26.7.08

DIÁRIO do Astronauta: 25 de Julho

Marte, 25 de Julho de 2008

A todas as baratas. Puta que vos pariu!
Onde vais do medo de morrer até que o mar te engula? Eu ando a pairar, levemente, sem gravidade.
Dizem-me da terra que por aí, na Câmara de Montemor, se fala de Marte. Que por aqui não há água, o que seria boa notícia para todos aqueles que morrem afogados aí em baixo. Dizem os jornais...
Eu daqui vos digo: vistos de cima, parecem-me todos baratas a correr perdidas em todas as direcções, sem chegar a lado nenhum. Ah! Explicam-me que também no espectáculo falaram disso... das baratas. Eu bem vos vejo. A mão estendida a esgueirar-se sorrateira para baixo das saias curtas, a seguirem esse caminho estreito, e as pernas a descruzar para deixar entrar... É o corpo. Estão podres por dentro. Morrem mais um bocadinho a cada dia que passa.
Já lá vão trinta anos. Espreito-vos daqui de cima desde então. Desta vez decidi não calar aquilo a que assisto. Espio cada movimento vosso aí em baixo e prometo contar tudo. Bem sei que para efeitos de justiça, devo estar aberto às provocações de todas as baratas. Sim, todos vocês! Pequenas criaturas insignificantes que se esperneiam aí por baixo. Por isso vos deixo o meu contacto. Façam favor de escrever. Contem-me os podres, os delírios, as histórias, os segredos, os sonhos, os medos, os fantasmas, as ameaças, as reacções, os sentimentos, os desejos... Desafio para um combate. Tentem alcançar as nuvens. Levantar a cabeça e chegar até mim. Neste planeta. Desafio a que ousem dizer o que pensam. Isto é... se é que pensam. Ousem pensar... Talvez seja mais correcto. O que pensam de tudo isto? Da vida? Da morte? Do Citemor? De Montemor-o-Velho?
O que é o teatro? Que lugar é esse? O do espectáculo? Esse lugar por onde gostam de se embrenhar, perder... Vejo-vos aí apressados, a andar pelas ruas, e a vida a tocar-vos o corpo e às vezes parece que nem dão por ela. Desatentos. Ignorantes. Gostava que alguém me dissesse... Por que tudo isto nos importa?
Dizes da tua boca palavras que escondem essa morte que existe em ti. Cada vez que suspiras desapareces mais um pouco. Chamas por uma sombra que se inclina sobre o teu rosto e te pede um segredo. Desejo de carne. Desejo de corpo. Daqui de cima, a pairar, o corpo também deseja. Mas estou longe. Por isso também é mais fácil falar.
Ouço a puta madre na esquina de uma rua escura e inclinada. As pessoas acumulam-se às portas dos restaurantes. Algo está diferente. Repartem-se pelo D. Dinis, O Mosteiro, Pizzaria O Avô - quero uma pizza Tropical, se faz favor! - e A Grelha. A Moagem está de férias mas também será frequentado. Mas mais para a frente. Há por aqui novos movimentos, malta em residência no Centro Náutico - a minha idade permite-me recordar a polémica sobre a construção do espaço. Um milhão de contos e tantas críticas... A mim já me escapam algumas. É da PDI. Ou talvez não. Talvez seja da falta de oxigénio. Há ali um espelho de água. Isso sim, a malta gosta. E de ir à pesca.
Escuto que desses lados, de Montemor-o-Velho, se abriram as entranhas para gritar que se fodam as baratas que somos todos nós, ou pelo menos todos aqueles outros que levam um dedo apontado ao peito por alguém que os acusa de serem baratas. Há um homem e uma mulher que se aproximam da velhice numa cama de lençóis brancos em plena paisagem verdejante, noutra imagem estão com máscaras prateadas. Cada gesto é um sinal de desejo? Havia um homem que guardava impressões do mundo em cadernos com recortes de jornais e desenhos à mão. Procurava assim encontrar os sentidos improváveis para a existência absurda. Esse homem chamava-se Pascal Khan, e sonhava com um exército de crianças suicidas. Dizem-me que daí vêm as vozes que testemunham a vida deste homem, com a espanhola Angélica Liddell. Ouço-a a arranhar-se daqui de cima, e a pele a mudar de cor. A matéria do ser...? A Rosa dos Ventos se deixou animar pela Irmã Lúcia. Aguardo notícias dessa terra do teatro.

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