, no peito arranhado, nas pernas espancadas? Essa origem profunda da dor, que nos aproxima da morte? Qual a distância que nos faz olhar para a humanidade como uma abstracção, diluir a compaixão pelo outro, numa generalidade que apaga os rostos num colectivo onde o individuo desaparece, enquanto ser de carne e osso? Onde está a vida, nessa intimidade tão tentadora com a morte? E onde fica o teatro, por entre este desassossego? E o corpo? Doente, maltratado, dilacerado, diluído em lágrimas ou em desatenção...
O corpo é, em Agélica Liddell, o lugar da tragédia antiga, lugar de tensões e conflitos, que espelham a ruína que corrói as entranhas do viver. E do viver hoje. É um corpo de indivíduo que leva para cena, um corpo intensificado nessa consciência do sentir. É um corpo político, implicado com a realidade, reactivo. É o corpo da inquietação, em desassossego. O mundo trespassa-o como uma arma mutiladora. É o lugar do simbólico e o lugar do ritualísito, ancestral, enterrado na terra, húmido, a apodrecer e a desfazer-se em pó. Próximo da natureza. E é um corpo de fantasia, de histórias. Sempre a meio camimnho entre uma crua realidade e a efabulação, entre o céu e a terra, entre a matéria e o espiritual, entre a dor e a felicidade. Entre a vida e a morte. Ou talvez não nesse espaço «entre», mas nos opostos sempre em simultâneo, sempre em desequilíbrio e pulsante.
Em «Boxeo para células y planetas» vislumbra-se uma personagem, um enigmático Pascal Khan cujos rastos que foi deixando da sua vida – os cadernos que foi preenchendo com recortes de jornais, colagens, desenhos e escritos – servem como uma espécie de guião para seguir um percurso que propõe um olhar desencantado sobre a vida. Ou talvez, melhor dizendo, sobre a morte. É dessa contemplação que nasce a melancolia.

fotografia de Susana Paiva

No Citemor, a performance apresenta-se numa das salas da Câmara Municipal. Antes ainda de começar, o público reunido na Praça da República pode ver uma silhueta magra, de cabelos e roupas negras, a olhar para baixo a partir de uma das janelas. Logo nesse compasso de antecipação, há um olhar trocado que se inicia: Angelica observa o público que irá entrar. Não é por acaso. É essa a comunicação que as suas obras estabelecem com os espectadores. Ao longo de toda a peça, há essa consciência de estar em conjunto, e o reconhecimento que se efectiva pelo olhar, que não é unidireccional, mas se faz em dinâmica.
O público – 38 pessoas sentadas em mesas dispostas em forma de rectângulo aberto – olha-a mas é também olhado de volta. Não há luzes a construir ilusões, nem a transportar-nos para fora do lugar onde estamos. Tudo é tangível e respira perante o olhar. Estamos todos ali, implicados num momento partilhado, que nos oferece a hipótese de regressar ao interior e nessa viagem, de recuperação da consciência do corpo – do nosso e do outro –, recuperar a humanidade e voltar a sentir, receber a dor. Sem contemplações. Em melancolia.
Aqui, o enquadramento institucional que acolhe a performance ganha um sentido particular, pelo carácter eminentemente político que a peça tem. O arranque instala uma das teses centrais que a obra defende: «o medo da morte como origem da melancolia». Arranca ao som de «Forever Young», dos Alphaville.

«Let’s dance in style, lets dance for a shile
Heaven can wait we’re only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We don’t have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music’s for the sad man(…)

Ao mesmo tempo, Gumersindo Puche – cúmplice artístico de Angélica – vai-se sentando, pausadamente, frente aos espectadores. Recolhido em si. E tão próximo de quem o está a ver...
Ela enquadra o espectáculo logo de seguida: «Este é o lugar dos políticos. E o que vamos fazer é oposto a isso. A política baseia-se na mentira. E o teatro tem como máxima aspiração a verdade.»
Nessa situação intermédia, entre a representação e a presença [ver texto sobre «Lesiones incompatibles con la vida» do Citemor 2007] – que a enquadra no contexto da criação contemporânea pós o pós-modernismo e que já integra uma visão da vivência intercultural do mundo e da noção de fronteira (em sentido cultural, geográfico e político) como lugares não apenas intermédios e de mobilidade e transição mas de dupla exposição – este momento que se organiza em torno de uma construção que supostamente se desliga do real, instaurando uma nova lógica, possível apenas segundo critérios e os códigos das artes performativas, propõe precisamente interromper essa tendência para a constante condição de espectador – tão presente no quotidiano. Em contraponto, instala, por um instante, um momento de resistência, de partilha, de reflexão, de construção de sentidos. A sua aspiração é por isso mais arcaica, simbólica e ritualística, apesar de todos os recursos contemporâneos. Essencial.
Vai precisamente neste sentido a introdução que Angélica faz: «Não criámos nada. Isto não é uma obra de arte. Vamos buscar ou reproduzir os cadernos que Pascal Khan deixou.» Ele que espiava as crianças nos jardins e lhes dizia que iam morrer. Ele que sonhava com um exército de crianças suicidas.


fotografia de Susana Paiva

A afirmação – «não vamos criar nada...» - postula o manifesto teatral de Angélica Liddell: a vida não está na vida, onde apenas está o fingimento, o artificalismo, o mundo das aparências; a vida ainda possível, a conseguirmos tocá-la, está nesse lugar que convencionámos da arte, onde esse faz-de-conta pode ainda ser interrompido para dar lugar a uma respiração mais próxima do corpo vivido, doente, violentado. Mas apesar dessa estética de procura de algo que seja honesto, sentido, na crueza da forma, pouco ou nada ornamentada, tudo é coreografado: cada palavra, cada gesto, cada acção, cada cruzamento do olhar, cada inclinação do rosto... É assim que constrói uma partitura de imagens, sons e movimentos que desenham um poema que é visual e performático e onde sobressaem frases e fragmentos que se vão combinando para se organizar num mundo singular que caracteriza o universo sensível de Angélica: a fragilidade da condição humana, essa consciência de que «somos feitos da mesma matéria que os cadáveres», temos de «resistir», «resistir de pé» e que «somos a presença de uma ausência».
O corpo de que estamos reféns – como Jacqueline du Pré como exemplo máximo dessa tragédia quando continua a tocar violoncelo quando já tem esclerose múltipla – é esmagador porque é reduzido a pó, ou a baratas (com referências temporais distintas que ligam Dostoievsky a Kafka e às atrocidades actuais), quando comparado a toda a matéria que nos rodeia e que nos vai sobreviver – as mesas, as casas, as coisas, as coisas, as coisas...
Esse tempo em que ainda permanecemos e que parece um movimento, é como esse instante de olhos fechados em que nos podemos imaginar como não existindo, enquanto estamos aqui. Pesa. Pesa tanto que imobiliza o tempo, que parece cristalizar. É como se essa dimensão tempo desaparecesse, porque o mundo não muda. É como os cadernos de Pascal: têm recortes de jornais de há dois anos, e «continuam os mesmos a ser fodidos». Como essa história que Angélica conta de um amigo que foi à Guiné e alguém lhe disse que «o suicídio é coisa de brancos», porque os pobres morrem de coisas muito mais simples, como a fome ou o frio... A vida está ali, naquela sala, enquando no quotidiano o que há é constante exercício de fuga. Como se pudéssemos fugir da dor, da morte e do sofrimento que nos atinge a carne, simplesmente por mero exercício de fingimento e ilusão.

Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever

Claudia Galhós