5.8.07

TERRITÓRIOS - Montemor-o-Velho: "cidade criativa"

fotografia de Jesús Ubera

As causas históricas situam mas não explicam o presente. Porque é que Citemor tem hoje lugar em Montemor? O que é Montemor? Nesta secção abre-se uma janela para indagar e descobrir esta cidade sustentada em arrozais e que gravita até uma fortaleza.


MONTEMOR-O-VELHO: "cidade criativa"
Entrevista de Claudia Galhós

Articular ambiente, desporto e cultura num programa mais amplo e ambicioso. Esta é apenas uma das vertentes do projecto da Câmara de Montemor-o-Velho, que chamou "Impacte" - significa "Parque Temático de Indústrias da Criatividade e da Tecnologia" - no qual a cultura tem um papel determinante.

Em cerca de duas horas de conversa com o Presidente da Câmara de Montemor-o-Velho, Luís Leal, perspectivaram-se os planos que defende para a vila e para a região. Uma visão que é política, económica, mas que integra as lógicas das "cidades criativas", onde a cultura, a criatividade e as novas tecnologias, novas indústrias e novos olhares sobre o mundo, são protagonistas. Uma conversa com vista para o Festival Citemor, o CITEC, o Teatro Esther de Carvalho, o Quarteirão das Artes, o castelo, o centro histórico e o Baixo Mondego.


Montemor-o-Velho na História e no berço do Rio Mondego

Para quem é de fora, comece por me apresentar Montemor-o-Velho.

Começo por falar de Montemor como duas realidades: a da vila de Montemor e a do concelho de Montemor. Eu começaria pela parte mais ampla, a do concelho. É um concelho extremamente bem situado, no vale do Baixo Mondego, rodeado por outro conjunto de seis municípios, que são nossos vizinhos. Situa-se num corredor excelente que liga a Figueira da Foz a Coimbra. Tem um elo de ligação natural sensacional, o Rio Mondego, que ao longo dos séculos foi mudando de trajecto, conforme os interesses, a segurança e a produtividade que se queria retirar. É composto por um património histórico muito importante. Sobretudo até ao século XVI, teve uma preponderância muito grande na História do nosso país. Foi berço da nacionalidade, foi local de origem de vários e importantes nomes da história portuguesa: o Diogo da Azambuja, o Fernão Mendes Pinto, o Jorge de Montemor, para falarmos dos mais conhecidos e dos mais antigos...

Este é um território que foi essencialmente agrícola até quase aos nossos dias. É evidente que - com as vicissitudes da entrada na União Europeia, com as lógicas da modernização e da produtividade que o nosso país sentiu - hoje começa a apresentar a área dos serviços e o sector industrial como alternativas. Esta localização, que elogio, e a beleza paisagística (natural e mesmo ambiental) que tem, proporciona o que considero o reverso da medalha - e nesta questão o discurso político tem de ser um bocadinho autocrítico. O subdesenvolvimento a que, de alguma forma, o concelho esteve dotado durante alguns anos acabou por torná-lo... diria... rico, para outro tipo de valências que no século XXI fazem parte da nova economia: o ambiente, a cultura, o desporto, a paisagem, etc, etc. Perante isto, há que saber tirar proveito disso, para lançar num 'pacage' completamente diferenciado uma forma de estar que nos dê auto-sustentabilidade e que não nos condene a ser dormitório...

Mas é o que já se está a passar... O centro histórico já está deserto...

Ainda não. Neste momento, ainda não está verdadeiramente criado esse cenário. Digo muitas vezes, e de uma forma simbólica, que estamos condenados a ter mais gente em Montemor, no concelho e na vila. Agora, deixem-me é escolher como e quem. Essa é que é a questão. Escolher significa interligar um binómio: a residência com a ocupação, seja ocupação em tempo livre seja em vida activa. Para isso estamos claramente a intervir e a apostar em quatro grandes áreas de intervenção.


Estratégias de intervenção política e económica

Quais são essas linhas estratégicas de intervenção?

A uma delas estão associados quatro grandes projectos-âncora que nos próximos meses vão ser "adjudicados" entre a Administração Central deste país, a Administração Local, os parceiros, os privados, etc... E entre as cidades que fazem parte deste Baixo Mondego, este redor aqui deste "interland", que faz esta ligação. Quais são essas áreas? Há uma área nevrálgica que passa pela concepção e manutenção do equilíbrio entre o ambiente, a natureza e depois o aproveitamento destas qualidades para captar um turismo muito dirigido do ponto de vista do público-alvo. Um deles vai ser na área do turismo do desporto náutico, de alto rendimento.

Que já está em execução?

Cujo centro náutico vai ser alvo de uma fase de complemento e de acabamento e que vai criar aqui um pólo importante de alto rendimento desportivo, sobretudo para as modalidades náuticas. Ele próprio vai ser um "entourage" que vai ligar a prática desportiva de alta competição com a capacidade de criação de eventos, com a capacidade de animação que vai proporcionar. Em paralelo com isto, existem projectos de índole privada, sobretudo na área do turismo médio-alto, do investimento que vai oferecer alojamento turístico de qualidade, quer clássico de hotelaria, quer imobiliário.

Mas referiu nesse âmbito uma vertente ligada à cultura...

Sim. Este é um segmento que necessita de ter uma oferta equilibrada mas ao mesmo tempo desafiadora do ponto de vista da animação e de eventos de índole cultural, de qualidade, que possa preencher também uma programação adequada não só da vila mas também dos nossos aspectos mais simbólicos, no que diz respeito à monumentalidade, etc... Isto será um vector claro. Vamos ter de unir ambiente, desporto e cultura. Para isso há projectos que estão a ser desenvolvidos e que vão ser anunciados brevemente.


