2.8.07

TERRITÓRIOS - Clarisse de Santa Rita

fotografia de Jesús Ubera

As causas históricas situam mas não explicam o presente. Porque é que Citemor tem hoje lugar em Montemor? O que é Montemor? Nesta secção abre-se uma janela para indagar e descobrir esta cidade sustentada em arrozais e que gravita até uma fortaleza.


Clarisse de Santa Rita
A bruxa de Montemor-o-Velho

Uma história de Montemor, por entre as andanças dos tempos antigos, das brincadeiras de criança, dos bailes, do teatro, do canto, da dor da perda, dos afectos, e das artes de ler a alma.

É ela quem diz, logo assim, de entrada, a sorrir, para início de conversa. «Sou a bruxa de Montemor». Ela conta entre risos. «Fui a única pessoa apresentada ao Presidente da República, quando era ainda o Jorge Sampaio, como bruxa. Ele veio aí um dia, estava com o Presidente da Câmara, o senhor doutor Luís Leal, e eu estava nas escadas do Tribunal com a esposa dele. Comentei com ela: ‘Estou mesmo a ver que o seu marido nem me vai apresentar’. E ela diz-me: ‘Ah, esteja calada que ele é capaz disso.’ E ele chega ao pé de mim e diz: ‘Senhor Presidente, apresento-lhe aqui a bruxa de Montemor.’ Sei é que, um pouco mais à frente, ele comenta: ‘Mas há cá disso?’»

Clarisse de Santa Rita fez 70 anos em Fevereiro passado. Vive numa das casas que ficam numa das subidas que se iniciam a partir da praça principal de Montemor-o-Velho. Vêem-se gatos a equilibrar-se, como bonecos de porcelana, nos cantos dos telhados por ali. A casa enche-se de objectos de minúcia, cortinados feitos em crochet, tapetes de arraiolos em ponto pequeno, quadros bordados à mão. Uma paciência imensa. A história, a sua história, que conta com humor e descontracção, não é propriamente feita de poções mágicas e panelas que cozinham feitiços. Há teatro pelo caminho, há canto, há uma vida de emigrante em França, há os desgostos da perda de quem se ama, há o regresso à terra. Mas antes de ainda de haver tudo isso, há uma história de família, que começa pelos pais e um Montemor-o-Velho perdido nas memórias de um tempo que já lá vai.

Comecemos pela mãe, Ema Morais, essa sim, uma bruxa famosa da vila, que mereceu até um documentário da RTP a si dedicado. E o pai, Alberto de Santa Rita, barqueiro. As memórias, essas são de Clarisse.«A minha mãe era cartomante, ela contava que ficou orfã muito criança e depois teve de se desenrascar sozinha. Aos 13 anos fez o primeiro parto e a partir daí era a parteira de Montemor e era uma pessoa extraordinária, não haja dúvida nenhuma! Maluquinha às vezes, é certo, porque cuidado!, quando as coisas não lhe corriam bem... A minha mãe era filha de pai incógnito. O meu pai era barqueiro, foi muitos anos barqueiro ali na ponte, na Ponte da Alagoa como lhe chamávamos. Não havia ponte, não havia nada, e aquilo era uma maravilha. Mas era muito complicado quando havia as cheias. O irmão do meu pai, o tio Dâmaso, andava sempre à disputa com ele a ver quem explorava aquele negócio, porque aquilo ia à câmara e aquele que fizesse mais barato é que ganhava. E depois tinham de arranjar a barcaça, tinham de concertar as bateiras...»

As bateiras, para a malta que não é da terra nem daqueles tempos, explica ela, são os barcos que faziam a travessia. «Havia a bateira grande e a bateira pequenita, a grande já levava sacos de erva, muita gente, e a bateira pequenina levava só as pessoas. Aquilo era duro, porque era à força, era à vara, no fundo... Aquilo levava dois carros de bois, levava animais à solta, e pessoas ... e eram dois homens só que faziam aquela coisa toda andar de um lado para o outro...»

Clarisse não sabe dizer bem como terá começado a mãe, nestas coisas da arte de ler o futuro. Em menina começou logo a fazer partos. Tem a vaga lembrança de que ela lhe terá dito que aprendeu de um padre. Diz que é um dom. «Não sei, estas coisas acho que é preciso ter um dom, acho que é mesmo assim. E havia qualquer coisa com a minha mãe. Aquilo que ela dizia era uma escritura.» Tinha várias actividades, era preciso ganhar a vida, mas a principal era de cartomante. «A minha mãe não levava dinheiro mas traziam umas batatas, outras vezes era feijão verde, e foi assim que ela começou... Mas andou também no arroz. Andou a trabalhar como outra pessoa qualquer.»

