28.7.08

EXERCÍCIOS do OLHAR 3: O caminho das estrelas

«Boxeo para células y planetas»
Angélica Liddell
27 de Julho, Praça da República

fotografia de Susana Paiva

Pousemos agora sobre as sombras, os pequenos objectos, os bonecos recortados a papel, e o pormenor. Dos gritos, ofensas, provocações de «Boxeo para células y planetas» resta, no final, pó de estrelas que vislumbramos no céu – o horizonte mais amplo desse elo de ligação proposto pela personagem Pascal Khan, que começa por unir as células ao homem e o homem ao universo.

Nessa dimensão menos imediatamente perceptível da peça que, numa visão mais literal, parece ser uma contínua ofensa, encontramos a fábula. E nas estrelas, a possibilidade do sonho. A natureza morta surge então como origem de vida. E aí, por entre o fogo, a terra, o ar e a água, a possibilidade de que a melancolia, que permanece como paisagem de fundo, se interrompa por um instante para um sorriso.

Esse outro lado, o da possibilidade da beleza e o do tocar a alegria, está implícito nos sucessivos paradoxos que compõem o espectáculo e está presente no combate que se instala, entre artistas e espectadores, do princípio ao fim. Porque se o homem «é a presença de uma ausência», a vida é a possibilidade da morte, e a imoralidade com que Angélica fere o público transporta o desejo de uma reconciliação e aspira à moralidade.

fotografia de Susana Paiva

O visível remete para o invisível. O espectador é duplo, realiza um exercício do olhar e de participação, porque é convocado a implicar-se de forma imediata, sensorial e empírica – emocional – e, numa outra dimensão, a um nível mais simbólico, que o lança para fora da experiência imediata, daquele tempo e lugar, como o homem em direcção ao céu.

«Boxeo...» começa pela instalação da proposição principal: a morte é a origem da melancolia, ou do pensamento. E a inteligência nasce da emoção. Desde logo, é dado por essa ideia de culto da eterna juventude e da música «Forever Young». O percurso é feito a partir do real, da terra, da carne, do sangue, das histórias pessoais e das notícias de jornais. E, paradoxalmente, todo esse real é exposto como proveniente de uma ficção iniciática – a do boneco de papel Pascal Khan que Angélica e Gumersindo encontraram, um dia, num dos passeios de várias horas que dão por Barcelona, esquecido numa escada, depois de ter caído da mochila de um rapaz que saía da escola.

fotografia de Susana Paiva

Desde o início é sugerido o universo, e as estrelas, como horizonte de possibilidade do olhar, e da vida. No final, quando tudo e todos somos ficção – pequenos bonecos de papel mortos alinhados sobre a terra disposta, desde o início, entre velas acesas, em cima das mesas dos espectadores – ainda a morte, a melancolia e a natureza nos acompanham, num comovente jogo de sombras, que os dois manipulam por detrás da maqueta miniatura da floresta das quatro árvores.

Os movimentos de Angélica e de Gumersindo, com as silhuetas projectadas como sombras ampliadas no ecrã ao fundo, tornam-se lentos, pausados. Sopram nuvens sobre o boneco que é sentado por baixo da primeira árvore, os joelhos de papel, frágeis, dobrados numa pose de melancolia; sopram vento nos lábios para o segundo boneco que deixam com o olhar sobre o horizonte no cimo da segunda árvore. Mas se tudo parece um terno e bucólico jogo de miniaturas, comovente, logo se transforma. Na terceira árvore, há um pequeno corpo que desaparece enterrado por baixo das raízes, e termina – levemente – com o último que pende pelo pescoço num ramo e termina imolado pelo fogo.

fotografia de Susana Paiva

Nem por entre uma redução da escala, do tom, do gesto, da energia..., podemos escapar? Por baixo do boneco em cinzas, Angélica lança água sobre a terra, que escorre até ao chão. O fluxo de ligação permanece dinâmico, como o sangue que ainda corre. E termina com um vídeo, onde um casal de idosos se entrega a acções e gestos que estão já fora dessa moldura da verdade. São os «bufões», que acabam com as mesmas máscaras brilhantes com que Angélica e Gumersindo iniciam a peça, a brincar com dois objectos dourados que sugerem a imagem de um foguetão e um planeta. Depois de toda a viagem – depois da célula e do homem – a última dança leva-nos em direcção às estrelas. E, como a música que lhes dá o tom ao movimento, chega o sonho.

«When you wish upon a star
your dreams come true»

Claudia Galhós