Projecto "Impacte" e Citemor como marca

Em relação à cultura em concreto, o que é que pode adiantar?

Em relação à cultura, prende-se com a questão de fundo desta conversa, que é o Citemor. A minha concepção hoje, enquanto autarca, é que o Citemor é uma marca que prestigia e divulga o nosso concelho. Hoje é necessário que essa marca seja usada nas mais diferentes facetas deste produto "cultura", deste produto "inovação", deste produto "nova tecnologia". Nos mais diferentes escalões e com os mais diferentes protagonistas que possam haver, desde o CITEC, a autarquia, ao agente privado, ao agente público, etc...

Aqui, nesta amálgama de coisas, surge um projecto que a própria autarquia está a desenvolver em parceria com a Universidade de Coimbra e com a Fundação Bissaia Barreto. Insere-se no interesse de criar aqui, em Montemor, uma nova figura, que hoje começa a aparecer em novos sítios e em vários circuitos, que é a criação das cidades ou dos locais da criatividade e das novas oportunidades tecnológicas.

Em que consiste exactamente esse projecto?

Chamámos-lhe "Impacte" e resultou da parceria destas três entidades cujo relatório e cujo estudo preliminar está a chegar à sua conclusão no mês de Agosto. Visa fundamentalmente o seguinte: com novos parceiros e com novos interessados, a autarquia estará em condições para disponibilizar no território, sobretudo no centro histórico, áreas consideráveis para captar e alojar criativos nas suas mais diferentes facetas - sejam das performances clássicas, das novas áreas das tecnologias da informação aplicadas às mais diferentes profissões e sectores. Isso vem ao encontro de uma preocupação que a Universidade tem, sobretudo em actividades em que o mercado não é tão apetecível na colocação de determinados técnicos que podemos aqui integrar...

Mas essa articulação significa o quê, em termos concretos?

O que pretendemos viabilizar, com esta oferta de espaços adequada, é a captação de investidores, de criativos, que através da localização com condições possam aqui ficar em termos de residência e de producão. Residência e produção.

Essa lógica, de articular a residência e a produção, já faz parte da lógica do Citemor...

O Citemor aqui, como lhe dizia e repito, pode ser uma marca, que depois pode ter diferentes utilizações. Quer como festival de teatro, em que o CITEC é promotor, mas também pode ser uma marca que se estende depois a uma gama de produções que, do nosso ponto de vista, não é obrigatório que sejam aqui concretizadas.

Em que é que isso se traduz em concreto? Qual é o papel do Citemor nesse projecto?

O Citemor pode ser uma das facetas de criativos na área cénica, mas é um "cluster", no meio disto é um "cluster". Nós vamos ter outras áreas: cinema, música, aplicação das novas tecnologias... Vou dar um exemplo. Licenciados em História cujos conhecimentos sejam aplicados às novas tecnologias, em jogos para computadores. Aqui teríamos a garantia de que a cientificação do que é produzido vai entroncar em dois objectivos claros. Por um lado, passar para a juventude uma forma de saber mais adaptável à utilização das novas tecnologias mas com a credibilidade de que não se está a vender gato por lebre - isto dá possibilidades criativas a várias soluções. Por outro lado, albergar e desafiar, na Europa e no nosso país, esses membros criativos a terem um local com condições mais facilitadas que lhes permita criar os seus próprios postos de trabalho, seja em termos individuais seja como colectivos. É evidente que não estamos a falar de projectos em que descobrimos a pólvora.

Mas está a falar dentro das novas tecnologias, das novas linguagens, da nova realidade do mundo. Se compreendo o que diz, está relacionado com o poder de atracção das novas ferramentas que agora existem. Quando falamos de turismo cultural, estamos a falar precisamente dessa vertente da atracção que pode ser económica. Deste universo faz parte a linguagem da criação contemporânea. O que não percebo é, nesse contexto, qual é o papel destinado ao Citemor nesse novo projecto. E eles, como agentes culturais, sabem deste projecto, foram consultados?

Foram.

Vai-se perder o Citemor no meio desse projecto? Vai-se descaracterizar?

Não, bem pelo contrário. Neste caso há duas questões que foram desfasadas por óptica clara da dicotomia: promoção da ideia e aplicação da ideia. Tem de compreender que este é um projecto muito mais alargado de captação de uma indústria nova, que é uma indústria da cultura virada para estes objectivos. Isto tem de ficar claro. Uma das facetas é a manutenção do Citemor mas com uma outra preocupação, com a preocupação de poder albergar em termos temporais, ao longo do ano, produtores, fazedores... E ter também a oportunidade, que noutras áreas nós não temos se calhar essa mesma preocupação, de ter um "showroom" permanente. Esse "showroom" é o Citemor.

No que diz respeito ao projecto, estou a falar num contexto mais alargado. Quando chega a esta preocupação, independentemente da produção, vamos ter aqui consumo. Noutras áreas, como o cinema, a música ou a produção discográfica, a própria dinâmica social e geográfica não nos permite ter essa veleidade, porque não termos aqui - independentemente de estarmos próximos de Coimbra, Figueira e até de Aveiro - uma densidade ou uma escala de trabalho nessas áreas para as pensarmos ao nível do consumo.