Nunca viu a mãe a deitar as cartas, falavam pouco do assunto. Não gostava. Diz: «Tinha algum receio porque aquilo que ela dizia, era fatal. Não falhava. Não falávamos muito. Muitas pessoas de Montemor não gostavam da minha mãe, muitas falavam para ela e tinham respeito porque tinham medo dela. Eu ri-me porque ainda hoje isso acontece comigo. Eu que não faço mal a ninguém, tenho horror disso, e as pessoas têm medo. Pensam: ‘Ah, porque é a bruxa’. A minha mãe era a bruxa. Nos tempos da minha mãe, chegavam aqui ao apeadeiro de Montemor, os revisores anunciavam: ‘Quem vai para a bruxa desce aqui!’ Tínhamos coisas assim. Nunca liguei nada a essas coisas... Eu brinco muito com isso...»

Naqueles tempos, Ema não era a única bruxa de Montemor. Havia mais duas, ambas se chamavam Teresa. Mas nada de guerras. Todas se davam bem. Cada uma recebia em sua casa e faziam-se os trabalhos. Ajudas simples, para auxiliar uma mãe mais ansiosa com uma filha com problemas ou um dono de um animal doente. «O que havia sempre era uma criança que não andava bem, era aguamento. A criança estava aguada...» Ela explica: «Aguada é uma criança que chega a um ponto em que pede tudo e não come nada e vê-se que aquela criança anda com as peles nas pernas muito... nota-se... Porquê? Vê-se que a criança quis qualquer coisa que não lhe deram. E então fica com o sentido naquelas coisas e depois quer tudo e não come nada. O tratamento é simples. É com uma piteira.» Ora cá estamos novamente. Para quem não sabe, segue-se a explicação do que é uma piteira: «Uma planta que dão os figos, que tem picos. Isso é muto fácil de fazer...» São estas algumas das ocasiões que saem um pouco ao destino das cartas. O que pensa Clarisse destes remédios? «Costumo dizer às pessoas, não custa nada. Traga isso, porque mal não faz. Porque rezas e água-benta nunca fizeram mal a ninguém.» Mas nem todas entram ali aflitas ou com boas intenções. Há de tudo. «Têm medo é as que vêm aqui e ali para fazerem mal. Mas eu sou muito franca, quem entra aqui na minha casa com ideia de fazer mal a alguém, ia pelo mesmo caminho porque eu, Deus me livre!... eu gosto de me deitar e ter a minha cabeça descansadinha na minha cabeceira sem estar preocupada com essas coisas. Mas há pessoas que querem que se faça mal, há sim senhora...!»

fotografia de Cláudia Galhós

Certezas da cura? Ninguém as tem. Nem ela. «Antigamente havia um animal que andava mal. Traziam um cabelo do animal, para preparar, para o animal se sentir melhor. Será que se sentia melhor, será que não se sentia? Eu sou daquelas pessoas que não acredito nem deixo de acreditar. Costuma dizer-se que quando o mal é dobrado até o diabo é culpado. Uma pessoa sente-se. Muita gente vem para eu preparar-lhe uma roupinha e dizendo-lhe umas rezas... as pessoas sentem-se melhor...»

Clarisse foi crescendo pelas ruas, nos tempos em que as crianças se entretinham a brincar ao ar livre. Lembra-se de em miúda ir jogar à bola e subir às árvores para apanhar amoras, na zona que hoje é ocupada pela feira. Lembra-se do areal que havia junto ao rio, onde as mulheres se juntavam para lavar a roupa e as crianças se entretinham, em redor, para apanhar peixinhos. Era ali que coavam água de um poço fundo que faziam na areia. Coar significava que iam filtrando a água, com um paninho, até ela ficar branquinha e depois a punham nos cântaros de barro, para a manter fresca. São os cântaros que lhe trazem a memória da brincadeira de Carnaval: a cantarinha. Era assim: «Quando se partia algo de um cântaro, por exemplo uma asa, guardávamos. Pelo Carnaval fazíamos uma roda de raparigas, e íamos atirando o cântaro de mão em mão, até cair e partir-se. Era uma brincadeira.»

