27.7.08

DIÁRIO do Astronauta: 26 de Julho

Lua, 26 de Julho

Alô alô! Daqui lua.
Novidades da terra?
Daqui não se vislumbra movimento. Morreram todos? É do tédio do fim-de-semana? Fecham-se em casa, por trás das cortinas, espiam os passos dos que se atrevem a sair à rua. Espiam os outros para lhes apontar o dedo. Há um que ainda pode acordar amarrado à cama mofenta. Ainda há cafés abertos. Estão com sorte. Amanhã, domingo, vai ser a doer. Nem uma esplanadita para descontrair um pouco. É a morte lenta.
A pergunta é sincera. Hoje não pude passar por aí. Espreitei o blogue e agradeço que tenham publicado o que escrevi. Por isso continuo hoje. Mas podiam responder. Dizer qualquer coisita aqui para cima. Daqui da lua parecem criaturas insignificantes. Que alguém diga o que pensa.
O que se passou aí hoje?
Partilho um breve inquérito, feito numa escola infantil num país distante, a crianças que aprendiam a ler. Podem talvez experimentar fazê-lo. Assim, sempre passa um pouco desse tempo que parece que por aí se arrasta por entre a pacatez dos arrozais.
A pergunta:

Por que razão vive:
a)porque não tem mais nada para fazer
b)porque tem preguiça de coçar os tomates
c)porque não gosta de jogar ao berlinde
d)porque não se pode morrer na prisão

Só há uma resposta certa. Todas as outras são condenações. Castigo.
Como foi o espectáculo?
O que é que se comeu?
Quem anda por aí?
Daqui de cima apenas vislumbrei algum movimento na Sala B. Não tem tecto. Os actores de «Babel» dos Artistas Unidos com os Det Äpne Teater a queimar ao sol. Ali, a pele a ganhar cor, a ficar vermelha. Pode haver quem diga que andaram na praia. Fala-se muito espanhol. As vozes não chegam aqui a cima. São os da Lengua Blanca no armazém agrícola, e o Carlos Fernandez que se lança para um futuro a 10 000 anos.
Contam-se histórias brandamente capazes de entreter?
Qual é o critério? Sim, a pergunta vai para a direcção artística. Para quem escolhe este programa. O que une estes espectáculos? Que narrativa atravessa as peças que estão em construção? Estou em órbita. Daqui apenas a distância e a falta de oxigénio. A imaginação dispara em direcção às estrelas. Onde está o coração. Depois ri-se. E tudo o que se perde, num fechar de olhos, perde-se por entre sombras e escuridão. Por isso é preciso recuperar o sentido. Do que persiste. Do que resiste.
Como foi a Angélica Liddell nesta noite? Não pude estar aí?
O que é o Citemor afinal?
E que identidade programática atravessa o festival este ano?
Vamos lá, que me respondam desse deserto temporal onde a morte ainda vos apanha a dormir.

doastronauta@gmail.com