O que interessa aqui é darmos condições, condições que passam por fornecimento de estabelecimentos, por gerir espaços em conjunto para permitir que um determinado tipo de meios, que são também logísticos, sejam afectos a um conjunto participado, e ao mesmo tempo dividido, de interesses. O Citemor em si é uma marca que nos ajuda nisto tudo porque já existe uma caracterização cultural, de interesse de eventos, etc, mas depois vai ter aqui o seu nicho...

Nessa perspectiva, diferentes domínios podem potenciar-se mutuamente, mas têm de ser salvaguardadas algumas características, para que não ocorra uma perda de identidade, que seria o caso se o Festival tiver de se integrar numa lógica de mero consumo imediato. Não corre o risco de descaracterizar o Citemor? E, assim sendo, vendo-o como marca, não pode fazer com que perca precisamente esse valor que tem de marca, de projecção nacional e internacional?

Não me cabe a mim fazer essa opção, cabe ao Citemor. Eu não entro nisso. A opção é deles. A única coisa que vamos ter de preparar é que esta inter-ligação vai permitir, em termos temporais, ter uma visão mais alargada. Agora temos, dois ou um mês antes, alguém em residência, concentrando um apoio mais significativo normalmente numa companhia. Se pensarmos nisto de um modo ampliado e em que, à conta disso, se possa ter produção para vender ao estrangeiro... E essa produção, segundo conheço, já o Citemor hoje faz. Então melhor ainda. Passam a ter melhores condições. Acrescentemos aqui a valorização dos anos e anos que o Festival tem, para criar algumas soluções do ponto de vista de estreias... das apresentações.

Mas eles têm tido estreias mundiais aqui. Espectáculos criados aqui, que depois circulam pela Europa.

Um dos aspectos que julgo que é muito importante que se tenha em atenção é o seguinte, sem querer criar uma visão demasiado idealista ou optimista sobre a circunstância: passando a terminologia do ponto de vista da promoção, muita gente compra Nike porque é a Nike, a marca, e nem sabem o que é. Claramente hoje há uma imagem que se vende que se chama Citemor. Acabei de ler uma entrevista que o Armando Valente deu em que disse algo com que concordo: o Citemor pode ser uma marca mas pode ter várias facetas, uma delas cabe-lhes a eles, outra significa aproveitar este mesmo Citemor para desenvolver aspectos que existem em potência. Isto porque o modelo para ser suportado por uma autarquia, por uma administração central, por um ministério, tem de alargar e ter uma envolvência mais consentânea com o objectivo de classificar o projecto em si na relação com a comunidade, do ponto de vista de um programa e de um produto que seja rentável. Rentável não olhando à questão do binómio financeiro, mas rentável do ponto de vista da sua integração, para trazer valor acrescentado para este projecto em que nós globalmente apontamos para uma área mais alargada, mas em que ele tem de ser privilegiado. Isto não se refere apenas ao Citemor, mas também ao Quarteirão das Artes.


As três áreas de desenvolvimento sustentado

De que modo o Citemor e o Quarteirão das Artes, por exemplo, se articulam com uma estratégia mais alargada para o desenvolvimento desta região?

Para entender isto bem proponho o seguinte: vamos esquecer que existe o Citemor. É difícil aquilo que vou dizer mas façamos este exercício de imaginação. Nessa imagem, este projecto que integra diferentes vertentes de intervenção, funcionaria como uma solução de uma nova valência para Montemor numa área de criatividade em sentido genérico. Agora descemos à realidade e o que verificamos? Existem aqui alguns produtos que, eles próprios, podem ser integrados e podem transformar-se em palco privilegiado de algumas demonstrações daquilo que, nos seus mais diferentes e elementares processos, venha a decorrer em Montemor. Isto para reforçar essas componentes, para lhes dar ainda mais ênfase do ponto de vista da diversidade, da qualidade e da captação de públicos. E, portanto, nós partimos já com uma boleia, porque são valências que já existem...

O que importa é criar três áreas muito concretas do desenvolvimento sustentado. Uma tradicional, na área agrícola, interligá-la com a zona industrial, e criar o que já hoje acontece com o aparecimento das grandes fábricas agro-industriais ligadas aos produtos do Vale e ligadas aos produtos da Gândara que nós temos. Ligamos a isto, ainda na área industrial, as energias renováveis, que estão a chegar a Montemor agora, com os maiores investimentos estrangeiros que se estão a fazer e as áreas do investimento logístico.

Depois temos uma área fortíssima, que é aquela em que vamos ser quase exclusivos no país: vamos ter uma valência muito forte no desporto náutico, e vamos ligar isto com turismo, com ambiente e com a natureza. A fechar isto, este triângulo, temos a área da criatividade e da dinâmica inter-relacional com os outros dois. Isto porquê? Porque muitos destes investimentos vêm trazer novos residentes. O caso, por exemplo, do investimento que se vai iniciar brevemente na área das novas energias renováveis. Este vai trazer cerca de 250 técnicos altamente especializados do país a trabalhar aqui.

Que investimento é esse?

É um investimento na construção de uma fábrica das chamadas pilhas de combustível. É um investimento malaio, que se vai iniciar durante o mês de Setembro/Outubro, e que vai trazer um centro tecnológico para Montemor, em parceria com a fábrica, e onde vão estar cerca de duas centenas de técnicos altamente qualificados. Estamos a falar de engenheiros químicos, etc, gente nova, captada essencialmente nas universidades, gente com um "upgrade" do ponto de vista formativo e educacional. Fixando-se em Montemor, é preciso que tenham oportunidades alternativas também no que diz respeito ao seu tempo livre, de ocupação do espaço e do tempo, quer em termos de eventos, de cultura, quer de desporto. Daí que haja aqui uma simbiose em todo este modelo de que tenho vindo a falar.