Onde hoje o Citemor apresenta alguns espectáculos, nesse lugar encantado, mergulhado na ruína poética do tempo que se desmorona, carregado de rumores do passado, aberto a um tecto de estrelas, a Sala B, era, segundo Clarisse, o Celeiro dos Senhores Nunes. Ali, em Maio, em tempos da sua meninice, havia o Baile das Rosas. «As raparigas apanhavam rosas e enfeitavam a sala e depois havia, às vezes, uma armação em madeira com uma pomba lá dentro. Cada rapariga oferecia uma fita à organização e, quando o baile começava, punhamo-nos todas em volta dessa pomba tapada com papel, onde estavam as fitas, que puxávamos. A que trouxesse a pomba atrás, presa à fita, era a rainha do baile. Significava isso que havia uma música só para ela dançar com o rapaz que gostasse.» Já o rapaz, se queria dançar, tinha de fazer o convite com o casaco abotoado. Senão, não havia dança para ninguém. E as raparigas, se queriam escolher o par, esperavam pela valsa das damas.

Aos 6 anos, Clarisse estreou-se no teatro. Uma história que se cruza com a experiência da proximidade da morte. Menininha ainda, andou muito doente, «febres intestinais ou a tifoide». Ela e mais duas. As outras não sobreviveram. «Eu fiquei cá, por causa da qualidade não é?» - diz a rir. «Erva ruim não morre assim com duas lérias. Só que eu fiquei tão fraquinha que a primeira vez que fui à missa a minha mãe levou-me ao colo. O senhor Fernando Pessoa, que andava a ensaiar uma peça de teatro, um dia disse para a minha mãe, hás-de deixar a tua filha lá ir a casa. Então, já eu andava melhor. Não sabia ler e era muito criança e a filha dele, a Carmensinha, ensinou-me um monólogo muito engraçado, que eu disse no espectáculo e o teatro ia vindo abaixo com palmas. Lembro-me bem do fato que levava. E lembro-me do monólogo, nunca mais me esqueceu. Chamava-se "a morte".» Ironias do destino.

O monólogo, que tão bem se lembra, ia assim: «A morte é negra, horrenda, feia e falsa. A ela ninguém escapa, nem o rei, nem o bispo e nem até o próprio papa. Mas hei-de eu escapar a ela, gastando somente um vitém. Vou ao mercado, compro uma panela, meto-me dentro dela, tapo-a muito bem e a morte ao passar dirá: huuumm!, batatas, aqui não mora ninguém.» Ela recita de cor, como se fosse hoje outra vez criança. Quando termina, faz o comentário. «Para uma pessoa que estava a morrer,... imagine! Ainda mais uma criança. Lembro-me tão bem, o vestido de organdi cor-de-rosa, e o grande laço na cabeça. Aaiihhh, tristes figuras.» Sempre a sorrir.

Foram essas tristes figuras – o que, na brincadeira significa uma descontracção e um prazer de viver –, a par com uma voz que recorda como poderosa, arruinada com muito fumo de cigarro, que a levou às cantigas. Foi vocalista do Orfeão de Montemor, andou na Figueira da Foz no Rancho das Cantarinhas de Buarcos, onde cantava e dançava e com o qual chegou a ir à Holanda. Foi descoberta pelo maestro da Orquestra Sinfónica de Lisboa, da Emissora Nacional, numa breve passagem por Montemor, que impressionado pela potência da voz de Clarisse, lhe deixou um cartão e um convite para ir até à capital, «para ter uma carreira artística». Mas Clarisse não foi de modas. «Nunca liguei àquilo. O meu marido dizia: ‘Tu é que sabes’. E eu: ‘Pois, vou para Lisboa. E depois o quê? Eu sou a artista e tu? O marido da artista? Não vou e não vou mesmo...’» E não foi. Tinha 25 anos. Tempos depois interrompia as cantorias nas orquestras e nos ranchos para emigrar para França.

