27.7.08

EXERCÍCIOS do OLHAR 2: Natureza Morta

«Boxeo para células y planetas»
Angélica Liddell
26 de Julho, Praça da República

fotografia de Susana Paiva

Ela é a atracção pela morte. Ele é a melancolia. Ela é Angélica Liddell. Ele é Gumersindo Puche. É nela que o corpo se consome, se esvai, se maltrata. Porque cada gesto é uma afirmação de estar vivo. E aqui surge a ironia e o absurdo. Entender cada gesto como uma afirmação de estar vivo, é aceitar a mínima banalidade, ou a máxima desumanidade, como sinal dessa significação de afirmar a vida. Matar alguém é, neste sentido e nesse gesto, dizer ‘estou vivo’.

Vivemos um momento em que a análise de espectáculos, habitualmente definida como crítica, existe cada vez menos e, quando ainda assim existe, é feita superficialmente, tocando apenas muito ao de leve e como mero juízo de valor, uma obra – seja de literatura, artes performativas ou o que for. Somemos a isso, esta qualidade de erosão do sentido do gesto que, por natureza, caracteriza as artes efémeras/performativas e que deixa apenas imagens em neblina, em ameaça de dissipação, na memória. Por tudo isto, propomos o exercício de um olhar continuado sobre uma mesma peça – neste caso «Boxeo para células y planetas» de Angélica Liddell – para procurar que imagens e que sentidos se revelam nesse regressar ao mesmo espectáculo, voltar a pousar sobre ele o olhar.

Desde logo, há um enquadramento particular da peça que justifica esta escolha. Articula entre elementos de natureza plásticas – desde os objectos contruídos, a maqueta de uma floresta feita de um monte de terra e pequenas árvores em cima que ocupam o tampo de uma mesa rectangular, as colagens que misturam notícias de jornais e desenhos e frases escritas... – com outros de literatura, da filosofia, da música, a marcante presença física. A gestão destes materiais cria uma narrativa fragmentária, não linear, cujo sentido se constrói a partir do interrelacionar do que a compõe, de forma subjectiva e parcial, pelo espectador.

fotografia de Susana Paiva

Essa ausência de uma linearidade, de uma história com princípio meio e fim, mesmo que sugerindo muitas vezes que há uma história que a sustenta – a de Pascal Khan – permite que, a cada nova noite, se tornem visíveis elementos e significados que na apresentação anterior não foram percebidos. No caso particular desta peça, esse aspecto é ainda mais determinante pelo facto de haver uma margem de improvisação, sustentada pela dinâmica criada com os espectadores, que completam a rede de comunicação específica desse momento.

A energia, o grau de exaustão e de entrega a que ambos os intérpretes se lançam (em particular no caso de Angélica, que é o corpo que representa a plataforma do indivíduo, que sente, que sofre, de carne e osso), juntamente com a vivência consciente do momento – ali e naquele instante em particular com aquele grupo de pessoas – faz com que cada noite produza atmosferas de diferentes valores.

fotografia de Susana Paiva

Seguindo o guião deixado por Pascal Khan, como os espectadores são avisados desde o início, tornando-se ambos meros executantes de um percurso imaginado por outro e expressando perspectivas e pensamentos produzidos por outro – meros instrumentos de transmissão e/ou incorporação de um testemunho – eles acabam por anular a sua dimensão de indivíduos, de pessoas ou personagens de uma história, para se mtornarem equivalentes aos materiais que com eles partilham a cena (ou contracenam) para contar uma história de um outro alguém – a única personagem real é aquela que está ausente, que por acaso é supostamente o criador do espectáculo, que é uma ficção ou é um pequeno boneco frágil e de papel, que simboliza o Homem.

Simbolicamente, eles passam a fazer parte da ideia do colectivo, que não sangra, onde não existe o indivíduo, como se fosse possível que tudo aquilo que ali reproduzem, a dor que Angela se auto-inflige, não fosse real – quando claramente é – porque faz parte da mesma família de materiais necessários para narrar a história e as ideias daquele homem, Pascal Khan.

fotografia de Susana Paiva

Este é o complexo jogo. Um jogo de espelhos dentro de espelhos. Da realidade dentro da realidade ou da ficção dentro da ficção. Ou da realidade/ficção dentro da realidade/ficção. Tudo isto se torna particularmente relevante numa cena inicial que ganha um significado diferente quando vista pela segunda vez.

Angélica armadilha o corpo de Gumersindo de fios e uma estranha matéria verde orgânica, que parece musgo, que lhe prende ao peito e nos cotovelos e depois faz ligar esses fios a cada uma das pontas das mesas, termindo por lhe dar de beber, deixando também escorrer água pelo queixo e peito como se regasse uma planta. É como se, desse modo, criasse relações entre dimensões e realidades anteriormente separadas, e que vamos assistir a acontecer ao longo de toda a peça. É esta a estrutura que vai percorrendo todo o espectáculo, e que vamos observando a partir de outros suportes, incorporada pelos dois, ou através de colagens, através de vídeo... Nesse sentido, eles não são muito diferentes do que qualquer outro material que compõe a peça e a ironia é esse constante conflito e aparente contradição entre o sofrimento que é real – nas notícias, no corpo de Angélica – e sendo assim tão gritantemente real, desassossegado, tão literal, existe diante de nós – ali como na vida – como se nos fosse tão brutalmente distante quanto essa dor que ecoa pelo mundo, que nos invade o quotidiano, e a que nos tornámos indiferentes.

Há uma qualidade do corpo diferente entre Angélica e Gumersindo. Nela está a pulsão para a morte. A vertigem, a sofreguidão, a náusea, a exaustão. Nele está a melancolia, o alheamento, a interioridade. Mas no final, é o corpo inanimado dele que se torna terra onde ela planta dois caroços de cereja, que cobre de terra e rega com água. No final, somos todos natureza morta. Como algumas imagens da peça simbolicamente nos suscitam, essa em particular. Morta e tão sedutora.

Claudia Galhós