Nesta ideia das "cidades criativas", o que foi muito ousado foi dizer a artistas, "usem este espaço, ocupem, transformem, dinamizem, mas em total liberdade". Ou seja, através de uma intervenção artística e criativa em que houve confiança dada ao autor. O que me está a dizer é que vai haver aqui uma negociação, entre a intervenção dos artistas e a estratégia económica, os objectivos muito concretos e definidos pela autarquia.

Não é bem negociação. Ou seja, nós vamos querer criar todas as condições. O que se trata aqui é de coabitação pura e simples.

A possibilidade de que diferentes áreas de intervenção se possam potenciar é interessante. Mas não vai ter de haver uma cedência da identidade dos projectos que já existem?

Não, não, bem pelo contrário. Digo por outras palavras: aquilo que a Câmara vai fazer é - quer por si mesmos, quer em conjugação com outros parceiros - facilitar território, território, que esteja codificado para as mais diferentes valências, para encubar... No fundo é uma grande encubadora, de vários empreendedores e de vários empreendimentos, focados na criatividade nas suas mais diferentes facetas.

Portanto, Montemor está a caminho de se tornar uma "cidade criativa"?

Exactamente. E daí perceba porque é que não vale a pena estar a baralhar com o Citemor. Porque o Citemor vai estar autónomo. Mas vai ter de tirar benefícios do que pode surgir em determinadas áreas dessa actividade e dessa deslocação de potenciais interessados para aqui, de modo a reforçar a componente Citemor na sua amplitude, na sua temporalidade e na sua oferta.

Nesse panorama, e tendo essa expectativa, a câmara vai investir mais no Citemor?

Neste caso concreto, comigo na Câmara, não significa investir mais no Citemor. A prioridade é investir mais nos meios que criem empregabilidade, que criem desenvolvimento, e onde, depois, o produto seja diversificado e fomente o projecto. Porque se vamos pela via financeirista, já lá vai o tempo em que era dá-se e acabou. Aqui não, aqui investe-se. Se criamos condições, se criamos melhor "palco", passando o termo da arte cénica, para a captação de proponentes a investir nestas áreas, elas depois têm de ter aqui um efeito demonstrador, um efeito de participação, etc.

Mas seguindo essa lógica, haveria aqui um outro tipo de investimento interessante que não seria financeiro directo, mas no sentido de mobilizar, potenciar vontades, outros parceiros possíveis e facilitar a viabilização de projectos.

Logicamente que esse sim. Se eu lhe disser que só na compra de uma parte ligada ao Quarteirão, a Câmara gastou cinco vezes mais do que deu ao Citemor... Veja bem! Comprámos um conjunto de edificações...


O Quarteirão das Artes e o turismo cultural

Disse o que significa o Citemor para si, uma marca. Mas o que significa para si, enquanto presidente de câmara, o Quarteirão das Artes?

O Quarteirão das Artes é, neste momento, um exemplo de uma iniciativa de um privado, de como podemos agregar em circunstâncias bem claras um projecto privado com um projecto público. Daí que, no fundo, nós estamos neste momento a dar a indicação da aquisição de vários imóveis na chamada Rua Direita ao Castelo, que cria um segmento que inter-relaciona uma área nobre monumental paisagística, etc, com um conjunto de uma filosofia de intervenção, que acabamos de discutir, que dê coerência a este projecto. Relativamente ao Quarteirão das Artes, é importante que ele possa vir a consubstanciar mais um desses elementos fundamentais, que seja um desses palcos representativos e, ao mesmo tempo, albergue e seja hospedeiro de muitas destas iniciativas, seja ele gerido de uma forma privada, seja de uma forma pública. O que a autarquia hoje está a comprar é espaços para poder rentabilizar a colocação dos criativos. Tem os seus escritórios, tem os seus locais de trabalho, mas depois vão precisar de áreas para desenvolver o merchandising do seu produto, fazer representação, fazer demonstração... Estou a falar em termos globais de Montemor, mas para muitos dos casos pode ser o Quarteirão das Artes...

Está a rodear o espaço do Quarteirão das Artes para criar o quê, em termos concretos?

Na faceta claramente delicada que temos, da escassez de recursos, não podemos neste momento, e nem teremos essa política, estar a subsidiar para criar a subsídio-dependência. Já falei também com os responsáveis do Quarteirão das Artes relativamente à eventual alienação do Quarteirão para outros proprietários desde que se mantenham os objectivos, desde que se mantenham as parcerias. Penso que não é prejudicial para o projecto. O que poderia estar a pôr em causa o projecto era se não conduzíssemos o objectivo claro de ter uma participação diversificada entre promotores públicos e promotores privados...

Mas então significa isso que está aberta a possibilidade de uma mudança na direcção do projecto do Quarteirão das Artes e a passagem do privado para o público? Não conheço esse projecto, a que se refere?

Segundo sei, a cooperativa que tem sido utilizada até agora em termos do espaço do Quarteirão das Artes está a ser revista, segundo um dos principais responsáveis. Poderá dar azo a que haja a alienação daquele património a terceiros, com ou sem a manutenção dos objectivos que até agora se têm vindo a definir. Essa é uma questão cujo comentário diz respeito a eles. Mas o que aqui se coloca é que, neste momento, há de facto uma leitura de que as coisas podem ser complementares e podem vir a agregar toda uma coerência.