Andou por lá 26 anos. Quando regressou, entrávamos na década de 90. Não pensou nestas coisas da cartomância. Resistiu. Não queria. Desde miúda que teimava com a mãe, que lhe dizia, «quando morrer, ficas a trabalhar no meu lugar» e ela respondia-lhe: «Nem morta. Eu ser a bruxa de Montemor, nem morta». A mãe ria-se e dizia, «vais ver». Mas a vida dá muitas voltas. «Entretanto, separo-me do meu marido, acabei por vir para cá e as coisas estavam um bocado complicadas para o meu lado. Havia uma senhora que tinha trabalhado na casa da minha mãe que dizia, ‘ah!, menina Clarisse, vêm as pessoas à procura da sua mãe e a sua mãe dizia que a menina ficava no lugar dela e a menina não fica...’» E ela teimava. «Não quero, não quero.» Até um dia... «Não sei se foi verdade ou se sonhei... Estava eu muito bem e pareceu-me que vi a Olindita, que era a senhora que trabalhava na casa da minha mãe. E eu não me esqueço. De manhã, levanto-me para ir ao mercado, buscar grelos e nabos, e encontro a Olindita. E lembro-me do que se tinha passado de noite. Eu pensei, ‘tem graça, estou a ver a Olindita como a vi no meu sonho’. E ela começa a dizer as mesmas palavras que escutei. ‘Ainda ontem lá foram umas pessoas ter, querem...’ Olhe, eu olhei para ela e disse: ‘Tem razão, vou começar a trabalhar! E foi a partir daí que comecei.»

Se é a bruxa de Montemor, agora já está reformada, mas desde que começou que faz questão de dizer o que vê nas cartas, mesmo que não agrade a quem pergunta. «Eu leio o que ponho nas cartas e nem sempre as pessoas gostam de mim porque nem sempre leio o que as pessoas querem. Eu começo a dizer, ‘ah meu Deus do céu, meu Deus do cáu!’, mas não posso estar a encobrir certas coisas. Há muita gente que não gosta de mim, porque eu sou muito directa».

Quem chega à porta, o que lê é: parapsicóloga. Apesar de hoje, apenas receber amigos, por já ter encerrado actividade, foi assim que chegou a estar colectada nas finanças. E explica porquê. «Quando me fui inscrever nas finanças, fui ter com um senhor a pedir para ser colectada, e a perguntar-lhe: como faço? Ele disse-me, ‘tem várias possibilidades, tem cartomante, tem ...’ Eu não queria cartomante. Disse-lhe: ‘As senhoras que vêm aqui e os maridos não sabem, se vêem um cartão meu a dizer cartomante, dizem logo ‘foste à bruxa’. Ele, às tantas, fala-me em parapsicóloga. E eu disse: ‘pode ser’. Porque a maior parte dos maridos nem sequer sabem o que isso é... »

O baralho de cartas com que sempre trabalhou é normal, pequenino, está velho, gasto. Não o usa por inteiro, diz que tirou as que a mãe já não usava, porque apenas precisa de umas quantas. «Não precisamos de todas as cartas, acabávamos por encher a mesa. As figuras ficam todas, que são importantes. E depois sobre as figuras e as cartas que estão ao lado é que vão surgindo as outras, há a carta da morte, a carta do dinheiro, a da doença, a da saúde, que depois nós lemos... Há o tarot, mas nunca fiz, não sei o que é. Mas acho muita graça porque há pessoas que dizem vão aprender! Isto não se aprende.»

Há várias histórias dentro da história da vida desta mulher. Uma delas é a relação de amizade com o festival Citemor, originado muito pelo interesse que sempre teve pelas artes. Passou a acompanhar desde que regressou à vila, na década de 90. Só nos últimos anos anda mais arredia a essas andanças, desde que lhe morreu a filha. Porque há dores que não passam. Antes do Festival alugar quartos ou casas para os artistas habitarem durante os períodos de residência artística do Citemor, Clarisse foi a primeira a oferecer-se para lhes disponibilizar quartos, e tudo o mais que eles precisassem. Lembra-se do Teatro da Garagem, de espectáculos no Castelo, e em particular dessa apresentação, diz ela, que deu muito falatório, em que uma artista aparecia nua, «na Igreja que não tem telhado», segundo se lembra. Armando Valente recorda o espectáculo. O ‘work in progress’ de «Puro Sangue» de Lúcia Sigalho, obra marcante no início das relações de proximidade entre a artista e o festival. Clarisse é que nunca esquecerá. «Aparecia aquela senhora completamene nua, numa banheira. Esse espectáculo para mim foi extraordinário, pediam para não tirar fotografias, aquilo chocou algumas pessoas, mas a moça era extraordinária.»

Cláudia Galhós