30.7.08

DIÁRIO do Astronauta: 29 de Julho

Saturno, 29 de Julho

A escuridão inevitável. O casarão é antigo. A madeira carunchosa. As paredes a descascar. O tecto a ceder. Os rostos concentrados no ecrã aceso. Embrulhados no negro da noite. Os corpos inclinados sobre as mesas. Cada um espera, lentamente, o momento da fuga. Encolhem-se nas cadeiras. Aninham as pernas por entre os braços. No dia seguinte, não conseguem sair até o corredor estar em silêncio. Espreitam primeiro. Depois dão um passo para fora. Há uma das portas que dá para um armazém. Empilham-se gaiolas. Umas em cima de outras. Cada uma com um homem lá dentro. Mal se percebe o que dizem. Mas deixam escapar a voz interior. E a cada som que pronunciam, desenham-se no ar as imagens de quem são.
Amigos, estou de volta ao jardim, onde me entretenho nos dias monótonos. Por aqui deixo descair o olhar em direcção ao sono profundo. E assim, nos olhos fechados, vejo-vos a todos nessa escuridão inevitável.
Os homens dentro das gaiolas. Hoje é dia de nostalgia, e percorro esses corredores negros, até aceder a essa divisão onde estão aprisionados. A Susana Paiva que pisca um sorriso fotográfico, por entre silhuetas de sombras que interrompem o azul do céu. Ao lado dela, a Lena Pardal dos Santos. Nome apropriado. É a pardal mais popular de entre os homens (seria mais adequado com H maiúsculo) neste quarto. Todos a conhecem, por isso mal sai à rua em Montemor, a pardal-mãe repete os cumprimentos – bom dia, bom dia, bom dia – e todos os outros que, a cada novo ano, por aqui passam, vão mandando cartas, de lá daquelas lonjuras para onde desaparecem. O Armando Valente canta baixinho, conta histórias num sussurro. Mal se percebe o que diz. Mas todos em seu redor baixam o volume e aproximam a orelha para se escutarem e o ambiente torna-se mais tranquilo. Até que irrompe em exaltação, e agitam-se os movimentos de todos em seu redor. Nem o Patinho, na serenidade apaziguadora, consegue repor o temperamento terno da conversa. O Vasco Neves bem queria escapar-se, regressar ao andamento habitual, de um lado para o outro, visto sempre de passagem, em direcção a uma das salas de espectáculo. Mas as gaiolas não permitem o movimento e tem de esperar. Ficar ali, fechado, como os outros. São relações de família, há anos que andam nisto. Nestas coisas do teatro. Alguns vivem no sangue a herança dos quem existiu antes deles, como o discreto Daniel Verdades, filho do mestre Verdades. Mesmo ali angaiolado, há que prestar homenagem. O Hugo bem que queria ter a pedalada do pai e partir de bicicleta para Barcelona. Não pode ser! Também está engaiolado.
Amigos, hoje sinto-me rejuvenescido. Às vezes acontece. Imagino coisas. Isto dos anos que passam e das pessoas que se conhecem e partilham projectos comuns há muito tempo, tem muito que se lhe diga. Como manter essa curiosidade? Como manter essa disponibilidade? Como continuar a fazer perguntas? Como não ceder a pressões? Como dar espaço para escutar o outro? Como renunciar ao que é mais fácil? Como não acomodar? Como arriscar ao ponto de talvez perder tudo para pôr a hipótese de redescobrir algo que esquecemos? Como imaginar um novo ano como se fosse o primeiro? Como voltar a ser livre?
Imaginei as gaiolas com os homens lá dentro e pensei que ainda voam, e sabem voar, mas que às vezes fechamo-nos em gaiolas apenas porque esquecemos que também temos asas. Somos feitos de matéria de cadáver, como dizia a Angélica Liddell, mas somos também feitos da matéria dos sonhos.
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