O projecto que a autarquia tem com os seus parceiros visa ser mais amplo e mais alargado mas nunca esquecerá as duas âncoras já existentes. Não há uma concorrência. Eu poderia dizer o seguinte, Coimbra é uma marca também, se nós depois concordamos ou não se Coimbra evoluiu ou não isso é outra questão. Aqui passa-se exactamente o mesmo. O Citemor é uma marca forte, traz gente para visitar, como vai gente a Belém ou a Fátima... Aqui a questão é exactamente a mesma. A questão que aqui se põe, e o modelo do Citemor, compete aos responsáveis do Citemor discuti-lo, compete às entidades oficiais se querem ou não querem apoiar e participar nessa discussão. Mas, fora desse âmbito, nesta participação mais genérica, acho que o município tem responsabilidade de acreditar que há um turismo de cultura em que devia apostar. Que haja um turismo de criatividade no qual pode apostar e que tem já duas enxadas, que, na devida altura, vai chamar para que também desempenhem o seu papel. Se possível, que tenham a sua autonomia no contexto de que tudo isto funcione em rede com um objectivo claro: trazer mais e melhor emprego, trazer mais e melhores oportunidades e dar uma caracterização genérica a esta região e a este concelho.

Quando identificava um período negativo dos últimos 20 ou 30 anos era a isto que me referia. Foi isto que não se desenvolveu. Agora pode desenvolver-se mas com uma definição diferente de sustentabilidade na paisagem, no ambiente, no património, na cultura, no próprio desempenho nestas iniciativas com um valor acrescentado do ponto de vista económico e do ponto de vista social.


Salvaguarda do centro histórico

Olhamos para o centro histórico e a grande questão que se coloca é como consegue inverter a tendência da desertificação e como pode atrair pessoas para lhe restituir vida. O que se passa com o centro histórico?

Isto não é um problema nosso, é um problema dos centros históricos, passa-se no Porto, passa-se em Coimbra, passa-se em Lisboa... O que acabei de dizer é sabido e temos de começar por aí. O que se está a fazer para mitigar este processo? Penso que é geracional. Penso que vai ter uma inversão daqui a uma ou duas gerações. Até lá temos de trabalhar a dois níveis: a um nível já começámos, que é termos neste momento um plano de salvaguarda da recuperação do centro histórico, cujo documento final praticamente está a dias de se cumprir. Temos um projecto elaborado pelo arquitecto da autarquia, Miguel Figueira, já foi alvo de comentários por parte de diferentes parceiros, por várias entidades, a CCDR (Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional)... Está agora na fase de análise final do documento. Este é o plano que vai dizer o que é possível reconstruir, de que forma, com que materiais... Por vezes existe aqui uma discussão muito forte entre mim, o político, e o arquitecto, o técnico. Porque digo, no bom sentido da palavra, que às vezes são muito fundamentalistas e esquecem-se que esse fundamentalismo é pago pela carteira do munícipe ou do consumidor. Ou seja, do contribuinte que vai ter de recuperar. Sou defensor de regras, que essas regras não sejam flexíveis mas não sejam ortodoxas...

Mas mais uma vez não corre o risco de que descaracterizem a identidade do centro histórico? O equilíbrio desejável é complicado.

Mas que haja um equilíbrio, e é aí que este plano vai funcionar. Ficamos preparados para que, quando houver a reviravolta, não se reconstrua de qualquer forma, não se perverta, não se vá adulterar, porque isto era fundamental para o projecto que falávamos inicialmente. Segunda questão: a própria autarquia é hoje dona de alguns destes edifícios, imóveis, e tem pretendido dar cada vez mais soluções que não sejam de utilização para os seus serviços próprios. Eu penso que essa época já passou. Foi muito bonito, mas chega às 17h30, os serviços estão fechados e a desertificação mantém-se. Há que lhe dar uma vivência completamente diferente.

Dois exemplos que penso que são gratificantes, do nosso ponto de vista, para que esses objectivos sejam alcançados. Alguns dos imóveis que a câmara possui ou que arrendou para esse fim estão a ser utilizados para residência de jovens universitários, que são ao mesmo tempo desportistas de alto rendimento, e que vêm ao encontro do projecto que referi sobretudo na área da canoagem, na área do remo, na área do triatlo, etc... Se for visitar dois ou três locais no centro histórico vai encontrar jovens pré-olímpicos que estão a treinar aqui e que vão para os campeonatos do mundo de canoagem muito brevemente. Fazem aqui a sua residência anual, estudam na universidade de Coimbra, vêm ficar aqui porque treinam durante o dia... Isto tem a ver com a preocupação que temos tido. Acrescentamos o interesse de estarmos a trazer novas tecnologias, postos de banda larga para poderem ter acesso gratuito à Internet e utilizarem no seu tempo livre por aqui, no castelo, nessas zonas, como o centro histórico. Ou seja, utilização e dinamização de espaços trazendo juventude para viver, mas favorecer o equilíbrio entre a dinamização para jovens e a segurança nocturna.

Terceira óptica bastante clara: criarmos nós alguns serviços que não sejam confinados ao horário clássico do funcionário público, como é o caso da Biblioteca que estamos a acabar, que está construída, está agora a ser equipada e a ser apetrechada com fundos comunitários, que vai funcionar numa zona do centro histórico, aberta até às 21h. Tem espaços que foram estudados para não ter apenas uma vocação puramente literária ou só de leitura. Vai permitir organizar palestras e seminários. Vai ter espaços destinados a crianças, para pedagogia do conto e da história. Teremos contextos de exteriores para eventos em que a própria autarquia transforme aqueles locais em lugares agradáveis para receber, para divulgar, para promover....

