29.7.08

DIÁRIO do Astronauta: 28 Julho

Júpiter, 28 de Julho

Morte e sexo. Ligação perigosa.
Começamos pelos medos contemporâneos. Medo de morrer. Angélica lançou o festival em direcção às estrelas. Eu afastei-me com medo do fogo-de-artifício e receio de apanhar com as canas. Outras responsabilidades chamam por mim. Coisas de velhadas sem tempo para o que é mais importante. O que realmente importa é essas coisas que vos prendem a vocês a essa terra de pássaros e sol. Mas por aqui continuo a acompanhar. À distância. Espero regressar para encontrar esse rapaz da construção civil que chega à Europa vindo de um país engolido pelo mar. Eu cá me vou entretendo com outras histórias.
A malta aqui junta-se para as cartas à tardinha nos bancos de jardim. Dá-se milho aos pombos e vão passando as horas. Um tipo mais velho do que eu, que aqui estou apenas de passagem, começou a viajar para a sua própria juventude e entre uma cartada e outra pôs-se a recordar. Fez um desvio e entrou na ficção. Foi de foguetão para as estrelas. Como a outra. Mas este não era dourado. Metia dó. Na memória enganada pelo tempo, confundiu-se a si próprio com alguém que não existe, que um outro alguém já havia inventado para ele. Dizia que em moço se dava ares de garanhão e engatava as garotas mais santas. Que tinha passado por mudo, e se fizera jardineiro num convento de freiras. Gastava os dias a trabalhar na horta, a podar-lhes as flores, a ir buscar lenha ao bosque e a espreitar-lhes pos baixo das saias. Mas fazia de conta. Que não queria nada com elas e elas aos saltinhos e aos pinotes, com ais e uis, em cio atrás dele. E ele deixou-se ir. E nós novamente no banco de jardim, envelhecidos, a jogar às cartas. Vão-se os tostões assim num piscar de olhos, mas a malta ri-se e contorse-se com dor de peito. É do tabaco.
Eu que sou raposa velha, a barba já vai branca e comprida, recolho-me no sofá à tardinha a fumar cachimbo e à espera de novas dessa vossa terra bendita. Quero saber mais desse homem desfeito física e mentalmente, que quer desaparecer e patinar nessas pistas de gelo que dizem que são «superfícies sensuais onde se depositam os corpos para os observarmos a arder, a congelar, ou simplesmente a deslizar de um extremo ao outro até que desaparecem».
O desaparecimento desses corpos cruza-se, ou não, com a fuga do outro, que se move num «lugar de destruição e memória». É diferente da «história bíblica da cidade de Jericó» que nos ronda como pano de fundo nos «10.000 anos», onde, embalados na paixão, «contam e reinventam as suas vidas, como se se tratasse de um antídoto contra a destruição e a morte».
Chego ao fim. Os olhos estão cansados e as mãos já tremem. A luz está fraca. De madrugada, no final da jornada, regresso ao princípio. O medo da morte. Morte e sexo. Será que «chegamos ao fim deste caminho quase como o encetámos»? A pergunta vem daí.
Eu esforço-me. Acompanho a agitação que aí habita por estes dias. A imaginação e o desassossego. Acompanho envolvido e com crítica amorosa ao que aí produzem. Também o blogue. Parabéns pelas fotografias e pelos vídeos. Mas uma breve achega à miúda dos textos, que espevite, ainda tem muito caminho para andar. Esperam-se olhares mais implicados e maior criatividade. Estarei atento. Saudações de Júpiter.