Uma outra questão que julgo fulcral dentro do centro histórico, para redimensionarmos este espaço, refere-se ao projecto que falava. Sendo alguns deles de índole privado vão contribuir para a captação de novos potenciais adquirentes de espaços para determinado tipo de público. Porque é muito grato ter uma casa próxima do castelo, ter a vista que tem, ter depois os eventos ali a um passo, etc. Isto também vai ter de ser manuseado de uma forma politicamente correcta, com mecanismos de penalização ou beneficiação através das taxas do IMI (Imposto Municipal de Imóveis). No sentido de se penalizar ou bonificar quem construa, quem recupere... Aqui também vão haver novidades brevemente, em Setembro. Estou a readaptar os níveis de aplicação das novas taxas, com tendência para as vir a baixar mas também a penalizar sobretudo quem mantenha a degradação de imóveis.

O problema dos centros históricos são os custos da recuperação, mas principalmente a especulação que torna inacessíveis as casas à classe média depois de recuperadas...

Torna-se muito caro. Última nota neste aspecto, a própria autarquia vem a favorecer a alienação de alguns espaços de que é proprietária, seja em termos de imóveis, seja em termos de terreno, para permitir a construção a custos controlados, sobretudo para jovens casais.


Centro de Iniciação Teatral Esther de Carvalho (CITEC) e Teatro Esther de Carvalho (TEC)

Qual é a sua visão sobre o CITEC e o Teatro Esther de Carvalho, em todo este plano?

Eu não sou totalmente neutro nem isento para falar sobre isso porque estou ligado ao CITEC desde praticamente a sua fundação. O CITEC foi uma escola de formação sensacional na década de 70, no século passado. Criou uma juventude muito clara que, naquela altura, chegou a ter 60 sócios intervenientes activos e isso perdeu-se...

Mas a dinâmica da vila era outra...

A dinâmica da vila foi constituída por nós. Por nós todos. E é aí que há algumas diferenças de opinião entre os históricos, diremos assim, e a actualidade. É bom, salutar e democrático mas é sentida nos mais diferentes escalões, nos mais diferentes níveis de participação desses mesmos elementos na sociedade actual. Portanto, o Teatro Esther de Carvalho teve, para nós, um efeito muito atractivo porque foi através de várias vicissitudes do processo na altura, logo a seguir ao 25 de Abril, que se conseguiu que ele passasse para a propriedade do CITEC. O Teatro Esther de Carvalho hoje é um emblema de qualidade. A recuperação de que foi alvo foi extremamente importante.

Hoje é muitíssimo necessária que seja revista a sua programação. Digo-lhe muito sinceramente, e tenho dito isto aos responsáveis do Citemor, temos muito rapidamente de estabelecer um pacto em relação ao que vai ser a programação e a rentabilização do Teatro. Dir-lhe-ei mais, acho que claramente entre a programação do TEC, a produção que o CITEC possa fazer - também em termos da vila, de arte cénica e de representatividade - é mais cara, do ponto de vista de interesse, de dedicação e de afectividade, do que a tal marca Citemor que acho que já está madura, que já trabalha por si e não pode ser equacionada exclusivamente pelos financiamentos do Ministério da Cultura ou da Câmara Municipal de Montemor. Isto significa, embora possa soar um pouco agressivo, que se eu tivesse de escolher entre o Festival e o Teatro para dar dinheiro, optava pelo Teatro. Mas isto num sentido de que, enquanto autarca, julgo que são necessários projectos para as crianças do concelho, para as crianças da vila, para os cidadãos, porque se perderam há dez anos.

Mas não está a recuperar agora?

Tem pontos altos e baixos, mas perdeu-se. E é preciso recuperar. Esse é um desafio para o qual não acho que seja apenas a autarquia que tenha de ser chamada, mas os próprios autóctones também têm de ser chamados a participar. E aí tem de haver uma abertura, e tem de haver uma oxigenação global de todas as partes. O TEC é o espaço excelente, um ex-líbris hoje tão importante como outros que temos na vila. Mas aqui se calhar já fala mais o coração do que fala a razão...


Citemor e CITEC no passado, presente e futuro

Diz que o Citemor tem uma maturidade, como se com isso significasse que se pode autonomizar financeiramente. Mas estamos a falar de uma área de intervenção, por via da arte, que é de experimentação e problematização da vida mas que não pode ser reduzível a uma contabilidade imediata de resultados decorrentes das receitas de públicos imediatos. Há aqui também uma componente embrionária, encubadora, de criação de objectos, que nascem aqui mas o valor que trazem é, em parte, nessa ressonância de Montemor que fazem no país ou no estrangeiro - quando começam a circular fora desta vila onde foram criados. E para se chegar a um momento de autonomia, há todo um trabalho que tem de ser feito, de aproximação aos públicos, para criar as condições para que estas abordagens sejam compreendidas... Esta é a constante luta, há um trabalho intermediário, de visão estruturante e de, pelo menos, médio prazo, que nunca é feito. Nessa relação com o Citemor dizia que como presidente de Câmara considera que é uma marca. E como pessoa? O que significa o Citemor para si?

Vou-lhe falar muito claramente. Em alguns casos sinto isso como algo que se passa em minha casa. Por exemplo, o meu filho a ouvir os Artic Monkeys e eu a pensar nos Deep Purple. E quando ouvia os Deep Purple em casa, o meu pai perguntava que raio de música era aquela. Confessar isto com a maior simplicidade e honestidade. E num léxico figurativo. Isso significa o quê? Que em alguns casos, se eu for expressão da generalidade dos meus munícipes, tenho de fazer um esforço titânico para poder estar um passo mais próximo deles. Enquanto cidadão que tem alguma afectividade com o projecto, estou mais próximo sem necessitar de dar esse passo. Acho que estou a ser o mais transparente e efectivamente concreto. Isto é, o Citemor hoje é uma marca forte. Mas se for a cidadania global do concelho a falar do Citemor, identifica que eles têm muitos anátemas. Portanto, há uma des-sincronização que começa por aquilo que é um projecto - quando ouço o Armando Valente gosto e acho-lhe piada, porque confio nele, como no Vasco nesta matéria - e há a posição de um político que gere hoje, sem querer ser mediano ou posicionar culturalmente abaixo das circunstâncias em que me devo posicionar. Há aqui uma des-sincronização entre aquilo que assumo e acho muito bem, uma oferta do Citemor elitista, sobretudo nos últimos 3/4 anos, um "cluster" elitista mas, ainda assim, é um "cluster" que acho que se deve manter para Montemor. Faço esta análise em distanciamento e enquanto político. Enquanto presidente de Câmara já tenho de fazer eco desse desfasamento que referia do exemplo da música de hoje com música que eu consumia. E aí tem de haver alguma auto-crítica ou alguma flexibilidade para dizer "já estou ultrapassado". Agora no equilíbrio das regras em que me é conferido salvaguardar o interesse de público, das pessoas, do concelho, tenho de manter aqui sempre uma porta aberta para garantir que a tal marca vai existir.

Mas há aí um trabalho a ser feito, precisamente para tirar proveito dessa mais-valia, que é criar condições para que seja mais perceptível a quem não compreende e sente como algo distante....

Mas eu acho que este ano eles deram um passo significativo com a abertura do Festival com O Bando. Acho que oxigenaram e rejuvenesceram o Festival.

Tem algum momento em particular do Festival que recorde como especial?

Tenho, o primeiro, de 75, que participei nele, e desse lembro-me muito bem. Não se esqueça que em 75 fizemos o primeiro festival de teatro, que depois foi interrompido, e depois é que veio a tal marca Citemor.

E não guarda memória de mais nenhum?

Tenho. Tenho vários. Lembro-me de vários, ainda há dois anos. Lembro-me de uma peça que fui ver, próximo da A14, aproveitando um dos aquedutos que havia na auto-estrada em que se fez uma peça. Achei interessante, mas lá está a tal questão: achei interessante, inovadora, inédita. Para mim, gostei. Mas se extrapolar isso para uma estratégia mais transversal de apetência, por exemplo, para outras áreas, sinto que o CITEC tem de fazer mais. Dou-lhe outro exemplo. Esta semana fui ao MostrArte, que houve na freguesia da Abrunheira, um projecto onde esteve a Escola da Noite, de Coimbra, num trabalho entre profissionais e amadores. Esta aproximação compete também ao CITEC fazê-la. Nós antes tínhamos Festival e tínhamos produção e fazíamos e acontecíamos. E hoje há um Festival e depois perde-se muita energia que devia ser ganha com produção própria, com utilização e promoção do TEC. Esta leitura que eu faço, não a faço num sentido crítico, faço no sentido de eco daquilo que se ouve, portanto não põe em causa nada do projecto.

Mas é muito fácil dar às pessoas aquilo que elas querem. O dificil é desafiá-las a irem mais longe, saber mais dá trabalho e só chegam às coisas se houver um trabalho de ambas as partes para lá chegarem. As pessoas se não estiverem em situação de descobrir coisas novas, nunca vão saber novas coisas. É sempre esta a discussão entre a política, a economia e quem defende os valores da arte e do desenvolvimento humano: é mais fácil dar às pessoas aquilo que elas conhecem e gostam e querem, mas isso apenas as vai deixar na mesma. Elas e o mundo em seu redor.

Há uma coisa que, sem querer ser repetitivo, quero reforçar: o projecto em si, independentemente de poder fazer algumas observações, defendo. Enquanto pessoa, enquanto cliente, enquanto consumidor. Onde há algumas observações é quando espelho o que ouço. Nesse aspecto. E de achar que o CITEC, não é o Citemor, terá de congregar na opinião pública outras facetas para agarrar mais pilares dentro da sociedade local, para que haja uma compreensão que o Festival é uma coisa e o CITEC é outra. Nem toda a gente gosta de jazz e eu faço o festival de jazz aqui em Montemor. E claro que as pessoas que gostam de folclore ou rock podem não se interessar pelo jazz. Aqui é exactamente a mesma coisa. Leia-se nas minhas palavras uma ponte e não uma ruptura. Agora seria demagógico e seria hipocrisia da minha parte, quando digo há uma marca e essa marca existe, e mesmo que haja ventos e tempestades e marés contra, ela vai manter-se desde que, independentemente de as condições serem mais ou menos favoráveis, ela mantenha a linha de orientação. Porque essa é a questão. Este público está ganho. Se esse segmento se justifica ou não, não ponho isso em causa...


Impacte: Parque Temático das Indústrias da Criatividade e Tecnologia

Tinha ouvido falar de um projecto que é o "Parque das Indústrias da Cultura". O que é?

É o "Impacte". Foi o primeiro nome que utilizámos, mas estava mais vocacionado para indústrias de áreas criativas e tecnológicas. Chamou-se inicialmente "Parque Temático das Indústrias da Cultura", hoje já mudámos para "Parque Temático de Indústrias da Criatividade e Tecnologia". No princípio de Setembro esperamos ter aqui um encontro de vários parceiros europeus que visitámos recentemente, de projectos semelhantes, que vêm falar da sua experiência. Estamos a falar de Sheffield, em Inglaterra, e estamos a falar de Trollhattan - onde foi filmado "Dogville" de Lars Von Trier - junto a Gotemburgo, na Suécia. Também estivémos em Heindoven, na Holanda...

Nessas cidades, os projectos, sendo específicos de cada localidade, mantém o nome de "cidades criativas"?

Eles não têm esse nome propriamente. O projecto fundamental em Sheffield começou na década de 80 do século passado. O grupo The Human League era natural de Sheffield, que era uma cidade mineira, muito grande, e uma cidade metalúrgica. Mas foi perdendo esse poderio, foi havendo desemprego, etc. Através da ocupação de espaços que se tinham tornado obsoletos e por via do aparecimento deste grupo de música, criaram-se ali grandes áreas para a afixação de estúdios de cinema, estúdios de música, diferentes artes. Tinham uma universidade em que, ao princípio, penso que a ligação era muito boa, embora hoje julgo que essa relação esteja degradada... Bom, mas com tudo isso dá-se um "boom" artístico, a própria municipalidade criou taxas favoráveis à fixação de empreendedores...

Há mais alguma cidade em Portugal que esteja também a desenvolver esse conceito?

Évora e penso que Óbidos também. Fomos a Trollhattan, onde o contexto é diferente mas muito interessante. Era uma cidade metalúrgica também, estamos a falar de finais do século XIX e princípios do século XX. Entretanto, perde o impacto da indústria pesada. É uma cidade que fica a 70 kms de Gotemburgo, em que algumas das instalações dessas fábricas foram recuperadas e reconvertidas. Hoje têm estúdios de filmagens, têm criativos especializados em jogos de computadores, com quem falei. Uma semana antes de lá estarmos tinha lá estado a Nicole Kidman a filmar. Mas a questão é que, por trás de tudo aquilo tinha "sponsors" muito fortes. Nós temos de caminhar muito para lá chegarmos. No final de ver aquilo tudo, entro num Museu onde vejo peças automóveis da Saab e da Volvo, que são os financiadores do projecto. Nós não temos a Saab ou a Volvo. Agora, para nós, a partir do momento em que o projecto seja concluído e entregue, e a partir do momento que sejam abertas as portas para ser financiável no quadro das referências estratégicas nacionais, nós próprios vamos procurar novos "sponsors" e novos parceiros e vamos procurá-los no enquadramento desta visão. Essa imagem que também trazemos de lá, é ainda mais forte do que a que vimos em Sheffield. Estamos a falar, por exemplo, do espaço deste gabinete, onde lá vi trabalharem 3 ou 4 jovens, a produzir jogos de vídeo espantosos...

Tudo isso são exemplos de estratégias associadas a linguagens experimentais, que ensaiam novas possibilidades para o mundo. Isso relativamente às novas tecnologias, mas é aí mesmo que se insere a lógica das artes de palco contemporâneas, nesse mundo que está virado para o futuro, que se está a questionar e a ser construído.

Também. A única coisa que posso não ter sido suficientemente esclarecedor, porque a partir de certa altura calço os meus sapatos de político, e permita-me que diga assim, "a partir de certa altura sei o que quero", mas que fique claro que para concretizar isso tenho de ir buscar gente que sabe. Não sou eu quem vai fazer. Neste caso concreto, eu gostava de ter referido com pormenor algo mais. Temos, por um lado, interesse nas "performances" clássicas, onde está o teatro. Por outro lado, vamos adicionar aquilo que para nós vai ser fulcral e que aqui se aplica a todos os níveis, por muito que nos custe ouvir isto, que é: o futuro em termos de emprego não está na massificação dos recursos humanos. Está na tecnologia e no conhecimento. E ela pode ser aplicada à ciência, pode ser aplicada à cultura e pode ser aplicada ao desporto. E é aí que quero que compreenda a nossa preocupação. Há dois grandes elementos que vamos consubstanciar brevemente: é criar aqui dois parques de ciência em Montemor. Um deles ligado à tal indústria que vem para cá, estamos a falar de uma nanotecnologia relativa aos materiais e à aplicação do hidrogénio ao ramo automóvel, que está neste momento a ser alvo de uma candidatura conjunta da Câmara, da Agni (empresa que vem da Universidade de Aveiro) e incluímos, por outro lado, a área ligada às energias renováveis.

Ou seja, criamos aqui um "cluster" científico mas, ao mesmo tempo, laboratorial. Apenas quisemos dizer o seguinte: temos aqui uma sustentabilidade do ponto de vista económico, do ponto de vista industrial, de uma indústria que não se enquadra no termo clássico, mas uma indústria moderna, compatível com o cenário ambiental que temos. Os promotores da Agni dizem que somos a Fuel Cells Village of Europe. Acrescentemos que isto necessita ser compatibilizado com as áreas como o desporto, a cultura e o ambiente. São estes que vão diferenciar, marcar a singularidade, porque o meu Castelo nunca irá para a praia da Figueira nem a praia da Figueira virá para o castelo de Montemor.

Cláudia Galhós